O frio atinge minha pele com a força e a precisão de uma navalha bem afiada. Estou usando uma jaqueta de couro grossa por baixo da camisa branca de algodão e calças de moletom um pouco puídas, meias grossas por dentro das botinas e nas mãos tenho um cobertor de microfibra, mas o vento ainda sim encontra espaços desprotegidos onde se infiltrar e me causa arrepios profundos. Balanço a cabeça para afastar uma mecha de cabelo da testa e me aproximo da beirada do outdoor. Cassy já está ali, esperando por mim com uma expressão de felicidade, apesar de também estar visivelmente sofrendo com o frio. Não há muito o que possamos fazer. Os três metros de altura são ótimos atrativos para o clima ruim da madrugada, e as montanhas que cercam a Cidade Velha também não colaboram muito. Estamos em um freezer natural, com uma lua coberta por nuvens finas e cinzas que se espalham quilômetros à frente, até onde minha vista alcança. Imagino uma grande mão tocando pó de grafite com as pontas dos dedos e deslizando as marcas pelo céu. Gostaria de tirar uma foto, mas não tenho uma câmera comigo. Gravo a imagem em minha memória, como faço com tudo ao meu redor.
Abro o cobertor usando os braços como um morcego esticando suas asas e cubro Cassy com o material macio. Deveria ter pego algo mais grosso, como um edredom de lã, mas seria perigoso demais subir até aqui com tanto peso. Mal consegui me equilibrar nos degraus desgastados com a mochila que trouxe nas costas.
– A lua não estava assim no começo da noite. Não sei de onde essas nuvens vieram. – Cassy lamenta com uma doce tristeza em sua voz e fecha as pequena mãos nas bordas do cobertor, o aproximando mais de si. – Prefiro quando o céu está bem azul, sabe? Hoje nem vamos conseguir ver as estrelas.
Assinto com o mesmo pesar e dou uma breve olhada para baixo, para os três metros de vão entre nós e algo que um dia foi uma estrada, mas que agora não passa de uma vasta extensão de grama alta e pedaços de asfalto. Plantas selvagem saem por rachaduras do concreto, indomáveis e cheias de flores silvestres e raízes. Ao meu ver se parecem com mãos, escavando as profundezas e escapando do esconderijo que os homens criaram para elas. Algumas trepadeiras já começam a agarrar a estrutura do outdoor, engolindo a madeira e a escondendo por trás de uma grossa camada de verde-vivo. Talvez, em um ou dois anos, este não seja mais um lugar seguro para nós dois. Nem mesmo o mais firme dos alicerces pode competir com a força incansável da natureza.
– Você não parece muito bem. Aconteceu alguma coisa?
Abaixo o rosto em direção a Cassy e toco meus lábios com a ponta da língua, percebendo que ainda não participei da conversa ativamente. Às vezes meus pensamentos são tão claros, tão vívidos, que me esqueço que não podem ser ouvidos por outras pessoas além de mim. Sorrio fraco para ela como um pedido silencioso de desculpas e me sento ao seu lado. Coloco meus pés para fora da grande borda de madeira e os sinto flutuar, com nada além do vento ao seu redor. Daqui conseguimos ver toda a cidade, descansando iluminada entre paredes gigantescas de montanhas e bosques fechados. As casas desregulares sobem e descem pelas ruas de terra ou de concreto e uma música ecoa de algum lugar, provavelmente do bar do Guns ou de algum outro comércio noturno. Viro um pouco o rosto e me deparo com o rio, bem ao longe, tremeluzindo silencioso e coberto por neblina. É uma linda visão, uma das minhas favoritas.
E, ainda sim, preciso sair daqui o mais rápido possível.
– Vittore?
Outra vez acabei perdido no silêncio. Deus, hoje está difícil, Vittore. Dessa vez é Cassy quem vira meu rosto, posicionando seus dedos pequenos e um pouco calejados sobre meu maxilar e o conduzindo para a direita. Sorrio fraco para ela e ajeito o cobertor sobre seus ombros antes que o tecido despenque até lá em baixo.
– Desculpe. Estou um pouco distraído. – A expressão em seu rosto deixa claro que ela espera uma explicação um pouco mais detalhada. É curioso, penso, como ela me conhece bem apesar de eu nunca ter dito muita coisa sobre mim. – Harry e eu brigamos, mais tudo vai ficar bem.
Eu espero. Eu preciso.
– Brigaram? Por quê? O quê aconteceu? Eu não consigo imaginar vocês dois brigando.
Escolho muito bem minhas próximas palavras, penso sobre o efeito posterior que cada uma delas pode causar. O volume por baixo do vestido longo de Cassy já é perceptível, o bebê está crescendo rápido e está cada vez mais próximo de vir ao mundo. Eu nunca convivi com uma pessoa grávida, não de perto, mas sei que o estresse não faz bem – E estresse tem sido uma coisa recorrente nos últimos meses para Cassy. Há algum tempo ela tem se preocupado com a saúde do pai, que contrariando as recomendações médicas (o que incluí suas próprias indicações), não para de trabalhar. Depois veio a perda do Mike, a perspectiva de aprender a ser uma mãe sozinha... Não posso ser mais uma preocupação. Cassy ama Harry, apesar das duas estarem distantes ultimamente, e me ama também. Não quero que ela se sinta obrigada a escolher um lado. Não existem lados. Minha garganta queima com a necessidade de me desculpar com Harry, mas agora ela já está inalcançável. Gostaria de voltar no tempo para recuperar as palavras que disse. Ele não deveria ter efeitos tão desastrosos sobre mim, mas ainda não aprendi a controlar o que sua presença, seu nome ou a simples lembrança de sua existência fazem comigo. Me torno um estranho, um animal. É aterrador não saber como fazer isso parar.
– Vamos nos resolver, eu prometo. – Fico algum tempo em silêncio, pensando sobre as implicações da promessa que acabei de fazer. Quero acreditar que seja verdade, mas tenho medo de ter partido a estrutura já delicada que nos mantinha em pé. Não tive a intenção de colocá-la em uma situação em que precisaria escolher, mas talvez eu tenha feito isso. Não sei se, no final, vou ganhar o bilhete premiado ou um coração quebrado. Se eu deixar você ir, você voltará para mim?
Acaricio o tecido do moletom na parte que envolve meus joelhos, brinco com o objeto frio e pequeno dentro do meu bolso e, por fim, separo os lábios para completar o que quero dizer. Um pequeno latejar de preocupação toma conta da parte de trás dos meus olhos, mas isso não é algo que posso esconder por mais tempo. Amo esse lugar, amo essas pessoas, mas estou perdendo a cabeça. A briga de hoje com a mulher que eu amo só serviu para mostrar como estou me distanciando cada vez mais de mim mesmo. Isso não pode acontecer. O caminho que percorri até aqui foi sinuoso e difícil demais para ser percorrido outra vez. Se eu me perder, sei que ninguém poderá vir ao meu encontro.
Não sem antes passar pelo inferno.
– Eu preciso ir embora, Cass.
Assisto as expressões se alterando em seu rosto, como uma tela de tv enquanto alguém muda os canais. Primeiro os lábios se entreabrem em descrença, depois se fecham. Suas sobrancelhas se unem em um ponto baixo da testa e aos poucos retornam ao lugar, conforme ela processa o que acabei de dizer. Apenas uma coisa permanece estática em suas feições: o medo. Encontro a mão dela apoiada solitária contra a madeira e a cubro, tentando suavizar a escuridão carregada e úmida em seus olhos. Cassy vira um pouco o rosto, como se não fosse capaz de olhar para mim agora e, de repente, tudo em seu corpo parece prestes a de desfazer. Apressado acompanho seu olhar e percebo que ela viu minha mochila surrada, apoiada contra a escada que usamos para subir e descer do outdoor. Ela sabe porque aquilo está ali. Merda, eu não devia ter trazido isso aqui pra cima.
– Agora? Você está indo embora agora? Desde quando você sabe? Quanto tempo você demorou para me contar?
Sua voz... a dor é quase tangível, uma massa escura e áspera esmagando meus pulmões e dificultando minha respiração. O ar entre nós dois se torna pesado, rarefeito. Tenho uma súbita vontade de socar meu próprio rosto. Não consigo me livrar da sensação de estar sendo egoísta, de estar pensando apenas em mim mesmo. Você sempre faz o que é o melhor pra você. Não é isso o que Vincent sempre diz? Eu nunca acreditei nisso, nunca fui o tipo de pessoa que pensa apenas nos meus próprios interesses. Talvez eu esteja errado. Talvez a lágrima escorrendo pela bochecha da garota ao meu lado seja a maior prova disso.
– Decidi isso hoje, duas horas atrás. Mas venho pensando nisso há algum tempo. – Engulo em seco. Minha garganta arranha, como acontece quando bebo vodka pura. – Cassy, eu...
– Você o quê?! – A rispidez em sua voz me assusta, nunca a ouvi falar assim. Me preparo para continuar o que estava dizendo, mas ela me interrompe, em um tom ainda mais nervoso e agressivo. – Você não aguenta mais ficar perto de mim? Você não quer mais ser responsável por subir aqui todas as noites e aguentar meu choro? V-você está cansado de fazer o papel do M-Mike?!
Entreabro os lábios momentaneamente magoado, mas no fundo sei que não preciso me preocupar em negar as coisas que ela diz. Cassy não acredita em nada disso, nós dois sabemos. Seus lábios batem um contra o outro furiosamente, como se a tivessem jogado na neve ou na água congelante do rio sem um agasalho. A essa altura o cobertor já se tornou um casulo ao seu redor, a protegendo do mundo externo e das ameaças que ela não consegue enxergar. Deixo de lado as antigas barreiras que me impediam de nutrir um contato mais próximo com ela e a abraço, trazendo seu corpo para perto do meu. Só agora consigo sentir como está tremendo, seus joelhos e braços balançando como se tivessem vida própria. A aperto mais, esperando dar-lhe um pouco do meu calor corporal. Alguns bons minutos de passam mas, gradativamente, suas respirações se tornam mais lentas e constantes e o casulo de microfibra é, aos poucos, deixado de lado para virar apenas apenas um cobertor outra vez. Ela é a primeira a romper o silêncio.
– Me desculpe, não quis dizer nada disso. Eu não sei o que deu em mim. Papai diz que são os hormônios, mas eu não tenho certeza. Ultimamente eu só... Eu não tenho me sentido uma boa companhia.
Franzo as sobrancelhas, minha expressão adquirindo um tom de descrença. Nunca imaginei que ela se via dessa forma.
– O quê a faz pensar isso?
– Ora, eu não sou mais a Cassy, eu sou a garota que perdeu o namorado fatalmente e vai criar um bebê sozinha. E todos sabem sobre o papai também. Como poderiam não saber? Me sinto como se fosse uma tragédia ambulante. Quando eu chego as pessoas param de conversar e me olham com pena, o clima se torna pesado e estranho. Elas se preocupam comigo, todos se preocupam comigo. Isso é tudo o que fazem. Eu me sinto um peso. E então quando você e eu nos encontramos aqui em cima eu finalmente me sinto a Cassy de antes, é o único momento em que me sinto assim para dizer a verdade. Tem sido meu ponto alto nas últimas semanas. Mas agora... agora você vai embora. Não consigo deixar de sentir que a culpa é minha.
Suas palavras saem rápidas e embaralhadas, um discurso pouco nítido e guiado pelo desespero. Olho para a garota à minha frente por um longo instante, catalogando suas feições e movimentos como um crítico de arte analisando uma nova obra. É o mesmo rosto delicado e travesso, os mesmos olhos grandes e os mesmos cachos rebeldes caindo para todos os lados. Os mesmos olhos castanhos decorados com cílios finos e comprido. Mas ela tem razão, de alguma maneira se parece com uma pessoa completamente diferente. Talvez sejam os sulcos de preocupação em sua testa, ou a palidez em suas bochechas e em suas íris antes brilhantes. A vida encontrou alguma brecha e escapa por ela, como as raízes que saem do concreto lá embaixo.
Ergo minha mão grande e bruta e toco um pequeno tremor em sua têmpora esquerda. Gostaria de poder afastar suas preocupações, mandá-las para algum lugar distante e escuro onde que não poderiam ser vistas, nem alcançadas. Não esperava encontrar amizade quando vim parar aqui, naquela primeira noite cheia de estrelas salpicadas por um céu vasto e limpo, como há muito não via. E, ainda sim, aqui estou eu, muitos meses depois, sofrendo por não conseguir restaurar um coração amigo. Não a deixe queimar.
Cassy ergue os olhos, se movimenta sobre a madeira e o cobertor cai de suas mãos e rodopia pelo ar. O vento violento o golpeia para um lado e para o outro e o leva para longe, para além da nossa visão. Me faz lembrar de uma folha no outono, leve e fácil de ser carregada para longe. O quê é melhor? Desaparecer no horizonte ou parar em uma pilha de dezenas de outras folhas caídas, como você?
Outra vez perdido em meu próprio fluxo de pensamentos não percebo como ela está próxima até sentir sua respiração em meu pescoço, como pequeninos dedos acariciando minha pele curiosamente. Seus joelhos tocam os meus e ela se inclina, tomada por uma determinação que parece ter surgido de repente. Mãos agarram minha jaqueta, o vento golpeia meu rosto impiedosamente. Um furioso instante de pura lucidez me atinge e sei o que virá a seguir, mas não tenho tempo de me afastar, tudo acontece rápido demais. Mal consigo soltar uma última respiração antes que aconteça. Pareço estar em outro lugar, assistindo a cena de longe, incrédulo com a sequência de acontecimentos. Mas não estou. Sou um participante, o calor e a umidade dos lábios dela são a prova viva.
Cassy me beija.
