A vida é um imenso círculo cujo raio corresponde aos eventos planejados. Cada coisa não planejada, mesmo que por um mero centímetro, te faz tropeçar e acaba com todo plano inicial. Durante os primeiros anos de nossas vidas, enquanto ainda somos apenas crianças, o raio nunca importa porque ele sempre é ultrapassado. O mundo é cheio de cores e pequeno demais para não ser explorado. Mas depois que aquele tempo bom e aconchegante para a maioria passa, cada centímetro começa a contar.
Em uma sociedade de heróis e vilões, o que você seria? Baseado em todas as suas ações e escolhas até hoje, o que você faria? Buscaria o caos? Ou lutaria contra ele?
Midoriya já não sabia o que ele havia se tornado.
Mesmo que toda essa especulação fosse uma metáfora. Mesmo que heróis e vilões não existissem naquele mundo perdido. Mesmo que tudo que reinasse fosse a palavra "sobreviver'', ele se sentia perdido. Perdido, angustiado, sozinho, desesperado. Mas o verdadeiro problema era que ele não podia deixar esses sentimentos transparecerem, ele era o líder, afinal.
E os líderes não choravam. Líderes não demonstravam fraqueza.
-- Por favor, eu já disse que não sei!
O grito da adolescente amarrada fortemente ao tronco de uma árvore em uma estrada deserta era de puro desespero. Por baixo da venda que lhe cobria os olhos, lágrimas afoitas escapavam.
Os olhos de Izuku arderam pelo sono, denunciando as noites mal dormidas. Observou as três pessoas, todas amarradas e vendadas. A garota no tronco não parava de chorar e isso começava a lhe irritar, as outras duas pessoas -- uma mulher mais velha e um homem esguio -- estavam amarradas a um tipo de gaiola e clamavam por suas vidas.
Patético.
-- Me digam onde fica o armazém de comida. -- exigiu o esverdeado.
-- Eu te peço, não machuque minha filha! -- o homem implorou em lágrimas.
-- Primeiro me digam onde está a merda do armazém, caralho! -- gritou, apertando em suas mãos um taco de beisebol cheio de pregos. Odiava ter que fazer aquilo. -- Todos podem sair vivos e continuar vivendo suas vidinhas medíocres enquanto servem para o governo. Ou eu posso queimar ela viva e o cheiro vai atrair os zumbis pra cá. E aí? O que vão escolher?
-- Nós não sabemos! Por favor, não os machuque! -- dessa vez a mulher mais velha gritou, suas pernas tremiam pelo medo.
-- Okaasan! Otōsan!
Midoriya rangeu os dentes, tirando do bolso uma caixa de fósforos. Sentiu seu braço ser segurado, impedindo que riscasse um dos mesmos.
Encarou Kaminari raivoso, o que aquele idiota pensava que estava fazendo?
-- Acho que já é o suficiente, Izuku. Pare com isso.
Puxou o braço de forma bruta, empurrando o colega.
-- Calado, Denki. -- acendeu o fósforo e se aproximou da garota. -- Sabe, a gasolina que eu joguei em volta dela vai causar uma linda explosão. Prevejo membros e órgãos estraçalhados por aí. Eu vou contar até três, se vocês não abrirem a boca, ela morre.
-- Izuku, já chega!
-- Um…
-- Nós não podemos falar! -- ignorou a mulher mais velha que se debatia ainda presa à gaiola. Havia passado de "não sabemos" para "não podemos falar". Estavam mentindo, e ele sabia disso.
-- Dois…
-- Não faça isso!
-- Resposta errada, velhote. E por fim, tr-...
-- Tudo bem! Nós vamos falar! Mas, por favor… por favor, apague esse fósforo.
Girou os calcanhares, ficando de frente ao pai da garota. Apagou o fósforo com um sopro e o jogou no chão.
-- Oh, então decidiram abrir o bico? Bora velhote, desembucha.
-- E-Está no Distrito, cidade da luz. N-não sei onde exatamente, mas está em um prédio da prefeitura abandonado na zona sul, não deve ser… não deve ser difícil de encontrar…
Segurou o queixo do sujeito, tirando sua venda e observando os olhos amedrontados. Já podia ver um zumbi ao longe em uma colina e não demoraria para que uma horta de mortos vivos chegassem.
-- Não está mentindo, está? -- a fala saiu baixa e ameaçadora, um arrepio percorreu a espinha de Denki que só assistia a cena com os olhos arregalados.
-- Não! Eu juro que não! Agora nos solte, pelo amor de Kami-sama!
-- Não.
-- O quê?!!
Os gritos da família foram ignorados enquanto caminhava em direção a uma caminhonete, uma Chevy vermelha, sendo seguido pelo garoto de cabelos loiros.
-- Eles disseram o que você queria. Você disse que iria salvá-los.
-- Não, eu disse que não mataria a garota se eles abrissem o bico, Denki. Eu não matei ela, mas talvez os zumbis o façam. Aproveite que não apareceu nenhum até agora e de partida na merda desse carro. Isso se não quiser ter o mesmo destino que eles.
-- Denki-kun, você está bem? -- Midoriya estendeu a mão para o garoto no chão, os treinos liderados pelo capitão eram sempre bem intensos.
-- Ah, não se preocupe, Izuku. Foi só um arranhão. -- Aceitou a ajuda e devolveu o sorriso gentil que o outro direcionava para si.
-- Que bom! Vem, vamos cuidar desses machucados!
-- Você mudou bastante depois da morte dele, não é?
Os olhos agora sem vida lhe encararam, questionadores.
-- Disse algo?
-- Eu… não, não é nada.
-- Ótimo. -- Entrou dentro da cabine bulbosa do automóvel. -- Pegue o melhor atalho que conhecer, essa gasolina tem que dar até chegarmos no Galpão. O armazém pode ser uma das nossas únicas chances.
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É meio que uma introduçãozinha pro povo entender o ritmo da história. Aprovada?🤗
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Círculo de Vidro
FanfictionO apocalipse zumbi era algo inevitável, ao mesmo tempo que era um terror interminável. Izuku não tinha certeza de quando se perdeu naquele mar de corpos, mas as mortes que presenciou não deixam-o dormir. Mas a volta de Bakugou Katsuki pode fazer c...
