Capítulo 1

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Para Cecília Vlasak, o final do expediente na lanchonete que trabalhava poderia ser comparado a um show da banda The Runaways. Em seus ouvidos, os fones vibravam com as batidas violentas e ao mesmo tempo dramáticas de Cherry Bomb. Ela achava a música divertida o suficiente para se dublar aos sussurros enquanto fingia que o cabo do
mop de limpeza azul calcinha era seu microfone. Na realidade, ela deveria estar limpando o chão grudento do Jozi's, mas estava se limitando a passar o mop no mesmo lugar já fazia cinco minutos. 
Agora o mop era uma guitarra e Cecília tinha em sua face uma expressão forçada de astro do rock que teve que ser interrompida por um arrancar violento dos fones de suas orelhas. Atordoada, a garota inclinou a cabeça, notando finalmente a colega ao seu lado, com seus fones em mãos.
— Deus do céu! Estou tentando chamar você já faz um tempão, Lia! — Carla exclamou.
A colega de trabalho de Cecília era um ano mais velha que ela. Tinha longas e magras pernas, pele branca como papel, seus cabelos eram curtos e pretos. Entretanto, o que Cecília mais reparava era no nariz de Carla. Era grande e largo em comparação ao resto do rosto, mas, de uma maneira inusitada, para Cecília o nariz era a marca registrada de sua colega, a deixava ainda mais bonita. 
Dando um sorriso sapeca, Cecília fez uma voz meiga o suficiente ao dizer:
— Desculpa, amiga. — Recostou o mop na parede. — O que foi?
— Queria saber se..— ela deu uma pausa dramática, sondando para dentro da cozinha, a fim de confirmar que não havia ninguém escutando. — Se você me cobre amanhã a tarde se eu terminar a limpeza pra você agora.
Cecília deu um sorriso malicioso.
— A monstra vai reclamar. Você é a favorita dela, pois nunca quebrou um copo, esqueceu? — referiu-se a Jozyanne, a dona da lanchonete.
— Ela vai ter que superar. — Cruzou os braços sobre os peitos. — Prometi pro Gustavo que sairia com ele e a filha dele amanhã durante a tarde.
— Você ainda está com o dentista de quarentena anos? Pensei que tivesse dito que isto não ia pra frente, Carla. E outra... Ele tem que entender que você não está sempre a disposição, principalmente em dia de semana. — Foi a vez de Cecília cruzar os braços.
— Eu sei, Lia. — Revirou os olhos azuis. — Mas decidi dar uma chance. Ele parece ser legal e quer que eu conheça a filha dele e, sim, eu falei que não podia porque trabalho, mas o problema é que ele só fica com a menina dois dias na semana, ou seja, quarta e sexta. Eu vou chegar aqui pelas cinco da tarde, no máximo.
Cecília suspirou antes de dar de ombros e acenar com a cabeça.
— Tudo bem, mas você fica me devendo esta, pois eu tinha grupo de estudos amanhã na faculdade. Sorte sua que não é tão importante, pois a Julia e a Fabiana nunca iriam aceitar isto. — Pegou o mop e o entregou para Carla.
— Você é a melhor, Lia. Obrigada — agradeceu, o que fez Cecília dar um risinho antes de tirar seu avental rendando.
Estando do lado de fora do Jozi's — que tinha uma temática dos anos 80 —, Cecília pegou a carteira de cigarros da bolsa, colocando uma unidade entre os lábios antes de começar a procurar o isqueiro nos bolsos da jaqueta. Grunhiu de raiva enquanto as mãos tateavam os bolsos vazios. 
— Merda. — Parou de andar, ignorando o fato de estar sozinha numa rua deserta e pouco iluminada. Já era quase onze horas da noite, mas não era a primeira vez que ela se aventurava nas ruas escuras da cidade depois de seu expediente. Abriu a bolsa atrás do isqueiro e deu um suspiro de alívio quando encontrou o objeto, acendendo o cigarro o mais rápido possível antes de dar a primeira tragada. 
Voltando a andar tranquilamente, foi impossível Cecília não notar a Mercedes mais à frente, na próxima quadra. O carro ia para frente e para trás sem parar, tentando incessantemente estacionar numa vaga apertada na frente de um condomínio de apartamentos amarelos. Mais alguns segundos e o automóvel prateado apagou, todo torto na vaga. Ela ouviu um xingamento abafado de dentro antes do carro ser ligado novamente e voltar a interminável tentativa fracassada de baliza. 
Contraiu os lábios, tentando não rir, e apagou o que sobrara do cigarro, jogando-o no lixo mais próximo. Por mais apertada que aquela vaga fosse, não era tão impossível estacionar Lu quanto o dono — ou a dona — da Mercedes estava fazendo parecer. Finalmente estava próxima o suficiente para observar com atenção as rodas do carro. Deu um suspiro contido antes de dar duas batidinhas no vidro fume. O carro parou de locomover e então o vidro se abaixou, revelando um rosto conhecido para Cecília. 
Ela não lembrava bem o nome dele, mas sabia que começava com T. O rapaz, Cecília percebeu, tinha a aparência gritante de um típico homem hétero padrão — como sempre ouvia seus amigos falarem. Tinha cabelos de um loiro bem escuro, penteados impecavelmente para trás em um topete um pouco inclinado, olhos castanhos, bíceps com músculos grandes e definidos, queixo digno de galã de novela e uma barba por fazer. 
— Oi... — ela falou, um pouco sem graça, considerando que o rapaz a encarava em total confusão. — Desculpe é... — Ela fez um gesto com as mãos. — Talvez se você virasse o volante um pouco para o outro lado e... desse uma ré...
Ele olhou para o volante e para o retrovisor antes de dar um sorriso sem graça. A garota percebeu os dentes exageradamente brancos do rapaz — algo que agradou seu afiado senso de estética. 
— Vamos tentar — assentiu, fazendo exatamente o que a garota tinha falado, entrando tranquilamente na vaga. — Meu Deus... Que vergonha! — Ele riu, finalmente saindo do carro. — Sério, você me salvou. Obrigado por isso. Ia ficar mais meia hora tentando estacionar se não fosse por você. 
Ele não era tão alto, sendo no máximo vinte centímetros maior que Cecília — que, por sua vez, não passava de um metro de sessenta e cinco. 
— Não precisa ter vergonha... Esta rua está com uma iluminação terrível já faz duas semanas. Os carros sempre se batem. — Deu de ombros, apertando a alça da bolsa.
— Está bem escuro mesmo, só tem um poste de luz funcionando. — Ele indicou com o polegar para o poste que ficava alguns metros distante dos dois, que eram iluminados apenas pelas luzes da entrada do condomínio. — Mas o que realmente me prejudicou foi a miopia, confesso. Esqueci meus óculos — observou antes de se demorar em Cecília. — Espera, eu te conheço... Você não é a namorada do Rob? 
— Ex — corrigiu de um jeito descontraído. — Ex-namorada do Roberto.
— Ah... — Ele riu. — Verdade. Lembro que dei uma carona para vocês no ano passado para o aniversário do Gregory. Trocamos uma ideia ou duas. Você é a Mia, não é?
— Lia — corrigiu novamente, dando uma leve gargalhada. — Cecília, pra falar a verdade, mas só minha mãe me chama assim. E você é... — Fez uma expressão de dificuldade. Realmente não se lembrava do nome dele.  
—Thomas Clifford. Mas a galera me chama só de Cliff. Por isso que ninguém lembra do meu primeiro nome. — Apoiou as mãos grandes sobre os quadris. — Mas me diz... Você e o Roberto estavam juntos a bastante tempo, não? — Ele inclinou a cabeça para o lado e Cecília achou fofo a maneira como ele sorriu.
— Três anos — assumiu, com certo pesar na voz. Odiava ter que admitir que perdeu três anos de sua vida com a pessoa errada, independentemente dos aprendizados que vieram com seu relacionamento fracassado. — Mas... Não era pra ser. Não estávamos mais dando certo. 
— Entendo. — Mordeu os lábios. — Você estava indo para casa?
— Hum-hum. Acabei de sair do trabalho...
— Se quiser, posso te dar uma carona — ofereceu educadamente. — Vim só pegar meu violão na casa do meu amigo — apontou para o condomínio de apartamentos —, não devo demorar. 
— Ah, não precisa se incomodar. Minha casa não fica muito longe. — Realmente, o prédio onde Cecília morava ficava apenas a duas quadras dali. — De qualquer maneira, obrigada. Eu vou indo antes que fique ainda mais tarde.
O rapaz mirou a rua escura com preocupação nos olhos antes de se voltar para a garota. 
— Tem certeza? Não é por nada, você parece ser durona, mas, ainda assim, pode ser perigoso.
— Tem uma galera estranha que anda por estas bandas, não vou mentir. — Ela sorriu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Mas estou acostumada. Faço este caminho todos os dias neste horário. Vai ficar tudo bem.
Ele deu um suspiro.
— Certo. — Coçou a nuca. — Mas vamos fazer o seguinte... Trocamos de telefone e você me avisa quando chegar na sua casa. 
Cecília se sentiu corar com aquele pedido de Thomas. Não sabia se ria ou apenas arqueava as sobrancelhas. Ele estava apenas sendo um rapaz atencioso ou queria seu número por que tinha algum interesse? "Olha pra você, Cecília, você é gata, mas não faz o estilo dele. Ele só está sendo legal" pensou. 
O estilo que ela se referia era que: Thomas era claramente mais rico que ela. Na realidade, Thomas era muito mais rico que ela. Bem na verdade, Thomas era rico e Cecília se enquadrava na classe média baixa.
Percebendo a demora de Cecília para responder e a confusão em seus gigantes — e lindos — olhos verdes, foi a vez de Thomas corar ao perceber que ela podia estar levando aquilo para o outro lado. 
— Hey. — Ele riu sem graça. — Isto ficou estranho, desculpe. Não estou flertando, não é nada disso. Só quero saber se você vai chegar viva na sua casa... Para que eu possa dormir em paz.  
Cecília deu uma gargalhada para nublar seus pensamentos autodepreciativos. Não se sentiu ofendida por Thomas; entretanto, admitia estar desiludida depois daquele breve momento de esperança de que um rapaz do calibre de Thomas Clifford estaria afim de trocar mensagens com ela. 
— Poxa, assim você me ofende! — exclamou na brincadeira.
Thomas, em vez de rir, pareceu ficar ainda mais agitado. Ele não gostava da ideia de parecer rude com os outros ou de magoar alguém. E não era que Cecília não fosse interessante a seus olhos — na realidade, desde o aniversário de Gregory, onde conheceu Cecília, se viu atraído por ela quase que imediatamente —, a real questão era que não queria parecer um idiota que flerta com garotas e consegue seus telefones por fingir se preocupar com elas. 
Ele realmente estava preocupado com a segurança de Cecília.
Contudo, mesmo que ele estivesse começando a achar que seu rosto fosse pegar fogo por conta do seu constrangimento, a gargalhada engraçada de Cecília fez ele se acalmar. Ele viu que a garota conseguia ficar ainda mais encantadora quando ria. Lia tinha longos cabelos castanhos iluminados por sutis mexas loiras, olhos verdes levemente alongados por cílios volumosos, lábios atraentes e traços faciais delicados. Ele também reparou que sua pele estava levemente bronzeada — o que levou Thomas a pensar que ela provavelmente havia passado o carnaval na praia na semana passada.
— Estou brincando, relaxa. — Ela deu um soquinho leve em seu ombro. 
Ele riu mais uma vez, apanhando o celular do bolso. 
Não demorou para trocarem os números de telefone e se despedirem. Cecília seguiu seu caminho e sorriu sozinha quando olhou para trás e viu que Thomas ainda estava lá a vigiando, mesmo que ela já estivesse atravessando a rua para chegar no outro quarteirão. Quando Thomas não conseguiu mais enxergar a garota, decidiu entrar no condomínio. Atravessou o estacionamento e o pequeno jardim de rosas até chegar no bloco cinco, subiu o pequeno lance de escadas e logo avistou a porta do apartamento 314 aberta. 
O som do liquidificador incomodava seus ouvidos dali. Provavelmente, Bernardo, o dono do apartamento, estava fazendo mais um de seus shakes proteicos. 
— Chocolate? — Thomas perguntou quando entrou no apartamento e encontrou Bernardo atrás da bancada da cozinha pequena. O liquidificador batia o líquido marrom com certa dificuldade.
— Chocolate com banana — Bernardo, o garoto de cabelos cacheados, pele bronzeada e pinta de surfista, respondeu com uma careta. — Sério, este pós-treino é terrível, não dá pra tomar sem colocar alguma fruta.
— Avisei para comprar o de baunilha, mas nunca tenho voz naquele grupo do whats — referiu-se ao grupo que tinha com todos os amigos do tempo de colégio. 
— Desculpa, cara. Nunca mais ignoro suas sábias dicas — zombou, desligando o liquidificador. — Você demorou, falou que estava na quadra de baixo faz quase vinte minutos. 
— Não conseguia estacionar. Não tenho culpa que a rua da sua casa é uma merda, só tinha um poste de luz funcionando, Ber. Vocês deviam reclamar com a empresa de energia. 
— Bah... — Bufou, revirando os olhos azuis. — Todo o bairro já deve ter ligado reclamando. Volte e meia tem batida de carro ai na frente, ou assalto.
— Sim, a Cecília me contou. — Deu de ombros, sem perceber que chamou a atenção do amigo.
— A Lia? Cecília do Rob? — indagou com confusão. 
— Sim — afirmou. — Vi ela agora pouco aqui na frente. Me ajudou a manobrar o carro. 
— Ah sim! — Sorriu. — A menina é maneira, né? Ela trabalha no Jozi's a noite. 
— A lanchonete?
— Sim. — Bernardo se jogou no sofá, com o copo gigante de shake em mãos. — Fiquei sabendo que ela e Rob terminaram. — Deu um sorriso malicioso. — Até que enfim, aliás. 
Thomas arqueou a sobrancelha, dando um sorrisinho.
— Virou talarico, Bernardo? — perguntou com um quê de sarcasmo. 
— Cara... — O rapaz deu um gole do seu shake. — A Cecília Vlasak é gata pra caralho. Não perdoava nem se o Rob fosse meu irmão de sangue. Além de tudo, ela é legal. Nos churrascos, em vez de ficar grudada no Rob ou de conversar com as outras namoradas, ficava com a gente ajudando a cortar a carne e trocando ideia sobre qualquer coisa. A menina é firmeza.
— Eu notei — disse com sinceridade. — No aniversário do Gregory a gente trocou uma ideia também. Ela é bem fácil de conversar. 
No fundo, Thomas havia ficado um pouco chateado dela não lembrar do nome dele, mas, então, ele lembrou que havia trocado o nome dela por Mia. "Deus, eu só dou bola a fora" refletiu, tentando disfarçar a careta. 
— Mas eu vim só pegar meu violão — falou por fim. — Conseguiu treinar um pouco?
Bernardo havia teimado que iria aprender a tocar violão nas férias e pediu o instrumento emprestado de Thomas — que suspeitava que o amigo não havia chegado nem a colocar o violão no colo. 
— Sim... — respondeu sem graça e foi nesse momento que Thomas soube que sua teoria estava certa. Bernardo, com toda a certeza do mundo, não havia tirado o violão da capa. — Vou lá no quarto buscar pra você.
Enquanto o rapaz havia se deslocado para o outro cômodo, Thomas decidiu dar uma olhada no celular e juntou as sobrancelhas quando viu que não havia nenhuma mensagem de Cecília. Mesmo se sentindo um pouco bobo, decidiu mandar uma mensagem.
THOMAS: Chegou bem?
— Aqui — Bernardo voltou com o instrumento encapado em mãos e Thomas guardou o celular. — Obrigado pelo empréstimo. 
— Imagina. — Segurou o riso. 
— Não quer ficar e jogar um FIFA? — perguntou, jogando-se novamente no sofá de couro.
— Não vai rolar, minha mãe quer todo mundo em casa pro jantar. — A mãe de Thomas fazia jantares semanais onde intimava quase toda a família a ir. Ele se divertia com suas mensagens fofas no grupo da família, falando o que faria para o jantar. 
— Sem problemas, cara. Manda um beijo para a tia Marta.
— Mando. — Thomas foi em direção a porta. — Até mais, irmão. 
— Até. 
Já descendo os lances de escadas, com o violão sobre as costas musculosas, ele novamente pegou o celular do bolso, inclinando as sobrancelhas para o alto junto de um sorriso quando viu a resposta de Cecília.
LIA: Cheguei agora. Decidi passar na mercearia e demorei um pouquinho a mais hehe 
LIA: Obrigada pela preocupação <3
 

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