Era uma vez uma colina bem distante onde sempre nevava. Nela havia um castelo feito de gelo. Esse castelo era a casa de uma princesa que também era de gelo — e, mesmo sendo feita de gelo, ela sempre sentia frio. Sonhava e desejava sentir-se aquecida, porém qualquer fonte de calor a derretia. Ela vivia solitária em seu castelo, pois as pessoas que a visitavam não suportavam o frio.
Em um dia comum, algo inusitado aconteceu. Certo viajante, cansado da longa caminhada, pediu abrigo no castelo para continuar sua trajetória. Em troca, a princesa lhe fez apenas um pedido:
— Ó viajante, te oferecerei todo o conforto e garanto que não passarás fome. Em troca, peço que me aqueças, pois sinto muito frio.
O viajante aceitou o acordo. A princesa cumpriu o prometido e o serviu com frutas e os sorvetes mais deliciosos. No dia seguinte, ao se arrumar para partir, ele pagou sua dívida com a princesa dando-lhe um abraço para aquecê-la. Com o gesto do viajante, suas bochechas coraram, borboletas começaram a bailar em sua barriga e sua temperatura aumentou.
Porém, como tinha um corpo frágil, um de seus finos braços derreteu e se transformou em água no chão. Assustado, o viajante saiu apressado do castelo, sem olhar para trás.
Deprimida, a princesa voltou a sentir frio, agora com saudade dos poucos segundos em que se sentiu aquecida pela primeira vez. O calor humano e o acolhimento do abraço ocuparam por um momento o seu coração vazio.
Dias depois, um comerciante chegou ao castelo com suas especiarias e pediu abrigo. Em troca, ofereceu parte de sua mercadoria. Porém, a princesa lhe fez a mesma proposta:
— Ó comerciante, te ofereço todo o conforto e garanto que não passarás fome. Em troca, peço que me aqueças, pois sinto frio.
O comerciante aceitou a proposta, e a princesa cumpriu sua parte com comida e uma cama para descansar. Ao ir embora, o comerciante pagou sua dívida com um beijo no rosto.
O coração da princesa palpitou rápido, as borboletas voltaram ao seu estômago e seu rosto ficou quente. Seu corpo frágil não suportou a emoção e ela perdeu o outro braço, que derreteu como o primeiro. Assustado, o comerciante saiu às pressas do castelo.
Cabisbaixa, a princesa voltou a sentir frio — agora também sentindo falta de seus braços, que mesmo não a aquecendo, faziam-na se sentir acolhida.
O próximo visitante foi um cavalheiro, orgulhoso em sua armadura de ferro, montado em um cavalo branco. Pediu abrigo por estar cansado de sua trajetória. A princesa fez a mesma proposta:
— Ó cavalheiro, te ofereço todo o conforto e garanto que não passarás fome. Em troca, peço que me aqueças, pois sinto frio.
Desacreditado do humilde pedido, o cavalheiro aceitou com facilidade. No dia seguinte, antes de voltar à sua jornada, ele resolveu pagar a dívida. Pegou três moedas de ouro e as entregou, dizendo:
— Compre um cobertor de lã que te aquecerá e não sentirás mais frio.
E então partiu.
A princesa chorou pela primeira vez. Gritou para aliviar a angústia. Abalada, deixou o castelo e desceu correndo a colina.
Ao final dela encontrou um campo de flores. Enquanto caminhava, as nuvens se abriram e os raios de sol a tocaram pela primeira vez.
Com o calor do sol, a princesa não sentiu mais frio. Seu corpo de gelo começou a se transformar em água. Ela gargalhou uma risada sincera pela primeira vez. Com um sorriso aberto, olhou para o céu e disse suas últimas palavras:
— Ó sol… meu erro foi procurar em pessoas aquilo que só você podia me dar.
E assim, desmanchou-se até se tornar apenas uma poça de água.
