( Este conto possui uma já trilha sonora especial, conheça - a no link a seguir :
encurtador.com.br/kBKQ1 )
Deveria ser apenas mais um elemento da composição ruidosa daquele terminal, mas a angústia que me agredia transformou a voz desconhecida que saía dos alto-falantes em um instrumento de laceração. Assim, pela segunda vez meu nome foi chamado nos informes do aeroporto.
Um dia antes do embarque eu era a própria convicção. Afirmava com certeza que não teria dificuldade em me despedir das pessoas, já que deixar o Brasil e morar no exterior era um sonho que eu nutria desde a minha infância. No dia do vôo porém, eu compreendi o disparate da minha prepotência. Tonta de um sofrimento absurdo, senti dores em partes do corpo que não sabia que poderiam doer. Era como se uma força estranha me esmagasse de dentro para fora.
Jen, como sempre amorosa, me acariciava o rosto ternamente e tentava me dar a força necessária para que eu seguisse com os meus objetivos. Ainda assim tudo era muito difícil. Eu estava caminhando para um espaço inteiramente estéril e silencioso. Sem mãe, sem amigos e sem amor. Cega em uma imensidão de futuro sem as minhas bengalas.
Roçava em meus pensamentos uma textura de sofrimento, e ela tinha o toque fino e esfoliante de poeira acumulada sobre lembranças bonitas. Eu não sabia o quão covarde esse tipo de sujeira poderia se tornar ao encobrir as formas e transformá-las em fragmentos de passados distantes.
É desgraçada a emoção de quem precisa deixar o seu bem querer. Devido a isso, nesse momento, me tornava apenas uma coisa alquebrada, invadida, desrespeitada, coagida... sem sequer poder culpar outra pessoa pela minha dor, pois eu era a única responsável por aquelas aflições.
Não almejo ser ingrata com essas palavras, estava a beira da conquista de um sonho, mas o incômodo em meu peito era tremendo, por isso as escrevo.
Havíamos nos afastado a poucos segundos, mas que bizarro tinha se tornado caminhar só. Isso não deveria ser assim! Eu não deveria ter que soltar a mão da mulher da minha vida para ter que agarrar a mão da mulher que eu anseio me tornar um dia. Era como se, sem o enlace dos seus dedos, eu estivesse vivendo uma caminhada no cadafalso; Ou como se uma cratera mórbida e assombrosa desse sinais da sua lunar existência, minguando ainda mais minha vontade de desbravar o novo. Então eu saltei... feito astronauta eu saltei aquela distância sem sentir os pés no chão, voando de volta para o braços dela. Trouxe-a para perto novamente e, feito baú protegendo um grandioso tesouro, ela me trancou dentro do seu abraço, me selando com a sua presença protetora.
Jen, um pouco menor que eu, afundou o lindo nariz em meu pescoço, absorvendo o cheiro do meu corpo. Perfume misto de saudade, insegurança, prazer e medo do fim. Inalou e encheu os pulmões como se enfrascasse a fragrância. Por minha vez acobertei a sua cabeça com a mão direita e sentia as ondas dos seus cabelos marrons sendo amassadas pelo peso da minha palma alongada. Era tão bom que poderia dormir ali, com o toque sublime da juba encrespada na pele da minha bochecha.
O choro estava comprimindo meus lábios. Nada estava sendo suficiente para interromper os finos cordões de água morna que pendiam dos olhos da Jen e dos meus.
Não haveria lugar para onde ir sem que aquela mulher estivesse presente em pensamentos, ou nos momentos de embriaguez, ou nos meus dias de canções embaixo do chuveiro. Afinal foi nela que me senti em casa e foi com ela que pude me banhar, primeiro, num amor quente e adoçado de inocência.
Por tudo isso, parecia mais que certo ceder à vontade calmante de desistir da minha viagem.
Seria incorreto partir sem estar confiante em mim. Eu iria cuidar de uma menina no Reino Unido e não podia exercer essa atividade triste ou sem a devida tranquilidade psicológica necessária, caso o contrário acabaria me tornando um mau exemplo para a criança .
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Terminal
Short StoryAs vezes para viver um sonho precisamos sofrer mais do que poderia ser imaginável
