Os dias em Leicam eram longos e ensolarados.
Logo que rompia a alvorada, os feiticeiros saíam de suas casas simples no povoado de Artena e rumavam com as mãos cheias de cestas e tecidos à grande praça no centro de Leicam, para vender seus produtos e prestar auxílio na agricultura, com seus conhecimentos e fertilizantes. As tendas de madeira, tecido grosso e juta eram montadas com agilidade por toda a praça e ao longo da estrada de pedra que cortava o povoado ouvia-se cumprimentos cordiais e animados entre leicanos, artenienses e viajantes que passavam pelo mercado. As crianças nascidas em Leicam brincavam entre os mercadores com os pequenos feiticeiros de Artena, e vez ou outra uma fagulha do fogo que saía das mãozinhas de alguma garotinha arteniense despreparada causava um breve caos que logo era controlado por um mago adulto. O mercado era movimentado durante todo o dia, desde o amanhecer até o pôr do sol. Leicam era um grande centro comercial. Os temperos e legumes da vila leicana eram os melhores em toda a província, o artesanato era reconhecido fora dos limites do reino de Éire, e os chás medicinais de Artena tinham fama em todos os reinos das ilhas e nos impérios de Gália e Trácia.
Leicam era conhecida como a Terra Abençoada, graças ao solo propício para a agricultura e a magia dos artenienses, que protegia a produção das pragas, saqueadores e qualquer coisa que pudesse colocar em risco os cultivares leicanos.
Tudo quanto se imaginasse era encontrado naquele mercado. Comerciantes de salsa, sálvia, alecrim, tomilho, arroz e rabanetes, carnes e ovos, mais adiante os vendedores de tecidos, túnicas, vestidos, véus, sapatos, jóias, amuletos, e no fim da feira aqueles que vendiam bebidas e doces. A cerveja de Leicam era consumida por reis e nobres, e a culinária milenar do povoado só se aprimorava com a ajuda de Artena.
Não havia governo nas cidades, tudo era decidido em assembléias onde todos participavam e davam sua opinião, tendo como líder a feiticeira Kang Hyomin, representando Artena, e o comerciante Ahn Jungwon, de Leicam. Os assuntos eram debatidos até que se chegasse a uma unanimidade, e ao final de cada assembléia uma grande fogueira era acesa na praça central de Leicam, e músicos animavam as festas com cantos que aprenderam com seus pais, enquanto crianças corriam pra lá e pra cá. Não havia deuses, não havia hierarquia de poder, não havia ganância, egoísmo ou guerras. Artena e Leicam possuíam suas particularidades, mas ao final tudo convergia para um objetivo comum: a prosperidade.
A magia de Artena vinha da natureza, e nascia com cada filho de mago. Fogo, água, terra, ar, os feiticeiros artenienses eram como um quinto elemento que unia todos esses quatro ao espírito da humanidade. Seus conhecimentos e poderes eram capazes de curar qualquer mal, fazer crescer qualquer cultivo e tornar fértil até o solo mais arenoso. Não havia fome. Não havia medo nem desconfianças.
Mas vidas felizes e mesas fartas não viram história.
Os dias ensolarados se foram. Leicam ruiu. Artena foi dizimada.
E essa é a história das únicas feiticeiras que sobreviveram para contá-la.
YOU ARE READING
Full Moon
FanfictionQuando um mago destrói o povoado de Leicam e dizima a vila dos feiticeiros de Artena, no reino de Éire, as duas sobreviventes do massacre saem numa longa e perigosa jornada para a Terra da Lua Cheia, em busca dos únicos mestres de magia capazes de d...
