— Maldita a hora que vim para esse acampamento! — Resmungou Jéssica, ensanguentada, enquanto as lágrimas rolavam rosto abaixo. As pernas imprimiam um ritmo frenético, e o peito, queimava a cada respiração. O som da cachoeira do Abade, que sempre lhe agradara, tornara-se um obstáculo, pois impedia que os ouvidos detectassem a aproximação de seu algoz.
Nunca acreditara em lendas, principalmente nas histórias que os antigos contavam. Bem que a avó, que morrera meses atrás, tinha alertado.
— Cuidado com a cachoeira do Abade, minha filha. De todas as cachoeiras de Pirenópolis, ela é a mais perigosa. Dizem que em dias de lua cheia, e principalmente na sexta-feira 13, o espírito de Mason é visto por lá. Não brinque com o desconhecido e respeite os mortos.
Jéssica ria da velha e a chamava de louca. Zombara da avó por diversas vezes. No fundo, só queria que ela partisse para ficar com o casarão antigo em Pirenópolis. Estava cansada de ter que dar festas as escondidas. Inventava viagens para a avó dizendo que um de seus parentes estava doente e precisava de apoio. A senhora, franzina e de cabelos como lã, se desesperava e logo pedia para ser levada para a rodoviária. Embarcava no primeiro ônibus disponível.
Quando retornava, ouvia Jéssica argumentar que fizera tudo aquilo para que a avó visitasse os parentes. Se não fosse assim, ela nunca sairia de casa.
Não era raro a avó encontrar móveis quebrados, latas de cervejas espalhadas pela casa e até camisinhas sujas nos quartos. Preferia não confrontar a neta. Era a última lembrança de sua falecida filha. A saudade esmurrava o seu velho coração que palpitava forte no peito a ponto de explodir.
No dia do velório, Jéssica olhou para o corpo da avó. Não viu nada além de um boneco de pele pálida e lábios roxos. A pedido da funerária, escolhera a roupa para o velório. Vasculhou o guarda-roupas e fez questão de pegar um vestido que a avó odiava. O mesmo que usou no enterro da única filha.
Para Jéssica, a mãe era uma lembrança distante. Não podia se preocupar com os mortos. Só tinha interesse no que estava vivo.
"Foi tarde", pensou, disfarçando um sorriso de satisfação ao pensar que teria o casarão todo para ela.
"Por que demoram tanto para enterrar?" Pensou ela, se esquivando de uma das amigas idosas da avó que vinha em sua direção para prestar as condolências. Saiu as pressas do lugar quando viu quantidade de idosos ali. Se coçou toda. Tinha alergia a gente velha.
***
"Eu te avisei, não é, Jessica? Não brinque com o desconhecido. Respeite os mortos. "
Jéssica levou as mãos à cabeça tentando se livrar dos próprios pensamentos.
— Cala a boca, sua velha idiota! — Disse em voz alta.
"É isso que acontece com garotas más como você", a risada grotesca da avó ecoou nos ouvidos.
Todos conheciam a história do garoto que fora assassinado na cachoeira do Abade. Seu nome era Mason, e tinha 12 anos. Após espiar um casal de namorados que transavam perto da cachoeira, foi capturado, e jogado 24 metros de queda abaixo. Seu corpo se estraçalhou nas pedras e os responsáveis ficaram impunes. Um ano depois, na mesma sexta-feira 13, o casal fora encontrado morto na própria cachoeira. Era noite de lua cheia. Os corpos, esquartejados, foram colocados em forma de letras, que quando lidas de cima, formavam o nome: Mason.
A floresta parecia não acabar. O centro de Pirenópolis estava a 17Km de distância, e Jéssica sentia o peso do cansaço. A lua cheia permanecia majestosa e rodeada de estrelas que cravejavam o céu negro. O vento, úmido e gelado, fazia cada centímetro do corpo tremer. Por pouco não perdera a cabeça. O facão enferrujado passara a centímetros do seu pescoço, causando apenas um corte superficial, mas o suficiente para fazer o sangue descer.
A imagem daquela máscara jamais sairia de sua mente. Uma máscara típica das cavalhadas de Pirenópolis: Uma caveira de boi vermelha e dois chifres pretos. Vestia um macacão jeans cheio de manchas de sangue e botas de borracha. Na mão direita, carregava o maior facão que Jessica vira na vida. Ela não tinha dúvidas: A lenda de Mason era real!
YOU ARE READING
Terror em Pirenópolis - Não brinque com o desconhecido
Horror"A imagem daquela máscara jamais sairia de sua mente. Uma máscara típica das cavalhadas de Pirenópolis: Uma caveira de boi vermelha e dois chifres pretos. Na mão direita, o maior facão que Jessica vira na vida banhado em sangue. Ela não tinha dúvida...
