A super-velocidade de um vampiro original era superior e invejável, mas ser acordada por Kol poucas horas depois de falar com ele que estava na Inglaterra era incalculável. Bonnie ainda estava processando o fato dele estar no seu quarto no inicio da manhã quando Klaus saiu arrastando-o para fora. Ela se vestiu apressada e os encontrou na pequena sala íntima no fim do corredor.
Kol bebia sangue em um copo de uísque e fazia uma careta enraivecida para o irmão que estava olhando pela janela a floresta que tinham como quintal, para este, ela entregou sua camisa que ele havia deixado no quarto quando vestiu apenas as calças para tirar o irmão dos aposentos, vagamente surpresa por não estarem brigando nem se ameaçando.
- Conseguiu fazer contato com Davina?
Depois de ter sido interrompido, ele tentou ligar para o casal, mas nenhum deles o atendeu, por isso ele veio o mais rápido que conseguiu de volta para Mystic Falls. Tinha criado e recriado explicações para a urgência dos fatos que levaram a bruxa e o irmão á se projetarem diante dele em momento tão inconveniente e só pode concluir que Davina havia sido alcançada do Outro Lado.
Ele podia achar Bonnie uma piromaníaca em potencial sem senso de humor, podia não confiar nas prioridades de Freya e nem gostar de Vincent, mas acreditava na capacidade dos três em quebrar as regras e ir contra a natureza em nome da família e dos amigos para trazerem á vida alguém dos mortos. Embora nenhum deles tivesse dito ou dado á entender que estava fazendo algo á respeito, o chamado de seu irmão fê-lo vir apressado, mesmo seus séculos de experiência alertando para o fato de que Klaus era manipulador e egoísta ele veio. Uma chance, ainda que minúscula, de ter Davina de volta valia qualquer negociata.
- Como foi que chegou aqui tão rápido? Você não estava na Inglaterra?
Kol olhou irritado para a bruxa que estava com aquela expressão de quem exige a verdade, com tantos assuntos urgentes ela tinha que se prender aos detalhes?
- Estava em Hollywood, na Califórnia – Bonnie estreitou os olhos, pensativa, e ele explicou antes que ela questionasse – Você deve ter visto algum cenário enquanto se projetava.
- Em seis horas? Nem que você tivesse pegado carona no hipersônico do Bruce Wayne.
Há um mês ele teria questionado quem diabo era Bruce Wayne, mas depois da semana na companhia de Linda – atriz por diversão e vampira há mais de trezentos anos –, na Califórnia, ele era praticamente expert em personagens famosos do cinema.
- Do Batman não, mas de alguém com um jatinho dos bons. Acho que vou arranjar um desses para mim, é melhor que primeira classe.
- Sabe pilotar avião? – a bruxa perguntou surpresa.
Kol piscou confuso, então deu uma sonora gargalhada cheia de deboche.
- Ele sequestrou o jatinho de alguém, Bonnie – Klaus explicou ligeiramente divertido com a expressão surpresa da bruxa.
- Ele o quê? – ela arregalou os olhos.
- Nik disse que era para que eu voltasse o mais rápido que eu conseguisse e isso foi o mais rápido.
- Isso não significa que era para você sequestrar um avião.
O vampiro revirou os olhos e corrigiu.
- Jatinho particular e ficar me dando sermão não vai mudar o que eu já fiz. Considere isso como uma carona com mudança de rota imprevista onde todos saíram intactos. Podemos, agora, falar sobre o motivo por qual me chamaram aqui?
- Klaus! – ela apelou.
- Ele está certo – Kol e Bonnie deixaram a surpresa transparecer – Ele já sequestrou o avião e brigar com ele não vai mudar isso.
- Vai concordar com isso?
- Não concordo – ele ficou subitamente sério – Na verdade estou muito zangado com suas atitudes, Kol, a partir de hoje está proibido de sequestrar, roubar ou pegar sem permissão objetos alheios.
A repreensão estava tão carregada de deboche que Bonnie teve que morder o interior da bochecha para não começar uma discussão que só serviria para deixa-la de mau-humor.
- Se acalme cunhadinha, vou ter meu próprio jatinho assim não vou precisar de carona quando tiver que fazer uma viagem de emergência – Kol sorriu com inocência fingida.
Ela olhou para o híbrido.
- Por que você não tem um? – era uma pergunta irrelevante, mas ficou curiosa.
Vampiros costumavam ter o melhor de tudo o que os humanos inventavam e construíam, Klaus ia sempre de um lado para outro de carro. Ela lembrou vagamente de uma vez que Damon disse algo sobre apenas viajar de primeira classe.
- Não gosto de voar – simples assim, preferia dirigir ou navegar.
- Agora que esclarecemos isso podemos falar sobre Davina? – Kol pediu impaciente.
- Você nos acordou ás quatro da manhã, tem sorte de não estar assando – Klaus reclamou e se virou para a bruxa – Volte para a cama, eu lido com ele.
- Mas eu... – ele a beijou fazendo se calar.
- Vá e tente dormir, mais tarde te levo café na cama.
Bonnie estreitou os olhos na direção de Kol que deu uma risadinha de escárnio para a declaração do irmão á respeito de levar café da manhã para a bruxa na cama. Klaus costumava levar café para ela quando ele tomava o sangue dela. Não que ela reclamasse. Era uma sensação diferente de um vampiro alimentar dela para uma troca prazerosa na cama.
- Bruxa – Kol disse num tom ofensivo quando ela atravessou a porta que se abriu e fechou respondendo á magia dela.
- Sente-se – Klaus mandou quando ouviu a porta da suíte deles se fechar segundos depois.
Repetiu para o irmão as partes que importava da conversa com Vincent, sobre o perigo evidente ao redor dos irmãos, a criatura sem forma que parecia estar planejando algo grande em Nova Orleans e sobre Davina, á respeito dela repetiu cada palavra dita por Vincent.
Kol não gostou de saber que a garota tinha sido escondida dele por Marcel e Vincent. Se preocupou com a imagem descrita do que não soava com a jovem bruxa forte e energética que ele amava. Davina tinha, segundo informações de terceiro e pouco confiável, perdido a memória, a magia e a sanidade, agora parecia estar á mercê de um ser da qual nunca ouvira falar e que tinha poder sobre as bruxas. Ele não conseguia imaginar uma Davina tão destruída, soava tão horrível quanto saber que ela estava morta e inalcançável.
Por sua vontade, naquele momento mesmo, ele ia para Nova Orleans atrás de respostas definitivas, mas é claro que Klaus tinha que contrariar sua vontade e ainda o ameaçou. Seu irmão tinha uma agenda própria aonde Davina não era prioridade, e para variar, ele se recusava a compartilhar seus planos, exceto a parte em que ele contou que por teimosia de Bonnie, avisou Finn que a família estava em perigo.
Nesse ponto ele concordava com Klaus, o irmão mais velho e irritante era irrelevante na sequencia dos eventos o no sucesso de qualquer acontecimento que viesse ocorrer. Ele tentou ligar para todas as pessoas que conhecia em Nova Orleans, só para perder tempo por que ou não o atendiam ou conversavam com ele como se estivesse tudo magnificamente bem e normal.
Kol admitiria que estava preocupado com as irmãs se não estivesse tão zangado com Klaus e sua pequena bruxa mandona que o ameaçou com um feitiço de contenção se ele saísse de Mystic Falls sem Klaus. Ele tinha tentado, mas foi repelido por alguma barreira – só então foi alertado que não podia sair. Tinha virado prisioneiro de malucos. Um homicida e uma piromaníaca.
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Valerie Tulle esperava as bruxas terminarem o feitiço enquanto ouvia, com desgosto, Julian se alimentando depois que finalmente se cansou de brincar com a comida e resolver matar suas vitimas. Se questionou por breve momento se tinha feito certo em libertar seu antigo líder da pedra, mas ignorou a consciência por que não tinha tempo para lamentações, preferia focar na raiva que impulsionava sua sede de vingança.
Stefan Salvatore era o culpado por ela virar um monstro odioso e agora, finalmente, tinha o que precisava para fazer dele algo pior do que ela jamais foi. E o melhor, tinha tudo ao seu lado para que saísse vitoriosa. Tinha acompanhado a história ridícula entre Stefan e Elena. Tinha visto o antigo amor de sua vida e seus amigos derrotar cada inimigo que se erguia contra eles, Katherine Pierce que era uma doppelganger, o imortal Silas que era uma lenda, Kai Parker que tinha o poder e a inteligência para vencer e que foi derrotado pela própria insanidade.
Até sociedades antigas de humanos eles derrubaram. A Agustine que por meio século foi financiado por lunáticos ávidos pelo poder vampírico de viver para sempre e desejosos de nunca sucumbirem à desumanidade. E o Arsenal que por décadas foi uma grande pedra no seu caminho, a impedindo de concluir muitos de seus planos já que precisava passar despercebida pelos sobrenaturais e ficar fora do radar da organização que parecia ter olhos em todos os lugares.
Precisou mudar seus planos quando Damon Salvatore cometeu a insensatez de virar humano e se casar com Elena que tinha algum tipo de proteção que não tornava possível acha-la. Mas tudo bem, ela nunca levou á sério o afeto fraternal, principalmente a dos Salvatore que era corroída por desavenças. Não. Ela queria causar mais do que luto em Stefan.
Existia Caroline Forbes, Valerie assistiu a amizade desinteressada deles se transformar lentamente, como uma semente que se desenvolveu e cresceu no meio de uma floresta longe da atenção de todos e agora florescia. O que havia entre os vampiros não era só paixão que se desgastava com o tempo, era algo mais raro e poderoso. Algo que uma vez perdida podia levar aquele que perdeu á loucura.
Era isso que ela queria. Que Stefan enlouquecesse, que ele se perdesse em si mesmo sem precisar desligar a humanidade ou deixar seu lado estripador vir á tona. O queria consciente o suficiente para ele saber o que estava fazendo, para ele sentir-se culpado á cada destruição que causasse. Queria que Stefan virasse o que ela se tornou, algo desprezível.
Ela que foi uma vez uma bruxa orgulhosa se viu transformada num sanguessuga maldito por que Stefan escolheu salvar sua preciosa Lexi, uma monstruosidade por que foi abandonada pelo homem que amava para que morresse, uma vampira por que ele tinha a alimentado com seu sangue durante o sexo e apenas desconsiderou o fato quando pensou que a mataram.
Valerie teria se matado, chegou a se expor ao sol pronta para por o fim naquilo quando foi salva por Julian, ele lhe ofereceu uma chance, uma proposta de se vingar. Pouco tempo depois, quando estava começando a se adaptar á sua nova condição, veio Rayna que destruiu o exército de Julian e o prendeu naquela pedra. Valérie foi marcada, mas conseguiu fugir antes que a caçadora a matasse. E viajou. Se preparou. Aprendeu. Se tornou mais forte em todos os aspectos.
- Pronto – a bruxa Nora informou soltando as mãos de sua noiva, Mary Louise, que também era uma bruxa talentosa, aliada e confiável.
- Vocês cheiram á humanas – Valerie apontou com um sorriso satisfeito.
O casal vinha preparando aquele feitiço há horas, elas estavam ocultando sua magia para se passarem por humanos entre outros sobrenaturais.
- Agora somos pessoas comuns fartas da vida na cidade grande com desejo de recomeçar numa cidadezinha fofa no fim do mundo – Mary Louise disse em seu mais falso tom animado e contagiante.
- Então suas espiãs estão prontas – Julian entrou no aposento acompanhado de Malcolm e Oscar, seus únicos vampiros do antigo exército que foram resgatados da Pedra da Fénix por Stuart, por que seus corpos foram preservados por Valerie quando Rayna os caçou.
- Estão. São humanas o bastante para passar por aquela barreira sem serem detectadas como bruxas e o melhor, nem aqueles híbridos com seus sentidos apurados poderão farejar a natureza verdadeira delas.
- Impressionante esse feitiço – o líder apreciou
Ainda não tinha conseguido acompanhar toda a mudança do mundo humano nos mais de cem anos em que esteve aprisionado naquela maldita pedra revivendo todas suas piores memórias, o mundo humano podia estar diferente, mas magia ainda era a mesma coisa complexa e fascinante de sempre.
- Uma pena que não serve para vampiros – Malcolm comentou.
Ele não aguentava mais aquela casa, estava no que ouviu os humanos chamar de cidade universitária, mas não podia nem frequentar os lugares públicos para não chamar atenção.
- Ocultar magia é muito mais descomplicado do que mudar um vampiro – Nora disse taxativa – Vamos arrumar as malas querida, humanas inofensivas e inocentes só viajam á luz do sol.
Os vampiros observaram as bruxas disfarçadas que riam divertidas com a ideia de como se infiltrar na nova cidade sem levantar suspeitas. Enquanto elas se afastavam, Beau, um vampiro que se aliou á Valerie nos anos cinquenta, se aproximou, perguntando em linguagens de sinais á aliada:
Confia nelas?
- Em Mary, sim, em Nora nem tanto. Ela só entrou nessa por causa de Mary Louise.
Seu plano é bom, não há falhas.
- Eu sei, mesmo assim vá e fique atento. Você é meu Plano B.
Ele assentiu e se afastou em velocidade de vampiro. Ele estava em Mystic Falls há um tempo, desde antes de Stuart ativar a Pedra e libertar Julian. Foi através dele que ela soube sobre os recentes acontecimentos em torno de Stefan, por que os antigos espiões, humanos hipnotizados por Valerie, tinham se liberado de seu controle quando aquelas bruxas metidas á guardiãs da vida ergueram a barreira em torno de Mystic Falls. Estava começando, não ia demorar em que terminasse.