Todos estão tão estranhos comigo. Hoje, quando cheguei à empresa, vi Enzo e Daniel conversando baixo, como se compartilhassem um segredo. Aproximei-me, incerta, e dei boa tarde. Os dois viraram para mim e me cumprimentaram de volta. Até aí, tudo normal. Mas o caso é que eles me cumprimentaram de um jeito diferente. Daniel, que sempre me sorria e me abraçava, disse um “boa tarde” seco e se afastou. Parecia magoado. E quanto ao Enzo... Ele me lançou um olhar frio, me cumprimentou e foi se afastando para o elevador. Eu o segui, sem graça. Era a primeira vez que eles me tratavam assim, e eu não tinha a mínima ideia do por que. Daniel se irritava facilmente e, se fosse só ele, eu até entenderia. Mas o Enzo era uma pessoa séria e normalmente não se abalava com nada.
Será que eu fiz besteira? Mas eles estavam normais da última vez que os vi. Talvez eu tenha sido grosseira com eles ao telefone. Repassei a conversa que tive com os dois mentalmente. Deve mesmo ser isso, afinal, não tinha outro motivo. Percebi, tarde demais, que Enzo já estava com um café na mão. Isso foi como um tapa na minha cara. Arregalei os olhos para a o copo de papel, surpresa e magoada. Será que eu fui tão rude que ele nem quer mais falar comigo? Mas isso é impossível. Será que é porque ele acha que eu não tenho ética de trabalho? Mas eu estou aqui, no horário, e disposta. Bem, não tão disposta. Mas estou me esforçando. O que eu fiz de errado? Baixei a cabeça, suspirando. Eu não estava acostumada a ser tratada assim pelos dois, e isso doía. Quando o elevador abriu, Paula veio me abraçar.
- Ora, vamos. Parece uma morta-viva. Tenho certeza que ontem foi fantástico, não é? – riu Paula.
- Não me lembre. – gemi, envergonhada.
A verdade é que o começo da noite foi realmente fantástico. Lúcio é um cara muito alto, negro, de olhos castanhos penetrantes. Ele é muito atraente, com aquele porte físico que faria inveja em qualquer um, até no Enzo. Ele é, nas palavras de Sandra, um “molha-calcinhas com pernas”. Porém, não é só isso. Ele é muito inteligente e achou o fato da minha esquisitice da memória incrível. Ele disse que eu deveria agradecer, já que são poucas as pessoas com memória eidética que não tem nenhuma síndrome que prejudique seriamente suas relações sociais.
Ele me fez piadas nerds, e isso foi realmente fofo. Mesmo quando o restaurante em que estávamos fechou, ele fez questão de me levar na praia. Copacabana à noite é linda, e eu nunca tinha visto. Ele me censurou seriamente sobre isso, rimos e ficamos conversando por horas. Quando deu mais ou menos quatro horas, ele me levou novamente para casa, onde eu lhe ofereci um suco. Ele aceitou, e entrou, sentando no meu sofá e olhando ao redor com curiosidade. Eu lhe trouxe o suco e ele me sorriu, indicando que eu sentasse ao seu lado. Após beber tudo, ele ficou me observando por um momento. E então, ele colocou o copo na mesinha de centro e suspirou, ficando ainda mais perto.
- Você é tão sexy... – ele sussurrou na minha orelha – Além disso, é inteligente. – ele deu um beijo no meu pescoço, fazendo minha pele arrepiar – E muito engraçada. Às vezes me pergunto se você é de verdade. – ele mordeu minha clavícula.
Eu deixei escapar uma exclamação de surpresa e ele riu. Respirou fundo, perto da minha orelha. Eu sabia o que ele estava fazendo, pelo menos. Era ali que eu colocava meu perfume. Mas me surpreendi quando senti suas mãos em minha cintura. Eu corei imediatamente, surpresa demais para fazer alguma coisa. E, quando o choque passou... Eu já não queria fazer nada sobre isso. Era tão gostoso. Ele passava as mãos da minha cintura até minha coxa, apertando com força e rosnava de vez em quando. Ele fazia carícias no meu pescoço, e eu sentia a temperatura do ambiente aumentar.
Após alguns minutos assim, ele me puxou num movimento brusco para que eu deitasse no sofá. Exclamei novamente, e ele logo estava por cima de mim. Ele estava tão colado, que eu sentia um volume contra o meu ventre... Enorme. Tão grande e tão perto, que eu comecei a pulsar. Meu ritmo cardíaco aumentou na hora e eu comecei a ofegar. Ele riu em minha orelha e então foi subindo uma das mãos para o meu quadril. Depois, a minha cintura. Depois, ainda mais para cima. Ele apertou um dos meus seios e eu gemi, fechando os olhos e sentindo bem aquela carícia. Eu nunca tinha sido tocada desse jeito. Ele então foi descendo os beijos do meu pescoço, logo beijando a parte dos meus seios que estavam descobertas pelo vestido.
Ele mordeu o meu seio direito com vontade, e eu gemi. Então, eu senti sua mão descendo. Imediatamente senti falta dela, mas... Ela continuou descendo, e descendo. Eu não sabia o que ele queria, mas ele começou a colocar a mão dentro do vestido, pelo lado que tinha uma fenda. Eu ofeguei, desesperada. Eu estava tão quente. Estava tudo tão quente. Fechei os olhos quando ele passou a mão em minha intimidade por cima da calcinha. Ele riu um riso rouco, brincando com o pano e me fazendo ofegar ainda mais depressa. Foi então que ele colocou um dedo dentro da minha calcinha, alcançando minha intimidade e... Parou. Ele se afastou para me olhar, completamente chocado. Como se fosse para ter certeza, ele passou mais uma vez o dedo sobre meu hímen intacto. Eu fiquei imediatamente muito vermelha e me afastei bruscamente dele. Encolhi-me como uma bola do outro lado do sofá, completamente envergonhada.
- Você é virgem? – ele me perguntou, incrédulo.
Eu escondi meu rosto com as mãos, completamente sem graça. Esperei pelos seus risos, mas eles não vieram. Ao contrário. Ele se ajeitou no sofá e ficou lá, longe de mim, com uma expressão tão envergonhada quanto a minha. Ele me olhou com o canto do olho e, quando viu que eu estava o observando, desviou o olhar. Suspirou e então, voltando-se para mim, puxou minhas mãos.
- Desculpa Cat. Eu não fazia ideia. Quer dizer, você é adulta já. Vive sozinha. E eu achei que... – ele perdeu a fala e fez uma careta – Desculpe-me. Eu sei que não é desculpa, mas sinto muito.
- Do que você está falando? – perguntei completamente confusa.
- Você lembra tudo. É claro que iria querer que um momento como a sua primeira vez fosse especial. E eu meio que estraguei isso. – ele disse, completamente sem graça.
- Não é culpa sua. Na verdade, eu não achei ruim... – falei, perdendo a fala enquanto meu rosto ficava muito quente.
- Eu realmente sou um insensível. – ele riu – Mas olha, eu vou compensar essa. Não se preocupa. Você... Ainda vai querer sair comigo, algum dia?
- Você acha que, se eu não quisesse, não estaria lhe dando essas liberdades? – perguntei, corando.
- Você é incrível. – ele sorriu.
Então, ele me puxou para um beijo. Foi o beijo mais doce de todos. E nós ficamos conversando até meu despertador tocar, me avisando que Enzo deveria estar de pé. Ele se desculpou mil vezes quando viu a hora, mas admitiu que tinha que fazer algumas coisas para a empresa e ainda tinha que dormir, porque sempre ficava acordado até tarde da noite. Ele havia me falado bastante sobre restaurantes, então eu entendi. A noite é sempre mais agitada para aqueles que trabalham com comida. Agradeci por sua companhia e, antes de ir, ele me beijou novamente. Deu-me um abraço bem apertado e sussurrou na minha orelha mais uma vez.
- Você é incrível.
Mesmo assim, o fato de que eu tinha compartilhado intimidades com um homem antes, sendo espremida e apertada, me deixava constrangida. Eu sabia que já era bem grandinha e que praticamente nenhuma menina na minha idade ainda era virgem (fala sério, 19 anos), mas eu resolvi adiar isso. Como o Lúcio mesmo dissera, eu me lembro de tudo. Não quero fazer nenhuma burrada. E, às vezes, algum flash de ontem me vem à cabeça. O modo como ele me acariciou ou como me apertou... E me deixa completamente vermelha e constrangida por lembrar essas coisas. Será que eu estava sendo muito indecente, me deixando ser tocada assim num primeiro encontro?
- E aí, depois disso tudo, Lúcio me disse que amou você, que você é completamente incrível. – disse Paula, me trazendo de volta a realidade – Ele enrolou bastante, mas acho que foi sincero. Ele disse que não acreditava que você existia. Que você era como o sonho dele se tornando realidade. – Paula riu – E então, o que você achou dele?
Ela me olhou com expectativa e sorriu. Eu quase tinha me esquecido que eu e Lúcio éramos um experimento dela, afinal de contas. Na verdade, sem ela eu jamais teria saído com ele. Ia responder que gostei dele e tudo o mais quando vi Enzo. Ele estava com uma expressão homicida, como se fosse me jogar na parede se eu não fosse para minha sala exatamente agora. Eu corei imediatamente, envergonhada pela minha conduta. Ele estava certo, eu não podia agir assim no trabalho. Aqui não é a minha casa, é uma empresa.
- Desculpa Paula. Eu tenho que trabalhar. – falei, envergonhada – Depois nos falamos.
Então eu fui, meio correndo, para o lado de Enzo. Ele parecia extremamente irritado. Lembrei então da vez que ele disse que tinha expectativas altas em mim e me senti péssima. Eu estava sendo muito inútil ultimamente. Além disso, eu fui grosseira com ele ontem. Paramos e tive que olhar para frente para saber o porquê. A porta estava trancada. Será que ele tinha trancado ao sair? Ou nem chegou a entrar? Besteira, ele nunca falta o trabalho. O próprio Andries me disse isso. Então eu abri a porta com a minha chave e corri para abrir a dele. Então, envergonhada, o encarei. Ele parecia ainda com muita raiva. Suas sobrancelhas estavam franzidas, seu maxilar travado e sua postura, tensa. Eu corei, envergonhada e magoada.
- P-per... Perdão, Senhor Enzo! – falei – Eu fui rude com o senhor quando o liguei hoje, não fui? Juro que não foi minha intenção.
Sua expressão mudou. Ele parecia um tanto confuso, embora ainda estivesse claramente com raiva. Sua postura não mudou, mas ele ergueu as sobrancelhas para mim. Eu me senti péssima. Apesar de toda a sua reputação na empresa, de pessoa fria e calculista que não falava com ninguém, ele sempre havia sido gentil comigo. Ele era calmo, forte e inteligente. Sabia tomar decisões enquanto todos se desesperavam e, além disso, era um ótimo chefe. Mas eu... Honestamente, eu não tenho feito nada aqui. Organizado papéis, anotado recados, decorado sua agenda... Todos os anteriormente citados são simplesmente meus deveres. Eu sou um tanto morta no trabalho, não sou boa companhia. Sempre demoro a trazer o café, comprando doces ou lanches. Ando ocupada entrevistando as mulheres para recepcionista online. Tomo notas nas suas reuniões, quando ele claramente prefere ser ouvido com atenção.
- Você não foi rude. – ele disse simplesmente.
- Mas... – falei um tanto magoada – O Senhor está diferente. Está... Está tudo bem? – perguntei.
- ‘Tá. – ele disse.
Eu abri a boca para falar mais alguma coisa, mas ele passou por mim, ainda com raiva, e bateu a porta do escritório com força. Meus olhos se encheram de lágrimas, e eu nem sabia o porquê. Na verdade, eu meio que sabia. Magoava ser ignorada e maltratada após tanto tempo sendo acostumada ao seu lado caloroso. Ele antes era gentil comigo, me agradecia, sempre ignorava quando eu fazia alguma besteira, e era muito paciente quando eu estava entrevistando as moças para recepcionista.
- Diga a todos que quiserem me visitar que estou ocupado. – ele falou, sua voz abafada por estar do outro lado da sala.
- O-ok. – murmurei.
Eu respirei fundo. Estava sendo idiota por aquilo, mas era horrível. Eu simplesmente nunca fora ruim em nada. Eu simplesmente não falho. Não sou reclamada. Não sou repreendida. Eu sou perfeita em todos os deveres que cumpro. Tanto na escola, quanto na faculdade e em todos os outros setores. Mas agora, nem um ofício idiota de secretária eu consigo exercer. E, além disso, fui incapaz de reprimir um soluço que me escapou. Amaldiçoando-me, respirei fundo, limpando os olhos. Chorar não ia fazer de mim melhor nisso. Estou sendo uma idiota.
- Cat... Catarina? – chamou Enzo, abrindo a porta.
Eu estava de costas para a porta e aproveitei isso, indo imediatamente para a minha mesa e ficando ainda de costas, mexendo em alguns papéis. Não queria que ele me visse chorando, ou ia ficar com mais raiva ainda. Afinal, que tipo de secretária estúpida chora porque não consegue fazer seu trabalho direito? Eu sou capaz. Eu consigo. Eu vou fazer isso direito. Respirei fundo.
- Sim? – respondi.
Houve um momento de silêncio incômodo. Eu queria que ele dissesse algo logo, ou pelo menos saísse. Talvez me pedisse um café. Ou me desse um documento para revisar ou digitar novamente. Mas fiquei completamente chocada quando ouvi passos que se aproximavam de mim. Não, ele não pode me ver de olhos inchados. Imediatamente, comecei a respirar ainda mais fundo. Mas de nada adiantou. Enzo segurou meus ombros e me virou com delicadeza. Ele analisou meu rosto, parecendo surpreso. Então eu abaixei o rosto, envergonhada.
- Desculpa. Sei que fui grosso com você, não era minha intenção. Eu só estou de mau humor. – ele disse, parecendo preocupado.
- Tudo bem. – sorri, um tanto sem graça – É só que eu não estou acostumada a receber... Esse tipo de tratamento.
Dei de ombros, completamente envergonhada. No entanto, ao invés de me reclamar, Enzo suspirou. Ele murmurou algo que eu não entendi direito. Sei que disse “um idiota”. Será que ele me reclamou, mas tão baixo que eu não escutei? E então, para a minha surpresa, ele me puxou para um abraço. Com um sorriso, eu me aconcheguei em seu peito, já que era o único lugar que eu alcançava. O abracei de volta. Eu realmente deveria parar de ser tão idiota, mas estava muito aliviada. Eu não estava fazendo nada errado, ele que estava de mal humor. Então será que eu não deveria estar tentando lhe animar, e não o contrário?
Subitamente, sua proximidade, o calor que senti ao estar ali, envolta em seus braços, me lembrou de outra situação vivenciada a pouco tempo. Lembrei do peso de Lúcio sobre mim, do jeito como ele me apertou... Comecei a ficar vermelha imediatamente. Merda. O ruim de ter memória fotográfica é que às vezes as coisas simplesmente voltam para a sua cabeça, como se quisessem te perturbar. Eu podia jurar que estava começando a sentir um volume próximo ao meu ventre. Afastei-me, sem graça e corada. E então sorri para Enzo.
- Não se preocupe, eu estou bem. Quer que eu lhe traga alguma coisa? Doces? Café? – sorri.
- Vou engordar. – ele suspirou simplesmente.
Não pude deixar de rir do seu comentário. Além disso, era realmente bom estar ali, sem tensões. Era bom não ser mais só a secretária. Ou pelo menos eu achava que não era mais só a secretária. Talvez ele me considere ainda só uma pirralha contratada pelo seu pai para infernizar sua vida, mas, quando ele fez aquela piada, não pude deixar de me sentir mais que isso. Não pude deixar de me sentir sua amiga. Então, nós ouvimos um grito. Eu fiquei petrificada por um momento, enquanto Enzo ia em direção à porta.
Os gritos só continuavam. Percebi, meio tarde, que eram femininos. Eles me pareciam familiares. Então ouvi a voz de alguém, praticamente gritando, ordenando que a mulher mantivesse a calma. Eu fui atrás da voz, saindo do meu transe. Enzo também já havia saído do escritório. Quando o vi, ele parecia novamente de mau humor. Sua postura estava novamente tensa e ele tinha os dedos nas têmporas. Se um olhar matasse, o que Enzo lançou para a Paula com certeza a faria estar debaixo de doze palmos do chão.
- Cat! – ela gritou, vindo até mim e me entregando um buquê.
Ela parecia tão ansiosa e ficava dando pulinhos que eu não entendi seu entusiasmo. Foi quando ela suspirou e colocou as mãos por cima das minhas, as sacudindo com força. Eu olhei para as flores. Era um buquê lindo, de rosas da cor rosa. Eram delicadas, e pareciam escolhidas a dedo. Tinham um lindo embrulho também, daqueles papéis maleáveis e bonitos, nas cores brancas e douradas. Além disso, tinha um cartão vermelho enorme com um “Cat” escrito caprichosamente à mão. Eu olhei para o buquê, sem entender nada. Quem poderia ter mandado? Eu não tenho namorado, nem irmão, nem pai... Então meus olhos se arregalaram. Não é possível que fossem de Lúcio, não é?
- Anda logo, mulher, abre o cartão! – gritou Paula.
Eu passei o buquê para um braço só, um tanto sem jeito. Estava corada. Era a primeira vez que eu recebia flores. Dava uma sensação boa no peito. Certo alívio, um calor bom, como se você fosse especial. Abri com cuidado o cartão, meio sem jeito. Dentro, tinha um papel daquele que parecia caro, bem branco e bem macio, porém duro. Eu me pus a ler, um tanto envergonhada porque Paula ficava se esticando para decidir de qual ângulo ela poderia ler melhor.
“Gatinha,
Sinto muito ter saído daquele jeito ontem – ou hoje, se assim preferir. Percebi que você ficou sem graça. Não se preocupe. Eu vou compensar.
Passei numa loja hoje, e o rosa dessas flores me lembrou o tapete felpudo que você tem na sala da sua casa. Achei que seria uma boa piada – você gostou?
Não tenho a menor experiência em comprar flores para mulheres, então espero que tenha gostado. Mais uma vez, perdão por ontem.
Você é incrível.
Com amor,
Lu.”
Paula retomou seus gritos, de modo que eu, completamente surpresa, deixei tudo cair para tampar meus ouvidos. Ela continuou gritando por alguns minutos, palavras incompreensíveis de tamanha era sua empolgação. Ela ficou completamente vermelha com o passar do tempo, e parecia ter certa dificuldade para falar. Eu continuei com os dedos nos meus ouvidos até que Enzo se aproximou de nós. Pude ver Daniel ao longe, na sala de seu pai. Andries estava tentando acalmar Paula agora. Tirei os dedos dos ouvidos e agradeci a Enzo, que estava com as flores e o cartão na mão. Pode ser impressão minha, mas poderia jurar que ele leu. Virei-me então para o Senhor Becker, morta de vergonha.
- Mil perdões, Andries. – falei – A Paula só fez esse escândalo por culpa minha.
- Está tudo bem. – ele riu – Todos sabem que um velho precisa de uma distração de vez em quando.
Apesar de seu bom humor costumeiro, ele parecia tenso. Olhou para trás uma vez, para Daniel. Eu encarei o meu colega, que não parecia nada feliz. Ele tremia. Eu olhei para ele, confusa. Então, no que parecia ser um surto, ele veio marchando até mim. Eu ia me encolhendo conforme ele avançava. Senti Enzo se aproximando um passo de mim, de forma que ele ficou a uns 30 cm de distância. Daniel arrancou o buquê da minha mão com força, quase me levando junto, e então indo à lixeira mais próxima. Com raiva, ele jogou o buquê nela. Eu estava estática. Por que ele estava fazendo aquilo?
- Daniel. – sussurrou Enzo, parecendo preocupado.
- Por... Por quê? – perguntei enquanto tentava entender.
- Sinto muito, mas não vou ser eu que vou aguentar toda essa palhaçada calado. – ele gritou e eu me encolhi – Você... – ele gritou ainda mais alto, apontando um dedo para o meu rosto.
- Daniel! – gritou Enzo, virando para ele e segurando seus ombros.
- Você é ridícula! Você é uma fácil. – gritou Daniel – Você é uma p...
Acho que sei o que ele quis dizer. Embora ele nunca tenha chegado realmente a dizer. Porque, nesse momento, Enzo acertou um murro bem no rosto de Daniel, fazendo com que ele caísse para trás com força. Eu nunca tinha visto esse tipo de combate antes. Ambos estavam sérios e irados, como se qualquer palavra fosse despertar completamente sua fúria de uma hora para a outra. Eu estava petrificada novamente. E, mais uma vez, vinham lágrimas aos meus olhos. Ele ia dizer. Ele ia dizer que eu era uma puta.
Isso foi demais para toda a pressão que minha própria mente havia imposto. Todas as vezes em que eu me perguntei se havia sido indecente, se eu realmente deveria ter deixado Lúcio me tocar, me apertar daquele jeito, voltaram à minha mente. Lembrei de Lúcio dizendo que não imaginava que eu fosse virgem. Talvez ele pensasse como Daniel também. Talvez eu fosse realmente alguém fácil. Talvez eu fosse uma... Puta.
Eu comecei a soluçar assim que Daniel se levantou. Paula me puxou para perto de si, me envolvendo em um abraço confortador. Ouvi Andries e Paula começarem a gritar, no mesmo tempo, com Daniel. Mas não vi o rosto de ninguém. Estava muito ocupada chorando minhas inseguranças. Senti-me patética. Meu corpo começou a tremer violentamente. Eu nunca tinha sido ofendida. Não assim. Meu tutor costumava me dizer algumas coisas, mas hoje eu realmente tive algumas experiências horríveis. Fui ignorada, depois tratada com frieza e, então, tratada com raiva e, por fim, insultada.
Foi quando eu senti mãos diferentes me tocando. Eu ergui meus olhos, um tanto confusa e curiosa, para perceber a silhueta de um homem através das lágrimas. Fui puxada gentilmente para algum lugar, e me deixei ser conduzida. Quando eu sentei, percebi que estava de volta à minha sala. À sala de Enzo. Assim que consegui me acalmar, pude ver que era Enzo que estava ali. Ele estava procurando alguma coisa na minha mesa. Por fim, achou um pacote de lenços que eu mantinha ali como garantia e tirou alguns, começando a limpar meus olhos. Eu parei de soluçar aos poucos e comecei a respirar fundo.
- Eu sou uma idiota. – falei, soluçando mais uma vez.
- Você é sensível. – disse Enzo – Faz parte. Era de se esperar que alguém tão gentil fosse tão frágil.
- Eu não sou frágil. – disse.
A raiva me subiu por um instante, enquanto eu pensava que ele acabara de demonstrar pena por mim. Porém, ele continuou enxugando meus olhos em silêncio. Com raiva, peguei os lenços da sua mão e os amassei, rasgando em várias partes. Após isso, abaixei os olhos e fiquei olhando para eles. Então, uma mão grossa suspendeu meu queixo. Enzo limpou meu nariz (ai, que vergonha) enquanto eu corava.
- Não precisa ter pena de mim. – falei.
- Não tenho pena de você. De onde você tirou essa história absurda? – ele perguntou surpreso.
- Você está cuidando de mim. – falei.
- Claro. Você cuida de mim também. – ele disse – Além disso, é quase tradição que eu conserte as merdas do meu irmão.
- O que quer dizer com isso? – perguntei curiosa.
- É só que... – ele suspirou – Bem, o Daniel já lhe falou de mim?
- Só que costumava roubar as namoradas dele. – falei.
Lembrei-me do dia em que eu e Daniel estávamos lá em baixo, na cafeteria, e eu estava reunindo lanches para levar para o seu irmão. Ele disse que Enzo não merecia, e aconselhou que eu me afastasse dele. Segundo Daniel, Enzo era um cafajeste de primeira marca. Eu simplesmente disse que já tinha imaginado isso e pedi que ele não se preocupasse. Então ele me contou a história: sete namoradas seguidas que lhe foram roubadas. Eu fiquei surpresa, mas aleguei que isso não se aplicava à minha pessoa. Eu não era namorada de Daniel.
- Tem uma história por trás disso. Quer ouvir? – ele falou, dando a volta e indo sentar no sofá de espera.
- Quero. Se não for incomodar. – falei rapidamente, meio arrependida de estar se metendo em sua vida.
- Sente aqui. – ele disse enquanto dava alguns tapinhas no lugar ao seu lado.
Eu fui até ele, um tanto constrangida. Era verdade que nós jamais tínhamos conversado assim, sobre sua vida. E era completamente compreensível, já que todos estão cansados de saber que eu tenho memória eidética e nunca esqueço as coisas. Ou seja, qualquer história que ele me contasse ficaria gravada na minha mente para sempre. Eu andei com calma e me sentei ao seu lado. Nem muito longe, nem muito perto. Era um sofá de quatro lugares (que fora colocado recentemente, eu nem tinha sentado ainda) e, como ele estava no último lugar, me pus no segundo. Assim, eu estava a uma almofada de distância dele.
- É importante que você saiba que eu não quero lhe jogar contra meu irmão. Muito menos que você fique com raiva dele. Mas é bom que compreenda essa história. É um tanto cabeluda, mas acho que você está preparada. – ele parecia sério.
- Ok. – falei um tanto constrangida.
- Você sabe a história dos meus pais. Minha mãe, uma mera Souza, detesta seu nome até hoje. Casa com homens ricos, eu nem sei por quê. Ela casou com meu pai. Teve a mim. Porém, por motivos desconhecidos por todos nós, quando eu tinha quatro meses, ela largou a nossa família. Divorciou-se do meu pai e foi para tão longe que eu nunca mais a vi. Meu pai arranjou pessoas que cuidassem de mim. – ele ergueu as sobrancelhas – E não ouse ter pena.
- Não tenho. Sei como é, perder os pais. Só tenho compreensão. – eu sorri um tanto triste.
- Seus pais não tiveram escolha. – ele me deu um sorriso sarcástico – Pois sim. Então, meu pai conheceu a Daniela. Eu tinha cinco anos, acho, quando o Daniel nasceu. Não me prendo a detalhes. – ele deu de ombros – Então, tudo meio que desmoronou. Quando Tatiana me ligou, acho que três anos depois. Ela me perguntou se estavam me maltratando, agora que eu era o filho da outra. Se minha madrasta era má comigo. Daniela é um doce de pessoa, não faria mal a uma mosca. Ela me lembra você, mas sem sua força e determinação. – ele me sorriu – Se você grita com ela, ela chora na hora. E ela não é capaz de se virar sozinha na vida. Acho que grande parte do amor do meu pai por ela é só pena. Não me ache cruel nem prepotente, achando que minha mãe é melhor. Mas foi aí que a gente descobriu. Daniela queria que eu nunca mais falasse com Tatiana.
- Mas ela não era um doce de pessoa? – perguntei, confusa e surpresa.
- Sim. Ela queria me criar como filho dela até que eu esquecesse que tive outra mãe que me deixou no mundo. – ele deu um sorriso sarcástico – Mas meu pai pirou. Andries disse que jamais proibiria Tatiana de fazer qualquer coisa. Foi quando Daniela disse que “Não é possível que você queira que ele mantenha relações com uma mulher tão odiosa”. Foi a declaração mais cruel que eu já ouvi em minha vida, vindo dela.
- E você ainda lembra-se disso? – me surpreendi.
- Sim. Porque o que houve depois é uma coisa inesquecível para uma criança: meu pai deu um tapa tão forte em Daniela que ela cortou a bochecha profundamente e começou a sangrar na hora. Era de se esperar que ele se arrependesse, mas não. Então ele gritou com ela, bem na frente de todos nós. “Você sabe sua posição aqui. Você é a segunda. Eu nunca deixei de amar Tatiana, e nunca vou deixar de amar a Tatiana. Você foi quem decidiu conviver com isso. Foi você que disse estar ciente que, no momento em que ela me quiser de volta, eu te largo”. – então Enzo deu um riso um tanto louco.
- Ele... Disse isso? – perguntei chocada.
Eu tinha uma imagem tão definida de Andries que jamais poderia imaginá-lo dizendo isso. Ele era gentil, era preocupado comigo e era muito carinhoso. O imaginar batendo numa mulher e a humilhando dessa forma desconstruiu a boa imagem que eu tinha dele. Mas então lembrei as palavras que (ironia do destino) Tatiana me dissera há algum tempo. “Nunca idealize as pessoas, porque ninguém é perfeito. Todos nós temos nossos ódios e dores. E sempre revelamos nosso pior lado quando mexem com elas”. Acho que eu idealizei Andries como o modelo de homem perfeito. O modelo de pai perfeito. Mas ele nunca o foi.
- Alguns dizem que os homens da família Becker só são capazes de realmente amar uma vez. Meu pai amou minha mãe e, não importa o quanto Daniela se esforce. Ela nunca vai ser a Tatiana. – Enzo sorriu – Às vezes eu entendo, sabia? Minha mãe, apesar de tudo, é uma pessoa adorável. Ela é forte, corajosa, ela não tem medo de ninguém e é simplesmente louca pela liberdade. O modo como me trata, às vezes... Eu me pergunto por que ela partiu.
- Você gostaria de saber? – perguntei.
- Você sabe? – ele ficou estático de surpresa.
- Não é muito bonito. – dei de ombros – Ela me contou... Ontem. Antes que eu saísse. Ela queria me dar conselhos.
- Eu quero saber. – disse ele, se inclinando em minha direção.
- Você já ouviu falar... De depressão pós-parto? – perguntei.
Ele ficou chocado. Parado, em um único lugar. Só respirando. Os olhos arregalados. Mas é claro que ele reagiria assim. A depressão pós-parto é uma coisa séria que atinge cerca de 10% das mulheres, segundo uma pesquisa que uma vez eu li, da Royal College of Midwives, do Reino Unido. A mulher com depressão pós-parto simplesmente não consegue curtir o seu bebê. Ela fica meio louca e, em alguns casos, chega a querer matar o próprio filho. Foi o que aconteceu com Tatiana. Quando ela, pela primeira vez, se viu imaginando como seria bom estrangular o filho, ela pirou. Ela ainda me contou que, às vezes, não enxergava o filho ali. Só uma criança estranha. Eu me lembro de chorar nessa parte.
- Já. – ele respirou fundo.
- Ela se afastou para cuidar de você. E do Andries... Ela se afastou porque ele não conseguiu a compreender. É tudo o que eu soube. Ela não falou muito dele. – dei de ombros.
- Por que ela nunca me contou? – perguntou ele.
- Para que contar isso para uma criança? Para deprimi-la? E para que contar isso para um adolescente, justo quando ele parecia disposto a se reaproximar? E porque contar isso para um adulto, quando ele já parece ter sua opinião formada? Ela, na verdade, nunca quis te contar. Não quer que se sinta culpado por nada. Mas... – eu peguei sua mão e a apertei, na verdade atrás de algum conforto para que eu não chorasse – O maior arrependimento dela é que você tenha sido criado por outra mulher.
- Está com pena de mim agora? – perguntou ele, arisco.
- Na verdade, eu tenho pena dela. Você não teve uma mãe. Ok. Mas você teve um pai. E uma madrasta, depois. Ela perdeu tudo, Enzo. Por uma coisa que ela nem conseguiu controlar. E perdeu o mais importante: o filho dela. – meus olhos começaram a encher de lágrimas – Eu não consigo imaginar coisa pior para uma mulher do que isso. Eu não agüentaria.
- Tatiana é mesmo mais forte do que eu pensei. – murmurou Enzo, passando uma mão na cabeça.
- Ela te ama, sabia? – perguntei com um sorriso – Ela que me disse para cuidar da sua alimentação. Segundo ela, você ia morrer de fome qualquer dia desses, porque só estava ficando mais magro.
- Não se preocupe, você está me engordando direitinho. – sorriu Enzo.
Eu não pude evitar rir nesse momento. Então meus olhos pousaram sobre o cartão vermelho sob a minha mesa. De repente, a felicidade me pareceu tão distante.
Hoje quis trazer para vocês um pouco de CatXLu, um pouco de CatXDan, um pouco de CatXEnzo. Por favor, reparem nas reações variadas de Enzo e de Daniel. Espero que tenham gostado da pequena descoberta do Lúcio. E também trouxe para vocês um pouco do amor (eterno) de Andries por Tatiana. Vocês devem estar achando muito drama no final, mas juro que tenho explicação.
[SPOILER]
É que no próximo capítulo, teremos bem focado o triângulo DanielaXAndriesXTatiana. Porque... TATIS LINDA vai aparecer, minha gente! A mulher vai chegar sambando e vai dar na cara das inimigas. Para o capítulo de domingo, teremos cenas bem emocionantes e vários barracos. Também um pouco de drama, mas juro que tentarei voltar ao foco da história em breve. Deixem nos comentários se vocês gostaram do drama ou se querem que eu pare com ele! Obrigada! Ah, deixe sua estrelinha se gostar *-*
[/SPOILER]