Capítulo I - A vítima perfeita

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1-Parte


No dia 22 de outubro de 2000, Joana desembarcou no aeroporto de Lisboa, em Portugal, juntamente com o seu filho de apenas 5 anos. Fazia muito frio naquele dia e Joana não estava preparada para um inverno tão intenso. No entanto, resolveu logo o problema: vestiu dois casacos a si própria e outros dois ao filho. Arrastando as duas malas, atravessou toda a zona de desembarque do aeroporto até chegar perto da irmã e da cunhada, que estavam do outro lado à sua espera. Já ali se encontravam há, pelo menos, 4 horas, uma vez que o voo se tinha atrasado em Amesterdão.Ao encontrar-se com a irmã, Joana respirou de alívio. A partir daquele momento sentia-se mais segura. Tinha receio que lhe acontecesse algo e, pelo facto de estar sozinha com o filho, temia que a criança fosse parar a uma instituição qualquer, com pessoas estranhas, num país desconhecido. Isso seria devastador para uma criança que sempre tivera a mãe por perto.Desde que Joana decidira ter o filho, mudou toda a sua vida e passou a viver em função daquela criança. Já não saía à noite, o que antes era habitual, e até deixou de fazer o que mais adorava na vida: dançar. Em tudo o que fazia, ele era o seu primeiro pensamento e a sua maior fonte de preocupação. Joana tinha medo que o pai da criança aparecesse e o levasse, tal como havia prometido.Naquela época, em Portugal, os estrangeiros não entravam no país sem apresentarem uma morada onde ficar e dinheiro para se manterem durante a estadia, caso entrassem como turistas. Esse foi o caso de Joana que, apesar de ser filha de um português, ainda não tinha os documentos que o comprovassem, pois decidira obtê-los em Portugal por ser mais barato do que no Brasil.Como qualquer pessoa que chega de viagem, Joana tinha muitas coisas para contar à irmã. Contudo, antes de mais, precisava de um banho para si e para o filho, pois ambos estavam exaustos por terem viajado durante 12 horas, com várias escalas. Depois de dar banho ao filho, Joana preparou algo para o menino comer e deitou-o no quarto para descansar.
— Agora descansa, filho — disse ela —, que a mãe vai tomar um duche e comer qualquer coisa.Quando Joana saiu do banho, encontrou o filho a dormir com os auscultadores nos ouvidos. Já era um hábito: ele só adormecia com música. Joana tinha mantido esse costume desde a gravidez, altura em que colocava os auscultadores na barriga para que o filho adormecesse ao som de uma boa melodia. Eram sempre músicas diferentes para que ele, quando nascesse, ganhasse bom gosto musical. 

E assim estava a crescer, com um grande apreço pela música, tanto que Joana perdia horas do seu tempo a escolher as melhores faixas para o filho ouvir. Escolhia temas de vários compositores, desde a música clássica à bossa nova, com sons calmos e intrigantes. Joana retirou delicadamente os auscultadores dos ouvidos da criança, cobriu-a com uma manta, deu-lhe um beijo e saiu do quarto. Dirigiu-se à sala, onde a irmã e a cunhada aguardavam, curiosas e ansiosas por saber as novidades vindas do Brasil.Cristina era o nome da irmã de Joana. Era uma mulher com 1,75 m de altura, bonita e inteligente que, na sua juventude, partira muitos corações no meio LGBT. Já vivia com Renata, a sua companheira, há pelo menos 7 anos, mas a convivencia não era fácil. Essa situação fez com que Joana tivesse a certeza de que ficaria a viver com elas apenas o tempo estritamente necessário, até encontrar um trabalho e alugar um apartamento para si e para o filho. A prioridade de Joana era ter um lar pacífico, onde pudesse criar o filho como achava correto. 
— Nenhuma criança deve crescer em ambientes conturbados — dizia Joana, Joana adorava a irmã, mas sabia que viver naquela casa por muito tempo traria problemas e não queria traumas  para o filho, e isso, para ela, era impensável. Assim, na primeira semana em Portugal, preparou o seu currículo e saiu para o entregar em cafés, pastelarias e onde quer que houvesse uma oportunidade de emprego. 

Mas não era tão fácil como parecia. Os homens olhavam-na como um pedaço de carne e as mulheres observavam-na com desprezo. Porém, isso não a intimidava; pelo contrário, dava-lhe mais força para continuar. No início, Joana não percebia por que razão os homens portugueses tinham uma espécie de fetiche por brasileiras. Mais tarde, ao conhecer melhor as pessoas, descobriu que o fenómeno se devia a uma telenovela que tinha parado o país: Gabriela, protagonizada pela atriz Sónia Braga, cujo último episódio paralisara Portugal inteiro.O primeiro trabalho de Joana em Portugal foi numa pastelaria, naquela época, o escudo estava em fase de transição para o euro e Joana precisava de conhecer não só a moeda, mas também o povo português, os seus gostos e tradições. 

Um emprego numa pastelaria seria ideal para aquele momento, pois permitir-lhe-ia estar no meio dos habitantes locais e familiarizar-se rapidamente com os seus costumes. A pastelaria era um ponto de referência para os reformados daquela freguesia, que ali se juntavam para tomar o pequeno-almoço e acabavam por ficar a jogar às cartas durante toda a manhã. O trabalho de Joana consistia em fazer com que os clientes consumissem, o que se tornava fácil para ela: além de jovem e bonita, era brasileira e, como mencionado, para muitos daqueles senhores representava uma "conquista fácil". 

Uma mulher imigrante, jovem, com um filho e sozinha.Logo no primeiro mês de trabalho, Joana conversou com a sua patroa, que lhe alugou um apartamento herdado da mãe e que estava desocupado. Para Joana, esse foi um grande passo no início da sua nova vida. Morar sozinha com o filho era o seu principal objetivo e, assim que pôde, mudou-se da casa da irmã.

A partir daquele dia, a rotina tornou-se mais exigente, pois já não contava com o apoio da irmã para tomar conta do filho enquanto trabalhava. Joana teve de encontrar soluções e foi o que fez: procurou um ATL (Atividades de Tempos Livres), matriculou o filho e, no dia seguinte, passou a deixá-lo lá diariamente antes de ir para o emprego. O menino entrava às 07h30 e saía às 19h30, o que dava a Joana o dia inteiro para trabalhar sem preocupações, visto ter excelentes referências daquela instituição.

Na pastelaria, Joana travou conhecimento com muitas pessoas. Algumas, ao saberem que ela tinha uma casa mas não tinha como a mobilar, dispuseram-se a ajudar com móveis, mantas e utensílios domésticos. Assim, nos primeiros seis meses em Portugal, Joana já acumulava dois empregos e morava sozinha com o filho.

Tudo começava a alinhar-se na sua vida. Já tinha o mobiliário e o essencial para viver com dignidade — algumas coisas compradas por si, outras oferecidas. Até que, um dia, a patroa foi de férias com o marido, deixando Joana e as suas duas filhas encarregues da pastelaria. As meninas adoravam Joana, pois esta era meiga e carinhosa com elas, ao contrário da mãe, que as tratava com desprezo e azedume, como se as culpasse pela sua própria infelicidade. As férias da senhora durariam duas semanas e as jovens ficaram com a responsabilidade de cuidar da casa, dos animais e do negócio, juntamente com Joana. 

As duas raparigas eram fruto de um casamento marcado pela violência doméstica. A mãe tornara-se uma mulher amarga e ferida, que não conseguira superar a separação do ex-marido, mesmo já vivendo com outro homem. Apesar de crescerem num ambiente pouco saudável, as meninas eram meigas e só queriam que a mãe fosse mais afetuosa. Foi isso que as aproximou de Joana, que passou a tratá-las com carinho e dedicação. Apesar da tenra idade — a mais velha tinha 13 anos e a mais nova apenas 8 —, a mãe sobrecarregava-as com muitas responsabilidades além dos estudos.

Foi então que, num determinado dia, um cliente se aproximou do balcão e disse a Joana que queria o seu número de telemóvel. Joana, muito surpreendida com a audácia, ponderou rapidamente como haveria de responder sem ser rude, mas mantendo a firmeza necessária.

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