Capítulo um

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Trabalhar ao som de gritos é frustrante, mas normal, acho que todos nos adaptamos a isso, como não iriamos? Desde que nasci me lembro dos gritos, todos os dias, minha vida é feita deles, não faço ideia do que seja uma vida sem a guerra, e muitos a vivem como eu. O Dois é o que sempre foi, com guerra ou sem, um número rebaixado e pobre, onde as pessoas se quer tem dinheiro para boas casas. O que dificulta a construção aqui, são as incríveis lendas que o clã insiste em passar adiante, geração apos geração, as casas são construídas em arvores altas, bem longe do chão, onde a noite criaturas terríveis podem vagar. Não é só o clã Deosari que mantém lendas como essa, foi o primeiro a ser fundado, mas certamente não será o ultimo. Antes da fundação do clã, a vida era pior, o Dezenove mal liga para os números baixos e nossa população mal chegava a uma boa idade, pois morriam de fome, frio ou problemas com a saúde. Éramos obrigados a ficar dentro do muro e não sair nunca, foi então quando meu ancestral, junto de seu melhor amigo decidiu que bastava de sofrimento, e então, como bons lideres eles começaram a subir o muro e se aventurar no que estava do outro lado. Existem duas terras no reino de Kaltain, as que ficam dentro dos muros e são declaradas como território da coroa, e tem as que ficam depois dos muros, Nonslanding, o território de ninguém, o qual é estritamente proibido. Não tem como fazer viagens entre os números, isso é proibido para quase todos, a exceção dos guardas e membros da corte, mas como e de se imaginar, a comida recebida do dezenove e a que é plantada no Dois não é o suficiente para a população, o que piora nos meses de congelados, é ai que eu entro, como sou descendente do líder fundador, é meu dever passar do muro e trazer comida para todas as famílias. Percebi hoje que a maior parte dos suplementos que trouxemos a três dias já foi consumido, então só pode se esperar que hoje é dia de caça.

Durante o meu expediente na sapataria passei um bilhete por um corvo para que Damien e Alec saibam o que nos esperava essa noite. Quando comecei a caminhar para casa outra catastrófica seção de gritos começou a invadir os ouvidos de todos, e quando passei pela praça tentei me conter ao olhar, mas a semelhante voz não me deixou passar reto, Kaleb, quatorze anos, terceiro filho da família Ounter, ele me olhou durante o intervalo de umas das chibatadas e eu pude ver sua alma, nada é pior do que uma líder que não pode fazer nada.

- Graças aos deuses você chegou. - Mamãe falou ainda quando eu subia a escada vertical que dava ate nossa casa. - As crianças estão com tanto medo.

-Onde eles estão? - Perguntei quando cheguei ao pequeno deck suspenso entre os galhos.

-Onde sempre vão. - Ela suspirou e me abraçou.

-É o filho do meio de Judith, acho que a Senhora deve ir ate a casa deles amanhã. - Minha mãe é amada por todo o clã, ela faz o que eu não consigo fazer, vai ate as casas e conforta aqueles que sofrem demais.

-Ah coitada daquela mulher, perdeu o marido para os postes e corre o risco de perder os filhos. - Ela então me soltou. - Nossa família tem sorte, essa casa inteira para cinco, imagine se fossemos como ela, com uma casa igual para nove, que os deuses tenham piedade e um dia nos salvem.

-Os deuses não são seres piedosos mamãe.

-Foram piedosos com você. - A lenda sobre a menina dos olhos cor de rosas corre todos os números, chega ate mesmo no dezenove, onde poucos acreditam, mas quando paro pra pensar, sei que os guardas se esquivam da minha família por medo do que pode acontecer se eles mexerem com a obra de um deus e uma deusa, se eles não acreditassem em nada do que falamos certamente que iriam passar dos muros. - Vamos entrar, logo não poderemos mais sair. - O toque de recolher é rigoroso a luz do sol, e não se pode circular nas ruas quando a luz se vai, mas sempre achei que na verdade, é o medo dos guardas em derivação das lendas que escutaram. Subi a escada do sótão com leveza assim que os gritos pararam, meus irmãos mais novos costumam se esconder no canto mais longe da janela, e James protege Lucy com seus braços envoltos a ela.

Nonslanding - A terra de ninguém Stories to obsess over. Discover now