Eu não lembro a primeira conversa que tivemos, mas nosso primeiro encontro continua gravado na minha memória como tivesse sido ontem. Por isso decidi escrever como tudo começou..
Estava de férias em uma tarde navegando na internet e a foto em um comentário no facebook me chamou bastante atenção. Cabelo cacheado, grande, olhos claros e um sorriso que me fez sorrir junto. Era de alguém que estava na praia, o pôr do sol estava no plano de fundo da foto, o que deixava tudo ainda mais bonito. Enviei o convite e puxei conversa. Claramente ele estava bem nem ai pra mim, era a conversa por obrigação, tinha a resposta "e você?". Não lembro como as coisas mudaram e em qual ponto a conversa engatou pra sms, naquele tempo, era um ótimo meio de comunicação, rápido e barato, que mais tarde foi substituído por aplicativos de telefone. Eu estava no segundo ano do ensino médio e ele no terceiro. Eu era apaixonada por um outro garoto e ele namorava com outra menina. Nos tornamos amigos virtuais. A partir daqui, não consigo esquecer que ele participou de todos os momentos importantes da minha vida e em nenhum deles, estava presente.
Ele era a primeira pessoa que eu conversava no dia e a última da noite. Criamos uma rotina mesmo sem querer e um dia sem conversar, deixava aquela sensação estranha no peito, aquela saudade que você não consegue entender o porquê. Não fazia tanto tempo. Saudade não é isso? Um tempo considerável longe de alguém? Eu o incluí em minha vida como um amigo que estava presente todos os dias, naturalmente aconteceu. Se eu estava triste, ele estava lá. Se eu estava feliz, ele estava lá. Se não tivesse nada, ele estava lá para fazer qualquer bobeira que eu fosse sorrir. Uma pequena lembrança me ocorreu enquanto escrevo aqui: até então, nós nunca consideramos nos encontrar pessoalmente. Não era como se não tivesse vontade, mas a presença física parecia só um detalhe.
Enquanto estava no terceiro ano do ensino médio e ele no cursinho, as conversas passaram a ficar ainda mais frequentes. Diversas vezes ele só acordou com algumas das minhas mensagens. Sempre seguido de um "bom dia" e "ei, que bom que me enviou essa mensagem, acabei de acordar". Nunca houve hora marcada, mas era sempre no momento certo. Aqui já entendemos os limites um do outro. A hora de conversar, a hora de brincar, levar a sério. Eu já conseguia identificar quando estava com raiva de alguma coisa. Era apenas uma sms, como conseguia transparecer tanta coisa?
Dizem que a maneira mais profunda de lembrar de alguém é quando você está bêbado. E foi assim que aconteceu nossa primeira ligação. A primeira vez que eu ouvi sua voz. Era uma sexta-feira à noite, ele tinha ido a uma festa com os amigos e bêbado. Já era bem tarde, eu estava assistindo um filme quando o telefone tocou. Mesmo sendo a primeira vez que ouvia aquela voz, sabia que tinha bebido. Foi uma conversa curta, mas engraçada. Entrei na brincadeira e continuei a conversa. "eu gosto de você, Jéssica. Você sabe disso, né?" "Eu sei, eu também gosto de você. Mesmo com você bêbado", ''não, não do jeito que todo mundo gosta" era como se eu pudesse vê-lo sorrindo do outro lado da linha, eu não sabia o que falar. Não tinha o que responder. Eu gostava dele, mas com certeza não era algo que eu deveria dizer. Poucos minutos depois a conversa terminou ainda em tom de brincadeira. Até hoje, nossa única ligação. No outro dia não houve nenhuma menção ao assunto. Alguns dias depois nossa primeira briga. Um ano sem conversar.
Confesso que no começo foi difícil. Seus outros amigos entram em um tipo de comparação sobre como reagem às coisas. É errado e inútil, mas acontece no automático. Você encontra algo na rua e então pensa "ele vai gostar disso também", mas vocês não se falam mais. Quem mais vai rir daquela piada? Quem vai te dar bom dia ou boa noite? Ou simplesmente ter uma conversa sem importância nenhuma, mas que te deixa leve? Nesse tempo comecei a namorar, não vou ser hipócrita, de certa forma, essa pessoa deixava a ausência dele menor. A gente deixa de sentir saudade quando se acostuma com a ausência, sejam eles de pessoas, lugares ou coisas. Fica apenas a lembrança e depois o esquecimento.
YOU ARE READING
Cada um com seus amores
Mystery / ThrillerHistórias comuns, de amores comuns, de uma pessoa comum.
