Benji não sabe se comportar.

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Benjamin Lione era um garoto temperamental. Ele sempre deu problema para os seus pais. Levava advertências, bilhetes dos professores na agenda escolar e seu último joguinho em sala de aula o levou a expulsão. Seus pais, um casal religioso que não sabia o que fazer com o pequeno monstro que haviam criado, decidiram o matricular em uma escola cristã apenas para garotos. Escutaram tantos elogios do colégio, conversaram com ex-alunos e descobriram o quanto mudaram seus comportamentos graças aos padres e freiras que os ensinavam.

Benjamin não tinha escolha, tinha apenas quinze anos e metade deles com reclamações de pais, professores e diretores. Quando chegou à escola nova, com seus pais o agarrando pelos ombros temendo que o garoto fugisse, ele percebeu que não tinha saída, e que aquela seria sua nova escola.

A escola tinha dois andares e sua estrutura era antiga. Freiras andavam pelos corredores com alunos enquanto o diretor mostrava o local à Benjamin e sua família. Ele reparou nas imagens coloridas em mosaico de santas na janela, o lembravam de uma igreja. O chão de madeira fazia os seus passos ecoarem por todas as paredes.

Benjamin foi deixado lá naquele dia e seus pais só o veriam no final de semana. Seu colega de quarto era um garoto tímido, que mal olhava para Benjamin.

A primeira semana do garoto não foi fácil. Não estava acostumado em estar perto de tantos meninos, de ter de dividir o banheiro com seu colega e acordar cedo. Em casa, quando seus pais estavam de bom humor, eles o deixavam dormir depois das dez da noite, mas na escola o toque de recolher era às oito e cinquenta. Não era permitido nenhum aluno fora dos seus dormitórios após esse horário.

As mudanças começaram já no primeiro fim de semana com seus pais, que se orgulharam quando ele tirou seu prato da mesa após terminar o almoço. E quando perceberam que ele não parecia tão irritado com o mundo, consideraram que aquela escola estava lhe fazendo bem.

Benjamin não mudou da noite para o dia. E nem em uma semana.

Ele só percebeu que, se fizessem o que lhe era esperado, ele poderia sair daquela escola, que ele já não aguentava mais. Não aguentava os professores, que em sua maioria tratavam mal os alunos. Não gostava do seu colega de quarto, que mexia em suas coisas quando Benjamin não estava no quarto. Detestava os barulhos que ecoavam ou a sensação de ter alguém sempre o observando.

Então ele faria de tudo para escapar daquela forma de prisão que haviam lhe colocado.

No pátio, onde os jogos e as aulas de educação física costumavam ocorrer, Benjamin aproveitava seu almoço. Ele era um garoto solitário, sempre gostou daquilo, mas quando percebeu um garoto se aproximando, ele suspirou de alívio. Finalmente alguém com quem conversar.

— Posso sentar aqui? — Benjamin reparou que o garoto era um pouco mais alto que ele quando sentou-se ao seu lado nos bancos de concreto. Seu sorriso era tímido e embora ele não tenha dito nada, não se importou com a sua aproximação. — Você é o Benjamin, né? — ele assentiu — O novato.

Era uma afirmação, por isso Benjamin não disse nada.

— Eu entrei ano passado, mas até hoje não me acostumei com nada.

Benjamin perdeu o apetite com a afirmação do garoto. Se ele não havia se acostumado, o que restava para Benjamin?

— Porque? — ele perguntou, enquanto largava seu suco de mamão em cima da bandeja.

— Acho que é porque sinto falta da minha casa. Eu tinha muitos amigos lá, e aqui não tenho nenhum.

Benjamin assentiu novamente, sem saber o que responder ao garoto. Benjamin nunca teve amigos, não costumavam gostar do seu jeito e por isso ele tentou não ser indelicado ou invasivo enquanto o garoto lhe contava sobre sua vida na escola.

— Você quer ser meu amigo? — o garoto perguntou, pausando sua história sobre a primeira confissão dele na escola. — Meu nome é Luiz.

— Muito prazer, Luiz — Benjamin ergueu a mão e o cumprimentou. O aperto de Luiz era fraco, seus dedos eram longos e magros dentro da mão rechonchuda de Benjamin. — Ficaria feliz em ser seu amigo.

Benjamin não mentiu. Embora achasse que amizade era perda de tempo, ele foi entregue ao olhar tímido de Luiz. Esqueceu qualquer possibilidade em passar despercebido na escola ou voltar para onde estudava.

De repente ter um amigo era tudo que Benjamin queria naquela escola e os dois se tornaram inseparáveis depois daquele almoço. Passavam todo o tempo livre juntos, conversando sobre os jogos de video game e inventando novos jogos durante as aulas.

Quando Benjamin voltava para a casa nos fins de semana, contava sobre Luiz e o que faziam de tão legal na escola. Seus pais estavam admirados e aliviados em saber que seu filho não tinha nenhum problema social, ele só precisava de um amigo.

Mas à noite, Benjamin não pensava em Luiz como um amigo novo. Um amigo que ele sempre quis. Ele pensava em Luiz como alguém que aflorou sentimentos românticos de dentro do coração de Benjamin, que nunca soube ser capaz de sentir algo por outra pessoa. Ainda mais um garoto.

Porém Benjamin não tinha coragem de falar sobre isso e sempre que se abraçavam ele tentava levar aquilo de uma forma indiferente, afinal, eram dois amigos se abraçando. E ele não sabe de onde surgiu a coragem de sair do quarto, após o toque de recolher, e ir até o quarto de Luiz. Ele passou uma folha escrita "me encontre no corredor em frente ao banheiro social" e bateu na porta, uma batida fraca para acordar apenas o Luiz.

E Benjamin seguiu para o corredor escuro, esperando Luiz ver o bilhete e o encontrar. Ele estava sentado no chão, escondido nas sombras, quando seu amigo apareceu. Usava pijama e carregava o papel em uma das mãos. Seu olhar era confuso enquanto olhava Benjamin.

— Desculpa ter te acordado — Benjamin levantou-se do chão e se aproximou de Luiz, que não se moveu, apenas esperando. Luiz estava pronto para lhe dizer que não havia problema e queria perguntar o porquê de Benjamin estar ali, mas não deu tempo para raciocinar direito e tirar as palavras da boca quando sentiu a mão quente de Benjamin tocando sua mão livre. — Eu não consegui dormir pensando em você.

Benjamin podia escutar seu coração. Acelerado. Medroso. Ele queria dizer tanta coisa, mas Luiz parecia ter compreendido tudo. E quando Luiz estava pronto para dizer algo e apertou a mão de Benjamin, escutaram os passos de alguém se aproximando. Eles ficaram quietos, escondidos na penumbra, usando a escuridão como proteção. Os passos continuaram, seguindo adiante, a pessoa sequer os viu.

Benjamin soltou um suspiro, aliviado. Luiz estava a centímetros de distância, ainda tentando assimilar o que estava acontecendo.

— Estava pensando o que? — Luiz resolveu perguntar. Curiosidade e nervosismo circulavam o ar gélido da escola de estrutura antiga.

— Em você.

Benjamin não fez nada, sua resposta foi o suficiente. Luiz apertou sua mão com firmeza, mas nada foi dito. Ele sentia uma calmaria perpassando seu corpo, algo que nunca vivenciou antes. Seu coração, embora acelerado com a aproximação de Luiz, estava sereno. Seus pensamentos adormecidos e a inquietação já não estava presente, era apenas os dois no escuro e uma descoberta. Todo aquele tempo ele só precisava de alguém para amar para seu corpo aquietar.

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