Contos Artonianos

Da MateusCantele

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Um menino tropeçou em uma arca antiga enterrada. Lá encontrou diversos contos de dois grupos de aventureiros:... Altro

O Caos e o Óbvio

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Da MateusCantele

A Taverna "Pluma flamejante" estava a mil. Cosamir, capital de Tyrondir, nunca havia estado em tamanho rebuliço por causa de uma apresentação artística. Mas sendo a terra escolhida por Thiatys, deus da ressurreição e da profecia, essa sempre poderia morrer e renascer. E naquele dia, renascia o interesse pela música.

O evento tão esperado era a apresentação de Lennon Von Pierce.

O famoso homem das longas madeixas ruivas que enfrentou o império de Yuden para encontrar-se com o sumo sacerdote de Tanna-toh, Helladarion, o grande artefato que possui o conhecimento dos clérigos seguidores da sabedoria que morreram na plenitude do conhecimento, para ajudar seus amigos a fugir de uma sentença de morte.

Aquele que esteve presente lutando bravamente contra a corrupção do Paladino de Arton e que criou a bela e triste balada "A lágrima de Amarid", que dizem, foi feita de seu pranto que caiu na partitura, quando este perdeu seu já velho pai para a invasão da tormenta ao forte.

Aquele que diz ter como musa inspiradora a Rainha-imperatriz Shivara Sharpblade.

Quando Lennon entrou pela portinhola lateral e sentou no palanque improvisado, poucos repararam. Parecia um homem comum. As grandes madeixas vermelhas estavam presas num rabo-de-cavalo mal feito, e uma cicatriz pulava de seu belo rosto de porcelana, criando um contraste de mistério e fascínio.

Seu chapéu e suas roupas eram de um vermelho desbotado e ele possuía um rosto cansado para um contador de histórias. Estava abatido e o dono da estalagem preocupou-se com o dinheiro que poderia perder naquela apresentação. Limpava o balcão para aplacar sua ansiedade crescente.

Antes de qualquer cordialidade, Lennon pegou seu Alaúde. O Lendário violão de quatro cordas, que rendeu-lhe sua alcunha: O Bardo das Quatro Cordas, já havia sido aposentado. Olhou para seu novo amigo de aventura e dedilhou uma balada leve.

A plateia ficou em silêncio e muitos só naquele momento repararam na presença do homem ali sentado tocando uma bela e lenta melodia. O som entrava pelos ouvidos e atraia a atenção para o palco. Esqueceram-se das conversas paralelas. Esqueceram-se das piadas. Esqueceram-se das meretrizes que seduziam os dispostos a uma noite de luxúria. Tudo se resumia ao contador de histórias, tudo se resumia àquela melodia e como era bela.

O homem cansado aos poucos dava lugar a um novo homem. Lennon, morria e renascia como a ave lendária. O antigo bardo resplandecia como a águia, parecendo brilhar enquanto tocava. Seria o poder do deus Fênix abençoando aquela apresentação? A plateia agora delirava. As mulheres se apaixonaram e alguns homens também, e então eles entenderam, que aquele homem tinha uma canção nos lábios e estavam ansiosos para ouvi-la.

Alguns naquela noite disseram que Thiatys se exaltou diante daquela música, mas foi Dália a única a dançar.

Hoje venho lhes contar
Uma história há de começar
Sobre um paladino fiel a Hedryl,
Que Nimb quis se encontrar...

Neste momento, não era mais a taverna "Pluma flamejante", estavam em outro lugar. Pela vegetação parecia Tyrondir, mas não sabiam se era mesmo lá. Uma batalha estava diante deles, paladinos atacavam uma criatura com seus poderes.

Um caiu. Outro também. Um a um, todos se foram para o além. Mas eis que o herói da canção apareceu. Erguendo sua espada a esperança ele reviveu.

A batalha foi intensa. Garras, espadas e violência. Mas com bravura e muito sangue, o herói ao monstro deu sua sentença.

O urro foi de glória! Não imaginavam para eles tamanha sorte! Entretanto o silêncio venceu, quando o Herói então pereceu. Hedryl buscaria o herói, ou o abandonaria em seu leito de morte?

A canção penetrou no coração dos presentes, que canção deixou de ser. O que viam e ouviam era a história contada. Se seria magia ou não, quem se importava?

O paladino do deus da Justiça acordou com um sorriso. A ordem o recompensaria. Deveria estar no paraíso. Hedryl ele encontraria.

O mundo que encontrou, não fora como ele pensou. Pessoas tomavam chá sentadas em chão espinhento. Outros, sem preocupação, nadavam em puro excremento. Tubarões soltavam raios da boca devorados por golfinhos na forca.

O coração do herói desesperou. Aquele não era o mundo de Hedryl, algo estava diferente. Se Nimb controlava as peças do tabuleiro, neste momento estava sorridente.

Respirou sentindo um torpor febril. Tentou se apossar dele uma insana alegria. Se este era o desejo de Hedryl, o deus do Caos ele enfrentaria.

Caminhou por caminhos estranhos, alguns feitos de pedra outros por sua vez de humanos. Sentia sua mente perder toda a ordem e nos pés percebeu que os tijolos aqui mordem.

Suou frio quando não se via mais chão. Aquele mundo não fazia sentido. Rogou ao deus da Justiça então, "não me abandone onde estou perdido!"

Chegou a um portão de gelatina. O que veio lá de dentro era apenas um cheiro. Cheiro genuíno de carnificina. Abriu o portão como quem "cutuca" um vespeiro.

Lá dentro estava uma foca, dançando com um cavalo guerreiro. Pegos pelo herói nessa dança macabra olharam com um olhar sorrateiro. O paladino por sua vez se manteve ordeiro, se risse seria um leão domado no picadeiro.

Aplausos tomaram a sala, de onde vinha o som ele não sabia. Mal se daria conta que a foca Nimb vomitaria.

- Parabéns por ter chegado até aqui Jimmy!- Saudou Nimb correndo sem se apressar.

- Meu nome não é esse. – Respondeu com dificuldade o pirata do mar.

Espere um pouco, ele não era um pirata! Era um paladino! Lutou contra a loucura que o dominava, lutou contra o seu destino.

- Que seja Jimmy, não fique nervoso! – Nimb se aproximava.

- Afasta-te de mim, Demônio horroroso! – Respondeu o herói que recuava.

- Mas Jimmy, eu só queria com você conversar... – Protestou Nimb fazendo beicinho.

Preferiu não responder, decidiu meditar. Focou-se no seu caminho.

Sentado no chão de ossos, o herói se fechou para aquele mundo. Imaginou-se em Ordine o lugar do óbvio, fora deste local imundo.

- Hedryl me dê forças para não enlouquecer! – Bradou o herói rogando ao seu protetor.

- Jimmy não fique triste, Khalmyr aqui não irá aparecer... – Nimb disse com prazer e horror.

Um minuto se passara. Ou seria uma hora? A mente do herói estava em frangalhos. Mas sejamos sinceros, isso importava agora?

Fora cachorro, mosquito, papagaio e menino. Gritava por Hedryl para não se esquecer, de que um dia fora um paladino.

E um pouco antes de enlouquecer, a porta de gelatina se escancarou. E por ela um ser magnífico apareceu. Por ela o deus da ordem, Khalmyr, entrou.

Nimb gargalhava e chorava. Seu maior adversário em seu palácio agora entrava.

- A que devo a honra, ó Khalmyr grandioso? – Perguntou Nimb enquanto seu mundo se tornava simétrico e óbvio.

- Vim buscar meu servo vitorioso. – Respondeu Hedryl tentando manter-se sóbrio.

- Você fala de Jimmy, o pirata do mar? – Apontou para o trapo que tentava meditar.

- Não sou pirata devo te contar! – Rangeu os dentes o paladino sem acreditar.

Ambos os deuses olharam para aquele que tentava se levantar. Humanos eram impressionantes eles tinham que concordar.

- Eu sou um paladino de Hedryl, honra pra mim maior não há.

Nimb se encolheu com esta palavra, mas logo fingiu que não se importava. Khalmyr carregara o paladino para fora de Al-gazzarra, fugindo também da insanidade que o tomava.

E essa foi a história de um herói, uma lenda. Que Nimb na sua natureza, já não mais se lembra.

Todos estavam maravilhados com a música que acabaram de ouvir. Moedas de ouro enchiam o chapéu do trovador. Os paladinos e devotos de Khalmyr (chamado por Hedryl no continente de Lamnor),comuns em Tyrondir, choravam e aplaudiam a vitória do deus da Justiça. As mulheres se encantavam pela beleza da voz daquele bardo que recebia os aplausos. O Taverneiro pensava no lucro daquela noite e do quanto dinheiro tinha conseguido.

Mas a verdade é que todos estavam encantados com aquela luta entre o Caos e o óbvio.

O Bardo agradeceu com uma mesura, colocou seu alaúde nas costas o dinheiro na sacola e saiu. Ovacionado pelos homens e beijado pelas mulheres.

A porta da taverna se fechou. Mas esta nunca mais fora a mesma.

Mais tarde, ao se juntar novamente à Ordem Sagaz do Machado de Cordas, seus companheiros perguntaram como ele havia conseguido tanto dinheiro. O Bardo só respondeu com um sorriso confiante:

- Uma música chamada a "O Caos e o Óbvio".

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