PARTE 1

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Dos meus sonhos aleatórios, eu me lembro: — do brilho prateado de uma sobrancelha arqueada; — do ranger de uma pesada porta de madeira se abrindo para um salão com luzes tremeluzentes; — de gotas de esperma caindo sob o som de gemidos e sussurros;...

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Dos meus sonhos aleatórios, eu me lembro: — do brilho prateado de uma sobrancelha arqueada; — do ranger de uma pesada porta de madeira se abrindo para um salão com luzes tremeluzentes; — de gotas de esperma caindo sob o som de gemidos e sussurros; — de uma chuva de pedaços de metal, enquanto feixes de luz me cegam; — uma capa vermelha esvoaçando perigosamente; — da água avermelhada de uma banheira já fria dentro de um banheiro de azulejos portugueses, escuros e melancólicos,

O cheiro esverdeado, da mata desgrenhada, atacou-lhe em ondas nauseantes e quentes. A cabeça doía, pontadas pulsantes pelas laterais, próximo as têmporas, e na parte da frente, entre as sobrancelhas grossas. Segurou-a, massageando, tentando fazer aquela sensação pungente e aguda passar. Respirava pesadamente. Sentou-se, arqueando as costas doídas, descolando-as da roupa banhada em suor e pondo o queixo entre as pernas. Arrastaram-se alguns minutos até que adrenalina corroeu suas veias com a força de um instinto.

Perigo.

Medo.

Se pôs em pé o mais rápido que pode, olhando ao redor, a dor submergindo como fundo frente a preocupação que agora figurava na sua consciência.

Roxo e preto. Cabelos ruivos. Voz arranhada de cigarros. Dinatra?

Camboja.

A mão tocou a pistola preta amarrada ao coldre. Observou que vestia luvas que deixavam a ponta dos dedos de fora e uma roupa de camuflagem, abafada com seu suor.

O que deveria fazer?

Fora mandado ali por um motivo. O mesmo motivo que lhe despertara adrenalina. Mas qual era?

Uma espécime que parecia um misto de borboleta com mariposa passou batendo asas próximas de seu pescoço, num voo rasante rápido e frenético.

Pousou em uma árvore próxima.

Ele se pôs a andar.

Cruzou a clareira que estava e adentrou pela vegetação cerrada.

Com as mãos ia abrindo espaço para passar. Caminhou pelo que pareceu uma hora, angustiadamente esverdeada; até que encontrou, no chão, demarcações como uma estrada. Correndo em paralelo a ela, uma fileira de árvores com troncos mais magros, permitindo vislumbres do horizonte ao fundo.

Mar e céu fundiam-se sem emenda, e no espaço luminosamente ensolarado, velas tostadas das barcaças deslizavam na água em grupos vermelhos, de lona em picos, salpicados com brilhos amarelos. Havia névoa, também, repousando próximo a margem das águas com a terra, perto do princípio daquela floresta.

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