Ainda não eram quatro da tarde e Isabel já estava empolgada. Aquele era o último dia de aula e ela sempre terminava os relatórios dos alunos com antecedência — ajudava ter alguém imortal que não precisava dormir para revisar e passar a limpo — depois o que faltava era bem pouco. Algumas reuniões aqui e ali, com pais e professores e mais uma vez ela tinha um sorriso no rosto pois nenhum responsável por seus alunos gostaria de conversar. A verdade é que muitos não davam importância às aulas de educação física, com exceção de um ou outro cujos filhos praticavam esportes. Com o tempo ela havia parado de se importar e só deixava seus relatórios bastante completos.
Decidiu que a última aula do ano seria um animado jogo de queimada dividido em dois turnos e ela participou do time de colete no primeiro e no time de camisa no segundo. Apesar dos pais não lhe darem tanta atenção, os alunos amavam a professora Isabel, a única que participava em todas as aulas e era sempre empolgada, não importava o horário. Algumas semanas, parecia mais empolgadas que em outras e esta era uma delas. A primeira noite de lua cheia se aproximava e ela tinha um sorriso enorme no rosto por ter convencido Hazel a conhecer sua família. O sinal tocou junto com seu apito e os alunos não precisaram de outro aviso para saber que as férias haviam começado. Isabel ficou para trás enquanto a pequena multidão corria para a saída e terminou de arrumar a quadra em menos de dez minutos.
Correu para a sala dos professores, se despediu dos colegas de trabalho e voou para o estacionamento. Já havia avisado que não participaria dos ensaios naquela semana por motivo de força maior e na vaga que era reservada para ela, havia uma caminhonete alugada. Isabel queria correr para casa, mas sabia que Hazel já tinha tudo preparado — elas conferiram tudo no dia anterior — e não tinham tanto tempo assim. A vampira não sabia dirigir e nenhuma delas queria explicar porque havia um caixão na traseira da caminhonete, apesar dele estar dentro de uma caixa mais discreta. Ela colocou a chave na ignição e foi em direção à casa. De lá até a fazenda de Ícaro não levava mais que uma hora, porém já eram praticamente cinco da tarde e a loba não sabia dirigir.
A vampira pôde ouvir a buzina da esquina, mas o sol ainda estava no céu, então não havia muito a ser feito. Tinha Llira em sua caixa de transporte, e as malas esperavam na sala junto a uma pequena caixa de isopor com duas bolsas de sangue, mais que o suficiente para deixá-la satisfeita por uma semana. Hazel não queria ir. Não se importava em conhecer a mãe e avó de Isabel, elas eram humanas normais, pessoas simples cujo único motivo de estarem envolvidas com o sobrenatural era Isabel. Contudo, Ícaro era um lobisomem e a vampira assumia que ele era forte, dado o porte de sua namorada. Sem dizer que ela ouvira as histórias, vivera algumas. O lobo poderia estar velho e calmo, mas fora bastante terrível em sua época.
Quase não teve tempo de correr para a cozinha quando Isabel abriu a porta da sala com força, gritou seu nome e começou a colocar as coisas no porta-malas. Colocou a caixinha de Llira no banco da frente e perguntou se Hazel estava pronta. Com um grunhido incomodado, ela respondeu que só faltava fechar o caixão. Isabel fechou a porta da sala, foi até a cozinha e lhe deu um beijo na boca.
— Você é a pessoa mais perfeita da galáxia e eu te amo. Eu vou correr na estrada para chegarmos antes da lua, assim eu consigo pelo menos colocar você dentro de casa.
— Qualquer coisa eu saio sozinha, não é como se o caixão estivesse fechado com pregos. Que eu também conseguiria tirar, mas danificaria a madeira. — Hazel deu de ombros.
— Até daqui a pouco?
— Até.
Isabel fechou o caixão — já dentro da caixa mais discreta que, ela percebeu, tinha terra e a pequena caixa ornamentada de Hazel — e puxou-o para dentro da traseira da caminhonete. Uma das senhoras, ela não sabia dizer qual, se aproximou e parecia querer conversar. Em dias normais, a mulher não se importaria, mas aquele não era um dia normal.
CZYTASZ
Jornada
RomansA vida é uma jornada, uma estrada cheia de altos e baixos. Algumas são mais longas, outras mais curtas e nem sempre sabemos qual é o melhor caminho a tomar. Contudo, é bom ter alguém ao seu lado, é bom caminhar ao lado daqueles que amamos, mesmo que...
