Capítulo 1/10

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***

Já faziam alguns dias que tudo estava muito estranho. Minha mãe havia sumido, meu pai já não me mandava mensagens o dia inteiro, e meu irmão... Será que ele estava bem? Céus, eu estava enlouquecendo de teorias!

Era um dia nublado, e a chuva poderia cair a qualquer momento. Desde que tudo isso começou, eu andava sem rumo procurando por comida e lugares seguros para descansar.

Muitos andavam em bando, com a esperança de que juntos uniriam forças e encontrariam companhia para aquela jornada perigosa e imprevisível. Eu não pensava dessa forma. Não tinha tempo para conhecer pessoas novas. Trocava algumas palavras com quem jogava e, bom... Logo as matava, se isso fosse necessário.

Carregava uma mochila pequena que continha garrafas de água, alguns biscoitos para o caso de fome extrema e as cartas que havia conseguido em jogos. Na cintura, um canivete e uma pistola simples com poucas balas restantes.

Já estava amanhecendo quando finalmente encontrei um lugar. Um galpão grande com alguns colchões finos e prateleiras por todos os cantos, e para minha sorte, um pouco de comida.

Me permiti sorrir ao encontrar aquele refúgio, deixei minha mochila de canto e abri algumas embalagens espalhadas pelo chão, em busca de saciar a fome. Havia sido um dia cansativo, em que corri muito durante o jogo e caminhei o restante da noite inteira. Eu estava mesmo cansada. Me acomodei em um dos colchões e não demorei 5 minutos para cair no sono.

[...]

Eu conseguia ouvir os pingos de chuva que caíam freneticamente do lado de fora no meio da manhã, e em seguida ouvi o som de passos atrás de mim. Me levantei rapidamente, agarrando a pequena lâmina que sempre carregava comigo. Percebi que se tratava de um homem alto e musculoso, sua feição séria e focada exclusivamente em mim. Ele não parecia se importar em ter uma lâmina afiada bem abaixo do nariz e pronta para atacar. Porém logo entendi o porquê de sua tranquilidade em meio aos acontecimentos.

Atrás de si se encontrava outro homem. Cabelos médios e negros, o rosto repleto de piercings e uma metralhadora apontada para mim. Ele, ao contrário do cara à minha frente, permanecia com um recatado sorriso no rosto, encarando minha figura e aparentando esperar permissão para atirar. A permissão que felizmente não foi concedida.

- Não queremos guerra! - O homem à minha frente disse - E mesmo se fosse uma guerra, você não ganharia. Então acho melhor abaixar isso aí. - Abaixou minha lâmina pequena com um único dedo indicador, me fazendo apertar os olhos enquanto olhava para os dois.

- Me deixa levar ela, Aguni... - O cara com a metralhadora se aproximou, roubando minha atenção mais uma vez - Vamos nos divertir muito. Você não acha, princesa?

- Não, não acho. O que vocês querem?! - Falei alto, deixando minha voz tomar o lugar pela primeira vez.

- Calma, Niragi. Teremos que levá-la de qualquer forma, mas daremos a você uma chance de fazer isso em paz. Você está em nossa área, não sei se sabe disso. Um pouco mais à frente temos a Praia, o lugar em que vivemos. Tem de tudo que um jogador precisa para relaxar: bebidas, drogas, sexo... - Ele fez uma pausa, levando a mão nos bolsos - Me perdoe por mexer em seus pertences, eu precisava saber com o que estávamos lidando. - Vi ele tirar várias cartas do bolso, essas que logo reconheci como minhas.

- Você tem cartas preciosas, princesa... vai ser útil de várias formas para nós. - O tal "Niragi" disse, passando por trás de mim e parando ao meu lado, se aproximando cada vez mais. Eu podia sentir a ponta de sua arma encostada em minha cintura enquanto ele me analisava, a essa altura não existia mais distância alguma entre nossos corpos.

- Nós precisamos de jogadores bons conosco. Por favor, venha sem cerimônias e nos faça economizar grandes esforços. Posso te explicar melhor quando chegarmos lá. - O mais alto disse, demonstrando toda sua calma nas expressões faciais.

Isso era uma puta enrascada, mas o que eu deveria fazer? Eles estavam com armas, em maior quantidade e dentro de seu próprio território. Era claro que não me deixariam escapar, nesse momento eu já começava a arquitetar meu plano, e adequar minha estratégia para os próximos dias.

Eles definitivamente tinham mais cartas. Se eu fosse com eles e conquistasse sua confiança, poderia pegar minhas cartas de volta (e algumas a mais), roubar algumas armas, suprimentos e dar o fora. Era o plano perfeito, não era?

Sem contar que assim poderia tirar uma casquinha do badboy que agora estava com o peito colado em minhas costas e uma metralhadora rente à minha coluna. Isso seria divertido...

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Lost on the Beach - NiragiWhere stories live. Discover now