"Você não esta tramando uma rota de fuga, ou esta?" Disse Xiao Zhan, ao captar a mistura de deslumbramento e desespero no suspiro de Yibo.
Da janela do carro, Yibo contemplava a fachada imperial da mansão cercada de árvores kaizukas lindamente banhadas por luzes douradas. Dali já era possível avistar um jardim paisagístico decorado com topiaria, esculturas inestimáveis e fonte de água; uma exibição erudita de riqueza e poder. Era impressionante, de um jeito aterrador.
Após uma pausa — uma longa e meditativa pausa —, o garoto concluiu, seguramente:
"Eu já tenho um plano reserva para o caso de tudo dar errado."
"É mesmo?"
"Sim, e tem haver com desmaio" contou Yibo, os olhos estreitos como se tramasse algo internamente. "Você ficaria surpreso com a minha habilidade de atuação"
"Eu não duvido" concordou Zhan.
O evento foi dividido em duas partes: a primeira (menos interessante) o leilão, onde foram leiloadas obras de arte e outros objetos colecionáveis extremamente caros. O baile seria a segunda, seguido pela apresentação do grupo de ballet de Vaganova Academy.
Zhan e Yibo não participaram do leilão. Xiao Zhan optou por mandar um representante (pobre Zach) para adquirir as peças que queria, evitando comparecer a parte mais entediante. Sendo assim, eles foram diretamente para o local onde ocorreria o baile. Demorou um tempo para que eles chegassem ao distrito de Shunyi, considerado uma das regiões mais ricas de Pequim.
De fora do portão da residência acontecia uma verdadeira carnificina: seguranças lutavam para impedir dezenas de paparazzi sedentos de avançar, jornalistas gritavam implorando por uma entrevista, sem contar a confusão de flashes de câmeras que poderiam cega-los se não fosse pelos vidros escuros do carro.
Uma espécie de hostess os interceptaram antes de passarem pelo portão principal. Zhan entregou a ela o convite, mas não satisfeita, a hostess perguntou pelos nomes de ambos ao qual ele respondeu com um simples "Xiao Zhan e convidado". Ela checou na agenda eletrônica, sorriu amplamente e, em seguida, liberou a passagem.
Passaram por um magnifico túnel de glicínias brancas que cobria a estrada de automóveis que levava até o prédio e, menos de um minuto depois, estavam parados de frente a escadaria da entrada.
"Espero que nada de ruim aconteça hoje" pediu Yibo baixinho.
"Espero que qualquer coisa ruim que aconteça hoje seja, pelo menos, cômico." Xiao Zhan sorriu e então saiu do carro.
Antes de Yibo sequer pensar em segurar na maçaneta da porta, um homem de smoking a abriu por ele. Yibo desceu e agradeceu de modo automático. Pedindo licença antecipadamente, um manobrista ocupou o lugar de Zhan e partiu com o carro para estaciona-lo.
A melodia "Sangue Vienense" de Johann Straus II foi inundando seus ouvidos conforme subiam a escada. Foram conduzidos de um corredor alinhado por colunas de porcelanas pintadas com guohuas a um grande salão com chão de mármore. Assim que chegaram ao local da festa, Yibo ficou boquiaberto.
A visão era mesmo de tirar o fôlego. As paredes claras e imaculadas repletas de delicadas peônias e folhas de pratas que se entrelaçavam e subiam até a um teto esculpido com o que parecia ser uma releitura em branco do Templo do Céu. No final do salão havia um palco, e no canto músicos tocavam instrumentos clássicos, mudando de uma musica para outra sucessivamente.
O encontro cultural estava nítido até mesmo nas vestimentas dos convidados. Enquanto de um lado havia homens de fraque e mulheres trajando grifes europeias, no outro havia grupos distintos vestidos com sáris tradicionais pintados à mão, quimonos e kebayas de costura intrincada.
"Uau..."
Os pés de Yibo ficaram enraizados no lugar. Por um momento ele havia se esquecido de como andar. Mas, de repente, sentiu a palma de Zhan pressionar suas costas, o toque transferiu certa segurança e ele se deixou ser guiado pelo salão.
"Estão olhando para você" Sussurrou Yibo, capitando o frisson dos convidados curiosos.
"Acho que eu não sou o centro das atenções" Redarguiu Zhan com gravidade. E acrescentou, piscando maliciosamente um olho: "Há algo mais bonito comigo para se admirar."
As sobrancelhas de Yibo subiram, sintonizando com a sua descrença. Ele estava flertando com ele? Desviando o olhar, Yibo riu.
"Entendi o porquê da sua reputação, Zhan-ge" disse. "A lisonja sempre vem facilmente para você. Deve ser fácil ganhar a simpatia dessas pessoas."
"Lamento desaponta-lo" contradisse o mais velho, com um teor de humor nas palavras "mas logo irá descobrir que a maioria aqui adoraria ter a minha cabeça em uma bandeja."
Yibo tombou a cabeça levemente para o lado, as íris castanhas brilhando.
"Agora fiquei curioso" confessou.
Os lábios de Xiao Zhan penderam para o canto insinuando um leve sorriso.
"Você sabe, as pessoas tendem a criar historias para explicar o que não conseguem entender."
Intrigado pelo comentário, Yibo parou de andar e se virou para Zhan pronto para interroga-lo, quando um homem alto veio até os dois curvando-se.
"Desculpe incomoda-lo senhor Xiao, mas poderia me acompanhar? Gostaríamos que assinasse o mural e tirasse algumas fotos."
Tirando a mão das costas de Yibo, Zhan mirou o homem que os havia interrompido. Concordou com um breve aceno de cabeça e depois trocou um olhar significativo com Yibo, antes de se inclinar para ele e aproximar o rosto de sua orelha.
"Vai ser rápido" disse de modo que apenas Yibo pudesse ouvi-lo. "Não fuja e nem finja desmaio até eu voltar"
Mesmo sem vê-lo, Yibo sabia que Zhan estava sorrindo, pois conseguia ouvir a risada em sua voz aveludada. Um arrepio percorreu sua espinha quando o hálito quente de Zhan tocou a pele sensível do seu pescoço, mas ele não demonstrou.
Yibo assentiu, ainda que fosse contra a ideia. Por mais rápido que fosse aquilo, ele não queria ficar sozinho ali. Era mais apavorante do que criança perdendo a mãe no supermercado. Ele encarou a silhueta de Zhan se afastar e suas mãos começaram a suar.
Droga. Respire.
Decidiu comer algo para distrair a mente e bandou-se para a área dos aperitivos. Em cima de mesas redondas estrategicamente posicionadas havia taças de champanhes importados. Um lustre imenso pendia do teto, derramando sua cascata de luz amarelada sobre uma extensa mesa de pinho, cujo comprimento era capaz de comportar mais de vinte pessoas.
Cercados pela decoração limpa e elegante estavam os aperitivos de nomes complicados demais para serem lembrados, alguns dos maiores sucessos da culinária mundial. Ostras frescas mantinham-se presas entre os blocos das montanhas de gelo.
Como nunca havia experimentado uma, Yibo se viu tentando a comer. Pegou a ostra e a cheirou. Apesar da aparência nada convidativa o cheiro era típico de frutos do mar e isso o encorajou a tentar. Encostou a língua e fez uma careta. A consistência do molusco não era nem um pouco agradável.
"Horrível não é?" Comentou uma voz grossa.
"Hum... Não o tipo de coisa que eu estou acostumado" respondeu Yibo, desapontado.
"Uma porcaria detestável" desdenhou a voz "Mas faz bem para saúde e, quando se tem moléculas de colesterol do tamanho de safiras, comer por conveniência é a única coisa que impede suas aterias de se entupirem."
Transtornado, Yibo desviou o olhar para a pessoa que havia chegado silenciosamente atrás de si e ficou impressionado com o que encontrou. Um homem de cabelos grisalhos com idade para ser seu avô vestia um longo e carmesim casaco de brocado, luvas de punho largo nas mãos e calções que terminavam nos joelhos. Óculos vintagem com armação retangular escorava-se na ponta de um nariz anguloso e havia um diamante na cabeça da bengala prateada que completava o visual.
O garoto rapidamente fez uma mesura, que foi respondido com um aceno indiferente.
"Então, o que esta achando?" erguendo a bengala, o homem exótico fez um movimento abrangendo tudo ao redor.
Tomando visão geral, Yibo limpou a garganta antes de responder extremamente formal:
"É realmente muito bonito"
"Não estou me referindo à decoração e sim ao evento como um todo" interrompeu o homem, deixando claro sua impaciência.
"Ah" Yibo piscou "É uma causa bastante nobre..."
"Todas são." Declarou ele, cheio de autoridade.
Yibo encolheu os ombros e ficou transferindo o peso do corpo de um pé para outro, incomodado com o próprio nervosismo. O homem olhou para o enorme relógio Franck Muller em seu pulso, parecendo entediado com a conversa que ele mesmo havia iniciado. A demonstração de arrogância embrulhou o estômago de Yibo.
"Honestamente" começou o garoto, sem perceber. "Leilões e bailes extravagantes como esses costumam a custar mais do que o valor arrecadado para as causas sociais. Mas é forma que as pessoas ricas encontraram para se sentirem altruísta, o que me leva a pensar se tudo isso não seria mais exibicionismo do que empatia."
Discorreu Yibo e imediatamente se arrependeu ao ver a expressão de espanto do velho senhor. Como era possível? Não fazia nem cinco minutos desde o afastamento de Xiao Zhan e Yibo já havia feito besteira. Lamentou-se pela falta de filtro, estava cansado daquilo. Na ânsia para se adequar a um novo grupo, ou agradar alguém, ele acabava falando mais do que o necessário, sacrificando-se para entreter completos estranhos. Por isso, raramente conseguia controlar o que dizia.
"Perdão senhor, não foi a minha intenção ser rude." Pediu Yibo, fazendo duas mesuras seguidas para sublinhar o arrependimento.
"É um costume seu expor seus pensamentos tão francamente assim?" questionou o homem, muito sério.
"Estou em duvida sobre como responder a isso, senhor." Confessou Yibo.
"E por quê?" exigiu saber o outro.
O garoto respirou profundamente para responder:
"Não sei qual resposta o fará sentir menos raiva de mim"
O velho de estatura mediana bateu a bengala no chão, ajustando a postura.
"Como você se chama, rapazinho?"
Yibo entrou em estado de alerta. Seu coração disparou, ao passo que sua mente começava a criar diversos cenários absurdos.
"Vai contratar alguém para me nocautear, me colocar em uma banheira e despejar ácido em mim?"
O homem inspirou, ultrajado.
"Esta achando que eu sou o que?! Um chefe de máfia?" ele tirou os óculos num gesto enfadonho e dramático. "Não insulte o meu orgulho desta forma!"
"Yibo. Senhor. O meu nome é Wang Yibo" disse o garoto, atropelando-se nas palavras.
"Por que eu não me lembro de tê-lo visto antes?"
Yibo ficou em silencio. Impaciente, o homem segurou na cintura.
"Responda-me"
"Eu não sei o que dizer para diminuir a sua raiva, o senhor é muito assustador" Yibo se interrompeu, repreendendo a si mesmo. "Quero dizer, não de um jeito ruim, mas de um jeito de alguém que caça toda uma família se ouvir algo que lhe desagrade..." mais uma pausa. "Hum... Pensando bem, isso parece mesmo ruim. Tinha soado melhor na minha mente."
Pelos deuses, cale a boca!
Fechando os olhos fortemente, ele esperou pelo veredicto. Yibo sabia que estava encrencado. Desejou poder cavar um buraco e enfincar à cabeça nele. Desejou que na próxima vida reencarnasse como uma pedra.
Então, quando menos esperava, ouviu um riso estranho e enferrujado, como se a pessoa que o emitisse não risse há tanto tempo que tivesse se esquecido de como o fazer naturalmente. Yibo tornou a abrir os olhos e fitou surpreso ao ver o sorriso desgastado no rosto rígido do homem excêntrico.
"Ninguém, nunca, disse isso pra mim antes. Não na minha frente." Medindo o garoto dos pés a cabeça, ele estalou a língua no céu da boca "Wang Yibo" experimentou dizer. "Você me lembra de alguém que conheci." Escondido sob aquela afirmação havia uma sensação de melancolia, ou de luto, sobressaindo à postura indomável de um jeito quase imperceptível. "Definitivamente guardarei o seu nome!"
Chocado, Yibo tentou ao máximo retribuir o sorriso, mas tudo o que conseguiu foi uma caricatura caótica. Embora a áurea do senhor transmitisse a mudança drástica de humor, ele simplesmente saiu sem acrescentar mais nada, deixando Yibo repleto de perguntas.
"Oh, meu Deus!" exclamou uma mulher em inglês. "É a primeira vez que vejo o senhor Chen Kaige sorrir. A que devemos este milagre?"
Confuso, Yibo deu de ombros.
"Aquele velho ranzinza estava bullynando você?" continuou a mulher em um inglês fluente. "Não ter bons modos provavelmente é um dos itens menos relevantes na lista de coisas que preocupam Chen Kaige."
"Chen Kaige?" repetiu Yibo, esforçando-se para se lembrar de onde havia ouvido aquele nome.
"Sim" confirmou a mulher educadamente. "O magnata milionário, anfitrião do leilão e dono de tudo isso aqui."
E naquele exato momento a alma de Yibo abandonou seu corpo, sentou em um dos divãs encostados na parede e bateu palmas para a estupidez dele. A pressão do garoto caiu juntamente ao coração que se afundou no pâncreas. Ele foi arrebatado por uma súbita náusea e ficou tão pálido quanto a um Jiangshi [1]. Pelo visto não precisaria encenar um desmaio, porque estava prestes a perder a consciência de verdade.
[N/T1: Conhecido como vampiro, fantasma, ou zumbi saltador. É um tipo de cadáver reanimado das lendas e folclore chinês.]
Ele acertou o próprio rosto com as duas mãos e beliscou as bochechas.
"Eu acabei de insultar a festa dele e insinuar coisas terríveis sobre a sua personalidade." Choramingou em seu inglês arrevesado. Yibo sabia ler e entendia a língua, no entanto, sua pronuncia beirava ao terrível.
"Admiro sua coragem" riu a mulher. "Aposto que muitas pessoas sonham em fazer isso"
"Eu – oh!" Yibo paralisou-se assim que a olhou.
A mulher era pouco centímetro menor do que ele. Um vestido de seda vermelho delineava suas curvas e uma gargantilha de rubis destacava-se sobre a pele alva de sua garganta. O cabelo, de um louro semelhante a ouro, estava cuidadosamente arrumado em cachos suaves que chegavam ao quadril. Os olhos eram verdes e cintilantes como os de um gato; ela era tão linda que Yibo se sentiu atacado só de olha-la.
Ele conseguiria reconhecer aqueles traços delicados em qualquer lugar. Aquela era Evva Alekseeva, a melhor patinadora feminina do mundo.
"Prazer, eu me chamo -"
"Eu a conheço, senhorita Alekseeva. Sou um grande fã!" antecedeu Yibo, extasiado com a presença dela.
Evva ampliou o sorriso ostentando seus dentes perfeitos e alinhados.
"Menos mal, pois eu também o conheço senhor Wang" disse. "Para ser sincera, estou feliz em finalmente poder vê-lo pessoalmente. Você quase não tem fotos nas redes sociais, é meio frustrante."
Yibo piscou atônito.
"E-eu me sinto honrado"
Ele precisou de alguns segundos para se recuperar do choque. Passado o primeiro impacto, ele tentou conter a vontade de rir, em vão, já que Evva percebeu.
"Algum problema?"
"Não. Nada" Yibo rapidamente negou. "É só que..." ele hesitou, timidamente. "Acabou de me ocorrer um pensamento: minha irmã vai morrer quando descobrir que a encontrei aqui. Ela também é uma grande fã. Talvez até mais do que eu."
"Oh" sibilou Evva "Que adorável" um garçom passou equilibrando uma bandeja de vinho e ela pegou uma taça de rosé levando-a até os lábios escarlates, um movimento lento e elegante.
"Conte-me, é muito difícil ter Xiao Zhan como instrutor?" perguntou ela. "Nós estudamos ballet juntos quando ele se mudou para a Europa. Ele era o mais silencioso da classe e ainda assim apavorava todo mundo. Lembro-me da primeira vez que a professora nos escalou para o pas de deux. A primeira coisa que ele me disse no ensaio foi: 'Acho que você é perfeita para o papel. Vamos trabalhar bem juntos'. Então fez uma pausa e finalizou com: 'essa é a última coisa boa que vou te dizer'."
Inevitavelmente, Yibo gargalhou alto ao ouvir a historia. Aquilo realmente parecia algo que Xiao Zhan diria. Evva bebeu um gole do vinho, observando-o com seus olhos sagazes. A risada do garoto atraiu a atenção dos convidados e, tampando a boca escandalosa, Yibo tratou de se recompor.
"Ele é mesmo exigente" disse.
"Ele não tinha paciência para ensinar a ninguém e só conversava com as pessoas quando se via obrigado." Continuou Evva "Deve imaginar como fiquei surpresa quando saiu a noticia de que ele havia se tornado treinador. Na verdade, todos estão muito curiosos para conhecê-lo Wang Yibo, o garoto que fez Frost ceder sua coroa."
"Até o mais cruel dos reis um dia precisa passar o legado" disse Xiao Zhan, parando ao lado de Yibo. "Desculpe a demora, fui retido inúmeras vezes antes de encontra-lo." Explicou e, em seguida, se virou para a bela mulher "Olá Evva" saudou cortes.
"Zhan." respondeu ela "Estava me perguntando quando apareceria."
"Certeza?" disse Xiao Zhan, tocando gentilmente o queixo "Aparentemente estava bastante entretida contando sobre o passado para o Yibo."
"Bobagem. Apenas expliquei a ele o porquê dele ser um dos assuntos mais comentado ultimamente. Não tive tempo de chegar às partes mais impressionantes. Obviamente omitiria certos tópicos, afinal, gosto de ser considerada sua conhecida."
"Você é muito mais que uma conhecida, Evva"
"E muito menos que uma amiga, eu suponho." Retrucou a mulher com calma, sem se intimidar.
"Falando desse modo quase me faz pensar que isso a aborrece" o tom de Zhan foi despido de solidariedade.
"Decerto, já existiu um tempo em que eu teria me importado. É um alívio para mim que não seja mais realidade."
"Fico feliz por você." Disse Zhan indulgentemente.
Evva o encarou por cima da taça, os olhos de jade com um brilho afiado. Assistindo-os, Yibo enrugou o cenho. Não sabia se era seguro fazer algum comentário, pois tinha a leve impressão de estar em meio a um campo minado.
"Oh, quelle surprise!" juntando-se ao grupo, uma mulher soltou um gritinho contido. "Ver os dois juntos me deixou nostálgica" envergando seu sorriso mais largo, ela cumprimentou Evva com quatro beijos nas bochechas. "Impecável como sempre, querida."
Imediatamente, Evva fez uma objeção:
"Por mais que eu tente, você sempre será a mais bela do evento." Ela admirou o vestido estilo túnica de gaze lápis-lazúli que a mulher usava e comentou perplexa: "Céus! É um Ann Demeulemeester?"
"Chérie, vejo que o bom gosto ainda é parte das suas qualidades" elogiou a mulher nada modesta. "Vermelho é a sua cor. Valentino?"
"É claro" exibiu-se Evva.
A mulher deu uma piscadela conspiratória, em seguida virou-se para Zhan e o olhou de cima a baixo.
"Mon Dieu Xiao Zhan, ao invés de envelhecer você fica mais bonito a cada ano. Tão irritante!"
Ela estendeu a mão graciosamente e Zhan a aceitou, beijando-a por cima da luva.
"Então temos isso em comum, senhora Chermont" disse.
"Le diable n'est pas toujours aussi noir qu'il en a l'air [2]." Cantarolou a mulher e suspirou teatralmente. "Galanteador" acusou-o. Então voltou-se a Yibo com renovado interesse "E você deve ser Wang Yibo"
[N/T2: "o diabo não é tão feio quanto o pintam." Famoso proverbio francês.]
"Yibo esta é Delphine Chermount, minha antiga professora. Grande parte do que sou hoje em dia é graças a ela." Apresentou Zhan, com evidente respeito na fala. "E senhora Chermont, como sabe, este é Wang Yibo."
Delphine o abraçou, mas Yibo ficou rígido, pego de surpresa pelo excesso de intimidade demonstrado pela mulher.
"É um prazer conhece-lo" disse ela ao se afastar.
"É todo o prazer meu" A voz de Yibo fraquejou.
Ele acabara de ser abraçado por uma das maiores e mais conceituadas bailarinas da atualidade. Ele a encarou hipnotizado. Delphine não aparentava os 50 anos que tinha; tudo nela irradiava uma juventude atraente. As tranças box braids presas em um coque alto evidenciavam os traços em seu rosto. E a pele, de um tom tão magnifico quanto o ônix em seu anelar, se destacava sob o azul do vestido.
"Como mon petit Zhan esta se saindo?" Delphine perguntou a Yibo. "Ele é um bom coach? Presumo que seja fantástico e desafiante. Ele nunca foi do tipo sentimentalista. É muito pragmático e, além disso, teimoso."
Entretido, Yibo mal se mexeu. Ele achou aquela conversa toda muito divertida, era como se os papeis tivessem se invertido. Ele esteve naquela mesma posição quando Zhan foi até a sua casa para falar com a sua mãe e irmã.
"Através dele eu descobri que há três maneiras de se fazer algo" prosseguiu Delphine "O jeito errado, o jeito certo e..."
"O jeito Xiao Zhan" Evva completou por ela.
"Sim, o mais divertido" defendeu-se Zhan.
"Disso eu não posso discordar." Comentou um homem por cima do ombro de Delphine. Era bonito, aparentemente dois anos mais velho que Yibo. Possuía feições fortes, cabelos castanhos despenteados e olhos azuis cristalinos.
"Adam!" exclamou Delphine em reconhecimento. "Não posso acreditar, você veio!"
A expressão de Xiao Zhan endureceu no instante em que seu olhar cruzou com o do outro. Adam hesitou por uma fração de segundo antes de pintar um sorriso no rosto.
"E como eu poderia faltar?" brincou.
"Quel belle vue, estão os três aqui. Minha Étolie [3] junta novamente."
[N3: São os principais bailarinos da companhia, as grandes estrelas. São eles que executam os papéis principais dos ballets e ocupam o cargo mais alto.]
"Achei que não iria aparecer" admitiu Evva.
"Eu também" resmungou Adam, baixinho. "Há quanto tempo Frost..."
Foi como falar com uma estatua. Não houve resposta, tampouco uma contração. Xiao Zhan o encarou. Apenas o encarou. Um silêncio eletrizante pairou sobre o grupo, como se todos ali estivessem esperando permissão para respirar. Yibo enrijeceu diante da estranha mudança de clima, ele não ousou falar, não queria interromper o que estava acontecendo.
"Vi o seu vídeo no regional, é muito talentoso senhor Wang." Disse Adam, enfim mudando o foco para Yibo. "Estava ansioso para me apresentar a você"
Yibo assentiu, sentindo uma onda de calor nas bochechas. Ele nunca soube como reagir a um elogio, principalmente quando vindo de alguém que nem sequer conhecia.
"Você também estudou com... o senhor Xiao?" conversar em inglês era confuso para Yibo. Ele achava estranho usar honoríficos em outro idioma, mas não conseguia dizer o primeiro nome de Zhan sem ele; parecia intimo demais.
"Sim" afirmou Adam ", por anos."
"Digamos que, na época, Adam era um dos poucos que tinha coragem para falar com ele abertamente" Esclareceu Evva.
"Oh, je me souviens" riu Delphine "Meus alunos o temiam. Jamais entendi a razão, como era possível que um aluno fosse mais apavorante que o professor?"
"Eles diziam que queriam a verdade, mas temiam mostrar as suas reais vontades e, consequentemente, tinham receio de quem o fizesse." Disse Xiao Zhan de repente "Hipocrisia, não?"
Adam mirou o chão, como se não suportasse encara-lo. Umedecendo os lábios secos, murmurou:
"Fala como se vivesse uma vida pura."
"Pelo contrario, é de conhecimento geral que todas as pessoas mentem. A única variável, no entanto, é a motivação por trás." Zhan voltou ao tom ameno de antes, mas seus olhos, apesar de calmos, estavam penetrantes como agulhas.
"De fato" concordou Delphine, enquanto pegava uma taça de espumante. "Mas não vamos deixar que esse assunto amargo estrague o clima da noite." Ela bebericou o champanhe e tratou de mudar o assunto: " Adam, mon chéri, sempre teve tanta facilidade para se enturmar. Aposto que fez sucesso nessas ferias em Roma.''
Adam sorriu largo animando-se com o novo topico, um sorriso que refletiu nas iris oceanicas. Um sorriso incrivelmente charmoso.
"Foi realmente prazeroso. A Italia é magica, me sinto renovado e grato, pois pude aprender coisas interessantes com os habitantes locais. Como, por exemplo..." devagar, ele caminhou até Delphine. Levou a mão até o rosto da mulher, delicadamente tocando na sua nuca e, como mágica, um pequeno broto de peônia branca da decoração apareceu entre seus dedos. Delphine ofegou surpresa. "As cores das flores podem representar os sentimentos mais variados" Adam gentilmente o amarrou em torno do pulso dela. "O branco significa devoção e harmonia"
Delphine enrubesceu, chocada com o carisma e ousadia do rapaz. Yibo, por sua vez, entreabriu os lábios, admirado.
"Impressionante" disse.
Adam o olhou.
"É muito atraente senhor Wang" embora elogio fosse repentino, o modo casual e galante parecia premeditado. "Uma beleza etérea perfeita para os tons claros."
Ele esticou a mão para toca-lo, mas foi impedido bruscamente. Yibo deu um sobressalto quando Zhan agarrou o pulso de Adam a centímetros do seu rosto.
De forma tranquila, Xiao Zhan disse em russo:
"Gosta de ter dois braços ou não?"
Evva engasgou e, pasmo, Yibo estremeceu diante das faíscas invisíveis disparadas pelos dois. Mas o que infernos acontecido aqui?
Antes de ir, queria compartilhar com vocês essa fanart maravilhosa que a ostarlie fez de Frost. Ela não é super talentosa??? Mais uma vez, obrigada minha linda. Estou completamente apaixonada !!!!
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