O que se sabe bem

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  Algumas coisas não precisam ser ensinadas para serem entendidas.

  Da escola para casa. Da porta de casa direto para o banho. A adolescência tem seus desafios. Entre eles, se ajustar a um novo corpo é um dos grandes. O alívio de Luan era poder tirar as roupas largas que ele usava para preencher a vergonha do corpo frágil. Desarmônico ao que sua mãe dizia. Você é forte. Você já é um homem. Aprume o corpo. Nada disso havia feito alguma diferença até agora.

  O pé mole do menino alcança a água fria e refrescante. A água gelada pode ser assustadora no início; no entanto, depois que você se acostuma, ela fica boa. Aceitável - como tudo na vida.

Os pensamentos, que ele não pode controlar, dançam em volta da vergonha ao se lembrar da leitura em voz alta na aula de português. A tentativa falha em impressionar Miranda. Ah! Miranda. Os cachinhos enrolados na leitura em todos os momentos que sobravam entre as aulas. Talvez se ela o visse lendo, reparasse ao menos um pouco. E reparou.

- Graças àquele filho da... - Ele hesita e termina frustrado por não conseguir dizer. - Mãe.

 O risinho da menina olhando-o por cima dos ombros era quase de pena, depois de um diabo da sala ter puxado as gargalhadas comparando sua voz a de Marvin, o marciano do Looney Tunes. As telas dos celulares acenderam rapidamente à procura de quem era o personagem. Ele mesmo não sabia. Pesquisou dentro de um banheiro durante o intervalo. Foi assim que voltou para casa com um novo nome.

- Está na hora de desligar! - A mãe avisa o que o menino nunca se dava conta sozinho.

- Já desliguei.

O rosto de Miranda não sai de sua mente. Dane-se se o resto da escola acha o que acha. Amanhã tomará coragem para falar com ela. A coragem que não costuma ser seu forte. Pelo menos, é só amanhã. O que é bom. Cada dia com seu próprio mal. E hoje ele pode apenas imaginar a singeleza da menina lendo ao seu lado enquanto joga um jogo online. Que tal dizer aos colegas virtuais que tem uma namorada? A sugestão surge em sua mente como se fosse de outra pessoa. Ótima ideia!

Vestindo a roupa ainda meio molhado, o menino, ansioso para falar sobre sua namorada Miranda que está lendo ao seu lado enquanto ele joga, vê um pontinho verde muito brilhante. Se não estivesse olhando para o chão, com certeza, teria pisado. Sorte estar olhando, não seria bom pisar em... Que bicho era esse mesmo?

Agachado para olhá-lo bem de perto, grita:

- Mãaaaaee!

- O que foi, Luan? - Com afobação, a mulher gira a maçaneta da porta trancada. - Abra a porta.

- Tem um bicho aqui.

- Ah, é só uma maria fedida. - ela diz com o rosto dentro e corpo fora do banheiro.

- Uma o que?

- Maria fedida. Fede-fede. Percevejo-fedido. Cada um dá um nome... - Ela explica. - Não mate aqui dentro. Ela solta um cheiro ruim.

- Matar? Por que matar?

- Deixa de graça menino! Vai deixar inseto dentro de casa? - A cara da mãe era a expressão clara do quanto ele era bobo.

Antes tivesse pisado. Dessa maneira seria sem querer. Matar um bichinho tão inofensivo e frágil como aquele, por espontânea vontade, seria maldade. Ainda mais um com uma cor tão bonita, amaldiçoado com nomes tão feios.

- Deixa que eu mato, então. - O peito se estufa como se fizesse diferença.

- Está crescendo e ficando corajoso - a mãe sorri. - Você nunca gostou de matar bichos.

O que se sabe bemWhere stories live. Discover now