Já era noite, a luz da lua batia nas pedras e as fazia brilhar, o vento da noite cortava o silêncio, fazendo as árvores e arbustos farfalharem, o bater de asas dos pássaros se juntavam aos javalis e outros animais correndo ou dormindo, os grilos cantavam e os vagalumes brilhavam tranquilamente. Eu observava tudo em silêncio de cima de uma montanha, meu corpo imenso bloqueava uma parte da luz da lua, a qual fazia minhas escamas vinho brilharem mais intensamente, lançando um brilho peculiar nas rochas ao meu redor, caso alguém despercebido passasse por ali poderia facilmente confundir a luz com sangue de fênix. Minhas imensas asas estavam guardadas para não causarem nenhum estrago por alí, a vida parecia se recuperar lentamente e eu não queria atrapalhar o desenvolvimento da mesma naquela área, a qual antes estava completamente devastada por causa das antes frequentes guerras.
Ao longe no horizonte eu conseguia ver uma cidade, com suas tochas reluzentes e suas casas imponentemente bem distribuídas. a maior cidade-estado já construída nos últimos quinhentos anos. mas eu não estava interessada nela, mas sim em quem habitava ali. A capital do reino, era conhecida por seus “bravos e corajosos” caçadores de dragões os quais não passavam de bárbaros, e assassinos sanguinários. Um arrepio me percorreu por todo o corpo fazendo minhas escamas tremerem, era assim toda vez que pensava neles. Eu poderia facilmente ser morto por qualquer uma daquelas bestas se baixasse a guarda ou caso confiasse demais em alguma delas.
Mas meu destino era inevitável, além disso os malditos anões haviam me roubado, e levaram minha única glória, a qual eu falhei em proteger. Mas para recuperá-la precisaria de ajuda dos, temidos por minha espécie, caçadores de dragões.
Comecei a abrir minhas asas, das quais caíram algumas pedras. as estiquei o máximo que pude, era um alívio abri-las novamente depois de deixá-las algumas décadas fechadas, assim que elas alcançaram a envergadura máxima eu pulei montanha abaixo e comecei a planar em direção a cidade. Bati as asas algumas vezes para continuar no ar e prossegui observando a floresta enquanto ia em direção a cidade, Vi alguns dragões da floresta anões correndo por aí, e quando me viam tratavam de se camuflar instantaneamente. Provavelmente eles ainda tinham medo dos boatos que estavam circundando sobre os dragões das montanhas após a guerra, e como ninguém queria testar para ver se era verdade os dragões e as outras espécies apenas se afastaram de nós. Fazendo os Dragões das montanhas se tornarem uma espécie tímida, reservada e solitária. Óbvio que haviam exceções, para tudo há uma exceção.
Sobrevoei a cidade procurando pontos fracos na muralha, como estava de noite não havia ninguém nas ruas, então ninguém me viu. Eu podia voar com segurança e paciência por um bom tempo, mais especificamente até o amanhecer, que era quando os guardas começavam a ver o céu, e eu poderia ser notado.
Após algumas horas sobrevoando a cidade eu achei um local seguro onde eu poderia entrar na cidade.
Voei para alguns metros de distância do portão, a uma altura razoável, e me metarmorfei. Meu corpo imenso se desintegrou e reintegrou na forma de um corpo humano e eu coloquei os pés suavemente no chão.
Fazia muito tempo que eu não me metarmofava e sentir a grama nos pés humanos novamente depois de tantas décadas era muito bom.
Olhei para minhas mãos e elas eram pequenas e morenas, com as cicatrizes habituais de quando eu assumia essa forma, andei um pouco e vi uma poça d'água, a qual eu parei e olhei meu reflexo, meu rosto forte combinava com a barba média e o cabelo quase inexistente, tinha uma cicatriz na boca, e minha pele estava mais morena. Olhei para uma árvore e percebi que estava mais alto, mais ou menos uns dois metros e meio, provavelmente esse corpo tinha amadurecido mais enquanto meu corpo de dragão envelhecia.
Parei de me analisar e comecei a andar pela floresta indo em direção a cidade, enquanto andava olhava em volta e via vários animais e insetos.
Após alguns minutos andando eu chego no muro da cidade, de perto dava para ver melhor onde as pedras tinham sido cortadas irregularmente, as pedras foram anexadas ao muro com lava e baba de dragão ( a qual se for corretamente usada vira uma boa cola )
Passei a mão pelo muro, e consegui sentir a vibração das rochas e elas pareciam vivas, como sempre, continuei passando a mão por toda a extensão da pedra e senti um local onde eu conseguiria passar.
A vibração das rochas ali era mais fraco, então eu usei minha magia para abrir um buraco na pedra e passar, logo após eu ter passado o buraco fechou e eu me vi em uma rua deserta dentro da muralha, ja disse que odeio muralhas? e reinos? bom, eu odeio os dois.
Como eu não podia ficar parado alí para sempre, eu invoquei uma capa com capuz e andei por entre as ruas.
O dia começou a amanhecer e as pessoas começaram a sair de suas casas para fazer o que quer que fossem fazer.
Algumas horas depois uma feira já estava arrumada no centro da cidade, eu andei por entre as banquinhas e vi vários produtos, maçãs, pão, em uma barraca vendia queijo, na outra vendia sal (por um preço super caro) enquanto andava uma mulher me puxou pelo braço e se ofereceu para ler minha mão por uma moeda de prata.
Eu aceitei e estiquei minha mão para ela.
- Senhor, por favor me poupe, eu sou apenas uma mulher pobre - disse a moça e saiu correndo.
Eu não entendi nada e continuei andando em direção a uma rua um pouco menos movimentada, a procura do tal caçador de dragões, continuei nessa rua por um bom tempo, até o momento que um homem caiu violentamente contra o chão na minha frente.
- E não ouse voltar aqui seu resto de merda de javali - Praguejou um homem com um avental encardido, uma barba cheia de fuligem, e uma cicatriz chamativa que ia de cima do olho esquerdo até o canto da boca.
Ele entrou em uma construção meio escondida entre os prédios, a qual tinha uma placa escrita com letras grandes e robustas.
ㄒ卂ᐯ乇尺几卂 ᗪㄖ尺卂卄卂几ㄒㄖ
Olhei mais atentamente, o prédio tinha dois andares, em cima provavelmente uma taberna, em baixo um bar onde provavelmente as pessoas que dormiam comiam e afins.
Eu andei até a porta, e lá dentro tinham várias pessoas bebendo e rindo, o barulho era muito alto e perturbador, um local onde eu não me sentia agradável, barulho, odeio barulho.
Entrei e fui até o balcão, onde o, provavelmente, dono do bar servia algumas bebidas, e enchia alguns copos para o garçom levar para as mesas.
Me sentei no banco em frente ao balcão, e alguns segundos depois o homem que estava servindo os outros veio falar comigo.
– Olá guerreiro, o que quer? - Falou entusiasmado
– O mais forte que você tiver por favor, faz tempo que não bebo nada - Minha voz era grossa, estava diferente desde a última vez.
– Claro meu querido - ele se virou e foi para uma prateleira que ficava um pouco mais atrás.
Ele pegou uma garrafa toda preta, olhei para ela e vi que não era a garrafa que era preta, mas sim o líquido dentro, a garrafa apenas refletia a cor.
Ele pegou um copo de cerâmica (suponho) e encheu com o líquido.
– Prontinho meu senhor
– Eu quero também um copo grande de cerveja de dragão
– Claro, é pra já - e voltou-se para o balcão novamente.
Peguei meu pequeno copo de cerâmica e virei ele em um gole, aquilo definitivamente era uma bebida mágica, senti o líquido descendo e queimando minha garganta, então para o meu alívio o senhor que me servia colocou meu copo de cerveja na mesa, e riu eu provavelmente estava com uma careta.
Eu tomei toda a minha cerveja e suspirei, ela levou a queimação com ela, graças aos dragões primordiais, esse corpo era muito mole.
– Mais uma por favor - pedi e fiquei esperando.
Alguns minutinhos se passaram e ele voltou com dois copos cheios.
– Mas eu
– Por conta da casa - interrompeu ele - você deve ser novo por aqui né
– Sim… Eu sou - disse um pouco inquieto - Entrei na cidade pela madrugada.
– Oh, você é um guerreiro? Ou um ladrão?
– Na verdade eu estou aqui procurando cavaleiros para uma missão, eu estou disposto a pagar muito bem.
Ele me olhou novamente, sorriu e se virou para o balcão, onde ele começou a servir os outros clientes novamente.
Ele me serviu mais algumas vezes, e no quinto copo eu senti como se estivesse perdendo o controle do meu corpo, eu tinha uma visão de espectador, meu corpo agia por impulso, parecia até outra pessoa controlando.
A última coisa que me lembro era de estar solando uma música sobre como os dragões eram seres sanguinários e violentos, e que os caçadores eram os heróis da história.
Eu acordei em uma cama de palha, provavelmente na taverna, no andar de cima do bar, eu olhei em volta e minha capa estava encima de uma mesa a direita do quarto, uma janela meio fechada por cortinas a esquerda, e lá fora podia ouvir pessoas andando, eu provavelmente tinha ficado no bar até o anoitecer, e ficado bêbado também, e então capotei e acordei agora, eu me levantei da cama com uma dor de cabeça infernal, mas sabia que aquilo fazia parte da ressaca.
Saí cambaleando do quarto sem a capa, ja que agora ela era inútil, e desci as escadas de madeira que estavam rangendo com o meu peso, uma a uma para o andar de baixo.
Olhei em volta e não tinha ninguém, o bar provavelmente estava fechado, e eu era o único idiota que acordou cedo. O balconista estava lá, arrumando o que quer que estivesse alí, eu fui até ele e ficamos conversando um pouco, ele me deu um chá de ervas para melhorar a dor de cabeça e um copo de leite.
– Obrigado - Disse e bebi o leite em um gole - É… qual seu nome meu senhor?
– Denada, meu nome é Junior, meio tosco né? - Riu ele
– Pra um dono de bar que serve "heróis" - Fiz aspas com os dedos - É sim
Ele riu novamente.
– Você é intrigante meu rapaz, gostei de você
Eu apenas pedi mais um pouco de chá e fiquei observando-o enquanto o mesmo trabalhava.
aos poucos as pessoas começaram a descer e Junior deu a eles o mesmo que deu para mim, um pouco de chá e um copo de leite, aquilo ajudava na ressaca, supus.
Depois que todos haviam tomado aquela combinação estranha, em meia hora o bar estava animado novamente, e eu estava faminto, pedi algumas coisas para comer e a habilidade de júnior com a cozinha era espetacular, eu nunca havia provado algo tão saboroso quanto aquilo, talvez quinhentos anos atrás, antes das guerras, mas já fazia muito tempo.
Junior me serviu um prato de coxa de porco e costelas de dragão anão, eu fiquei um pouco culpado em comer aquilo, mas era bom demais.
Enquanto eu comia, um pequeno camundongo branco andou até meu prato, assim que o notei fiquei paralisado de surpresa. Ele pegou um pedaço da minha carne e saiu correndo, em um movimento eu desenho no ar a magia para fogo e dou uma rajada nele, o rato caiu com o pelo antes branco, agora preto no chão, e uma leve fumaça saindo do mesmo, eu abaixei a mão e relaxei, assim que virei vi todos olhando espantados para mim e eu entrei em choque.
– GERAAAALDOOOO - gritou Junior - VOCÊ MATOU O GERAAAALDOOO
Eu fiquei olhando sem entender nada o rato se chamava Geraldo? E por que ele era tão importante assim? não entendi mas pelo som atrás de mim percebi que tinha me metido em encrenca.
– Ele matou o Geraldo…. Magia?... Dragão?... Geraldo… - Os sussuros atrás de mim tinham tomado conta da sala inteira.
Me virei e vi todos me olhando, alguns assustados, outros com raiva, e outros neutros.
Enfiei a mão no meu bolso da calça e tirei três moedas de ouro, coloquei-as no balcão e comecei a andar de costas até a porta. Assim que o balconista saiu do transe ele gritou para os outros
– PEGUEM ELE - E imediatamente todos do bar começaram a pegar suas armas e a se levantar.
Eu fiz a única coisa que podia pensar, corri.
Ouvi todos aqueles brutamontes correndo atrás de mim, se eu fosse pego seria linchado e morto.
Uma lança passou voando a minha direita e se encravou no chão a minha frente, e puxei-a e continuei correndo, agora porém armado.
Deu uma olhadela para trás e vi mais ou menos uns vinte caras, todos de armadura, como conseguiam correr tão rápido com aquelas coisas? Não sei.
Virei uma rua alí, outra aqui e quando eu ia virar mais uma, uma flecha tranquilizante me acertou na coxa e eu caí e rolei alguns metros devido a velocidade que eu estava, então tudo ficou preto e a última coisa que eu ouvi foi um cara gritando "ELE É MEU" e eu apaguei de vez.