Pedro Paulo acordou uma hora antes do despertador tocar. Como sempre.
Ficou na cama sentindo calor, buscando ar. A cama de casal era grande demais para ele se sentir confortável, preferia estar em um local pequeno. Queria estar coberto por todos os lados, em busca de uma proteção que ele mesmo sabia ser em vão. Nada poderia protegê-lo, a luta era só dele.
Assim ficou durante uma hora. Quando o despertador do celular tocou, ele já estava olhando para ele. Sentiu saudade dos dias em que usava três vezes o recurso da soneca para dormir mais, sentiu saudade de ter que sair correndo de casa, chegar alguns minutos atrasado no serviço, mas não se importava. Só que agora ele tinha uma obrigação de fazer tudo certo. Era o primeiro a chegar em qualquer compromisso, estava sempre pontual como se ele fosse um trem alemão, mas ele era brasileiro e aqui todo mundo está sempre atrasado e isso não é um erro. O errado era ele de estar fora de um ritmo que ele foi acostumado durante toda sua vida.
Eram exatamente 07h00, mas não era a hora de ir trabalhar ou estudar. Era a hora de tomar o remédio.
Caminhou firmemente até a cozinha e tomou uma pílula. Pensou a mesma coisa que pensava sempre.
Ainda não fiz 30 anos e estou tomando remédio para depressão. Isso não é normal
Bebeu um copo de água a mais e foi para a frente da televisão. Demoraria até o remédio fazer efeito, pelo menos uma hora, e até lá ele sabia que precisaria ter paciência. A crise viria, a certeza era grande, pois a ansiedade dele em esperar pela crise era o que criava a própria crise. O mais engraçado para ele era que o fato de saber o que aconteceria não ajudava em nada.
A crise veio forte. Uma sensação de tontura, mesmo estando sentado no sofá, as mãos ficavam frias e depois dormentes. Era só o início.
Levantou-se e arrumou os controles no sofá. Um ao lado do outro, o menor sempre à esquerda. Exercitar o seu TOC não ajudava, mas ele fazia mesmo assim. Andou pela casa organizando tudo à sua maneira, coisas que ele sabia serem bobas, como a perpendicularidade dos tapetes em relação às portas, a ordem de cores dos pregadores de roupa no varal e etc.
A parte pior da crise veio em seguida. A falta de ar.
Não era como ter alguém te sufocando, não era como estar em um lugar sem oxigênio. Simplesmente, Pedro Paulo parecia ter esquecido como respirar. Puxava o ar, ele entrava pelo seu nariz, mas, mesmo assim, se sentia sufocado e sua respiração ia acelerando junto com seu coração.
E por fim, tudo acontecia ao mesmo tempo e era sempre nesse final que ele pensava pedir socorro. Ligar para o SAMU. Mas teve força de vontade e esperou passar. Tirou todas suas roupas e correu para o banheiro. Ali ficou por quarenta minutos deixando a água cair sobre ele. Não chorava, mas queria. Imaginava que a ansiedade poderia ser expulsa dele com um choro digno de uma cena de novela mexicana. Mas não conseguiu criar lágrimas.
Começou a se preocupar com o gasto de água e energia. Estava afastado pelo INSS e recebia um salário mínimo, exatos 1045 reais. Não dava para nada. A prestação de seu apartamento levava metade desse valor, as compras do mês, a outra metade.
Todo dia decidia que, na próxima consulta com o médico, diria estar bem e voltaria para o trabalho. Mas as crises só pioravam. Tinha medo de ter uma daquelas crises no meio do serviço, quando corria atrás do caminhão com um saco de lixo na mão. Ficaria para trás, se tornaria a chacota nos vestiários da empresa. O que ele imaginava que já acontecia:
— Pedro ficou doido — diria um deles.
Outro completaria:
— Esse negócio de depressão é coisa de mulherzinha.
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Ansiedade
Short StoryTem dias que o mundo parece ser grande demais, em outras vezes parece ser pequeno para nossos corpos enormes e desajeitados. Temos a sensação que não pertencemos à mesma sociedade que outras pessoas e simplesmente não queremos sair da cama. Em algun...
