O sol raiou e logo o dia começou na vila de Sooga. Uma garota, com cabelo preto longo e solto, levantou de sua cama após um confortável sono. Depois de um bocejo, ela se espreguiçou e foi tomar seu banho, mas não antes de beijar um retrato no criado mudo dela, contendo a foto de um ninja muito especial. A mulher se banhou, escovou os dentes e se arrumou da maneira mais conhecida: Com seu vestido vermelho e seus coques duplos. Ela estava prestes a fazer 19 anos, mas mantinha o mesmo visual, e também a mesma personalidade, sempre correndo atrás de Garu, seu grande amor. Já se sentindo animada logo pela manhã, abriu as portas de seu quarto e desceu escada abaixo, não demorando para ser avistada pelo seu tio Ho.
— Bom dia Pucca, já de pé logo cedo? — Disse o homem alegremente, sendo retribuído por um sorriso de Pucca. Logo outro homem saiu da cozinha segurando um prato de macarrão e se aproximou.
— Bom dia Pucca, os pedidos ainda não estão prontos, coma algo primeiro e se prepare para as entregas! — Tio Dumpling disse sorrindo, entregando uma tigela de macarrão para a sobrinha. Pucca apenas segurou a refeição e ficou encarando o tio, que não demorou para entender o que ela queria saber — Sim, Garu já fez o pedido da manhã.
O sorriso da garota dobrou de tamanho e ela se sentou para comer. Quando terminou, entrou na cozinha para pegar os pedidos já prontos e correu para sua moto. Ela estava ansiosa para ver seu amor! Como sempre, deixaria a entrega de Garu por último para ter mais tempo com ele. Colocou o capacete e sem demora começou com as entregas. Alguns minutos depois, a garota dirigia em alta velocidade para a casa do certo ninja, e o encontrou meditando. Ela queria fazer uma surpresa, mas deveria priorizar primeiro o trabalho. Por sorte, a porta da casa dele estava aberta.
Pucca entrou e deixou o pedido em cima da mesa. Pronto, entrega feita! Agora pode beijar e abraçar Garu! Ela então saiu rapidamente da casa, mas a paz anterior havia sido substituída por uma cena intensa de luta. Tobe estava lá. Ele atacava Garu com golpes fortes, 8 anos haviam se passado afinal, o homem teve muito tempo para treinar, e agora com seus quase 22 anos de experiência Tobe deixou de ser um vilão bobo e passou a ser uma verdadeira ameaça.
Tão cedo e Tobe já está incomodando Garu? Ele nunca vai se cansar de perder?
Pucca revirou os olhos. Ele estava atrapalhando um momento muito fofo de casal que estaria acontecendo agora. Bom, ela iria ajudar Garu a acabar com Tobe e ter tempo de sobra com seu amor, antes de voltar para seu trabalho.
Garu não precisava da ajuda de Pucca. Ele, sozinho, estava praticamente derrotando Tobe e seus ninjas, mas acabou se distraindo e iria receber um golpe do encapuzado por trás. Ele poderia desviar, sem problemas, no entanto a garota de coques fez um ataque surpresa e chutou o rosto do vilão com força, fazendo-o voar longe. Pucca sorriu e correu até Garu, dando um beijo em seus lábios. O garoto fez uma careta, sabendo que aquele era o pior momento para demonstrações de afeto, e se virou na direção que o seu inimigo tinha caído. Tobe estava de pé, com seus ninjas machucados ao redor dele.
— Como sempre, alguém precisou intervir. Você precisa dela para te salvar, não é, Garu? Precisou ontem, precisou hoje e precisará amanhã. Nunca terá honra se for derrotado sempre que sua namoradinha não estiver por perto. — O vilão riu e usou uma bomba de fumaça, ele e seus ninjas desaparecendo do local. Apesar de sua força, Tobe ainda não ousava enfrentar Pucca diretamente.
———
Honra? Quem Tobe pensa que é para ousar falar da minha honra?
Garu bufou irritado, chutando uma pequena pedra pela decepção. Ele queria se provar o suficiente, vencendo Tobe sozinho, mostrando que ele era forte o bastante para derrotar seu maior inimigo, mas Pucca sempre se metia onde não era chamada e vencia o vilão em seu lugar! Ele estava farto! Como poderia se provar merecedor? Para piorar, sem notar o estado chateado do ninja, a garota ainda o abraçou com força, beijando seu rosto sem parar, várias e várias vezes.
Garu, com muita dificuldade, se soltou do aperto dela. Seus olhos a analisaram por um instante, mas no fim, ele apenas os revirou e se virou, andando na direção da casa dele. Ele não estava bem, não queria lidar com Pucca naquele momento, ou poderia fazer algo que se arrependeria depois. O ninja estava cansado, só querendo ter paz e silêncio. Mio, seu gato, havia sumido, e Garu passou a noite o procurando, mas não achou. De manhã cedo derrubou café em si e teve que limpar tudo. Quando foi meditar para tentar melhorar, Tobe o atacou, e agora, para fechar com chave de ouro, teria que engolir tudo e aturar os grudes e beijos incessantes de Pucca? Não. Ele não merecia aquilo. Seu dia mal havia começado e já estava ruim o bastante.
Pucca percebeu que Garu não estava bem, e dessa vez, mais calma, se aproximou e o abraçou por trás, tentando transmitir conforto. Ela queria mostrar para ele que estava ali para apoiá-lo. Mas o ninja não entendeu, apenas interpretou aquilo como outra forma de forçá-lo, forçá-lo a estar com ela, forçá-lo a amá-la. Respirando fundo, ele tentou afastá-la, mas o aperto de Pucca estava mais firme, então precisou usar mais força para sair do abraço. Após um forte empurrão, ele obteve sucesso, sem querer derrubando a garota.
Seus olhos se arregalaram ao ouvir o som dela caindo. No entanto, antes que pudesse estender a mão para a ajudar, Pucca se levantou e limpou a sujeira em seu vestido, sorrindo docemente para Garu. Como sempre, não importava o que fizesse, ela permanecia lá. As vezes isso era benção, e as vezes uma maldição.
Seus olhos a checaram rapidamente em busca de qualquer ferida, e assim que teve certeza que sua amiga realmente estava bem, o homem se virou e voltou a andar na direção da casa, passando a mão pelos cabelos em um sinal claro de cansaço. Poucos passos depois, notou que Pucca já estava andando ao lado dele outra vez. Garu parou e suspirou, colocando a mão no ombro dela e apontando para a moto pertencente a mulher. Era como se dissesse para ela ir. Sorrindo e sem dar ouvidos a aquilo, ela segurou o braço dele e beijou sua bochecha, uma, duas, três vezes.
Notando que havia sido ignorado mais uma vez, e já sem paciência, Garu a afastou de si. Ele limpou o rosto, sabendo que ela não ouviria a menos que fosse direto. Então, ergueu suas mãos e começou a usar língua de sinais, o que normalmente evitava, por acreditar que era uma forma de "burlar" seu voto. Mas sempre existiam exceções, e essa era uma delas.
— "Pucca, já chega. Eu não estou com cabeça para suas demonstrações de afeto exageradas, só preciso de paz. Minha manhã começou ruim e você só está conseguindo piorá-la dessa forma. Não vê que quero um tempo sozinho? Um tempo sem abraços, beijos, assédio. Em resumo, preciso de um tempo sem você. Não consegue nem mesmo me deixar lutar sozinho, isso não é saudável! Já fazem mais de oito anos que te rejeito dia após dia, nunca vai aprender quando é hora de parar?"
O ninja fez questão de esclarecer parte do que estava sentindo, para fazê-la cair na real. Seu olhar de raiva e cansaço mostrava que não eram palavras da boca para fora, mas sim como se expusesse sentimentos guardados a muito tempo. Sem mais nenhuma palavra, o homem entrou em casa e fechou a porta, deixando Pucca sozinha ali.
Silêncio. Segundos se passaram sem que a garota movesse um músculo. Suas mãos se fecharam em punhos, seus olhos se umedecendo enquanto as palavras de Garu se repetiam várias e várias vezes em sua mente. Ele cansou mesmo dela? Ela causou isso? Uma dor cobriu o seu coração, e tudo o que fez foi caminhar até a moto ali estacionada. Em velocidade máxima, Pucca atravessava toda a vila, deixando um grande rastro de poeira para trás, a bagunça no ar se igualando a seus pensamentos rápidos. Quando chegou no restaurante, passou por todos e subiu até seu quarto, trancando a porta. Ela se sentou no chão ali mesmo, abraçando os joelhos e escondendo a cabeça entre os braços. O que tinha feito?
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Gestos também machucam - Garucca
ActionO impacto com o chão não foi nem perto a pior parte de sua dor. Os olhos cansados e frios em sua direção foi o que realmente a feriu, cada gesto feito enfiando outra faca em seu coração. Ser empurrada e afastada era absolutamente normal no seu cotid...
