Prólogo

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Era um dia belo, até mesmo para morrer.

Trancou o estabelecimento. No chão ela desenhou, com seu próprio sangue, um pentagrama, e dentro escreveu, também a sangue, uma saudação ao demônio que assombrava seus sonhos: grande Vosargnys (o nome era completamente estranho, mas tentou escrevê-lo da forma como ouvira). Arrumou também cuidadosamente as cadeiras para que a cena fosse perfeita: uma luta? Uma tentativa de salvar a própria vida de um suposto assassino? Fosse o que fosse, sabia que a polícia teria suas conclusões, enquanto a Guarda de Apolo teria outras. Arrastou seus sapatos pelo chão, quebrou garrafas de bebidas, mas ela não estava satisfeita; começou a rasgar as próprias vestes, bateu sua cabeça no pilar de madeira até sair sangue, e então finalmente avançou para o momento crucial daquele dia...

A sua morte.

Hanna Wright se deitou no chão do local com a faca em mãos, lacrimejando por tudo aquilo que estava deixando: sua família. A última informação que sua filha teria de si era de uma mulher que foi violentamente assassinada em seu trabalho. Seu marido, que teria de carregar o ardor de olhar para a esposa jazendo no chão sem vida, como iria confortar o coração da pobre menina? Julie tinha apenas sete anos. Como se diz a uma criança que a pessoa que esteve ao seu lado ao longo de toda sua vida, da noite para o dia nunca mais voltaria?

Tudo por um bem maior.

Dias atrás, em uma Séance, descobriu que não havia outro jeito de contornar aquele problema. A líder da tribo Coisicheans, a senhora Antsúil, fora bem clara na reunião:

"Não há arma neste mundo capaz de deter a escuridão que se aproxima. A escuridão só some quando se há luz, mas nosso mundo já não sustenta uma singela chama. O ódio no coração dos homens afastou os anjos".

Estavam sentadas em uma mesa redonda, com as mãos unidas e os olhos fechados, compartilhando energia para ter qualquer visão que auxiliasse naquela difícil tarefa: combater o Demônio que chegava a Aberdeen. Sua chegada fora anunciada, primeiramente, como uma nuvem escura que cobriria toda Aberdeenshire. Antsúil achou que seriam mais tempos de guerra, mas dias depois a visão tomou outra forma: um morcego imenso, cheio de sede por sangue. Na visão, a besta estava presa a correntes brancas que começavam a trincar.

"E se a escuridão for combatida com escuridão?" perguntou Hanna. "Estivemos tão centradas no sobre-mundo. Diga-me, por que não tentamos algo no submundo?".

"O submundo é o mais misterioso de todas as dimensões, senhora Wright, nunca houve sequer uma alma do Vale que tenha voltado de lá".

"Esqueça o Geena. E se alguém pudesse ir até lá fisicamente, como na minha visão?".

Antsúil largou sua mão. Quando Hanna abriu os olhos novamente, deparou-se com a velha a encarando seriamente.

"Criança... não brinque assim. Você nunca viu uma alma atormentada de verdade, não queira descobrir".

"Os anjos não podem fazer nada. O Tratado de Apolo é claro".

Antsúil meneou a cabeça:

"Neste mundo, sim, mas não do Outro Lado".

Independente do que Antsúil achasse sobre aquelas ideias, Hanna tomara a decisão naquele mesmo dia, mas não a dissera. Já andava preparando a ocasião havia um bom tempo. Tudo o que precisava era de uma pessoa forte o suficiente para atravessar o Vale, alguém que entendesse o perigo e ainda assim desejasse se sacrificar pela humanidade. Mas quem?! Esta era a dúvida que Hanna foi tentando tratar ao longo daquele ano.

Apenas três meses atrás ela encontrara a resposta, quando menos esperava.

Era uma meia noite. Christian e Julie dormiam. Hanna levantou da cama, andou calmamente a fim de evitar os ruídos do piso de madeira, e então foi em direção ao quintal. Entre os tijolos que sustentavam a casa, encontrara um buraco enquanto passava por ali outrora, onde logo pensou ser o lugar perfeito para esconder seus pertences. Andou em direção ao seu esconderijo, e dali retirou a sua joia mais preciosa: o talismã transparente. O talismã nada mais era do que uma placa pequena, fina e redonda, adornada em um arco dourado cheio de símbolos dos quais Hanna só reconhecia um: Apolo. Todos representavam anjos, mas nunca, nem mesmo com a ajuda de Antsúil, descobrira a quais anjos exatamente os outros símbolos se referiam.

Hanna levou o objeto até o porão da casa, onde acendeu três velas e se sentou no chão, segurando firmemente a relíquia. Com a lua alinhada e com a energia do talismã, abriu seus olhos para o futuro. Costumava ver a mesma coisa que Antsúil relatava, mas naquele momento foi diferente: estava vendo um homem caucasiano de olhos castanhos escuros, cabelo curto e barba rala, dirigindo um veículo de noite. Ao passar por um cruzamento, outro veículo vinha e se chocava contra o carro do rapaz. A visão a levou depois para um momento em que mostrava ela retirando a própria vida, e depois se encontrando com o sujeito no Geena.

E então uma cena completamente chocante: o sujeito enfrentando a escuridão... com escuridão.

As informações passavam rápido demais, e o pensamento de Hanna ia mais rápido ainda. Suas hipóteses sobre o que supostamente estava vendo iam e vinham, reformulando-se a cada nova cena.

"É a nossa única chance!" ouviu ela mesma dizer.

A visão então escureceu, mostrando novamente a mesma coisa de antes: um morcego em meio à escuridão. Hanna abriu os olhos, com o coração saltando, entendendo por fim o que deveria fazer.

Na manhã seguinte contou a Antsúil o ocorrido. A velha não mostrou espanto, e encarava Hanna com um olhar firme de curiosidade. Quando Hanna terminou o relato, Antsúil ficou em silêncio, processando as informações. A velha se levantou, andou em direção a uma janela próxima, de costas para si. Ali então ela disse:

"Apolo trabalha de maneiras misteriosas... Sabemos que a pedra que tem em mãos irradia uma energia etérea. É possível que uma das entidades tenha, propositalmente, feito você ver o que viu, Hanna. Mas não seja inocente achando que esta seria Apolo. Há várias formas de interpretar o que você viu, quais delas você escolheu?".

"A que eu testemunhei".

Antsúil virou para si:

"Os anjos observam, Hanna...".

Sim, eles observam. E eles testemunhariam a sua luta.

Naquele dia, naquele estabelecimento, Hanna Wright tiraria a própria vida para salvar milhares de outras...

Assim como na sua visão.

Cravou a faca diretamente no coração. Gritou, mas logo aceitou a dor. Fechou os olhos, sentindo os calafrios pelo corpo. Tudo começava a girar... girar... e então finalmente veio o grande apagão.

Quando abriu os olhos novamente, desta vez como um espírito, viu o ambiente recheado de policiais. Estava então no Geena, o Vale das Almas. O mundo era o mesmo, porém invertido: a porta do estabelecimento, que antes ficava na direita, agora estava na esquerda. O relógio girava em sentido anti-horário. Todo o mundo era visto de forma espelhada.

Levantou-se, abandonando o corpo no chão. Procurou por um rosto familiar, mas nenhum daqueles policiais que a cercavam se parecia com qualquer membro da Guarda de Apolo que conhecia. Certamente os guardiões já estavam a caminho, curiosos quanto ao porquê o nome de Vosargnys aparecera por ali.

A porta do estabelecimento então se abriu com um estrondo. Era Christian. Seus olhos já estavam vermelhos, com a cara completamente molhada. Ele andou calmamente em direção a seu corpo.

"Senhor, por favor se identifique!" um guarda o impediu.

"Eu sou... eu sou... ela é minha mulher" sua voz era trêmula.

"Ah, sim..." o guarda se virou para encarar o corpo, e depois voltou a encarar Christian. "Por que não espera lá fora, senhor? Por agora não podemos deixá-lo..." e Christian continuou a avançar, calmamente.

Curiosamente, o guarda não o impediu.

E então parou frente ao corpo, onde ficou de joelhos e as lágrimas começaram a sair.

"Meu amor... Não, não, não!".

Um guarda colocou uma mão em seu ombro:

"Senhor, há sinais de luta. Sabe de alguém que poderia ter feito isso?".

Christian o ignorou. Acariciou os cabelos de Hanna, deixando algumas lágrimas caírem no rosto pálido. Ele aproximou seu rosto e deu um beijo em sua testa.

Era possível um espírito chorar?

Você acreditaria se eu lhe dissesse que Hanna ainda assim sentiu seu coração desmanchando em tristeza?

Ela sentiu todas aquelas dores, vivas como se ela ainda fosse de carne...

Ficou do lado de Christian, chorando consigo.

Do Outro LadoTempat cerita menjadi hidup. Temukan sekarang