Parte 1

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Donny era um rapaz alegre de 11 anos quando tudo aconteceu. Em uma manhã comum, nada de especial acontecia no mundo. Era surreal o quão comum era aquele dia. E então, ás 9:37 da manhã, um estrondo ocorreu. Era difícil de explicar, pois era alto o bastante para ser ouvido pelo mundo todo, mas mesmo assim parecia estar longe. Todas as pessoas na terra escutaram e de repente... Breu. As pessoas não possuíam mais visão. Os seres humanos ficaram cegos de uma vez. Era bizarro. E foi tudo tão rápido. De repente tudo virou caos. Aviões caindo do céu, pessoas perdidas e sem saber o que fazer. O pânico tomou conta de tudo.
Donny estava na cozinha quando aconteceu, ele gritou por sua mãe e ela por instinto materno, mesmo sem visão, correu em sua direção. Mas ela não percebeu as escadas, e desabou os 28 lances da casa. O garoto ouviu o barulho e foi na direção dele. Ao se aproximar sentiu um liquido morno nos pés. Se agachou para sentir o que havia ali e percebeu o corpo já sem vida de sua mãe. O menino entrou em desespero e não sabia o que fazer. Tentou ligar para a emergência diversas vezes mas nada parecia funcionar. Ele ouvia gritos vindo de fora da casa. Parecia o apocalipse e ele não tinha ninguém para ampará-lo. Sem sua visão, ele estava perdido.

Uma semana se passou. O corpo da mãe de Donny já fedia na casa e ele havia se trancado no banheiro para não sentir o forte odor. Foi quando a grande esperança apareceu. De repente a televisão ligou-se sozinha. Donny pôde ouvir e pensou que alguém havia entrado em sua casa, mas não era isso. A manchete com voz feminina dizia: "Esta é uma transmissão de emergência. Muitas fatalidades ocorreram devido ao recente surto de cegueira inexplicável, mas não se preocupem, pois os poucos de nós que ainda possuem visão estão trabalhando para auxiliar a todos. Cerca de 8% da população mundial parece ser imune a cegueira. Se você é um deles, junte-se a nós no auxilio dos necessitados. Mas se você é um dos muitos que precisam de ajuda, contate-nos. Juntos seremos mais fortes."

O coração de Donny encheu-se de esperança. Ele nem soube explicar exatamente o porquê, mas parecia que ele via uma luz, alguém para socorrê-lo. Imediatamente foi até o telefone e ligou para o numero que ouviu na tv. A voz que o atendeu se assemelhava e muito com a da mulher que havia transmitido a manchete, mas ele não achava que a moça da notícia poderia ser realmente a mesma que o atendera, por isso deixou pra lá. Algumas horas depois, a porta bateu, e Donny ouviu vozes masculinas.
-Estamos aqui para ajudá-lo. Juntos somos mais fortes. - Eles disseram.

Donny abriu a porta. Os homens entraram, conversaram com ele, explicaram o que havia acontecido com o mundo todo, e recolheram o corpo de sua mãe.
-Não se preocupe, daremos um enterro a ela. - Eles disseram.
Donny estranhou o fato dos homens não terem se assustado com um cadáver na casa, mas imaginou que, já que o mundo estava daquele jeito, eles deveriam estar acostumados com isso, portanto relevou.

10 anos depois...

O mundo já não era mais o mesmo. Cerca de 6 bilhões de pessoas haviam morrido devido o surto. E a forma de viver da humanidade mudou completamente, apenas os videntes (aqueles que possuíam visão) eram os reais privilegiados dessa nova sociedade. Uma representação bem tosca do provérbio: "Em terra de cego quem tem olho é rei". Apenas os videntes podiam dirigir, comandar, e até se eleger a cargos políticos. Toda a humanidade teve que se adaptar a forma de vida sem visão e até as novas crianças que nasciam eram cegas. Um mundo realmente aterrorizante.

.....

Era outra manhã comum, como aquela do estrondo. Nada de extraordinário ocorria no mundo. Foi quando Donny acordou. Ele abriu os olhos lentamente e teve uma sensação estranha. Era como uma dor de cabeça, ele não sabia bem o que era. Até que viu um clarão e fechou os olhos novamente. "Espera, um clarão?" Ele pensou. "Como posso ter visto um clarão?" Donny abriu os olhos novamente e pôde sentir lágrimas escorrendo em seu rosto. O garoto estava emocionado, pois aquele clarão era a luz da janela. Sim, ele estava enxergando.

Mal podia esperar para mostrar a todos que sua visão havia voltado. Era um milagre. Era uma esperança. Se a dele havia retornado, as outras pessoas também poderiam recuperar as delas. Ele mal conseguia pensar direito, a felicidade tomava conta do garoto e fazia sua barriga roncar. Espera, isso era a fome. Ele lembrou que precisava ir ao mercado pois havia acabado o leite.
Decidiu que assim que tomasse café da manhã iria contar ao mundo sobre sua novidade. Donny colocou um casaco e foi ao supermercado.

O céu estava cinzento e as ruas extremamente vazias, não era nada como Donny lembrava ser 10 anos antes de tudo aquilo. Não haviam mais as plantas e flores que ele lembrava ter nas janelas das casas, pois eram apenas vasos vazios agora. O mundo em si parecia ter perdido a cor. Fazia sentido, já que agora ninguém mais se importava com a estética das coisas. Até o supermercado parecia surrado e velho. Algo que Donny não percebia quando não possuía sua visão.

Ele entrou e foi até a parte dos laticínios. Viu uma mulher com uma garotinha nos braços, ambas com olhos brancos. Era assustador. Era assim que ele se parecia? Pensou. Quando chegou na parte das caixas de leite, reparou que todas as embalagens agora estava escritas em Braile (idioma escrito universal). Ele pegou uma caixa aleatória e percebeu que havia um bilhete amarelo. Puxou e aproximou para ler. Estava escrito com uma letra garranchada como se tivesse sido feito as pressas.

NÃO IMPORTA O QUE ACONTEÇA, SE VOCÊ ESTA LENDO ISSO É PORQUE TAMBÉM CONSEGUE VER, ENTÃO NÃO DEIXE QUE "ELES" SAIBAM QUE VOCÊ PODE VÊ-LOS, OU "ELES" IRÃO TE MATAR. NÃO EXISTE ESSA DROGA DE VIDENTES, OS ÚNICOS QUE VEEM SÃO "ELES", E APARENTEMENTE EU E VOCE. "ELES" SÃO OS RESPONSÁVEIS PELO SURTO MUNDIAL, "ELES" VIERAM PARA NOS INVADIR E TOMAR TUDO QUE É NOSSO.

Donny ficou assustado com o bilhete. O que aquilo significava? Mas não fazia sentido nenhum pra ele, portanto amassou e jogou fora. Foi em direção ao caixa para pagar pelo leite e lá estava a senhora com sua filha. Mas ao olhar de trás do caixa, Donny derrubou o leite ao ver o atendente. Era uma espécie de inseto gigante com garras e antenas, era asqueroso como uma barata, e nojento como uma lesma, era assustador. O pânico tomou conta do corpo do jovem. O terror o dominou mais ainda quando percebeu que a criatura falava com voz humana enquanto entregava o troco para a senhora com a garotinha no colo. Elas não percebiam o monstro a sua frente. 

-Juntos seremos mais fortes - Disse o atendente monstro.

Donny teve uma epifania. Lembrou de 10 anos atrás quando foi ajudado por gente que dizia a mesma coisa, e imaginou se essas pessoas também não eram pessoas. Se lembrou do bilhete, que agora fazia todo sentido. Invasores que causaram o surto vieram tomar tudo de nós. Donny em desespero só conseguiu pensar em correr e suas pernas atenderam ao chamado, antes que percebesse ele estava correndo pela rua de volta para a sua casa. "Preciso encontrar a pessoa que escreveu aquele bilhete". Foi o único pensamento que veio a sua mente.

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