"Foi o arcanjo que se tornou o diabo,
mas suas asas ainda eram divinas.
Se ele foi mais bem que mal,
isso eu não posso responder.
Mas eu provei os dois lados da fruta.
E os dois eram suculentos."
Tudo o que eu pude fazer foi deixá-lo ir.
Não porque eu quis, ou porque o destino gritou sobre as margens daquele pequeno rio, mas porque aconteceu. E aconteceu como uma tempestade de verão. Uma chuva de calor que deixou a terra molhada sem uma gota d'água.
E tudo que eu pude fazer foi observá-lo se afastar, longe e lá longe, para outro planeta. Perto o suficiente e ainda o mais longe possível. É possível? Impossível. Ou não.
Começou com um aperto de mãos, simples e singelo. Tinha as mãos ásperas, aquelas de alguém que trabalhava no árduo, o carpinteiro no fim da rua, ou o pedreiro que eu via no prédio 24 todas as manhãs.
— Prazer — uma voz rouca natural, gelada de se ouvir.
Seus olhos eram castanhos. Claros. Escuros só as vezes. Mas castanhos. Vinham de outro planeta porque me mantinham em seu controle como uma arma à laser que podia cortar um alienígena ao meio. O alienígena que tinha o mesmo rosto que o meu. Coincidência, eu diria. Os cabelos eram de carvão, escuros e argilosos. Se enrolavam em sua cabeça num nó macio e suave que me forçavam a uma vigília eterna para não os desemaranhar. Mas eu queria desemaranhar o emaranhado e emaranhar o desemaranhado. Por todos os segundos que estive em sua frente.
Tadeu. Esse era o nome dele. Bíblico, o nome. Vem de Judas, não do que traiu. Porém, ainda Judas, o Iscariotes. Penso agora se a ironia que ronda a vida estava presente desde os dias de Cristo, ou chegou com o big bang. Foi ela quem dizimou os dinossauros? Um meteoro de ironia. Parece viável. Não falei da pele. Era morena! Doce e morena. Não que eu havia provado, mas doce, com certeza. Uma jujuba, quem sabe. Ou seria doce demais? Brigadeiro.
Tamanha postura que ele possuía. Parecia um doutor. Quais são os seus sintomas? Batimentos cardíacos acelerados, suor, ansiedade, vontade de agarrar e não soltar mais. Desculpe, você vai morrer. Podia o imaginar sentado em seu escritório, as letras ilegíveis escrevendo poesias farmacológicas. Ele é seu paracetamol, uma dose diária deve bastar. Não sei se ele realmente foi, mas chegou perto.
Não passaram mais que segundos, segundos! E eu soltei a mão que parecia estar segurando por horas. Não foi amor à primeira vista. Isso não existe. Ou existe, mas não ouso confirmar o que nunca vivi. Não sei nem se sequer foi amor. Foi alguma coisa, alguma coisa forte, molhada, e feita de terra. Já tinha o visto antes, na rua 7, bendita rua 7. Ouvia o culto de longe, e me esquivava até a padaria. E lá estava ele. Não no culto, não na padaria. Mas na sapataria bem em frente. É difícil pensar agora que ele sempre esteve ali, mas só o encontrei quando já estava prestes a partir.
Um meteoro de ironia!
— Diego — eu disse naquele dia, esperando ser a melhor coisa que ele poderia ouvir. — Vocês colam sola de sapato? E pintam? A cor... não tem, na verdade.
Ele sorriu com timidez. Eu sabia que era apenas por ser um cliente e ele o vendedor. Mas aquele sorriso. Um sorriso, e um sorriso. Sonhos de sorrisos. Eu ri. Ele deve ter me chamado de bobo naquela mente inquieta.
— Colamos e pintamos, sim — tão gentil. Se eu não me derreti ali, uma manteiga não derrete ao fogo. — Requer algum prazo em específico?
O prazo que você desejar. — Não. Quando acha que poderei buscá-lo?
Seu corpo não era esguio, mas seus ombros eram largos. Devia ter um abdômen perfeito. Não tinha, mas era perfeito. Vestia ali uma calça jeans folgada, uma camisa branca manchada e um sapato vermelho. Destoante e lindo. Mais tarde me dei conta que usava o sapato para todo lugar. Não lembro se alguma vez me disse o porquê, mas sapatos ele possuía aos montes.
Se algum dia eu sentei e pensei que poderia odiá-lo, eu errei. Errei feio e errei mais uma vez. Um ódio que vem da paixão não é ódio, afinal. Não venha me dizer o contrário. A saída seria mais fácil, menos dolorosa, mas tirava o encanto, o fervor que eu senti quando ele respondeu que
— Qualquer dia depois de amanhã.
Aquele qualquer dia me fez descer por uma montanha russa em uma curva infinita. Era um desafio? É claro que não! Mas tudo que eu ouvi foi me surpreenda, me pegue de fininho e me faça ansioso por uma aparição sua. E eu aceitei o desafio. Eu consigo fazer isso, pode deixar.
Se eu soubesse o pouco tempo que tinha, não teria brincado de esconde-esconde. Aproveite o hoje. Não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje. Todos os conselhos vetustos jogados na lixeira ao lado da minha cama. Vou deixar esquentar, esquentar, esquentar e esquentar até que eu seja o balde de água que vai esfriar. A água, na verdade, era ele. Eu é quem estava pegando fogo.
Quando resolvi pegar o sapato que eu havia descolado e manchado de propósito, Tadeu não existia mais. Não foi um sonho, ele só não trabalha às quintas. Eu deveria saber, pensei. Como não reparei que todas as quintas ele não aparecia por ali? Memorizei dias desconexos. Eram apenas momentos que ele estava trabalhando lá dentro, eu achava.
Peguei meus sapatos com um homem alto e forte, másculo até a ponta dos mindinhos. Descobri que era seu pai logo depois. Poderia ter desistido ali. Um flerte não conquistado, uma jogada perdida, um bumerangue jogado no escuro que girou para bater em minha cara. Eu teria sido mais feliz. Me obcecaria por outro, e outro e depois outro, ou só mais um, e esse seria o um. Um final melhor que o que consegui.
No entanto, eu disse não. Depois eu tento de novo. O nome Tadeu fez morada em minha mente durante toda aquela semana. O nome Judas também. Por algum motivo um era sempre seguido do outro. Judas Tadeu, Tadeu Judas. Uma obsessão religiosa, ou o quê? Talvez um aviso. Sim! Só podia ser. As coisas estão sempre estampadas, nós é quem escolhemos não ver. Cegos por escolha. Cegos por opção. Tanto desrespeito aos que não podem escolher.
Eu estou olhando, mas não estou vendo. Eu olho um menino elegante, mas não vejo a elegância de quem já vai embora.
A rua 7 se tornou a minha rua, porque era a dele. Ainda que nunca chovesse na cidade, foi em um dia chuvoso que deixei de o olhar, mas finalmente o vi. Era a melhor padaria da cidade, e se não fosse, a partir daquele momento passaria a ser. Um dia que cheguei atrasado, e os pães já feitos haviam sido vendidos.
— Sente-se aí, querido. Não será mais que cinco minutos.
E eu sentei na cadeira de plástico branca para esperar os próximos pães recém-saídos do forno. Meu guarda-chuva azul estava aberto bem ali no canto, e como estava ventando bastante, precisava ficar de olho ou voltaria encharcado para casa. Foi em um breve momento que um sorriso transpareceu atrás do azul marinho. À primeira vista era apenas admiração. Muito lindo, tão profundo ainda que eu estivesse na clara superfície. Nas próximas vezes, o sol escaldante já deixava-me observá-lo melhor, e era a melhor coisa dos meus fins de tarde.
Vou ali observar o príncipe dos meus sonhos. Quero dizer, vou ali comprar pão.
Um dia eu o vi no culto, mas foi só um dia. Judas Tadeu, Tadeu Judas. Possuía uma carga religiosa que me amedrontava. Talvez por isso eu me tornei tão obcecado. O medo faz o homem, molda, renomeia e controla. Eu tinha medo o suficiente para ser completamente moldado: a pergunta seria por quem. Mas não é uma pergunta se eu talvez saiba a resposta.
Minha segunda tentativa surgiu no fim de semana.
— É uma loucura — Isabela me avisou.
De que Isabela sabia? Nada, nada. Nunca teve relacionamento algum, vivia colada em mim e me chamava de melhor amigo gay. Eu fiz mesmo assim. E Isabela provou que sabia muito.
O plano era infalível por ser altamente falível. Na manhã de sábado me apressei para observar o movimento na sapataria da Rua 7. Apenas um senhor segurando um par de moccasins. Ele entregava a Tadeu e eu podia ouvir sua voz mesmo que a metros e mais metros de distância. Resolverei o problema o mais rápido possível, meu senhor. Um verdadeiro gentleman, a característica que mais iria sentir falta.
— Não foi pintado direito — exatamente o que eu disse ao chegar na sapataria logo depois. Um plano de mestre, eu diria. Mestre dos desastres. — E a sola ainda está descolando.
Seus olhos me encaravam. Ele sorriu, e não pude evitar pensar que eram para o garoto de dezenove anos Diego e não o cliente irritante Diego.
— Posso dar uma olhada mais uma vez. Você pode vir buscar na...
— Preciso ainda hoje.
— Certamente.
— Então posso esperar aqui.
— Pode.
Simples, curto, perfeito. O jogo de palavras que brincamos todas as vezes às margens do rio. Televisão, sofá, sala, casa, prisão. Prisão? E ríamos até não aguentar mais.
Suas mãos eram delicadas. Não imaginava como aquele trabalho trazia a aspereza que pude sentir antes. Percebi os cachos negros de seu cabelo caindo sobre sua testa.
— A entressola não está colada no vira, por isso que a sola não está grudando — ele via a necessidade de me explicar. Podia sentir o calor de seus olhos me observarem, confirmando se estava prestando atenção às suas palavras. — Vou colar as duas. Não vejo o que há de errado com a tinta, mas suponho que poderia passar uma segunda camada.
Desviei o olhar porque até mais cedo não havia problema algum com o sapato. Na realidade, todos os danos naquele sapato haviam sido causados propositalmente por mim. O que lembro é que após esse dia ele nunca mais foi tocado.
Eu não tinha maiores interesses com esse plano. Acredito que não possuí interesse algum além de querer vê-lo. Ouvi-lo. Poderia ter ficado ali para sempre, ou feito daquela a última lembrança, já que a última doera demais. Mas naquele momento, era tudo para ficar em sua companhia. Foi a primeira vez que o vi trabalhar, infelizmente não lembro da última.
Quando terminou, um sorriso tremulou em sua face e me entregou o sapato quente após colocá-lo em uma máquina para a tinta enxugar e fixar.
— O mesmo preço da primeira vez? — peguei os sapatos tocando em sua mão, rapidamente para que não significasse nada além de um casual toque não precipitado.
— Cortesia da casa pelo transtorno.
Tadeu fez um gesto de insignificância com as mãos e eu resisti à incontrolável vontade de agarrá-las. Acho que estão sujas de graxa, eu poderia limpar para você!
Estava preparado para ir embora, era esse o plano. Não possuía mais nada. Mentira. Vamos beber alguma coisa amanhã? Era o que estava me roendo para dizer. Mas não ousava, deveria ter ousado, mas não ousei.
— Só tenta não descolar de propósito a sola outra vez, pode afetar o vira e aí não tem mais jeito.
Eu o encarei. Meu coração havia dado um pulo e ido dormir em meus pés enquanto ele sorria sem abrir a boca como se dissesse o que tem de errado com você, garoto? E então eu corri, corri por vergonha, mas corri também por excitação, excitação do que aquilo significava.
Naquela manhã eu comprei pão na padaria da rua Peixoto.
A rua 7 havia se tornado proibida, lá se encontrava um exterminador. Ele era solitário, de cabelos ruivos e corpo musculoso. Você é o culpado? Sim, me leva! Mas seria para um porão, escuro e molhado, e lá todos os meus pecados seriam jogados como pedras em minha cara. Judas! Tadeu me dava medo agora. Ele sabia exatamente o que eu havia feito. Você me quer, não quer? Está tão vermelho assim? ...e amarelo, verde, rosa... nem a vidente da rua Gualberto!
Estava óbvio! Mas quem define o óbvio?
É uma mentira e não existe. Nunca vai existir! Um delírio criado para justificar o medo de dizer ou mostrar algo que te afeta, um escape trazido quando se falta da coragem para dizer o sim, o não ou o eu te amo. Mas você sabe! Não sei, não. Se você não me diz, como espera que eu vá saber? E se eu estiver sabendo errado? O óbvio não me prova o contrário, apenas me ilude, me mantém no berço quando já estou grande o suficiente para dormir na cama. O óbvio não precisa ser dito. É claro que não! Precisa ser gritado, despejado em minha cara como se eu não fizesse a mínima ideia. E se eu disser que já sabia... não foi por conta do óbvio, foi por conta do não óbvio que você se dispôs a me mostrar.
Eu me dispus a mostrar a Tadeu que eu o queria. Me joguei como se fosse uma rede, pronto para me balançar, com força e ainda mais forte. Quem se atreveria a me tirar dali? Ele. Só ele. Mas o que me dava medo? Só tenta não descolar de propósito a sola outra vez, pode afetar o vira e aí não tem mais jeito. Outra vez. De propósito outra vez. Um convite? Você é fofo, não precisa disso tudo para falar comigo, da outra vez é só aparecer. E foi isso que ele disse naquele pequeno outra vez. Era uma canoa na margem do lago para que eu remasse e fisgasse o peixe embaixo d'água que eu ainda não sabia o tamanho.
Mas deveria ser enorme! O peixe.
Seria como aprender a nadar. Tadeu seria meu instrutor, seguraria em minha cintura para mostrar para que lado ela deveria ir quando começasse a mover os braços. E ele me mostraria como, suas braçadas potentes. Se ele fosse solto, imagino que iria longe. Lá no oceano! Um tubarão e eu uma presa pronta para cortar os pulsos e deixar o sangue se espalhar nas ondas.
Temos aulas todas as quartas, a piscina é só nossa. Ele diria isso, mas a piscina teria o formato de uma cama. Posso liberar meus sábados também, quero aprender a nadar logo. Talvez fosse necessária uma aula diária. Sou um aprendiz lento! Eu tenho todo o tempo do mundo para te ensinar. Soltei uma gargalhada no quarto. Lembrar agora de Tadeu era como lembrar das trinta moedas de prata que ofereceram a Judas Iscariotes, tão suculentas, mas tantas consequências que hão de trazer.
Mas eu peguei as moedas! Sim, eu peguei. E ele também pegaria. Judas Tadeu, Judas Iscariotes, um devoto e um traíra. A linha tênue entre um santo e um demônio? Não. Há mais no balde de sangue do que transborda. Mas, de novo, o sangue é suculento. O cardápio de um vampiro: não é variado, mas é suficiente. E o vampiro sobrevive. Nunca deixa de provar do apetitoso sangue. O que eu não daria por uma mordida de Tadeu em meu pescoço. Crack. E ele quebra como o de uma galinha. Põe-me no fogo onde é quente e eu estarei pronto para o consumo.
Naquela manhã eu comprei pão na padaria da rua Peixoto. Não tinha o mesmo sabor.
Naquela manhã eu comprei pão na padaria da rua Peixoto. Era uma péssima padaria.
Naquela manhã eu voltei à rua 7.
Ele não pode saber. Vai ser um segredo que contaremos aos nossos filhos um dia. Seu pai me espionava quase todos os dias, não era um apaixonado nato?
Que fofo.
Buá-buá, haha.
Observei Tadeu deslizar suavemente suas mãos sobre um sapato, apertar a biqueira subindo em direção à gáspea, passando os dedos pelo cadarço quando chegava aos ilhoses e aprontava a lingueta. Lá dentro, devia sentir o forro, macio e acochado, acomodando a palmilha em suas mãos que entravam apertadas, agora por dentro, de volta à biqueira. E lá... pronto! O sapato estava pronto!
Era um par de sapatos bonito. Um moço o pegou com um sorriso. Obrigado. Disponha, ficamos felizes que tenha gostado do resultado. Eu gostei do resultado, ah, como gostei do resultado. Voltei correndo para casa. Foi só uma espiada, não faz mal. Ele não me viu. Eu queria que ele tivesse me visto. Eu sabia que você estava me olhando, desejando. Uau! Será mesmo que ele sabia?
— Querido, vem almoçar.
Já era a hora do almoço? Não notei o tempo passar. Pulei da cama em direção à voz áspera de minha mãe. Sentei na cabeceira da mesa, era onde gostava de sentar. E ela na outra. A mesa já estava posta. Almôndegas, eram um chamarisco para minha atenção, domar meu humor. Ela queria alguma coisa.
— Como estão as férias, meu bem?
Eram palavras doces que eu raramente ouvia. Pus uma enorme quantidade de comida na boca e expressei minha falta de educação em seu mais ignorante auge.
— Estão boas.
— Diego, mastigue antes de falar. Modos.
Engoli. Gostaria que ela fosse direto ao ponto, nos pouparia de muito.
— Não acha que poderia ocupar sua cabeça com coisas produtivas?
Encarei-a com um gosto de laranja sem açúcar.
— São férias, por que deveriam ser produtivas?
— Ah, querido. Você já tem dezenove anos. Você poderia fazer um curso esse mês. Pense na quantidade de conhecimento que...
— Obrigado, tenho outros interesses no momento
— Diego Purus, esse curso vai ser uma das melhores...
— Não, obrigado.
Purus. Eu odiava aquele sobrenome. Puro. Sagrado. Sacramentado. Uma vez, se eu já não tivesse sido corrompido. Em que sentido? Não sei, em todos. Tadeu deveria ser puro. Sua postura era sagrada e seu corpo sacramentado. Tão intocável.
No restante do almoço, nenhuma palavra. Retornei ao quarto logo depois. Parecia irreal que eu havia deixado claro para Tadeu todas as minhas intenções. Ou não havia? Seria um óbvio que eu deveria gritar ou ignorar? Eram tantas especulações, tantas perguntas, mas ainda assim apenas um único desejo.
Não consigo parar de pensar nele, é como uma bateria que me mantém funcionando, doutor. Então a ponha na tomada e deixe carregar. Mas meu coração não para de saltitar. Fazemos um transplante para solucionar. E se o próximo há de falhar? Colocamos uma pedra no lugar. Doutor, não! O tratamento não está surtindo efeito.
Decidi sair para espairecer. Não um passeio na Rua 7, ou a terrível Rua Peixoto. Me embrenharia com ele nas matas para achar aquele pequeno rio. Na época, ele não possuía a intenção, um desvio errado, um caminho mal observado e eu acharia o melhor lugar daquelas férias. Com Tadeu.
Terminei em frente à igreja da Rua 7.
Não lembro o que eu estava pensando. Apenas que queria vê-lo, mesmo que isso significasse perdê-lo. Era a adrenalina de ter que me explicar e ficar sem palavras. A ansiedade de ver sua reação ao me ver sem as mesmas. O medo de estragar o que já estava previamente destruído. Você tem uma tara em mim? Sim.Seu pervertido! Só em dias de calor...
Era uma imagem nua e crua do destino e seu sabor era de areia de esgoto. Um encanador bonitão me encontraria morto no asfalto. Tão jovem, tão louco, tão jovem. Louco de amor. Paixão, para se apaixonar pelo apaixonável. Um ser amamentável. Começa como um bebê, você dá de comer, amamenta, deixa crescer. Quando o monstro aparecer em sua porta pedindo leite, você não pode dizer que não esperava. Você o deixou crescer e agora ele quer comer você!
O monstro que eu estava amamentando possuía um metabolismo forte, e já estava do tamanho de uma igreja. De lá saiam sons e cânticos. Era terça-feira, exatamente o dia em que o vi no culto uma vez e eu sabia disso. Só podia ser o dia que ele sempre iria, certo? Sim! Lá estava ele. Uma calça jeans preta e uma camisa social branca abotoada com desdém proposital, feita para parecer amassada, se destacavam na segunda fileira. Os sapatos vermelhos que ele sempre usava destoando a formalidade. Seus olhos estavam fixos no pastor e os meus estavam fixos nele.
Entrei e me sentei no último banco. Tentei ser o mais discreto possível, talvez ele nem chegasse a me ver, só queria o prazer que se encontrava no olhar. Era um prazer estranho, quase vergonhoso, em apenas observar. O ver, o olhar, o se encantar com o que podia achar. Os olhos castanhos, caramelos, vagavam polidamente pelo púlpito. Os cachos estavam penteados para trás, um homem de fé e bem-comportado.
Um homem. Tadeu não era um homem, era um garoto. Um garoto que parecia um homem, que homem. Voltei a circular os olhos na igreja. Famílias devotas, pregação, coisas que acontecem em um culto. Será que isso seria um empecilho? Eu não fico com pessoas que não são da minha religião. Eu faço parte desse congresso faz quatro anos! Nunca te vi por aqui. Pois então faço parte agora!
O culto acabou sem que eu percebesse. Talvez eu já tenha chegado no final, ou não percebi o tempo passar olhando para aqueles lábios carnudos. Eu devia me sentir culpado por pensar essas coisas em uma igreja. Mas haviam pessoas ali que pensavam piores. Você é responsável pelos seus próprios atos, não justifique seus males feitos pelos males feitos dos outros. Ele diria se já me conhecesse, seu senso moral e benevolente não foi suficiente para me mudar antes de partir.
Resolvi me apressar para fugir, porém peguei-me o observando mais uma vez. O homem másculo que me entregara o sapato da primeira vez estava ao seu lado, deveria ser seu pai. Havia uma mulher negra segurando sua mão e uma garota sorridente de cabelos cacheados até os ombros na outra. Uma linda família. Eu iria chegar como algum tipo de vendaval e derrubar a casinha de palha na qual eles estavam embaixo?
Naquele ponto já não havia mais esperanças com Tadeu. Judas Tadeu e o Iscariotes. Um santo e um demônio. Uma terra e uma água. Hão de ser boas combinações?
Não foram. E as esperanças não morreram. Sobreviveram guardadas dentro da caixinha de bailarina, embaixo de seu bordado, para que ninguém a visse. Quieta, comportada, só aparecia quando fosse a hora da apresentação, e então, quando a bailarina estivesse rodopiando, se espalharia pelo salão e ali eu me daria conta. A esperança não foi embora, não!
Foi quando nossos olhos se encontraram. Foi breve, mas foi decisivo.
Tadeu estava em choque, como se alguém tivesse acabado de jogar um balde de água gelada em sua cabeça. Ele estava vindo em minha direção. Doutor, o que eu faço quando encontro a causa da dor? Você se distancia e a elimina. Certo, já estou indo atrás dela!
Precisava ser uma escolha rápida. Ficar e acabar com tudo ou, correr e acabar com tudo. Parecia uma escolha óbvia. Então decidi, e me escondi debaixo de um banco. Sensato. Tudo o que eu podia esperar era que aquele banco fosse um escudo. Eu estava em uma batalha, e aquele escudo me protegeria das flechas e espadas. Vamos troianos, eles estão saindo do cavalo!
Renda-se, grego! — O que você está fazendo aí?
Olhei para cima. Um anjo de pele morena e suave me encarava. Piloto, o que eu faço agora? Motores não funcionando, mayday, mayday. Tentei sorrir, as piores decisões me perseguiram até aquele dia na cabana vermelha.
— Você por acaso viu uma moeda de cinquenta centavos? Eu acho que perdi.
— Posso te dar cinquenta centavos se era tão importante assim.
Me levantei, estava atônito com o cavalheirismo.
— Não é necessário — acho que forcei uma risada, porém lembro apenas de um barulho estranho, como se um elefante estivesse engasgado —, força do hábito.
Tadeu sorriu, nossa, seus lábios! Você não acha que eles estão inchados? Eu poderia morder, quem sabe eles furam e secam um pouco.
— Algo de errado? — sua voz me despertava como um passe de mágica.
— Não mesmo.
— Não sabia que você vinha à essa assembleia — Tadeu se sentou.
— Conhecendo — sentei ao seu lado. Doutor, meu coração. Transplante, meu jovem.
Sua cabeça virou de lado, como um gato tentando entender o que o dono faz dançando que nem um louco. Posso ser seu novelo de lã, só precisa me desenrolar com cuidado.
— O que achou do culto?
Ele estava evitando falar sobre o sapato? Ele queria me pressionar, é isso? Me fazer enlouquecer, imaginar o que ele poderia estar pensando. Me fazer divagar por todos os planetas até achar um chamado vergonha e me encolher para entrar. Queria que eu me incomodasse tanto ao ponto de que eu mesmo me sentisse obrigado a falar. Pois ele estava conseguindo.
— Suave.
Ele riu, e por um momento, tudo eram flores. Um mar de rosa. Não me venha com ditados contrários. O som da sua risada era um carro e eu estava deitado no meio da estrada. Havia sido atropelado, mas em um bom sentido. Faz sentido em minha cabeça.
— Acho que é a primeira vez que alguém chama um culto aqui de suave.
Tadeu fez questão de falar suave como um surfista falaria. Me deixa ser sua prancha!
— Estava tentando ser descolado — admiti, cheio de constrangimento.
— Falando em descolar...
Me apressei em me levantar.
— Antes de você falar qualquer coisa, — eu devia ter deixado ele falar — você estava errado! — eu realmente deveria ter deixado ele falar. — A sola realmente estava descolando porque você não fez o seu trabalho direito.
O sorriso dele desapareceu. E com ele toda a minha vontade de viver. Desci em uma espiral como um rato desce atrás de queijo em uma ladeira de ratoeiras. Ele iria dizer alguma coisa, mas nesse momento, uma mulher de cabelos negros e crespos se aproximou com um sorriso angelical.
— Vamos para casa, meu filho. Quem seria esse rapaz?
— Alguém que já estava de saída — era a voz rouca que eu tanto admirava.
Os olhos de Tadeu me encontraram uma última vez antes que ele se virasse.
Eu devia ter deixado ele falar.
Vatapá, caruru e todas as vezes que eu deixei de dizer eu te amo, porque amava muito.
E todas as vezes que te olhei, e vi um astronauta.
E todas as vezes que eu te abracei, e senti todo o seu corpo.
E todas as vezes que você me deixou, foram duas.
Tadeu eu vou comer o seu bolo!
Alguém que já estava de saída. Eu amei e odiei essas mesmas palavras. Odiei se nelas havia raiva, afetado. Amei se nelas havia raiva, mais afetado. Ele se importava. Se importava o suficiente para sentir raiva, mágoa, não a indiferença. Deveria ter aproveitado essa segunda canoa de nome desista, marrom e verde como uma árvore. Poderia ter realmente saído e não voltado mais, pegado aquelas palavras e tomado como minhas. Já estou de saída! E iria navegando.
Ao invés disso, agarrei seu braço direito. Tadeu me olhou, seus olhos caramelados gritavam vermelho sangue e eu sentia um cinza amedrontador, era uma tempestade se aproximando. Você é ótimo! Perfeito, na verdade. Só disse isso porque eu estou apaixonado e preciso de um beijo seu!
Mas ele continuava me olhando com grandes olhos de gavião. Poderia me partir ao meio se eu deixasse, por que não parte? Salgado, doce e misturado. Me provaria e eu me deixaria ser provado. Tenho um sabor amargo, doutor! Efeitos colaterais. Isso inclui tara? Pode incluir, se você quiser. Eu quero, eu quero!
Desculpa se eu tarei, prometo que não taro mais. A não ser que você deixe eu tarar.
E eu me perguntava porque ele não conseguia ver, ou se ele conseguia, por que não fazia nada. Que jogo era aquele que eu não sabia as regras? Juiz, eu acabei de levar um cartão vermelho? Sim, vermelho que nem sangue. O sangue é meu ou dele? Decidi que poderia ser meu e atirei para o alto.
— Eu explico tudo na Almendeira amanhã às cinco da tarde, se você quiser saber.
Foi isso que eu disse, sim. Se você quiser saber. Meu erro foi achar que ele já não sabia.
Quando larguei seu braço eu já estava em casa. Prolonguei aquele momento por quarenta anos, já estava velho, com dois filhos, e minha esposa se chamava Catarina. Um dia ela saberia sobre aquele garoto que eu tentei conquistar nas férias, talvez consegui, mas o deixei sumir nas nuvens da lembrança.
Diria ao meu filho mais velho que gostaria de poder rebobinar o tempo, só por alguns minutos. Relembrar o dia em que ele me assustou de costas, agarrou minha cintura e me fez dançar um forró brega. Só o suficiente para relembrar direito! Minha memória já não faz mais o truque, não é potente o suficiente. Se eu tivesse Alzheimer, eu lembraria de uma risada, de um sorriso, de um beijo e um "para" meloso e infantil. Mas não lembraria de um rosto.
Para! Para, mas continua. Para, mas me devora. Para, mas não para, nunca. E se você parar, eu acho que te mato. Só se você me matar primeiro. De amor, de paixão, de calor.
Doutor, eu acho que estou perdendo a cabeça. Antes a cabeça que o coração. Você acha? Não faço a menor ideia.
Tadeu tinha me olhado, ainda sério, e se desvencilhado da minha mão. Nada. Ele viria? Ele não viria? Ele não estava nem aí, nem aqui, nem lá longe. Eu não sabia. Eu não sabia de mais nada, e se ele sabia, nunca me contou. Uma vez, eu lembro que ele me falou que foi quando tudo mudou. Tudo mudou e então eu não percebi. Talvez foi necessária aquela noite na cabana vermelha, ali, eu sei, que tudo realmente mudou.
Deitei e sonhei. Sonhei com um padre, um pastor e um buda. O cenário de uma piada se tornou um pesadelo. Por um momento acho que vi Judas Iscariotes, depois Judas Tadeu, e eles se juntavam para formar-se em um só: o meu Tadeu. Um santo e um demônio. E eu vou repetir de novo, e de novo, e de novo. Até que não reste mais nenhuma dúvida do que ele foi. Não só bom, não só mal, mas uma mistura irônica dos dois. Foi o arcanjo que se tornou o diabo, mas suas asas ainda eram divinas. Se ele foi mais bem que mal, isso eu não posso responder. Mas eu provei os dois lados da fruta. E os dois eram suculentos.
Uma tangerina! E cada goma tinha o poder de me hipnotizar.
Naquela manhã eu comprei pão na padaria da rua 7. Precisava vê-lo de novo. Doutor, uma dose diária não está adiantando, acho que precisarei aumentar. Se aumentar pode criar dependência. Mais? Estou entregue e sinto que fui rápido demais. E eu fui. O tolo no fundo da cartola, ou seria um coelho? Um coelho tolo no fundo da cartola.
Sairia para brincar, a plateia riria da minha cara, mágica! Onde está minha cenoura?
Uma cenoura longa, grossa e suculenta.
Vi Tadeu no lugar de sempre, finalizando os toques nos sapatos de alguém. Será que ele possuía uma cenoura? Poderia testar o coelho que sou. Olá, você tem alguma cenoura? Estou morrendo de fome. Acho que tenho nos fundos, venha dar uma olhada. E haveria uma horta de cenouras, todas minhas para escolher.
Queria ir até ele, mas tudo o que podia fazer era olhá-lo. De longe. Bem de longe. Esperando que algum dia se tornasse de perto. Bem de perto. Tão perto que eu poderia tocá-lo, e beijá-lo, e todos os á-los possíveis nesse universo. Para então, explorar os á-los possíveis nos outros. Em alguma versão desse universo eu havia de ser o Tadeu da história. Eu havia de ser o verdadeiro protagonista.
Essa história é minha, mas eu não passo de um coadjuvante. Eu sou seus olhos, seus ouvidos, seu centro de erotismo, romance ou devaneios. Ainda assim, não sou seu protagonista. E isso custou. Custou e arrastou até aquela cabana vermelha, mais uma vez.
Não posso me adiantar e não posso fugir. Uma hora vou te relevar, Tadeu, doutor, encanador, leitor, sou tudo aquilo que você pensou, muito mais e ainda assim, nada do que você imaginou. Doutor, minha mente está uma loucura. Eu sou um cardiologista.
Voltei para casa antes que ficar parado na padaria olhando para o sapateiro moreno se tornasse medonhamente notável. Tadeu não viria para aquele encontro. Encontro? Sim, encontro! Não é um encontro. É um encontro, mas não é um encontro. Em-contro. Doutor...
O dia iria passar que nem uma lesma, pelo menos disso eu tinha certeza.
São dez horas da manhã e um furacão de areia se aproxima. Ele irá atingir sua rua de velhos milionários e luxuosos pitorescos com um tsunami, sua terra ficará molhada e você irá afundar em uma areia movediça. Aquele furacão era de escala 1. O de escala 5 ainda estava para chegar e esse segundo iria acabar com tudo.
Quando Isabela chegou já eram duas da tarde. Estava se aproximando.
— As minhas empregadas acordaram lerdas hoje, dá pra acreditar? — ela se jogou em minha cama com os olhos cerrados. Parecia querer avaliar meu comportamento.
— Problemas de pessoas ricas — dei um osso.
— Mas não dá pra aguentar! — ela mordeu com gosto.
— Imagino — tentei disfarçar minha indiferença àquele problema deitando ao seu lado e encarando o teto. — Você precisa ir, tenho que me preparar para um encontro.
— Com o hétero? — era descrença que eu sentia em seu tom e isso me dava raiva.
Tentei manter a indiferença.
— Tadeu definitivamente não é hétero.
— Parece bem hétero para mim.
Pulei da cama em sobressalto e abri a porta do meu quarto.
— Porque você tem milhões de experiência com o assunto, não é? Tudo o que você sabe é fazer compras e programar viagens, sozinha!
Isabela sorriu com desdém.
— Primeiramente, eu não preciso de homem algum para viver e ser feliz, e segundo... você quem abandonou a faculdade de medicina depois de um ano e meio, não eu.
— Não abandonei, estou dando um tempo. Tenho outros interesses no momento — Esgotei. — E além disso, eu não tenho certeza se é o que eu quero.
E o restante da tarde foi um ano. Tudo já havia acontecido e Tadeu já havia partido. Doutor, perder noção do tempo é um sintoma de quê? Paixão. Certeza? Não.
Saí de casa às cinco em ponto. A Almendeira era perto e Tadeu não era pontual.
Era uma praça minúscula, com uma árvore em um círculo e um banco de pedra logo em baixo. Parecia que já fizera parte de algo maior, uma peça de um quebra-cabeça que se perdeu. Simplesmente parecia tão errada e por isso era tão certa.
Tadeu não iria vir. No fundo eu tinha certeza disso. Você estragou tudo. Mas o que havia de fato para estragar? Não construímos uma casa para demolir. Então o que eu havia demolido?
Chances, talvez.
O sol se pôs e eu ainda estava lá.
A lua cheia chegou linda e eu ainda estava lá.
Tadeu chegou e eu ainda estava lá.
Seus olhos se encontraram com os meus e eu sorri. Eram caramelos lindos, deveriam ser tão doces. Ele se aproximou com seu sapato vermelho de sempre e sentou-se ao meu lado.
Quando você vai parar de se jogar em cima de mim?
Quando você finalmente me agarrar.
Sua imagem sumiu quando eu pisquei. Eram oito horas da noite e Tadeu não veio.
Eu sabia que ele não viria. Eu avisei que ele não viria. Eu gritei que ele não viria! Então por que ainda doía? Queria arrancar aquela esperança bailarina e pisar até esmagar. Eu não vou ceder, nem arriscar! Mas eu sempre cedia. Era apenas uma questão de tempo.
Um tempo que é egoísta. Um dono de todas as coisas e que vem de marcha ré para dividi-las. Ou seríamos nós crianças mimadas que queremos tudo aqui e agora? Tempo, corra, corra, tem que ser agora! Anda, vem mais rápido! Chega com aquilo que eu quero para ontem. Como se não soubéssemos que o tempo anda com sapatos escorregadios e por isso precisa vir devagar. Tadeu fez esses sapatos? Não sei. Sei apenas que apressei o tempo, e ele caiu de bunda em minha cabeça. Segurando uma pedra que se eu tivesse o esperado engatinhar em seu caminho, teria diminuído e eu seria capaz de segurá-la em minhas mãos.
A pedra ainda estava enorme, e me esmagou.
Comecei algo que não iria dar certo. Pare, agora. Pelo menos eu deveria ter parado. Mais uma vez tinha tudo para que eu desse um ponto final a essa história, e eu recusei. Uma vírgula pareceu melhor. Ou um ponto continuando, um novo parágrafo.
Tadeu Gabriel Solano, agora eu vou te conhecer por completo.
As coisas sempre retornam ao normal.
Não ao seu antigo normal, mas um novo normal, e isso me irrita. Um normal que você vai se acostumar mais rápido do pensa. Meu novo normal era observar Tadeu fazer sapatos. Já podia citar cada uma das partes de um par e reproduzir seus passos de olhos fechados. Veja, veja só o quanto eu aprendi! Infelizmente isso era tudo.
Se eu não consegui alcançar a linha de chegada era minha culpa. Tolo de um coelho que saiu da cartola na hora errada e nenhuma cenoura estava ali a sua espera. Veterinário, senhor? Olá. Qual a forma mais indolor de matar um coelho? Receio que não posso responder essa pergunta. Isso mesmo, eutanásia! Eu não disse isso. Muito obrigado!
Poderia eutanasiar-me, esquecer a vergonha passada e seguir em um futuro espiritual no submundo egípcio. Deixaria Anúbis me levar ao fundo, e mais fundo, até que tudo o que eu pudesse ver fosse apenas suas enormes orelhas caninas enquanto ouvia Osíris clamar pelo meu nome: Diego, o puro.
No entanto, ainda estava ali. Vivendo o meu normal. Mais tarde pude ver essa época como escura e sombria, tenentes de uma ditadura eminente se espreitando ao meu redor como cães famintos. Me pergunto como teria sido minha vida se tivesse desistido de Tadeu naquele exato momento, apagado sua existência da minha memória e sua memória da existência. Um barco de papel em um oceano.
Um papel molhado, porém, é diferente de uma terra encharcada.
Naquele dia, ela encharcou tanto que eu me sujei de ponta-cabeça. E eu gostei.
Já se fora uma semana após a Almendeira ter sido destruída em meus sonhos e todos os dias eu observava meu normal moreno fazer sapatos e mais sapatos. Todos perfeitos como ele. Tadeu Gabriel Solano faltava o Judas. Sua irmã era Elena Gabriela, sua mãe era Lucimara e seu pai era Cláudio, personagens Solanos, e Solanos apenas.
Sentia-me um invasor querendo roubar o nome Solano para mim. Sabia de tanta coisa, e ainda não sabia de nada. Sabia que ele tinha vinte e dois anos, sabia que não trabalhava às quintas, sabia que nos fins de semana gostava de ir à Pracinha da Sanfona e sentar no gramado para ler, sabia que quando usava sapatos era sempre o mesmo vermelho, sabia que só teríamos a partir daquele momento apenas dois meses juntos, sabia que ele iria me deixar, e sabia que não iria voltar depois do que eu fiz.
E ainda não sabia de nada.
Um papagaio que repete tudo o que o dono fala. Eu sei de tudo. Eu sei de tudo! Eu sei de nada. Eu sei de nada! E assim repetia os mesmos acertos. Mesmos acertos! E com eles, todos os mesmos erros. Mesmos erros! Se eu fosse um papagaio, Tadeu poderia ser meu dono. Ou eu poderia ser o dono do papagaio Tadeu. Eu diria estou apaixonado por você. E ele repetiria, apaixonado por você!
Bati meus olhos na sapataria e meu papagaio tinha sumido. Estava vazia, parecia que haviam o tirado da gaiola para limpar. Foi quando me voltei, então, para os pães na gôndola que o vi. Foi como um balde de água fria pegando fogo. Eu queria fugir, eu deveria fugir, mas queria ser bicado por ele. Vou te irritar tanto que você não terá outra alternativa a não ser bicar minha mão, meu braço, meu pescoço...
— Meu pai já está começando a questionar porque um garoto na padaria não tira os olhos da nossa sapataria todos os dias — o papagaio falava.
O papagaio fala comigo! Veterinário? Pois não. Qual o número do IBAMA? Estava atônito, tão imerso em meu próprio mundo que não percebi que ele se encontrava bem em minha frente. Consegui apenas o olhar, em pânico, como se qualquer palavra que dissesse pudesse destruir o palácio que estava sendo construído.
— Eu falei que achava que você era cego — ele continuou.
— Mas eu não sou.
— Eu sei disso.
Sorri ao encarar aquele rosto hipnotizador. Preparo-me para falar algo, mas nada sai, não iria estragar mais nada falando demais.
— O quê? — suas sobrancelhas se contorceram e frisaram.
— Nada. Ele me olhou, levemente mais animado.
— Sabe quantos universos existem paralelamente em um nada?
— Muitos?
— Milhares! — ele elevou a voz e ao perceber isso se retraiu olhando ao redor, vi ali o homem da minha vida, eu acho. — Então tem uns milhares de pensamentos passando pela sua cabeça quando você fala um nada. Nadas não existem.
— Às vezes é difícil selecionar um desses milhares para falar, por isso o nada.
Naquele momento, ele me olhou como se eu fosse a criatura mais interessante desse planeta e eu me senti flutuando em nuvens feitas de algodão doce, e todas tinham o formato de Tadeu, que sorriu para mim.
— Então, nada, Diego. A gente se vê.
E saiu. Simplesmente saiu.
Foi como se eu estivesse derretendo, doutor. Estava quente? Estava fervendo! Esquentando mais e mais a cada segundo e tudo o que eu mais queria era me jogar de vez naquela fogueira. Por favor, me queima. Queima mais forte, derrete a minha pele e põe ela em sua boca como um canibal. Animal, tribal, canibal. Faz de mim seu ritual.
Ele lembrava meu nome. Quais universos paralelos se encontravam naquele nada? Ele queria que eu imaginasse, queria que eu enlouquecesse por uma resposta, para que quando nos víssemos da próxima vez ele me tivesse em sua mão. Como, se ele já tinha há muito tempo? E quando nós iríamos nos ver? Como nós iríamos nos ver? Por que nós iríamos nos ver?
Em casa, tudo era mais doce e mais colorido. Era a melhor sexta da minha vida até aquele momento. Do normal para o incomum. Do incomum para o inesperado. Há uma linha tênue entre todas essas definições.
E se eu decidir pular tudo agora? Ir para a parte boa da história, adeus ao drama, enrolo, desenrolo, partida e final. Deixar só a parte boa da parte boa para a parte boa com a parte boa e assim seria a melhor história que eu poderia contar.
O que acha, doutor? Acredito que deveríamos conhecer a história por completo. Mas eu quero pular! A parte boa não é boa se não conhecermos a parte ruim, e parte boa pode se tornar ruim se surgir outra melhor. Doutor, você é só um cardiologista.
— Não pretendo retornar a fazer medicina tão cedo — falei à minha mãe no jantar.
— Achei que você só estava de férias — respondeu ela, parecendo chocada.
— Eu estou — respondi. — Por tempo indeterminado.
Ela suspirou, quase como se percebesse que não havia como mudar minha ideia.
— Por que essa decisão?
Encontrei o amor da minha vida. — Tenho outros planos.
O dia seguinte é sábado, e eu estava decidido a vê-lo. Talvez, agora, destinado. Mas não confio em destino. O que me garante que minha vida não é controlada por um louco com um lápis e uma caneta ou com um teclado quebrado? Não falo do Deus cristão, para deixar claro. Me entende, Doutor? Não. Um tolo escritor! Sua vida não é um livro. Não mesmo, esse vai ser pequeno demais.
Cheguei à Pracinha da Sanfona às dezesseis horas. Estava calma, poucas pessoas gostavam daquela praça, apesar de muito linda. Era do tamanho de uma casa, três árvores bem cuidadas e dois bancos pintados de vermelho embaixo de uma árvore cada. A terceira era completada com um gramado verde e limpo onde Tadeu deveria estar, mas não estava.
— Você é um stalker — estava sim.
Me assustei e me virei com os olhos quase pulando fora de órbita.
— Quê? — foi o que consegui dizer.
— Você é um stalker.
— Eu ouvi da primeira vez — encarei seus olhos castanhos.
— Então por que me...
— Não sou um stalker.
Ele riu. — E eu sou um médico e não me chamo Tadeu.
Tem razão, se chama Judas, o traidor.
— Posso te chamar de doutor, então? — falei, sem pensar.
Doutor, doutor, doutor! Diga-me. Foi assim que nos conhecemos? Acredito que sim.
Tadeu sorriu, como se não quisesse sorrir.
— Preciso ir, a gente se vê.
Queria gritar a gente não se vê, não! Porque você vai embora? Volta, fica, não me deixa! Mas ele já havia desaparecido e o que havia acontecido?
Eu ainda não fazia a menor ideia das regras daquele jogo. O juiz me deixou na mão mais uma vez. Será que Tadeu lembrava de ter me deixado gelando uma semana atrás? Do que ele sabia exatamente? O que eu sabia exatamente? Por que naquele dia ele não estava lendo? Já estava me esperando? Só para me acusar de stalker e ir embora? Ou eu disse algo errado, de novo?
Mil perguntas e nem uma única resposta. A vontade de criar um furo de roteiro é enorme. Apenas se você soubesse o que está prestes a acontecer... você pararia de ler a história.
Voltei para casa como se o palácio já estivesse em ruínas. Era como a definição exata de altos e baixos. Não é justo não existir um pontinho no meio.
— Você deveria desencanar — Isabela era irritante.
— Por que você insiste em vir aqui em casa? Você não tem nenhum amigo riquinho para atormentar?
Ela sorriu.
— Você só está sendo mais um clichê ao ficar obcecado pelo hétero dos sonhos que só gosta da atenção para elevar o próprio ego.
E o Id, e o superego.
— Eu já disse que ele não é hétero.
— O que te faz ter tanta certeza disso?
— Tadeu já ficou com um menino.
— Como você sabe? — Isabela parecia chocada.
— Descobri — respondi, com desdém. — O ponto é que ele definitivamente não é hétero e eu não sou um clichê.
— O fato dele ter ficado com um menino não diz muito, mas você tem razão. Um clichê seria se também fosse sua primeira paixão.
A encarei e naquele momento eu poderia empurrá-la de um precipício.
— Nós não falamos sobre ele.
— Você não fala sobre. Eu não fiz promessa alguma.
Sentei-me na cama e vi o tempo rebobinar. Estava em um barco, alguém estava do meu lado, o sol iluminava seu rosto e ele parecia a divina personificação de Apolo. Ele sorria, mas não lembro se sorria de volta. Então ele foi sumindo aos poucos, se tornou Dionísio pois sentia o cheiro de vinho, depois Hades porque exalava maldade. Por fim, não vi deus algum, apenas um mortal que já não mais existia. Um tempo remoto onde Helena ainda estava com Teseu.
Mas Tadeu não era ele. E ele não era Tadeu.
Eu sei o passado, o presente e o futuro. Apenas porque essa história é minha, mas sei. Há uma única coisa que liga os dois e essa coisa sou eu. Um pássaro branco destrutivo, pronto para causar um estrago em quem ache que trago esperança.
Quem é você? Como um conjunto, quem é você?
Um abismo inconstante de solidão e excitamento, talvez. Ou, então, uma estrela que é cadente e por isso sempre cai. Quem é você, Tadeu? Eu sou um palhaço, o palhaço da turma. Aquele de quem todos riem, não por ser engraçado, mas patético, necessitado de atenção e afeto que não são supridos aqui nem ali. Por que seriam acolá? Teorias remanescentes de uma personalidade. A minha, a sua, a do doutor. Quem somos nós e quem são vocês?
Seriamos pedaços mnêmicos da vida ou conjuntos de condicionamentos externos? Somos e apenas somos sem saber por que somos sem nunca deixar de ser. Já estive e já fui. Eu estou e eu sou. Um dia estarei e um dia serei. Três linhas temporais, um passado desconhecido, um presente modificado e um futuro molhado. A terra que sou está prestes a molhar e se tornar lama.
Lama podre ou lama benéfica, doutor? Aquela que te engasga e sufoca ou aquela que te rejuvenesce e embeleza? Só o tempo pode responder.
Diga-me o que você quer e eu te darei. Diga-me quem você é e eu o serei. Para sempre e sempre até o sempre acabar. E se você não sabe o que quer, eu posso te ajudar. Queira-me, seja-me, possua-me. Leve-me ao circo que serei o melhor palhaço que você poderia conhecer, suas gargalhadas serão gozos, só gozos de felicidade. E de turma eu fui para circo, o melhor circo da cidade. Tadeu.
Tadeu, você é um deus, mas se eu for ateu, o quão milagroso você será? Se for grego, minha estátua. Romano, meu panteão. Egípcio, meu animal. De mitologia poderia passar para religião, e você se tornaria ainda mais real. Ou não. Se eu acreditasse em apocalipse, você seria o meu cavaleiro da fome. Estou faminto por você e não me deixa provar um pedaço.
Sinto dizer que se você é um deus, eu também sou. Mas em um mundo de deuses, mortais são mais sábios. Sabem perder e reconhecem a linha de chegada, pelo menos alguns deles. Se eu fosse um deus eu te obrigaria. Seria Hades e você Perséfone, mas não no submundo! Escória e podridão, não, não. Tomaria de Zeus seu trono e o Olimpo seria meu, nosso. Deméter não existiria para ajudar. Porque eu seria um deus, e um deus pode tudo. E não pode nada.
O que você quer, Tadeu? Você conversa pouco, mas diz tanto, ou não diz nada. E eu sou aquele que precisa de decifrar, por quê? O que há de tão excitante no mistério? Por que querer tanto entrar no buraco negro? Para ser engolido pela escuridão? Ou consumido por uma luz que ninguém sabia que havia lá?
Doutor, eu vou atrás do histórico. Que histórico? Do paciente. Que paciente? Tadeu.
É isso que você quer que eu faça, não é? Quer que eu cave fundo até achar o corpo e só assim realizar a autópsia. Vou saber quem você é e quem você foi. Dente por dente, unha por unha. Na carne, fundo e mais fundo. E se não houver mais carne, pego-lhe os ossos.
Eu sabia onde ele morava. Mas não podia chegar de supetão.
Oi, queria saber se você já ficou com Tadeu.
Era uma opção. Mas qual a justificativa que eu iria dar? Poderia dizer que era um amigo e que ele jurava de pé junto que não ficou com ninguém e eu só queria tirar uma dúvida. É isso. Ele não ia desconfiar de nada. Eu só precisava entender com o que eu estava lidando. Ele não era hétero, não podia ser. Isabela estava errada. E eu também.
Naquela tarde, eu bati na porta de Francisco com um sorriso no rosto.
— Você é Francisco? — perguntei.
— Sim, pois não? — ele parecia confuso.
Era alto, do tamanho de Tadeu, se não maior. Tinha cabelo afro e uma boca carnuda. A pele negra reluzia sob a luz do sol tardio e ele era lindo. É claro que Tadeu teria gostado dele. Eu gosto dele.
— Certo. Isso pode parecer muito doido, mas é muito importante. — eu disse, percebendo que as coisas iriam dar errado mais rápido do que eu esperava. Francisco não demonstrou muita reação, não parecia abalado, o que me irritava. — Você já teve alguma coisa com Tadeu Gabriel?
E então ele riu. Ele riu com gosto e me disse que
— Sim, eu já tive alguma coisa com Tadeu Gabriel — doutor, está fácil demais. Não reclame. — Ficamos por uma semana até ele sumir. Não liguei — a indiferença forçada em sua voz indicava que ele ligou, e ligou muito. — Por quê?
Porque eu quero ter certeza que ele sente vontade de me ter.
Porque eu quero ter certeza que posso provocá-lo com o que eu tenho.
Porque eu quero ter certeza que ele pode ser meu.
— Por nada. Obrigado.
Tadeu você pode ser meu.
Agora eu sei. Agora é verdade. Por favor, chega disso, me ame. Doutor, ele vai me amar, não é? Ninguém pode ter certeza. Se eu fosse um deus eu teria certeza. Não precisaria correr atrás de respostas ou de migalhas. Eu saberia exatamente o que iria acontecer, e apenas me deixaria levar.
Por que você não se deixa levar agora? Doutor, não seja estúpido.
Ficamos por uma semana até ele sumir. Você pode ser meu, mas e se você quiser sumir de novo? Qual a minha garantia? Eu exijo um recibo!
Não é uma compra. Quem disse que não? E todas as cláusulas? As regras? As proibições? É no mínimo um contrato. E sendo um contrato, eu exijo meu ressarcimento. O que vou fazer quando meu coração for quebrado? Talvez uma troca! Vendedor, esse garoto não está mais me satisfazendo, por favor, gostaria de uma troca. Me prometeram que ele me amaria para sempre, mas não durou nem um mês inteiro. Agora eu quero um que seja presente e não ignore minhas mensagens.
Pois não, o cliente tem sempre razão. Peço desculpas pelo defeito, tenho certeza que esse não dará problemas: ele só terá olhos para você.
Mas e se eu não tiver olhos só para ele? Você é indeciso. Não, doutor, eu sou decidido. Estou decidido que quero alguém que me ame. Alguém, não Tadeu? Sim, Tadeu. Eu quero que Tadeu me ame.
Também quis que o anterior a Tadeu me amasse. E o anterior ao anterior. Mas Tadeu é diferente. Eu sabia que Tadeu seria diferente. A cabana vermelha confirmou isso. Ele foi diferente.
— Você precisa parar com isso — foi o que ele me disse dois dias depois do incidente na praça da Sanfona, quando eu estava na padaria da rua 7.
— O quê? — eu queria soar confuso, despretensioso, queria que você duvidasse se não era você quem estava vendo coisas. Queria, diferente das minhas imaginações, estar por cima. Pelo menos uma vez.
— Parar de ficar encarando a sapataria todas as tardes.
Foi um golpe. Achei que você gostasse. Achei que sentisse o ar ferver sabendo que meus olhos estavam em você enquanto você fingia não saber. Achei que era bom.
Mas eu só disse — Ah.
Ele não respondeu. Estava esperando uma confirmação, claro. Não, eu não vou parar. Eu vou continuar até você se render e me beijar. Isso é doentio. Doutor, você não é psiquiatra.
— E todo o resto? — perguntei, esperando que ele se lembrasse do jogo que ele começou com aquele só tenta não descolar de propósito a sola outra vez.
Todo o resto nós vivemos agora, me beije. — É todo o resto.
E ele saiu. Seria esse o seu sumiço, Tadeu? Por favor, volte. Meu Judas, eu tenho as moedas de prata! Mas elas são o meu corpo. Você não quer?
Não queria mais joguinhos.
Você me quer. Então não me quer mais. Você me vê. Então não me vê mais. Que sentimento é esse que muda da noite para o dia, doutor? Um sentimento normal. Mas é cruel! Ninguém disse que não era para ser.
Se era tão fácil assim, por que eu não mudava? Por que eu não conseguia esquecer quem é você ao acordar de manhã?
Oi, bom dia, não amo mais você.
Mas você me disse que me amava ontem.
É, pois é. Acordei e mudei.
Era exatamente assim que acontecia e que deveria acontecer? É o normal, não é? Você estava tão envolto ontem e hoje simplesmente me disse que não mais vê as cordas. Qual o motivo? Não pode ser do nada. Às vezes é. Mentira! Tem um motivo, eu quero um motivo. Sou eu o motivo? É outro? Ou outra?
Por que você me disse que não estava à procura de relacionamentos e começou a namorar com o menino loiro do supermercado uma semana depois? Por que você me disse não é você, sou eu e me bloqueou de todas as redes sociais? Motivos! Eu vejo motivos, você só escolheu mentiras para acobertá-los.
Não sinto mais nada por você.
Ótimo, também não sinto mais nada por você.
Sério? Mas semana passada você estava tão amoroso...
Sério? Mas semana passada você estava tão amoroso.
E assim você percebe que os motivos existem. Poucos são corajosos o suficiente para revelá-los. É uma forma de proteção, não querem te magoar. Mas não já serei magoado de qualquer forma? Por que não com a verdade no lugar de qualquer desculpa que pareça colar?
E eu descobri o seu motivo, Tadeu. Sentei ao seu lado no culto, na terça-feira seguinte. Ele se sentou sozinho no último banco, longe da família. Se atrasou,eu suponho. Ou estava a minha espera? Estávamos tão conectados ao ponto dele saber que eu viria?
— O que você está fazendo? — talvez não.
—Assistindo ao culto — respondi frio, queria que ele percebesse que eu estava afetado.
— Me siga.
É claro que te sigo. Para onde você quiser que eu siga. Para uma praça lotada. Ou um beco escuro. Agora eu quero que você me encare e me diga como não consegue mais resistir.
Ele estava me encarando, mas um — O que você quer? — foi o que ele falou no canto em frente à igreja.
Você, eu quero você. — Não sei,você quer alguma coisa?
— Eu quero muitas coisas — de novo as respostas evasivas. Ele ainda estava num jogo.
Você não admite, mas também não nega. Você quer que eu suponha que sim sem que precise declarar. Você quer provocar até eu enlouquecer e te beijar. Assim você pode me afastar, ofendido, e fingir que não era o que você queria havia muito tempo. Eu sei o seu jogo agora. Eu sei os seus motivos.
— Muitas coisas —repeti, ainda frio. Não iria dar o braço a torcer, não ainda.
— Muitas coisas— e agora era ele repetindo. Eu estou pegando você aos poucos e você gosta disso, não gosta?
— Amor, está tudo bem? — eu queria que fosse a minha voz dizendo isso, ou a dele. Mas era a de uma intrusa. Ela saiu da igreja com seus cabelos longos, pretos e lisos. Pele pálida como papel, poderia muito bem dizer que estava doente.
— Tudo ótimo — Tadeu me deu um olhar cauteloso como quem diz "nossa conversa acabou, mas eu queria mais" e sumiu dentro da igreja.
Aí estava o seu motivo, Tadeu. Mais um letreiro com letras enormes piscando em um vermelho vivo – que era sangue – me dizendo para parar por aí. Para deixar você no seu lugar e retornar ao meu. Teria sido menos doloroso. Mas talvez eu goste da dor. Então continuei. Continuei, de novo, até a cabana vermelha. Já chegaremos lá.
Tudo isso me fez lembrar do deus Apolo. O anterior.
Me conta, por favor? Por que você quer saber, doutor? Para entender a sua dor. Seu nome era Leonardo. Leo, para mim. E ele era o deus do sol. Metaforicamente? É claro, doutor, deuses não existem. Exceto Tadeu, Tadeu definitivamente é um deus. Continue, por favor.
Do sol porque ele me deixava com calor. E eu gostava de suar. Mas ele não era meu, nunca foi. Tinha ela. Eu sabia que ele gostava de mim, eu sabia. Mas ela sempre foi sua prioridade, é claro. Ela era o seu Jacinto, não eu. Eu era Zéfiro, o invejoso. E foi apenas o que fui, alguém que estragou a sua vida. O que você fez com ele? Nada. Então o que aconteceu?
Não quero mais pensar nisso, doutor. Está doendo.
Parecia a mesma história. Sempre repetindo. É tudo um ciclo, afinal? Mas o final dessa precisa ser diferente. E foi, na cabana vermelha. Por que você vive repetindo sobre essa cabana vermelha? É irritante. Porque ela é importante. Importante para quem? Para a terra que foi molhada. Não entendi.
Eu deveria ter sacado ali. O nascimento de um traidor. Quando eu descobri o seu motivo, Tadeu, eu deveria saber que você pegaria as moedas de prata. Você queria as moedas, você desejava tanto por elas que precisou afastá-las com toda as suas forças para não sucumbir à vontade de pegá-las e apertá-las forte. Eu posso ser essas moedas, me aperte mais forte, por favor. Tão forte que eu ache que você nunca mais vai me largar.
Encontrei o seu motivo por acaso na rua 7 na manhã de quinta-feira.
— Você é o amigo de Tadeu? — ela me questionou, a caminho da padaria.
— Sim — o sim doeu em meu âmago. — E você é namorada de Tadeu.
Falei namorada como se fosse um xingamento. Queria provocá-la.
Mas ela não pareceu ofendida, ao contrário, deixou um sorriso escapar.
— Ele já está me chamando de namorada?
Eu me odiei por aquilo. Havia dado comida ao pássaro e agora ele tinha as asas necessárias para voar. Voltei para casa abalado e queria morrer. Minha vida não tinha mais sentido. Você está numa novela dramática agora? Me deixe sofrer, doutor. Deixo, mas antes me responda uma coisa. O quê? Foi realmente por acaso?
Não era importante. O importante era minha dor. Me sentia em uma floresta escura e fria, chorando e solitário. Um lenhador me encontraria, com seus braços musculosos e perguntaria se eu estava bem. Eu diria que não, estava abalado! E ele me deixaria feliz, de um jeito que só ele saberia deixar, em sua cabana – não a vermelha.
Voltei à padaria durante a tarde. Nada de Tadeu, mas lembrei que era quinta.
Na sexta, ele também não estava. Nem no sábado, ou domingo. Era como se ele tivesse sido apenas um sonho, uma ilusão. Pensei se aquele seria o sumiço do qual Francisco me alertou.
Quando ele apareceu na segunda, não pude controlar. Era como se não o visse há anos. Muitos anos.
— Descolou o sapato mais uma vez? — ele disse quando eu cheguei. Agora ele parecia feliz, ansioso, jovial. Onde estava o jogo anterior em que ele fingia desprezo?
— Poderia ter descolado, na verdade — e continuei. — Não sabia que você tinha uma namorada.
— Não tenho — tentei observar seus olhos. Tão enigmáticos como as estrelas. Qual o seu jogo agora, Tadeu? Justo quando finalmente descubro, quando finalmente entendo seus passos, você decide mudar o rumo?
— Mas... — comecei, mas ele não me deixou terminar. Não queria que eu terminasse.
— Rafaela era apenas... alguma coisa. Que já não é mais.
— Então vocês terminaram? — tentei conter minha animação.
— Se tivesse o que terminar, eu diria que sim — não consegui. — Você está rindo.
— Foi mal? — era uma pergunta. Queria saber se ele achava ruim o fato de eu estar feliz com aquilo, queria saber se para ele era mal.
Talvez não fosse. Ele se aproximou de mim e eu achei que iria enfartar. Doutor, ajuda. O que acontece se meu coração sair pela boca? De acordo com a distância que vocês estão, vai parar bem na boca dele. Então talvez eu deixe ele sair. Mas aí você morre. Não me importo.
— Você é curioso, Diego.
Eu sou curioso, Tadeu. Sim, sou curioso. Por que você não se aproxima e tenta me entender melhor? Posso ser mais curioso ainda. Ele não se aproximou, mas eu gostei do que ele falou.
— Aceita uma desculpa por ter faltado na Almendeira? O que acha de uma segunda tentativa hoje à noite?
E dessa vez, eu quem não fui.
Não sei o que eu estava pensando, não me pergunte, doutor.
Não iria perguntar...
Era um retorno. Era minha tentativa de gritar: eu também sei jogar! Esperando que ele gostasse. Você não quer que eu te enrole? Não é esse o seu jogo? Te provocar assim como você me provocou? Quanto mais eu acho que entendo você, menos eu compreendo. Precisaria ver você sozinho. Somos sempre nós mesmos quando estamos sozinhos. Só assim para entender quem você realmente era, Tadeu.
Por que não somos sempre a nossa versão de quando estamos sozinhos, doutor? Não sei, talvez você devesse perguntar a um psicólogo. Não quero me sentar com um estranho e ficar jogando papo fora. Não é essa a função de um psicólogo...
O que define o eu que você vê em mim, o eu que eu vejo, o eu que eu mostro, e o eu que eu realmente sou? Como podemos ser capazes de reunir tantas versões de nós mesmos?
Isso é uma pergunta para mim? Não, é para o psicólogo.
Como profissional atuante da área de psicologia, acredito que você tenha alguns problemas psicológicos, questões mal trabalhadas e traumas não superados.
Não acho, estou perfeitamente saudável. Estou feliz, Tadeu quer me ver. Ele me quer.
Isso não deveria definir a sua felicidade.
Você é um psicólogo, não um medidor de felicidade.
Era óbvio que você estava escondendo alguma coisa, Tadeu. Eu sabia disso, e não precisava que você gritasse para mim. O que a parte que você esconde diz sobre a parte que você quer mostrar? E o que a parte que você mostra revela sobre o que você quer esconder? O que isso faz de você? Meu? Talvez. Agora que eu sei que você me quer.
De repente estamos na cabana vermelha. Está tudo escuro. Estou apenas esperando o momento certo, o momento em que você finalmente vai me mostrar o que você sempre lutou para esconder: seu coração. Não. Não é agora, quero voltar ao encontro na padaria, depois do bolo que eu te dei.
— Você é vingativo.
Havia um tom provocativo naquela frase. Tadeu as proferiu como se estivesse elogiando todo o meu corpo despido. Ele gostava daquilo, foi algo que fez sempre. Adorava começar a conversa me chamado de algo. Você é inteligente. Você é lindo. Você é safado. Você é complicado. Você é sufocante. Tão gentil, sempre gentil. Tão gentil que eu podia matar por ele.
— Eu sou vingativo? — provoquei de volta. Gostava desse jogo, era melhor que o anterior. Por quê você mudou agora?
Porque agora eu não consigo mais me controlar, preciso do seu corpo. — Você quis pagar na mesma moeda. Justo. Eu te perdoo.
— Ah, você é egocêntrico ao ponto de achar que eu quero o seu perdão? — brinquei. Ele gostou, pois sorriu como um bobo.
— Por que veio até aqui, então? Para me dispensar?
— Isso sugere que teríamos algo para ser dispensado.
Tadeu me encarou com aqueles olhos castanhos, como um médico inspeciona um paciente, observando e procurando qualquer traço doentio. Mas ele era um médico pervertido, e procurava qualquer espaço fora de cobertura.
Você pode medir a minha pressão.
Vou pegar o aparelho.
Acho que você sentiria melhor com a boca.
Como você desejar.
— É verdade — ele falou, afinal.
— Só isso?
Ele coçou o queixo.
— Você quer que eu fale o quê?
Que me ama tanto que não espera a hora de me ter em seus braços. — Não sei.
— Talvez isso seja melhor que falar.
E me beijou. Assim, doutor. Depois de ter imaginado mil possibilidades, é assim que acontece. Inesperado. Sem pudor, sem medo, no meio da sapataria. Ele não estava nem aí para os outros, só estava concentrado em mim, em meus lábios. Dane-se o mundo.
Quando ele se afastou, eu já não tinha ideia se ainda sabia como respirar. Foi um beijo molhado, gostoso, provocante. Foi mais do que eu esperava, apesar de menos do que queria.
Ele falou primeiro. — Melhor?
Apenas sorri. Pensando em como, a partir de agora, a minha terra estava prestes a molhar.