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A sintonia da música parece se encaixar perfeitamente com o ritmo dos carros e das pessoas, apoio meus cotovelos no apoio da janela para ver melhor a rua, crianças brincavam de um lado para o outro com bicicletas e risadas estridentes que atravessavam minha janela sem nenhuma dificuldade. Eu adorava elas, sem nem mesmo um motivo aparente elas eram almas puras e felizes não importava o que. Não sabiam que a vida ia se tornar uma grande decepção, talvez pra maioria. Outra minoria ficaria feliz em levar uma vida padrão, ser um humano padrão em uma sociedade padrão. Era deprimente.

As bolhas que iam se formando no topo do meu café com leite pareciam tirar sarro de mim. Será que elas sabiam que outra noite sem sono havia me perturbado e não seria um pouco de cafeína que iria me acordar, pelo menos não dessa vez. Estava mais recorrente do que eu pensava, talvez eu devesse ir até a Doutora Khali, a única psicóloga da cidade, e explicar como tinha me tornado um zombie nas últimas duas semanas. Talvez eu devesse ir no banco e dizer a eles que não poderia pagar a hipoteca da casa, talvez eu deveria dizer para o Daniel que eu ainda amo ele mesmo que esteja com outra mulher agora mesmo. Talvez.

As margaridas estavam lindas, assim como o resto das flores do conjunto de vasos que havia chegado recentemente. Eu amava trabalhar com flores, mas odiava o cheiro delas. Me lembravam cemitério e morte, e o enterro do meu pai e o que aconteceu depois, os olhos esbugalhados dele no caixão me visitavam vez ou outra de noite. Minha mãe gostava de flores também, era mais fácil pra ela, uma otimista de berço, ver como as flores melhoravam o mundo e as pessoas. Talvez isso tudo fosse sobre ela, as coisas involuntárias que eu fazia era pra tentar reviver alguma memória dela dentro de mim, memórias que eram boas mas se perderam dentro da minha mente oca e escura.

Os sinos pendurados na porta tocaram, e uma senhora de idade avançada entrou. Esses eram tipicamente meus clientes, idosos procurando refúgio em flores ou homens arrependidos tentando salvar o que restou de relacionamentos. Ela usava uma echarpe verde que cobria a fina camada de cabelos brancos e tinha olhos azuis que se destacavam apesar das rugas e da pele branca.

-Rafflesia Arnoldii.

Pisquei algumas vezes para a senhora, não tentei ser simpática ou nada do tipo por que nunca funcionava.

-Hmm... O que ?

-Eu quero essa flor.

A voz dela tinha um sotaque carregado, talvez fosse de outro país e isso explicaria perfeitamente a pele extremamente branca. Mas ninguém vinha pra essa cidade a passeio. Um fim de mundo com menos de oito mil habitantes, contando com uma escola, um hospital, um mercado, e eu que era louca o suficiente para ter uma floricultura aqui. Era uma das vantagens de cidades pequenas. Sem muitas pessoas a maior parte do tempo.

-Não tenho, me desculpa.

Um silêncio sufocante se instalou entre mim e ela, os grandes e enrugados olhos azuis eram fantasmagóricos. Eu não conseguia ver seus ombros mexendo com a respiração, não tinha vida nenhuma nela. Seus passos foram calmos e contados até a porta, antes de sair ela parou e disse mais uma vez " Rafflesia Arnoldii " antes de desaparecer.

Eu me virei e fui em direção ao meu pequeno escritório adaptável, Daniel tinha montado um pra mim antes de ir embora. Uma mesa remendada na parede, um gancho pendurado para os fios e um apoio para os papéis, nada muito impressionante eu poderia ter feito sozinha sem ter que ter uma mísera lembrança dele. Poderia.

Digitei o nome na barra de pesquisa e errei algumas vezes até perceber que era um nome em latim com tradução livre para "Flor mostro". Era uma planta que não tinha caule ou raízes, tinha cerca de onze quilos e tinha um cheiro semelhante a um cadáver. A foto era de uma flor com cores apodrecidas e com um buraco enorme no meio, como uma boca ou um sugador. Olhei por mais páginas sobre tribos que usavam essa espécie para avisos sobre mortes, má sorte, e previsões. Quem plantaria isso na própria casa? Aquela senhora provavelmente, nem precisaria de motivos muito fortes pra tentar espantar má sorte ou algo assim.

Tentar voltar a minha atenção a loja com o computador na minha frente era impossível. Não que aqui tenha clientes, a maioria eram vizinhos que fingiam que eu não estava aqui e a outra parte não comprava, era simplesmente por exaustão. Minha mente não conseguia mais trabalhar em nada pelas próximas vinte e quatro horas, fechar a loja no meio da tarde não parecia uma opção inteligente mas foi o que eu fiz. Talvez um bom banho quente me prenda de volta nessa Terra, um carbonara com molho branco e pedacinhos de bacon e fazer carinho no Presley também. Era cientificamente comprovado que fazer carinho em um pet podia diminuir Qualquer sinal de mau estar, Presley não parecia se importar um pingo com o meu. Típico de um gato.

Caminhar de volta pra casa era uma missão de superação todos os dias, a loja ficava seis quarteirões da minha casa e a minha casa ficava a três casas da de Daniel. Eu parecia obcecada em fazer o caminho contrário só para poder passar em frente a janela dele, só pra poder vê-lo. Nem que seja por milissegundos. A casa dele era grande, com janelas transparentes e grandes, uma faixada de tijolos escuras e um gramado bem aparado. Lá dentro, eu podia ver a escada que devia dar acesso aos quartos e alguns casacos pendurados entre a porta, eu reconheci o dele imediatamente, uma jaqueta preta de couro com um tigre nas costas. Ele adorava aquela jaqueta. Era a mesma que usava no dia em que eu vi ele com a garçonete no natal, ela usava um vestido-blusa de mamãe Noel e tinha silicones com o maior tamanho que já vi, ele os tocava como se fosse a coisa mais gostosa do mundo, como se não fosse um plástico. O que mais me doeu não foi a dor da traição, não foi a mamãe Noel com super peitos ser mais bonita e sexualmente atraente do que eu, foi o olhar. Ele a olhava com adoração, como nunca olhou pra mim. Nem sempre eu conseguia vê-lo, as vezes eu via seu pai, outras eu via mulheres desconhecidas mas quando eu via o rastro do seus olhos verdes era como heroína e eu queria voltar e ver de novo e de novo e de novo.

Minha casa ficava logo a frente, uma fachada amarela gasta pelo tempo, gardênias enfeitando a porta e meu piso quadriculado, que era a única coisa que me fazia querer continuar aqui. Não era exatamente uma casa grande, meus pais deixaram pra mim antes de morrerem, as portas estão enferrujadas e aparece umas goteiras quando chove, mas é melhor do que qualquer coisa que eu fosse tentar arrumar em vendas por aqui. Ao entrar Presley me dar as boas vindas, seu rabo amarelo entrelaça na minha perna e esse era o maior sinal de carinho que ele era capaz, ao contrário de mim que o agarrava com tanta força que saia arranhada. Tiro as sandálias do meu pé, sentindo o contato com o piso frio e vou até a bancada da cozinha, checo as correspondências até sentir um papel áspero na minha mão. Ela estava atrás das outras cartas, era um papel grande com folhas de jornais imitando um envelope e meu nome escrito com uma tinta vermelha e o endereço da minha casa.

Eu nunca recebia cartas, e as últimas eram do banco e eu não pretendia abrir. Encarei meu nome por alguns segundos e a tinta escorrida como se tivesse sido pintada propositalmente para parecer assim, não tinha remetente, não tinha um lugar de veio e nem mesmo um selo. Não tinha nada.

Abri a carta e com certo receio, começo a ler.

Querida Emily

Tão triste é a dor de um término, não é?

Mas talvez você devesse pensar melhor.

Talvez a sua dor não esteja sendo doída o suficiente e eu sei como isso pode piorar.

Se você não quiser descobrir também, tem que acabar com que acaba com você.

Mate Daniel ou alguém vai matar você.

A flor monstroWhere stories live. Discover now