{1} - I am so blue all the time

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Louis · presente

Uma das poucas coisas que sinto falta da minha infância é o ato de sonhar.

Quando somos pequenos o futuro parece demasiadamente distante das nossas mãos. Em minha animação, e ansiedade, eu não conseguia parar de criar planos. Todo mês eu pensava em uma profissão diferente que poderia seguir, uma aventura diferente que eu não poderia deixar de viver. Naquela época, mal sabia eu que planos são uma mera forma de se organizar, em sua maioria, acabam sendo um tiro pela culatra. Às vezes, acontece de acabar melhor do que esperado. Raramente.

Sinto falta da inocência, também, o mundo pelos olhos de uma criança é mais simples, sem toda a maldade que a nossa consciência vê, mais mágico. A perda disso deixa um grande vazio.

E absolutamente, sinto falta de como era a vida antes de conhecê-lo. Não que haja arrependimentos em meu coração, ele foi a melhor coisa que já me aconteceu, mas as vezes não sei se alguns anos no paraíso vale pelo resto de uma vida em dor. Eu tenho 41 anos, e sei que nunca serei feliz novamente, não daquela forma.

Estou deitado em minha cama agora, há esse cigarro apagado entre meus dedos, embora tem esse frio congelante de dezembro, não estou usando nada além de box e meias coloridas. A minha mente continua me levando para memórias do passado, como costuma ser a maior parte do tempo. Constantemente sinto que me tornei apenas um pedaço antiquado de um passado distante, algo que é feito de memórias. É como se tudo o que me faz continuar, é a lembrança de que algum dia eu já fui feliz.

Estou tendo mais tempo livre desde que me mudei, a vida aqui é mais calma do que viver em grandes metrópoles. Ainda escrevo bastante, mas honestamente não sei como há pessoas que ainda querem ler o que tenho a dizer. Nunca gostei muito das coisas que vem de mim, das histórias que crio, dos personagens que trago a vida; Parece defeituoso, quase vazio, como uma extensão minha. Mas estou velho demais para encontrar outra coisa que seja equivalente ao que a escrita é para mim, então eu continuo.

Na semana passada, fui visitar a Taylor em sua nova casa, é quase uma hora de distância. Ainda é difícil assimilar que aquela cheerleader que conheci aos 15, que foi a minha primeira namorada, e depois a minha primeira melhor amiga, se tornou essa mulher. Ela é uma pessoa tão centrada, e aquele brilho no seu olhar não se apagou com o passar do tempo. O ruim de visitá-la, é que ela faz o passado parecer mais distante, que os erros e acontecimentos do passado são realmente irreversíveis, e todas as vezes sinto que os seus gatinhos vão me matar. O lado bom de vê-la, é que eu sempre volto para casa me sentindo mais leve, com aquela sensação gratificante de passar algum tempo ao lado de uma pessoa que você ama. Ela faz os melhores cookies, também.

Faz anos que Taylor não o traz à conversa, como se ele nunca tivesse existido. Sei que esse foi um pedido meu, mas quase desejo que ela o faça. Quase desejo dizer que ele ainda está aqui, que nunca parei de vê-lo.

Uma pessoa que está sempre exigindo uma visita é Niall, ele diz sentir falta das nossas conversas. Faz mais de uma década desde que passamos um tempo adequado juntos. Tem aquela vez que ele tentou me beijar, ainda lembro da sua voz sussurrando que nós dois precisávamos desse conforto,  seria uma forma de aliviar a dor. Então, acho que estou no meu direito de ainda manter uma certa distância. Niall forçou isso apenas dois dias após a partida dele, porra.

Ao finalizar meu cigarro, penso em tirar um cochilo até o jantar. Julie disse que ia trazer pizza de brócolis e cervejas, a ideia de ter a sua companhia me deixa menos melancólico. Enrolei o cobertor em meu corpo, e ainda sentindo o seu olhar em mim, pego em um sono leve e sem sonhos.

~ x ~

Quando desperto, horas mais tarde, o dia já se tornou noite do lado de fora, uma chuva forte cai contra o telhado. A primeira coisa que escuto, é a voz de Julie me chamando no andar de baixo. E a primeira coisa que vejo, no quarto quase completamente escuro, é aquele olhar verde bem próximo a mim. Fecho os olhos novamente, levanto da cama tateando os móveis para não cair, e sem olhar para aquela direção novamente, eu me visto. Já faz anos, eu deveria ter me acostumado, mas como eu poderia? Ele não está mais aqui, e tenho quase certeza que a sua imagem é projetada pela minha mente, por causa da dor, da saudade. Ainda assim, não deixa de ser assustador pra caralho quando o vejo, quando o sinto assim tão próximo.

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