Amor.

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Eu estava furioso.

E sequer era capaz de dizer o real motivo.

- Tem certeza de que os anjos tem uma expressão feia dessas? - ele me tira dos questionamentos internos com sua voz tranquila. Seu dedo indicador pressiona o vinco entre minhas sobrancelhas franzidas, sem nenhum medo do perigo.

Estamos parados na rua de sua casa, já tarde da noite, enquanto eu o acompanho na volta de suas aulas da universidade. Nessas noites que já havia me acostumado a esconder as asas robustas, internamente desejando me parecer mais com ele do que com um anjo. Assim, nessa medíocre imitação de anjo para humano, me torno visível aos olhos de todos. O pensamento de que para as outras pessoas eu pareço apenas ser feito de carne e osso me deixa com a euforia pinicando no fundo do estômago. E eu estaria com um sorriso de rasgar a bochecha se não estivesse tão, tão irritado.

- Tem certeza de que os humanos se despedem com um beijo na boca? - devolvo sua pergunta com outra. Porque eu não queria responder, estava indiscutivelmente irritado.

Seus olhinhos arregalados me satisfazem por um momento. É como encurralar um filhote travesso.

- Ah... você viu? Hyunjin, aquilo-

Eu seguro seu pulso o trazendo para mais perto, numa urgência por respostas que um anjo ignorante como eu só entenderia muito tempo depois.

- Eu os vi, estava do lado de fora do pátio esperando sua aula acabar. - Demoro alguns segundos para continuar, preso novamente no seu perfume de canela que chega agora tão perto. - Ele te beijou como eu beijo. Ele se sente da mesma forma que eu?

Não tenho ouço sua voz de imediato, o garoto parece escolher suas palavras.

- Eu não sei. Me diga o que você sente. ­- ele se afasta de mim, voltando a estampar calmaria em seu rosto. Porém, dessa vez, desconfio que sua calmaria mente. Há ansiedade no jeito como ele pisca rapidamente duas vezes seguidas.

Colocar em palavras a confusão que aquele humano causa em mim é como ler em um idioma que eu desconheça. Eram sensações e anseios que eu não poderia perguntar a qualquer outro ser celestial porque me pareciam muito com as complexas emoções humanas. No fim, tudo se tornou um nó de questões não respondidas. Questões essas que eu apenas empurrava para frente de qualquer jeito.

- O que ele disse a você? - peço por ajuda, desviando de uma pergunta que não sei responder.

- Ele disse que estava apaixonado por mim, desde que nos conhecemos na faculdade. Ele disse que me ama - admite, me fazendo contrair os lábios.

A palavra amor se tornou desagradável desde que o conheci. Mas ouvi-la naquela frase a fez se tornar muito mais indigesta pra mim. Como um ardor que começa em meu peito e termina na garganta, forçando meu rosto e se contrair em uma expressão ríspida.

Eu dou as costas para o garoto, encarando o caminho da estrada que havíamos acabado de fazer.

- Ele te ama, como eu amo a meu Pai?

- Seu amor a Deus não é o único amor que existe, Hyunjin. Você sabe disso. Assiste os humanos a tento tempo e me diz que não conhece outra forma de amar?

Eu não me viro para conferir suas feições, mas seu tom de voz carrega frustração.

Não era como eu fosse ingênuo, mas nunca havia cogitado que um anjo amaria de outra forma ou outra existência além do Pai. É doloroso engolir que em mim cresce um sentimento tão forte quanto o amor pelo divino.

Vendo minha dificuldade em responder, ele continua:

- Eu não amo aquele cara, se isso te preocupa. Porque eu amo você. E eu não te amo da mesma forma que você ama seu Pai.

Surpreso com suas palavras francas, eu me viro novamente para ver seu rosto.

- E de que forma você me ama? ­- a dor em minha voz me assusta, eu não entendo. Não entendo toda a necessidade sufocante que aquele sentimento me causa.

Ele percebe, talvez tenha pena de mim. Seu olhar se acalma e se torna mais caloroso enquanto se aproxima novamente.

- Meu amor por você nada tem a ver com o amor divino. Eu te amo de um jeito egoísta. - Seus braços envolvem meus ombros, carinhosamente. Não sou capaz de me mover ainda pois estou concentrado em cada uma de suas palavras, não posso perder um único som. - Eu te amo de forma que quero te ver todos os dias. Ouvir sua voz todos os dias. Eu te amo de forma que se não te tocar, eu sinto frio. E eu me sinto idiota por estar no meio da rua, com um anjo, pedindo a ele que me ame mais do que ele ama a Deus.

Não sou capaz de articular palavras por um tempo demasiado longo.

Seus dedos perdem a firmeza. Percebo que seus olhos castanhos procuram de forma nervosa por outro foco, fugindo de meu rosto. Parece muito com uma criança magoada. Entendo que é egoísmo pensar que sou o único que sofre com o peso dessas sensações. Os sentimentos humanos parecem ainda mais cruéis quando sentidos pelos próprios humanos.

Mas ao contrário dele, eu me sinto tomado por uma certeza maior após suas palavras tão francas. Não importa de que forma eu tente enxergar esse sentimento. Não há uma resposta que possa dispersar o fato de todos os meus pensamentos e desejos serem pertencentes a ele. O quanto esse coração de anjo bate tão humano sempre que me toca.

Desde o momento em quebrei todos os protocolos e impedi o garoto de Seul de pular por aquela sacada, eu havia deixado de sentir como anjo, de amar como anjo. E se o amor celestial era a lapidação de um sentimento perfeito, o que eu tinha em meu coração mais se parecia com uma pedra gigantesca, pesada e de arestas afiadas. A forma mais crua de amor que assustaria até mesmo Jesus.

Eu poderia me afundar mais naqueles pensamentos até encontrar respostas convincentes, mas percebi que simplesmente não queria. Se admitir que meu amor por Jeongin era de carne, osso e pecado, bem, eu pecaria.

Um sorriso bobo e aliviado era o meu. Quase queria rir de mim mesmo ao perceber meu egoísmo ciumento. Quantos pecados eu já teria emplacado em meros trinta minutos? Queria rir por entender a proporção do meu medo de perde-lo.

Por saber que, tivesse o nome que fosse, nosso sentimento era o mesmo.

Quando afasto seus braços de meu corpo sem dizer nada, ele me olha confuso. Provavelmente não entende meu silêncio como uma resposta. Mas eu o deixo ali, voltando a caminhar pela rua, sem pressa.

- Hyunjin? - ele me chama nem três passos depois.

Eu me viro novamente com as mãos escondidas no casaco. Percebo que seus cabelos estão úmidos de sereno.

- Estou te esperando em seu quarto. Essa noite, quero mostrar qual é a forma que eu te amo. De uma forma que nunca mostraria a meu Pai.

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