Milla
— Pedido para a mesa sete! — A voz anasalada da minha gerente me fez suspirar.
Peguei a bandeja com cuidado para não derrubar. Eu precisava do dinheiro para pagar as contas. Não era o que eu queria estar fazendo, mas esse foi o melhor que eu consegui, trabalho desde muito nova.
Hoje era segunda feira e não tinha muito movimento. Fui atender outra mesa, mas alguém esbarrou em mim e senti um líquido muito quente na minha roupa.
— Olha o que você fez!! Será que essa espelunca não sabe contratar um pessoal decente? — A voz do homem era grossa e me lembrava o barulho de um trovão. Eu me encolhi no chão e senti meus olhos lacrimejarem.
— D-desculpa moço! — me esforcei para falar certinho. Mexi na barra do uniforme.
— Desculpas não vão limpar a minha roupa e nem restaurar a porra do meu café! — Ele estava zangado, muito zangado.
— Milla! — Meu chefe se aproximou e me ajudou a levantar. Ele me abraçou para tentar me acalmar. — O que aconteceu aqui?
— Essa imprestável derramou meu café! — O homem acusou e senti ele endurecer a postura.
— Milla, o que aconteceu? — Ele me perguntou e eu funguei, provavelmente meus olhos estavam vermelhos.
— Foi um acidente, senhor. Ele esbarrou em mim. — Eu me forcei a falar certo, mas o que eu mais queria no mundo era a minha chupeta e a minha girafa de pelúcia.
— Pode entrar e se limpar, eu resolvo aqui. — Eu assenti e sai correndo de perto daquele homem estranho, ele me dava medo. Por sorte, o Senhor Ramos gostava de mim.
Ele conhecia a situação da minha família e me deu emprego quando ninguém mais podia. Ele sabe que eu não faria nada de ruim para ninguém, não de propósito.
No final o homem foi embora e eu continuei meu expediente. Agora eu tinha acabado de soltar do ônibus e estava andando em direção a minha casa. Eu aprendi tudo sozinha, me perdi várias vezes, mas eu aprendi.
Começou a ventar bastante e um panfleto veio voando na minha direção. Segurei a folha e analisei o que estava escrito. "Exposição de arte no Museu Municipal, gratuito." Meu interior se agitou com a ideia, eu amava artes, era a única alegria na minha vida. Mais abaixo estava escrito. " Competição de artes. Venha pintar e mostrar o artista que existe em você, é gratuito e muito divertido!!". Era no domingo, talvez eu conseguisse ir.
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Abri a porta sorrindo com a ideia de poder pintar novamente, mas o sorriso desapareceu quando encontrei meu pai bêbado no sofá. Isso era uma cena comum. A sala estava fedendo a bebida barata, eu queria chorar, odiava ver meu pai assim.
— Papai ? — O chamei, pelo menos, cinco vezes antes que ele tivesse alguma reação.
— Oi querida. — Ele falou enrolado por causa da bebida. Eu tampei o nariz, que cheiro horrível. — Chegou a-agora ?
— Sim. Papai, você prometeu que ia parar. — Eu disse baixinho.
— Eu vou parar, amanhã. — Ele se sentou com a garrafa de bebida na mão e deu mais um gole. — Sobe e vai dormir, querida.
— Já vou. — Eu estava morta, mas limpei a cozinha e a sala.
Subi chorando. Eu não aguentava ver meu pai assim, já faz anos e ele não sai desse vício. Tomei um banho quente e me deitei com a minha chupeta amarelinha e a minha girafinha, a Malu.
Eu olhei as pinturas nas paredes e suspirei. Meu quarto era o meu lugar, o único onde eu podia ser eu mesma. Pintar, usar chupeta, usar a mamadeira...Eu queria ser uma artista, era meu maior sonho, desde pequena. Pena que nem sempre podemos realizar nossos sonhos.
Escutei meu pai cantando bêbado no andar abaixo e segurei a minha correntinha. Apaguei as luzes e deixei o sono me levar.
Noah
— Henrique, essa semana vai ser a exposição de arte financiada pela empresa. — Avisei ao meu amigo.
— Tudo bem. Você vai lá pessoalmente para gerenciar, não vai ? — Ele se ajeitou na cadeira e eu concordei.
— Eu adoro artes, então não perderia essa.
— Como a sua mãe está? — Dan perguntou e eu fiquei triste na hora.
— Está fazendo o tratamento. — Suspirei e olhei para o teto, uma tentativa idiota de conter as lágrimas.
— Estamos aqui por você, vai ficar tudo bem. — Henrique me abraçou e eu assenti.
— Você vai lá hoje? Eu vou comprar flores pra ela e mandar você entregar. — Dan disse e nós rimos. Ele também amava muito a minha mãe.
— É bom você ir na exposição, vai te distrair. — Henrique disse. — E não se preocupe com a Dona Alice, sua mãe é forte.
— Ela é. — Concordei.
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Estacionei em frente à casa dos meus pais e suspirei. Peguei o buquê de flores que Dan mandou e desci do carro. Entrei em casa e vi meu pai assistindo um jogo de futebol.
— Fala velho! — Eu cumprimentei e ele me olhou feio.
— Me respeita, garoto! Parece que não tem noção do perigo. — Ele disse de forma ameaçadora e depois nós começamos a rir.
— Sei...Cadê a mamãe?
— No Jardim, vai lá. — Eu saí da sala e fui em direção ao jardim da casa.
Minha mãe estava sentada no banco ali fora enquanto olhava os peixes no lago. Ela estava com um lenço na cabeça, o cabelo dela tinha começado a cair por causa da quimio.
— Trouxe para a senhora. O Dan que mandou. — Entreguei o buquê. Ela sorriu enquanto admirava as flores.
— Olá querido, que surpresa boa. Agradeça ao Daniel por mim. — Ela disse docemente e me beijou na bochecha.
— Eu vou. — Segurei sua mão. — Como se sente ?
— Estou indo bem. — Ela apertou minha mão. Levei sua mão a boca e deixei um beijo carinhoso. — Não precisa se preocupar tanto.
— Claro que preciso. Você é a minha mãe e eu te amo. — Ela riu e voltou a olhar para o lago.
— Também te amo, querido. Eu adoro suas visitas. Quando vai me dar uma nora ? E netinhos? — Ela tinha que tocar nesse assunto.
— Mãe! — repreendi. — A senhora tem que focar em algo que não seja a minha vida amorosa.
— Estou cansada de você com essas mulheres que não tem cérebro e parecem o puro osso daquele desenho horrendo...Qual o nome mesmo ? — Eu engasguei com a risadala. Ela fica pensativa por um minuto. — Não importa, eu quero que você seja feliz.
Ela conhece vários desenhos e faz várias comparações. Eu morro de rir.
— Ainda não achei a pessoa certa mãe. E o nome do desenho é "As terríveis aventuras de Billy e Mandy".
— Isso!! Você adorava esse desenho quando era mais novo. Você assistia e depois ficava tendo pesadelos com as coisas estranhas dele. Você era tão corajoso quanto aquele cachorrinho rosa covarde. — Ela acusou e eu ri. Ela não mudava nunca.
— Quer dizer que a senhora seria a velha Uriel ? — Perguntei.
— Quem você pensa que está chamando de velha, Noah? Eu estou muito bem. — Ela empinou o nariz e eu ri.
— Está mesmo. — Beijei sua testa. — A senhora está mais linda a cada dia.
— Obrigada querido. — Perder o cabelo foi um choque para minha mãe, mas ela não se deixou abalar.
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Passei a tarde com a minha mãe, quando o jogo acabou o meu pai se juntou a nós dois. Minha mãe foi diagnosticada com câncer de mama há alguns meses e vem se tratando desde e então. Ela sempre foi a minha heroína, morro de medo de perde-la.
Me sento na cama e penso sobre o que ela disse. Eu nunca tive um relacionamento sério, acho que nunca achei a pessoa certa. Tenho certeza de que ela está por aí, apenas tenho que encontrá-la.
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Bem vindos a nova história. Eu fiquei mto mal pela mas do Noah e triste pela Milla. 💔
Enfim, espero que tenham gostado!!
Bjs, anjinhos. Até o próximo capítulo 😍🥰