O cheiro dela o acertou como uma pedrada, uma memória. A floresta de carvalho afastada do acampamento, ele havia ido até lá para treinar suas asas que ainda não tinham forças para voar e ele necessitava de um lago para que não se machucasse tanto durante as quedas. Lembrou de tentar voltar ao acampamento e ser pego por uma tempestade, a chuva fria e forte o bastante para fazer um adulto temer pela própria vida. “Aquelas montanhas são impiedosas” Rhys avisara, ele não devia ter ido tão longe mas a vontade de voar ultrapassava seu bom senso. Então ele se embrenhou nas árvores para tentar se proteger do vento frio que cortava mais do que o aço que seus irmãos empunhavam, até que viu uma abertura na rocha da montanha que ele tentava usar como guia já que era quase impossível enxergar na neblina. Uma caverna, um milagre, os deuses antigos deviam estar com pena do bastardo mal trapilho que foi estúpido o bastante para ficar preso em uma tempestade. Sua mãe lhe falara dos deuses uma vez, antigos e poderosos e às vezes misericordiosos. Azriel parou de rezar à eles depois de suas mãos terem sido queimadas, os deuses não devem gostar de bastardos. Ele ficará naquela caverna esperando a chuva passar, talvez não congelasse até o amanhecer. Seus irmãos ficariam preocupados, irmãos... Ele ainda estava se acostumando com a palavra, ainda era difícil pensar nela e não sentir ódio. Mas lá estava ele, numa caverna escura tão fria e dura que quase lembrava sua cela, quase, ainda dava para sentir o vento. Ele não sabia se era uma benção ou uma maldição até que começou a tremer. Resolveu ir mais para o fundo da caverna para se proteger do frio, outro erro mas ele já tinha cometido tantos que já nem se importava mais. Quando já havia avançado uns 10 metros para o interior da caverna o chão tremeu e um barulho ensurdecedor fez com que suas sombras ficassem inquietas. Não precisou olhar para trás para saber que estava preso, o vento parou de gemer.
Preso, de novo.
Dessa vez por burrice própria mas não melhorava o sentimento.
Azriel avaliou as pedras que cobriam a abertura da caverna e não sentiu nenhuma brecha, mandou suas sombras verificarem pontos fracos.
Nada – sussurraram as sombras.
Preso de novo. Trancado no escuro, no frio, na umidade. Sua respiração falhou, as sombras se agitaram.
Não, ele iria dar um jeito de sair.
Se um lado estava bloqueado, talvez houvesse uma passagem no fim dessa caverna. Então o pequeno illyriano começou a andar.
Pareceram horas até que chegou a um ponto em que tinha que subir. Pelo menos não iria descer, ele já estava se controlando para não cair de joelhos, se precisasse descer ficaria travado. Ele não se importava com o escuro ou o frio, mas o subsolo... Isso seria um problema. Então Azriel subiu, uma inclinação desconfortável e completamente desnivelada como se a terra não se importasse com o interior desde que a montanha se erguesse. Azriel subiu e continuou subindo até que seus pés doessem e caiu de exaustão. Nem sentiu o sono chegar, simplesmente desmaiou.
Azriel sonhara com o vento naquela noite. Ou dia, não dava para saber de dentro da rocha.
Quando acordou, não se importou com o tempo. Estava com fome, cansado e com frio mas não se importou. Ele só queria sentir o vento de novo, mesmo que fosse gelado e impiedoso. Ele queria ser como o vento, decidiu. Nada o afetava, ele podia ser gentil tanto poderia ser cruel. A lembrança do vento era o que o mantinha andando, como um marinheiro em alto mar com as velas erguidas, esperando por aquela força que o mandaria para casa.
Azriel andou, era como se a montanha não tivesse fim. Como se o cume fosse o próprio céu e sinceramente, depois de tanto esforço, ele ficaria decepcionado se conseguisse chegar até lá e não visse pelo menos uma nuvem que pudesse tocar.
Então ele chegou a um lugar mais aberto, não parecia mais um túnel. Não, aquilo o lembrava das histórias que o Rhysand contara sobre a cidade escavada. Ele sempre se perguntara como conseguiram fazer um cidade dentro da montanha. Cassian disse que era porque a corte dos pesadelos vinha do inferno e estavam tão acostumados com o escuro que prefiram ficar na montanha e então apenas subiram do inferno até ali. A mãe do Rhys o repreendeu, mas aquilo rendeu algumas risadas e especulações. Agora ele se via em um lugar parecido e pensou que talvez a terra soubesse que ele também era uma criatura da escuridão e resolveu oferecer uma casa no escuro.
Azriel riu mentalmente, desde quando a natureza se importava com um bastardo? A terra não ofereceu ajuda quando os filhos do seu lorde desciam até sua cela para bater nele como se suas vidas dependessem disso.
Não, a terra não oferecera abrigo, apenas um lugar para morrer.
Azriel continuou andando.
Agora novamente dentro de um túnel, menor dessa vez. E ia diminuindo conforme avançava.
Até que ele teve que piscar para a ter certeza que não estava alucinando depois de ficar horas, talvez dias no escuro. Luz. Sabia que não estava vendo coisas quando suas sombras se giraram.
Vá em frente. Elas disseram, ele devia ouvi-las mais vezes.
Ele não perdeu tempo, correu e se chocou com a rocha. Havia de fato uma abertura mas era pequena demais, mesmo para um garoto magro igual a ele. Ele precisaria cavar com as mãos.
Dor, unhas quebradas e uma vontade inabalável. Ele só queria sentir o vento no rosto de novo. Então cavou.
Algum tempo depois, a abertura era grande o suficiente para que só sua cabeça passasse.
Esperança.
Ou não, assim que sua cabeça passou pela pedra afiada percebeu que suas sombras estavam erradas.
Era um penhasco, sem forma de descer ou de subir. Ele se arrependeu de desejar tocar as nuvens.
Era uma saída pelo menos, daria em uma queda livre e provavelmente o final seria sua morte, mas era uma saída.
Ele pensou em sua mãe, nos seus irmãos. Morrer em uma caverna escura de fome e frio ou morrer empalado na copa de uma árvore? Ele não sabia o que era pior.
Isso não seria problema para um illyriano, seria um sonho. Seria a saída que ele queria, voar seria fácil. Mas Azriel já havia cometido erros demais, tinha ido a floresta do carvalho exatamente porque sabia que lá os picos eram menores, a queda doeria menos. Agora ele se via na lateral de uma montanha, alto o bastante para que não conseguisse identificar quais árvores estavam embaixo. Pelo menos sabia que iria amanhecer logo e a tempestade havia passado. O céu estava com um leve tom de lilás, conseguia ouvir os pássaros a distância. Não parecia uma forma tão ruim de morrer, ele tivera a chance de ter algo que pôde chamar de família. Tivera a chance de ver um pedacinho do mundo fora de sua cela. E Azriel estava grato por ter tido aquilo, mesmo que por pouco tempo.
Mas ainda assim, o vento não chegava na entrada da abertura que ele fez. Não estava satisfeito de morrer assim.
Então Azriel flexionou as asas, não estavam tão ruins. Doloridas, mas ainda se mexiam. Ele iria cair mas poderia fingir que estava voando, não tinha diferença quando o vento era o mesmo. Azriel retirou o resto das pedras da abertura e olhou para baixo, seria uma morte rápida.
Ele não rezou, não havia sentido nisso. Não pediu misericórdia pelo que estava prestes a fazer, os deuses não ajudaram antes, não ajudariam agora. Ele estava sozinho de novo, ou não, suas sombras continuavam cantando. E ele deixou que elas o controlassem, deixou que aquele pedaço de escuridão que o seguiria para sempre tomasse o controle.
Pule.
E Azriel retrocedeu um pouco para dentro do túnel antes de correr e fazer como suas sombras pediram.
Asas.
Assim que começou a cair se lembrou delas, ele iria morrer mesmo então na fazia mal sonhar um pouco.
O pequeno encantador de sombras fechou os olhos, sentiu o vento e se entregou aos instintos.
Bateu as asas uma vez e se sentiu leve.
Mais uma e outra e outra até que suas costas gritassem.
Quando abriu os olhos, Azriel percebeu, para sua surpresa, não estava no chão. Ele estava... estava...
Voando.
Suas sombras falaram quando sua própria voz falhou. Voando. Nos céus.
Azriel olhou para frente, em direção ao sol e viu que agora o seu estava rosa e laranja. Ouvira os pássaros cantando e sentiu o cheiro do ar. Sândalo, vento e terra fresca depois da chuva.
Ele guardou o cheiro dentro de si por 500 anos.
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a corte de ventos sombrios/pov azriel
Fanfictionfanfic em desenvolvimento - A corte de ventos sombrios Headcannon de que o cheiro da parceira do Azriel o lembra de quando voou pela primeira vez
