Um silencio venenoso se abateu sobre a sala. Alfonso parecia procurar palavras pra começar a dizer alguma coisa, branco feito papel. Kristen olhava pro tampo da mesa, quieta. Madison tinha a cabeça encostada na parede. A reação dos outros era semelhante: Choque. Esse era um assunto dado por encerrado até então, mas pela postura de Grace estava prestes a voltar com tudo. Anahí, curiosamente, tinha o cenho franzido, olhando o chão.
Anahí: Jennifer. – Chamou, após um longo instante, e todos os olhos estavam nela – Você matou meu cachorro? – Perguntou, direta. Jennifer piscou duas vezes, confusa.
Grace: O que? – Perguntou, totalmente confusa.
Jennifer: Do que você está falando? – Perguntou, obviamente deslocada. Estava claro que ela esperara um ataque, mas não daquele assunto – O cachorro morreu?
Grace: Por que estamos falando do cachorro quando se tem um problema como esse em mãos? – Perguntou, lívida, e atirou o exame de gravidez na mesa na frente do filho – Alfonso?! – Cobrou. Alfonso nem tocou no papel. Ele olhava a mãe, novamente pensando em como mostrar o absurdo que era aquilo, mas Anahí cortou de novo.
Anahí: Aquele cachorro pulou em cima de Madison, quando ela me esbofeteou. – Lembrou, as pernas cruzadas, girando o pé em círculos e olhando os saltos, o olhar distante. Madison ergueu as sobrancelhas, se lembrando de Sorte vindo correndo ao ataque junto com Blair e Nate.
Jennifer: E agora ele está morto. Que pena. – Dispensou, impaciente.
Anahí: Me fez companhia por semanas no borboletario, quando eu estava escondida, e foi inteligente o suficiente pra não me denunciar quando Alfonso entrou lá. – Comentou, dispersa.
Grace: Eu sinto muito pela perda. – Disse, obviamente desconcertada. Alfonso olhava Anahí, intrigado – Mas a verdade é que temos assuntos... – Interrompida.
Anahí: A verdade é que a verdade é um material caro aqui. – Disse, enfim erguendo os olhos, apoiando os braços no braço da poltrona – Mas eu tenho lotes dela pra você, Grace.
Alfonso: Anahí... – Repreendeu.
Anahí: Não sei de onde começar. A verdade a curto prazo é que eu tive um dia de merda. Mataram meu cachorro, e eu tive que contar isso a 5 crianças que eu acabei de deixar desoladas, sendo duas delas meus filhos. – Comentou, quieta – E agora vem essa.
Jennifer: Eu não tenho nada a ver com isso. Tia, esse assunto devia ser discutido entre eu, Alfonso e a senhora. – Ponderou. Grace pareceu considerar, o que serviu de combustível pra Anahí.
Anahí: Esse é o truque perfeito. – Admitiu, como em uma reverencia – Você se planta na cama dele quando Grace ia ver, então você volta grávida um mês depois. Teste de DNA algum vai provar que o filho não é dele, por que vocês são primos. – Dissertou, e Robert coçou a sobrancelha – O DNA do seu filho vai ser o mesmo de Alfonso por que O SEU é igual ao dele, o que torna o exame inconclusivo, descartando-o, o que só deixa sua palavra contra a ele. Admito, não pensei nisso, mas é inteligente.
Jennifer: Anahí, eu não tenho nada a falar com você. – Cortou, cada vez mais impaciente.
Anahí: A verdade a longo prazo é que eu me vendi ao seu filho, Grace. Há anos atrás. – Entregou, ainda sem expressão.
Grace: Eu... É o que? – Perguntou, tão chocada que esquecera o assunto da gravidez.
Alfonso estava branco feito a morte. Rebekah tinha os olhos arregalados, e Robert apertava a ponte do nariz, Christopher olhava pra frente. Ian parecia ter sido esbofeteado. Kristen se recostara pra assistir e Madison se amparara na parede, cruzando os braços. Aquela seria uma longa conversa.
Anahí: Me vendi mesmo, em troca da empresa do meu pai. – Contou, se ajeitando – Veja bem, houve um contrato, é uma loooonga história, aliás, longa, velha e exaustiva, que por sinal você, - Ela olhou pra Jennifer – Não pode mais usar contra mim por que agora não é mais segredo.
Grace: Alfonso? – Perguntou, incrédula.
Alfonso: É verdade. – Confirmou, em um murmúrio – Eu comprei o casamento com ela.
Grace: Meu Deus. – Gemeu, levando a mão a boca.
Anahí: Não, espera! Não chama por Deus ainda. – Pediu, e Alfonso respirou fundo – Era um consenso entre nós que você não precisava participar da nossa sujeira, Grace, mas sua inocência chegou a um ponto insustentável.
Grace: O que mais eu não sei? – Madison assoviou.
Anahí: Bem, tinha esse contrato, no qual eu concordava com uma serie de barbaridades inclusive me casar com Alfonso a quem eu não suportava na época e obedecer toda e qualquer vontade dele. – Resumiu, pensativa – Como você sabe, eu sofri abuso sexual quando criança, mas o que você não sabe é que quem abusou de mim foi o “John”, aquele namorado que a doce Jennifer levou pra casa quando eu tinha amnésia. Meu primo. – Entregou, amarga – Eu não me lembrava dele e Alfonso não conhecia o rosto, só viemos saber quando recuperei a memória.
Grace: Um contrato? – Murmurou, quase imperceptível.
Anahí: Oh, não se prenda muito ao contrato. Era mais burocracia. Tem muita coisa pela frente pra nos prendermos aos detalhes. – Dispensou. Christopher encarou Rebekah, exasperado, mas não havia como romper a represa quebrada. – O fato é que meu casamento com seu filho foi construído sobre falsas pretensões. Durante dois anos a coisa que eu mais queria no mundo era vê-lo agonizar até morrer. E não apenas por que o contrato garantia que se ele morresse de causas naturais eu seria sua herdeira vitalícia, mas pelo simples gosto de olhá-lo no caixão e poder sorrir.
Grace cambaleou e Christopher se adiantou, apanhando a mãe e trazendo-a sentada. Jennifer respirou fundo, tentando se controlar. Grace, por outro lado, estava longe disso. Parecia a beira de um derrame.
Anahí: Mas, respire fundo. De algum modo inconcebível, eu cometi a estupidez de me apaixonar por ele. – Comentou, encarando Alfonso pela primeira vez desde que começara a falar – Isso foi pouco antes de descobrir que estava esperando Nathaniel.
Grace: Por que um contrato? Por que comprar? Alfonso? – Perguntou, olhando o filho. Alfonso apenas a encarou.
Anahí: Eu fui uma completa vadia com ele quando éramos adolescentes, ele deu a volta por cima e quis vingança, apesar de no fundo ter me amado o tempo todo. É meio confuso. – Admitiu, pensativa – Mas enfim, isso foi anos atrás. Veio o acidente, eu perdi a memória, depois eu recuperei, aqui estamos. Nesse meio tempo o casamento, o contrato e meu pai ficaram pra trás, e nós percebemos que não é uma escolha: Nós temos que ficar juntos. Amor é só um nível da obsessão que nós temos, mas isso é meio privado.
Grace: Meu Deus, Alfonso... – Gemeu, decepcionada. Alfonso aceitou o julgamento, calado.
Anahí: Ainda não é o momento pra Deus, por que agora chegamos a doce Jennifer! – Disse, abrindo um sorriso estonteante – Jesus, por onde eu começo? Ah, sim. Grace, houve uma complicação logo após o meu casamento, no RHGH. Eu tive problemas, precisei me internar, você lembra?
Grace: Sim. – Disse, receosa do que viria daquilo.
Anahí: Jennifer entrou no hospital escondida e, adorável que ela é, tentou fazer Robert me matar. – Rebekah soluçou em seco. Jennifer encarava Anahí – Desconectou os fios do meu peito e prendeu no travesseiro. No alerta da falta de pulsação Robert veio correndo e quase me matou eletrocutada. Só não aconteceu por que no ultimo segundo Alfonso percebeu que eu não estava morta, e sim dormindo. Kristen e Robb não falam com Jennifer desde então.
Grace: Robert? – Perguntou, e o filho olhou pra ela, assentindo.
Kristen: Ela não tem permissão pra entrar no hospital. Só entrou lá depois do acontecido usando você como escudo, por que não tínhamos como barrá-la sem que você soubesse. – Completou, apanhando o notebook que Ian tinha no colo e começando a teclar furiosamente nele. Sabia onde aquilo chegaria.
Anahí: Jennifer tentou me tomar Alfonso a força desde o primeiro momento, não importava se ela precisava me matar no processo. Teve dezenas de atrocidades no decorrer desses anos, coisas das quais você realmente não precisa saber. Só as mais graves.
Madison: Como, por exemplo, o fato de que a culpa do acidente de Christopher, Kristen e Anahí foi culpa dela. – Entregou, encostada na parede. Madison nunca engolira aquilo. – Ela estava com raiva de Kristen e tentou matá-la tirando os freios do carro. Matou os bebês de Kristen e Anahí, cegou Kristen e quase matou o meu marido na tentativa.
Jennifer: Isso é mentira. Eu jamais faria nada contra Christopher! – Grunhiu, raivosa.
Anahí: Mas você não sabia que Christopher ia estar lá. Por que estaria? – Perguntou, se fazendo de confusa – Foi um acaso que Madison estivesse chegando, outro acaso que nós resolvêssemos ir buscá-la no aeroporto.
Grace: Jennifer? – Perguntou, visivelmente abatida.
Jennifer: Mentira. – Desmentiu, convicta.
Kristen: Ah, verdade. – Comentou, digitando umas ultimas coisas no laptop e virando-o em seguida. Havia um vídeo em execução. Kristen estava sentada no sofá de casa, os olhos vidrados pra frente, e Jennifer de pé, com um sorriso deliciado.
“Posso contar um segredo? De tudo isso, eu só senti por Christopher. – Comentou, maldosa – Ele não era pra estar ali, mas você? Anahí? Sinto por não ter sido pior. Se bem que ver você cega desse jeito é um prato e tanto.”
Grace: Jennifer! – Exclamou, escandalizada.
Anahí: Essa é sua sobrinha. – Apresentou, tranqüila.
Alfonso: Certo, chega disso. – Cortou, e Robert assentiu, apesar de ter a mandíbula trancada de ódio.
Anahí: Agora espera você. – Pediu, séria – Grace, eu amo seu filho. Amo ele com o triplo da intensidade que eu já o odiei um dia. Nós já deixamos tudo aquilo pra trás, e estamos tentando construir um futuro juntos. É isso que você precisa saber e é isso que você precisa ter em mente. – Disse, clara, os olhos azuis letais. Grace a encarava, quieta – Tudo aquilo é passado. O passado não se muda, você mesma me disse uma vez.
Grace: É muita podridão... – Negou – Por que a policia nunca soube disso?
Madison: Porque nós sabemos encobrir nossos rastros. Com grandes poderes vem grandes responsabilidades. Estaríamos presos todos se a policia tomasse conhecimento de tudo o que fazemos. Talvez não Robert, que é puritano demais, e Rebekah, que ainda tem o mínimo de bom senso. – Ponderou, fazendo Kristen rir.
Kristen: Mas nós nos amamos. – Grace a olhou e viu ela apertando a mão de Robert, inconscientemente – Ian a Rebekah. Christopher a Madison. Alfonso a Anahí, Robert a mim, o que nós temos é amor. E é isso que deve ser considerado, acima de tudo.
Anahí: Então, Grace, quando eu digo a você que não, a criança na barriga de Jennifer não é filha de Alfonso, acredite. Pode ter o mesmo DNA, mas não é. Podemos provar, é só puxar a fita de segurança daquele dia. – Disse, simples – Mas eu prefiro que você acredite sem ver, e acredito que Alfonso também. – Ela se levantou, indo em direção a ele, que continuava observando a mãe – A ultima vez que ele a tocou foi antes de nos casarmos. Ele só gerou 3 filhos até hoje. Os dois que sobreviveram estão no quarto no fim do corredor. Eu acredito nisso com a minha vida. Você também deveria. – Concluiu.
O silencio predominou novamente. Grace olhava os filhos como se nunca tivesse tido tempo pra observá-los direito, e ninguém disse nada. Alfonso abraçou Anahí pela cintura e ela apertou o ombro dele de modo encorajador.
Christopher: Sabe, eu me sinto mais leve agora que essa história finalmente deixou de ser uma ameaça. – Admitiu, quebrando o silencio. Madison sorriu, piscando pra ele de modo cúmplice.
Robert: Você precisa de tempo, mãe, pra digerir a verdade. Pra digerir quem somos. Ninguém vai negar isso a você, e ninguém está pedindo que você aceite instantaneamente, mas pelo menos agora você conhece a verdade. Toda ela. – Continuou.
Alfonso: E saiba que tudo o que escondemos até hoje foi justamente por ser sujo, por ser podre, e por que evitaríamos que isso chegasse a você se houvesse um modo. Nós faríamos qualquer coisa, e esticamos isso até o impossível... Eu já errei muito, mas esse filho não é meu. – Disse, sincero, encarando a mãe.
Rebekah: E pelo amor de Deus, mamãe, não começa com aquilo que você fez com Alfonso ignorá-lo. Se for nos ignorar por nossos defeitos, vai ignorar a todos nós. Todos sabíamos de tudo desde o inicio, menos a senhora e Alexandre, e todos encobrimos toda a sujeira todos esses anos. Você não pode romper com nós todos por finalmente saber quem somos. – Disse, caminhando até a mãe – É isso que o poder faz com as pessoas, mas no fundo ainda somos as crianças que a senhora e papai criaram naquela casinha de dois andares em Nova Jersey. – Comentou, e conseguiu arrancar um sorriso de canto de Grace. – E nós amamos e precisamos de você do mesmo jeito que antes.
Anahí: Uma mãe não abandona seus filhos. – Ponderou, quieta, e Grace a encarou, as duas quietas por um instante. Em seguida Grace olhou Jennifer e sua expressão era de... Nojo.
Grace: Suma da minha vida e da vida dos meus filhos. – Avisou, ameaçadora, enquanto passava por Jennifer rumando o elevador e Anahí sorriu, satisfeita.
Jennifer e Anahí se encararam demoradamente, uma transbordando de ódio e a outra tranqüila antes de Jennifer se virar e seguir a tia. Não se sabia o que seria feito daquela criança, mas pelo menos já tivera sua serventia: Fez com que as cartas fossem todas colocadas na mesa. Bastava por hora.