Despertei naquela cama enorme com os olhos vidrados no teto branco do quarto. As lembranças da noite anterior voltavam à minha mente repetidamente, como se eu estivesse assistindo a um filme. Era difícil acreditar que aquela história era, na verdade, a minha própria vida.
Vesti o vestido branco de seda que modelava meu corpo. Ele havia comprado aquela peça especialmente para aquele dia e, só de saber que tinha sido escolhida por ele, meu estômago revirava de nojo.
Fechei os olhos por um instante e respirei fundo. Não podia fraquejar. Aquela era a minha única oportunidade de escapar das garras de Kaleu.
Saí do quarto já pronta para ir à festa, embora minha mente estivesse longe de estar preparada. Caminhei lentamente até a escada e comecei a descer, mantendo uma das mãos firmes sobre o corrimão, como se aquele pedaço de madeira pudesse me oferecer algum apoio emocional. No fundo, eu sabia que não havia ninguém para me amparar.
Enquanto descia os degraus, uma lembrança me atingiu. Meu irmão mais velho, Thomás.
Ele sempre caminhava por aquela escada com a postura impecável e um sorriso capaz de encantar qualquer mulher. Era exatamente o herdeiro que meus pais sempre desejaram. Inteligente, calculista e assustadoramente perspicaz, parecia prever os acontecimentos antes mesmo de eles acontecerem.
Seu poder mágico era aterrador, mas sua personalidade era ainda pior. Thomás era tão falso e podre quanto qualquer outro membro daquela família. Nunca demonstrou vergonha, culpa ou piedade por ninguém.
Agora, porém, ele estava morto. Assim como meus pais. Assim como meu irmão do meio. Todos enterrados a sete metros abaixo da terra. Tudo aquilo havia sido obra de Kaleu.
O garoto que um dia entrou naquela casa como filho adotivo acabou tomando tudo para si. Embora não tivesse o sangue da família Endrew correndo em suas veias, bastaram alguns documentos e assinaturas para transformá-lo oficialmente em herdeiro. Eu sequer participei desse processo, mas, de alguma forma, minha assinatura também estava naqueles papéis.
Todos conheciam a verdade. Kaleu matou minha família por vingança. E, por algum motivo, decidiu me manter viva. Alguns chamariam isso de sorte. Eu chamava de condenação. Atravessei as portas da mansão e entrei no carro de luxo que me aguardava. Assim que me sentei, permaneci olhando pela janela enquanto as luzes da cidade passavam diante dos meus olhos. Meu coração doía tanto que respirar parecia um esforço.
Eu só queria me libertar. Só queria que tudo aquilo acabasse. As lágrimas ameaçaram cair, mas as engoli junto com toda a dor. Ainda não era o momento de desmoronar. Eu precisava suportar mais um pouco. Precisava continuar fingindo até encontrar a oportunidade perfeita para conquistar minha liberdade.
O trajeto pareceu curto demais. Talvez porque eu não quisesse chegar. Talvez porque, assim que colocasse os pés naquela festa, voltaria a interpretar meu papel favorito diante de todos: a boneca perfeita. Aquela que sorria, acenava e dizia que estava feliz, mesmo quando sua alma gritava em silêncio.
Assim que o carro parou, a porta foi aberta. Os holofotes me atingiram imediatamente. As câmeras se voltaram para mim como predadores atraídos por uma presa.
Levei a mão até os olhos para amenizar o brilho intenso e saí do veículo. Meus saltos tocaram o velho tapete vermelho que levava até a entrada da festa beneficente organizada em meu nome.
Meu nome começou a ecoar de todos os lados: fotógrafos, jornalistas, convidados. Todos queriam um pedaço daquela mentira.
Ignorei cada um deles e continuei caminhando. No instante em que atravessei as portas do salão, senti centenas de olhares recaindo sobre mim. Meu corpo inteiro enrijeceu.
Então eu o vi. Vestindo um terno impecável, Kaleu caminhava em minha direção com a mesma tranquilidade de sempre. Seu sorriso era gentil o suficiente para enganar qualquer pessoa. Menos a mim.
Ele estendeu o braço em minha direção e eu aceitei. No momento em que segurei seu braço, uma onda de repulsa percorreu meu corpo. Meu estômago embrulhou e um arrepio subiu lentamente por minha espinha, como se uma doença estivesse se espalhando sob minha pele.
Mesmo assim, sorri. Era isso que ele esperava de mim. Kaleu me puxou delicadamente para perto. O gesto parecia carinhoso aos olhos de qualquer um que estivesse observando, mas, para mim, era apenas mais uma demonstração de posse.
Nossos corpos se tocaram. Seu perfume invadiu meu espaço e precisei reunir todas as minhas forças para não empurrá-lo para longe.
Então ele inclinou a cabeça. Por um segundo pensei que fosse me beijar. Em vez disso, seus lábios se aproximaram da minha orelha. Sua voz saiu baixa, calma... quase carinhosa.
— Você realmente acha que pode me enganar? Isabel... você me pertence.
Meu corpo inteiro gelou. Ele sabia?
Ou, pelo menos, desconfiava. Todo aquele teatro, todos os sorrisos e toda a submissão não passavam de uma tentativa desesperada de encontrar uma brecha para fugir.
Respirei fundo e obriguei meu rosto a continuar sorrindo. Se demonstrasse medo, perderia. Então olhei para ele e pronunciei a maior mentira da minha vida.
— Eu sei disso.
As palavras saíram suaves, mas minha consciência pesou imediatamente. Eu conhecia Kaleu melhor do que qualquer outra pessoa.
Sabia que ele não tinha limites. E sabia que um único erro meu seria suficiente para transformar aquele inferno em algo ainda pior.
BẠN ĐANG ĐỌC
A vingança
Lãng mạnIsabel Endrew é a filha mais nova de uma família rica, mas sua família é tão podre quanto um esgoto a céu aberto. Ainda assim, todos diziam que ela não se parecia em nada com eles. Tudo mudou quando Kaleu Astrid entrou para a família como filho adot...
