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- A tua irmã é um encanto. - Makayla quebrou o silêncio instalado entre ambas na viatura.
- É uma amor de miúda. - Summer confessou, sorrindo de canto - Provoco-a muitas vezes, mas sinceramente, não poderia ter pedido ninguém melhor. É a rapariga mais bondosa e genuína que conheço e irei conhecer.
- É muito querida. - A amiga concordou, não tirando o olhar da estrada - E honestamente, nunca pensei que fosse tão parecida contigo. Vocês são apenas meias-irmãs, estou certa?
- Sim, somos meias-irmãs.
- Hum... Mesmo pai? - Makayla arqueou uma sobrancelha.
- Mesma mãe. - A figura loira esclareceu-a - O meu pai faleceu antes de eu sequer completar um ano de idade. O Jonh é apenas pai da Lilian, e meu padrasto.
- Uau, conhecemo-nos à mais de um ano, e estive este tempo todo a pensar que o Jonh era teu pai. Porque nunca me corrigiste quando falávamos nele?
- Bom, porque para mim ele é o meu verdadeiro pai, foi ele quem me criou e chamou de filha. Nunca conheci o homem que me deu vida, não tenho uma única memória dele, nem pelo menos uma foto. - Summer encolheu os ombros - Como poderia eu falar de alguém cujo nome minimamente sei?
- Vendo a situação por esse ponto, és capaz de ter razão. - Makayla suspirou, engolindo em seco - Mas mudemos de assunto, que agora não é altura para deprimir. Chegamos!
As duas amigas haviam chegado ao pub escolhido por todo o grupo durante a semana.
Era um local que ambas frequentavam regularmente, em conjunto com as amigas Caroline, Daphne, Hannah e Dany, namorado de Caroline e melhor amigo de Hannah.
Caroline sempre fora a melhor amiga de Summer desde que a mesma se havia mudado para Seattle; era uma rapariga alta e esguia, morena, de cabelos escuros ondulados que lhe davam um pouco abaixo dos ombros, e uns olhos no mesmo tom, como duas pequenas azeitonas. Dany, o seu namorado, era o único rapaz do grupo; tinha cabelos castanhos claros, um tom de pele bastante moreno, devidamente musculado e com uns grandes olhos castanhos como chocolate.
Daphne tinha uns cabelos lisos ruivos não muito compridos, com um tom de pele claro e de estatura média. Hannah, a melhor amiga da anterior, tinha cabelos loiros cor-de-trigo curtos pelo pescoço, e uns redondos olhos verdes cor-de-lima.
Summer e Makayla saíram do carro e dirigiram-se para a entrada do local.
Já dentro, encontraram as restantes raparigas, Daphne e Hannah, que se divertiam a olhos vistos.
O local em si era espaçoso por sinal; todo ele estava preenchido com pequenas mesas redondas brancas, compridos sofás vermelho-vivos e uma ampla pista de dança no centro. As luzes coloridas de fundo, que transmitiam cores aleatórias de forma rotativa, e as decorações do próprio pub, como as extensas faixas floridas nas paredes, as bolas de espelhos no teto, ou as várias palmeiras espalhadas pelo espaço, davam-lhe um ar mais exótico e exuberante, onde as energias começavam a fluir.
Daphne trazia um vestido justo preto, com pormenores em prateado, a acompanhar com uns sapatos de salto alto igualmente prateados. O seu cabelo liso encontrava-se apanhado num alto rabo-de-cavalo.
Já Hannah, que não era muito fã de vestidos, trazia uns calções curtos rendados cinzentos, uma sweat branca e umas sandálias brancas decoradas com detalhes a preto. O seu cabelo estava solto e tinha apenas uma pequena trança de enfeite.
- Hey! - Makayla tocou no ombro da ruiva - Bons olhos vos vejam!
- Finalmente chegaram. - Hannah comentou, rindo. Sentou-se no sofá atrás de si - Começamos a pensar que já não vinham!
- Peço desculpa, atrasamo-nos por minha causa. - Summer levantou os braços, rendida - Não sabia o que vestir.
- És sempre a mesma coisa, nunca mudas rapariga! - Daphne acenou negativamente com a cabeça - Mas adiante; como finalmente já cá estão, vamos dar início à nossa noite. O que me dizem?
- Alinho! - Exclamaram as restantes em coro, rindo.
As quatro foram buscar bebidas. Chegaram ao bar e fizeram os respetivos pedidos ao barman, que lhes piscou o olho.
- Se eu fosse a ti fazia-me de atiradiça. Ele até que é giro! - Hannah lançou a dica a Makayla, sorrindo atrevidamente.
- Oh, vira-me essa boca para lá por favor. - A morena revirou-lhe os olhos.
Dirigiram-se para uma mesa situada perto da pista de dança e pousaram as respetivas bebidas, olhando as muitas pessoas que estavam a dançar, à espera que um impulso, ou o álcool, as fizesse caminhar para a pista de dança, juntamente com multidão que se começava a juntar simultaneamente.
- Tenho de ir apanhar ar, alguma das alcoólicas se disponibliza a fazer-me companhia? Ou vão deixar uma menina linda como eu, sozinha e em plena rua a uma hora tão crítica como as três da manhã? - Makayla interrogou de repente, levando a mão à cabeça. Sentia-se tonta.
- Uma menina linda? - ironizou Summer, sem conter o riso - E bastante convencida até. Mas eu faço-te companhia, não quero que te aconteça nada, afinal és a minha boleia para casa.
- Ai Summer, que amor. Anda daí então.
As duas encaminharan-se até à entrada por entre os aglomerados de pessoas. Por fim, já conseguindo respirar o ar fresco da noite, sentaram-se no alpendre a conversar.
Estavam tão distraídas que, no meio de risos e gargalhadas, nem se aperceberam que Adam, namorado de Summer, acabava de chegar ao mesmo local, e estava por sinal muito bem acompanhado. E não era por meros amigos; aliás, não estava acompanhado por qualquer tipo de rapazes, mas sim por uma única rapariga.
Entraram no pub de mãos dadas e foram diretamente em direção à pista de dança. Logo começaram a dançar, a uma distância perigosamente curta, e de tão animados que estavam na companhia um do outro, nem se aperceberam de que, Daphne estava chocada e com cara de pânico a olhar para ambos, e Hannah mordia os dedos nervosamente para não desatar a gritar em público.
As duas raparigas sabiam o que aquele rapaz significava para Summer, mas por outro lado, sabiam também que o dia em que ele a iria trair acabaría por chegar, e esse dia havia chegado.
Porém, ao descobrirem a identidade da rapariga que o acompanhava, o queixo caiu-lhe por terra completamente.
Caroline. Porque haveria ela de andar envolvida com o namorado da sua melhor amiga? Não seria ela tão fiél como dizia ser? Ou não passaria tudo de um mal-entendido com uma simples solução? O melhor era mesmo perguntar-lhes.
Como que por ironia do Destino, quando se preparavam para ir em direção à parceria, eles beijaram-se inesperadamente. E não fora um beijo qualquer, e sim um beijo sentido, longo e apaixonado. Apaixonado? Impossível. A Caroline seria incapaz de arriscar e destruir a amizade com Summer. Ou talvez fosse?
Foi nesse instante que Hannah, horrorizada com o que acabara de ver, explodiu.
- Já chega! Eu sabia que aquele Adam era um imbecil! Mas a Caroline? Caramba, eu pensei que ela fosse nossa amiga. Como é que ela foi capaz de fazer algo assim, especialmente à Summer? - Atirou com o copo de plástico para o meio do chão, atraindo uns poucos de olhares.
- Ei, tem calma, vamos resolver a situação. - Daphne, que tinha uma paciência de anjo por natureza, tentava suavizar a raiva da melhor amiga - Ela foi longe demais, não nego, mas não vamos agir de cabeça quente, nem penses nisso.
- E já agora, ela não estava em Londres a visitar a família, ou algo do género?
- Temos de ir chamar a Makayla, ela sabe o que saber... Sabe sempre. - Suspirou finalmente a ruiva, um pouco incomodada com a situação. Não sabia o que fazer - Mas uma coisa é certa, a Caroline é uma grande mentirosa... Disto eu tenho a certeza, ela não tem família em Londres. A família dela é praticamente toda do Texas, sei deste pormenor desde que a conheço.
- Seja como for, a Summer não pode saber disto, ou o mundo para ela desaba esta noite. - Hannah olhou para o chão, mais séria do que o habitual, já prevendo os cenários que se seguiriam.
Nesse instante entra Makayla, que fica surpreendida pela conversa das amigas. Consequentemente, ela ouvira esta última parte.
- O que é que a Summer não pode saber meninas? O que se passa aqui? - Colocou-se frente a ambas, cruzando os braços.
- Vê com os teus prórios olhos. - Daphne apontou discretamente para um canto da pista de dança onde estavam Caroline e Adam. Conversavam animadamente entre si, por entre beijos e carícias, alheios ao que os rodeava. Como se fossem namorados, como se ninguém os conhecesse.
- Mas que raio? - Arregalou os olhos de espanto com o que acabara de ver. Era verdade que nunca tinha visto Caroline com bons olhos, mas nunca imaginara que ela fosse capaz de fazer uma coisa destas.
- Onde está a Summer? - Hannah olhou-a, como se esperasse que a mesma tivesse algum plano.
- Temos de a tirar daqui, agora. - Ela nem pestanejou. Tinha de agir, e depressa, antes que Summer se lembrasse de voltar para dentro do estabelecimento. Correu novamente para o alpendre na esperança de conseguir empatar a amiga.
Mas já era tarde demais, e nesse momento Summer adentrou-se no pub. Encaminhou-se para junto das amigas, e ficou branca ao deparar-se com aquele cenário: a sua melhor amiga, que para ela era como uma irmã, aos beijos com o rapaz por quem ela era louca, o seu namorado.
Apenas uma pergunta pairava na sua mente: Porquê?
- Makayla, por favor diz-me que estou demasiado bêbada, e a imaginar coisas. - Agarrou-lhe nas mãos, sentindo que as suas grandes órbitas azuis explodiriam a qualquer momento - Diz-me que estou a alucinar.
- Quem me dera poder dizer-te uma coisas dessas. - Olhou para o chão, devastada.
Sem a deixar dizer mais nada, Summer direcionou-se a eles, a fervilhar por dentro. Foi imediatamente seguida por Makayla, que ao ver o estado de choque da amiga, não a iria deixar fazer nada sozinha.
Foi com muito esforço que chegou até eles, e por entre soluços, conseguiu falar num fio de voz.
- Só podem estar a gozar comigo, isto é alguma brincadeira? Porque se for, podem parar já. Não tem piada o que estão a fazer.
- Summer. - Caroline paralisou - Isto não é nada do que estás a pensar-
- Não estavas em Londres sua cabra? - Makayla cortou-a, sobrepondo-se à loira. Estava muito irritada e pronta para atacar a criatura cínica à sua frente. Que lata.
- Na verdade não. - Falou Adam, passando os seus braços em volta da cintura de Caroline, puxando-a para si - A Carol veio passar a semana a minha casa, a meu pedido, para passarmos algum tempo de qualidade juntos.
- Só podes estar a gozar comigo. Como consegues ter a ousadia de dizer algo assim à frente da tua própria namorada? - A morena rosnou - Achas-te no direito de fazeres tudo o que queres? Deixa-me que te diga, tu não vales nada, absolutamente nada. Traíste uma rapariga que faria tudo por ti! Dás-me nojo... E tu, Caroline? A Summer considerava-te uma irmã, admirava-te, arriscava até a dizer que te venerava. E além disso, tu tens namorado! Como é que achas que o Dany vai reagir ao saber?
- Quem és tu para te meteres neste assunto? - Caroline cruzou os braços frente a si, fazendo-lhe peito.
- Sou amiga da Summer, das verdadeiras. Não como tu, falsa. - Fez-lhe frente - E queres mesmo que te seja sincera? Não passas de uma grande puta.
- Sua-
- Não vou perder mais tempo convosco. - Cortou-a, ignorando o seu possível comentário - Desfrutem da vossa noite.
Como nenhum deles se atreveu a responder, Makayla virou costas. Foi procurar a amiga, que entretanto se tinha escapulido pelo meio da confusão.
Encontrou-a ao pé do seu carro, a chorar desesperadamente.
-Porquê eu? Diz-me, porquê a mim? - Soluçou. Summer tinha perdido duas grandes pessoas naquela noite: o homem da sua vida, e a sua melhor amiga.
Makayla não se atreveu a dizer nada, por muito que houvesse a falar sobre este assunto. Mas não, esta não era a altura e muito menos o local indicado para tal.
Agarrou na loira, obrigou-a a entrar dentro do carro e foi levá-la a casa, não havendo mais nada a fazer.
Quando chegaram, ajudou-a a seguir até ao destino. Ainda lhe abriu a porta e tentou fazer o menos barulho possível para não acordar Lilian, que dormia profundamente no seu quarto.
Porém, com o choro descontrolado de Summer, tal não foi possível e ela acordou. Ao ouvir as lágrimas no andar de baixo, correu escadaria abaixo para ver o que se passava.
- O que aconteceu? - Indagou aterrorizada ao ver o estado da irmã. A sua maquilhagem estava completamente desbotada, os seus lindos olhos azuis estavam vermelhos e inchados de tanto chorar e o seu cabelo estava numa autêntica lástima.
- É uma longa história. - Suspirou tristemente - Vamos levá-la para o quarto, acalmar e deixar que ela durma. Depois eu conto-te tudo.
(...)
A conversa que se seguiu fora breve. Makayla contou a Lilian o que se havia passado no pub. Ela ficou em choque, mas não se surpreendeu muito com o que acabara de ouvir. Aos olhos dela, aquilo era bastante previsível, mas a atitude de Carol continuava inexplicável.
- Interiormente, já tinha previsto que algo do género fosse acontecer. - Lilian suspirou pesadamente - Mas nunca quis falar sobre isso com ela, pensei que fossem apenas pressentimentos meus, entendes?
- Entendo perfeitamente, acho que todas nós sentimos um pouco disso relativamente à relação deles. - Makayla pousou o copo de água que a loira lhe oferecera e olhou o relógio: Eram agora as cinco e meia da manhã.
- Sinto-me um pouco culpada por não a ter tentado avisar. Poderia, pelo menos, ter confessado os meus presságios.
- Ei, não digas isso! - Levou uma mão ao seu pequeno rosto e fê-la encarar os seus olhos escuros - És a mais inocente no meio de tudo isto, estás a perceber? Nunca mais repitas algo do género.
- Desculpa, foi um comentário estúpido. - Lilian olhou para o chão. Sentia-se egoísta da sua parte por ver Makayla a chamá-la à razão e a consolar; afinal, quem estava mal nesta situação era Summer.
- Não peças desculpa. - Makayla levou a outra mão aos seus cabelos loiros e despenteou-os, para suavizar o ambiente tenso que se fazia sentir naquele momento - Tenho de ir andando, que daqui a menos de duas horas já a luz do dia brilha. Toma bem conta da tua irmã, ela precisa muito de ti, agora mais do que nunca.
- Assim o farei, confia em mim. - Anuiu.
A morena levantou-se do sofá e dirigiu-se para a entrada.
- A partir deste momento o papel de irmã mais velha está nas tuas mãos, lembra-te disso. Vemo-nos mais tarde. - Deixou um beijo na sua testa, antes de fechar a porta atrás de si.
Lilian aninhou-se no sofá, a processar toda a informação que absorvera nas últimas horas.
Não podia esconder o facto de que temia pela irmã. Summer sempre fora alguém de sentimentos fortes, e neste caso, tal poderia ter consequências drásticas. Tinha de dar o melhor de si para ajudar a irmã, devia-lho.
[...]
O tempo passava, mas nem sempre o tempo pode ter a cura para tudo.
À medida que tentava seguir em frente, Summer deparava-se diariamente com o desafio de encarar dois traidores, que por azar também estavam na sua turma.
E isso destruía-a por completo. Era como ter de dar de caras com o Diabo todos os dias, com o horror e com a ideia de ser traída, de várias maneiras.
A partir daquela noite, ela mudou por completo: tornou-se numa pessoa mais fria, o seu espírito alegre de antes era agora um coração de pedra e o seu olhar era vazio e triste. O seu desempenho escolar era péssimo, e por momentos, as suas amigas temeram que ela abandonasse os estudos, ou até pior.
Mas a vida é uma autêntica caixa de surpresas, e por vezes dá voltas enormes. O que poderia o Destino ter reservado para uma rapariga tão abalada e destruída?
[...]