MOONCHILD

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            O ardor em meus olhos se intensificava a medida que a brisa corria pelo meu rosto, jogando meus cabelos para trás. Eu corria e corria para o mais longe que podia e o mais rápido possível, me sentia a maior desgraçada já existente na face da terra. Em meus bolsos apenas meu telefone, fones de ouvido, alguns cigarros e isqueiro e por volta de dezesseis capitais, eu mesma arriscaria dizer que não havia como piorar.
Qual o motivo de tanta angústia?
Me sentia presa, calada, sozinha, angustiada eu fiquei em silêncio mas todos tem um limite, e eu sentia que estava lutando para conseguir um lugar que não era meu.
Tenho uma boa vida, se olhar de longe, acontece que todos temos nossos demônios, sejam eles mais amigáveis ou talvez mais raivosos. E houve um tempo em que eu acreditei que tais angustias vinham justamente para que nós possamos crescer mentalmente, nos fortalecer para quem sabe depois desta vida, em um outro planeta enfim consigamos a tão esperada e famosa utopia total, apesar de que eu concorde que para isto precisariamos de nos dividir em ao menos seis grupos para que não tenhamos conflito, a vida é complicada demais. Utopia para mim não é o mesmo que para você, qual o seu ideal perfeito?

          Cheguei ao campo, era o único lugar tranquilo diante aquela cidade tão caótica, e sequer se trata de uma cidade grande, Santa Madria se encontra no que vocês chamam de fim do mundo, eu mesma não me impressionaria de Deus escolhesse justamente esta maldita cidade para começar com o apocalipse, veja bem, quantos acontecimentos bizarros já aconteceram por aqui? Espiritualistas dizem que estamos em um ponto muito energético do mundo.
"Ohoho, nunca vimos nada parecido é quase próximo ao triângulo das bermudas, ohoho"

É o que dizem eles, mas francamente quem em pleno 1999 acreditaria em algo assim? Acho que somos apenas azarados mesmo, se é que isto de azar existe de alguma forma.
Retornando meus pensamentos ao campo, cheiroso por conta do vento que acaricia as flores, o pôr do sol abraça minha alma e então em meio as minhas lágrimas, eu sorri.
Acredito que deva mesmo ter uma coisa, algo cuidando de nós mas não acho que nos prive de algo, hoje sou cética sobre acreditar em algo além do que vejo, mas me parece burrice pensar assim de vez em quando.
Se existe algo ou alguém nos vigiando, que ao menos deixe-nos ser quem somos, nos divertir, fazer o que gostamos, se não ferirmos uns aos outros creio que não tenha nada para nos impedir, mas afinal o que eu sei? Sou apenas uma jovem confusa.

Observando o sol que estava prestes a se esconder, deixando alguns postes acesos ao longe, busquei meus fones de ouvido e meu celular, e fiz justamente o que eu precisava naquele momento, liguei o aleatório, aumentei o som ao máximo e então limpei minhas lágrimas, estava sozinha, então não tive vergonha de me deixar levar pela música, dancei por minutos até a falta de ar vir e então eu vir a cair sobre a grama molhada, que calhou bem ao meu corpo quente. Os meus olhos ficaram fechados enquanto eu tentava recuperar minha respiração, apenas escutando a música bater forte contra meus ouvidos e me dando bons arrepios, como se eu me envolvesse com ela, nos tornasse um só. Suspirei fundo e sabendo que se me mantesse daquela forma por mais alguns minutos eu acabaria dormindo, aos poucos abri meus olhos e me arrependi por te-los mantido fechados por tanto tempo, o céu estava estrelado, como eu nunca havia visto, era belíssimo, eu quase quis ser parte daquilo, mas se acontecesse eu não poderia admira-lo, e por pura sorte (outra vez, se é que isto existe) uma estrela cadente passou por mim, eu nunca havia visto uma em todos os meus dezoito anos, meus olhos brilharam por um instante e uma energia avassaladora mas muito boa tomou conta de mim, como se meus sentimentos ruins estivessem se esvaindo mesmo que por alguns segundos, sendo levados pela brisa que começava a se intensificar.
E então eu vi um rosto tão belo, não sei se foi fruto de minha imaginação fértil mas me pareceu tão real, foi por um mísero segundo mas eu vi e jamais poderia esquecer sua face desde então.
Depois daquele deslumbre emocionante eu fiquei mais um tempo observando o céu, presa dentre os espaços entre as estrelas, e parte de mim esperava ver aquela belíssima entidade, mas estava ficando tarde e eu precisava logo voltar para casa, não que eu fizesse questão mas, eu não queria piorar as coisas para meu lado.
Levantei-me com preguiça e quase me emocionei ao ouvir uma música que combinava tanto com aquele momento que precisei ficar mais um pouco, apenas até a música se findar, eu sorri uma última vez.

"Who cares if one more light goes out?
Well I do"

E então fui embora. E sobre a conversa anterior, eu sinto que ja tenho uma ideia da minha versão de utopia.
Me pergunto o que a belíssima entidade pensa sobre isto...
Por favor, estou curiosa me diga!


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⏰ Last updated: Feb 11, 2021 ⏰

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Canis MajorisWhere stories live. Discover now