04 de Setembro.
A história começa...
não,
O ciclo de um herói começa com
sua vida comum, seu
mundo comum.
Mas esse não, ele não.
Então...realmente podemos
chama-lo de herói?
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O quarto do Imperador era um santuário de sombras, onde a luz mal ousava penetrar. As paredes, revestidas por tapeçarias desbotadas e rasgadas pelo tempo, pareciam sussurrar histórias esquecidas e segredos enterrados. A poeira pairava no ar, dançando lentamente sob o fraco lampejo da vela trêmula que lutava contra a escuridão. Basweel, o mordomo fiel e cansado, tentava navegar por aquele labirinto de penumbra, atrás de levar uma carta para seu mestre, seus passos ecoando como fantasmas em um túmulo silencioso.
O quarto escuro e tomado pela poeira fazia Basweel espirrar e lacrimejar. Ele agitava a mão diante do rosto, tentando enxergar através do breu. Sempre dizia àquele bendito senhor que não era bom viver assim, mas teimoso como era, continuava.
O mordomo sabia que seu senhor precisava de ajuda, e que o conselheiro Jordan Feldman, seu amigo, não era uma opção. Jordan era ainda mais irresponsável, concluiu.
Ao inspirar, sentiu a garganta ressecar e tossiu.
— Majestade... o senhor está aí? — A voz do mordomo ecoou pelo quarto como se estivesse numa caverna escura e isolada.
— Entre — respondeu Raphael. O mordomo avançou no cômodo. O Imperador repousava em seu leito de ferro forjado, uma figura marcada pela angústia e pela resignação. Seu rosto pálido era um mapa de cicatrizes invisíveis — sulcos profundos traçados pela solidão e pelo tormento interno. Os olhos, negros como a noite sem estrelas que envolvia seu castelo, carregavam uma intensidade quase predatória; não havia esperança neles, apenas uma chama sombria que consumia lentamente sua alma. Depois de sentir um breve aperto em seu coração, o mordomo fez uma reverência, antes de falar devagar.
— Imperador, o mensageiro trouxe uma carta para o senhor.
Basweel mal suportava o cheiro da poeira que penetrava suas narinas.
— Ele avisou de quem é? — Raphael perguntou, curioso sobre o conteúdo da carta.
— Não, sua majestade Imperial. O mensageiro foi instruído a não revelar a identidade do remetente.
— Certo, certo. Deixe a carta sobre a pequena mesa ao seu lado, Basweel. Pode ir — disse Raphael, enquanto o mordomo já se afastava.
— Ah, espere! — O mordomo parou no meio do caminho. — Avise ao cozinheiro que não precisaremos dos seus serviços hoje à noite. Farei meu jantar em outro lugar. — Raphael direcionou seu olhar para a enorme janela, sob a grande vista imponente.
A cidade lá fora era um contraste brutal com o refúgio sombrio do soberano. O Império Timoria se estendia ao longe como uma fera adormecida sob a névoa fria do inverno. Arranha-céus de aço reluziam à distância, suas janelas iluminadas como olhos vigilantes que nunca piscavam. Ruas estreitas e tortuosas serpenteavam entre edifícios antigos de pedra cinzenta e tijolos vermelhos desgastados pelo tempo e pela chuva constante. O cheiro metálico da chuva misturava-se ao aroma acre das chaminés fumegantes — um lembrete constante da indústria pulsante que nunca dormia.
No coração da cidade, torres góticas se erguiam como dedos acusadores apontando para o céu tempestuoso; estátuas de anjos espreitavam das alturas, seus rostos desaprovadores esculpidos em pedra observando silenciosamente os passos apressados dos transeuntes encapuzados. As vozes distantes de vendedores ambulantes se misturavam ao som das carruagens rangendo sobre paralelepípedos molhados, enquanto risadas abafadas escapavam dos becos escuros onde a luz jamais ousava entrar.
O Imperador Raphael sentiu o peso daquele mundo vibrante e cruel pulsando contra as paredes do seu isolamento. A carta em suas mãos era um convite para adentrar essa selva urbana — um baile onde máscaras seriam usadas não apenas no rosto, mas também na alma.
Enquanto lia as palavras irônicas de Jordan Feldman, seu único amigo e talvez sua única ligação com a humanidade que ele tanto desprezava e desejava ao mesmo tempo, uma sombra cruzou seu semblante austero. Jordan era a antítese viva de Raphael: irreverente, caótico e imprevisível .— um fogo que poderia tanto aquecer quanto consumir.
Basweel interrompeu seus pensamentos com sua voz rouca:
— Imperador... o inverno chegou cedo este ano. A cidade parece mais sombria do que nunca.
Raphael fitou a janela onde flocos de neve começavam a cair lentamente, cobrindo o mundo lá fora com um manto silencioso e frio.
— Que venha o inverno — murmurou ele com voz baixa, quase um sussurro —. E que ele leve embora tudo aquilo que ainda resta da minha esperança. — Com isso seu mordomo se cansou e enfim foi embora.
Ele se levantou lentamente, sentindo os ossos protestarem contra o movimento depois de tanto tempo preso àquele quarto sombrio. O convite queimava em sua mão como uma promessa amarga: enfrentar aquele baile seria enfrentar não apenas a corte dos Iglesias, mas os próprios fantasmas que habitavam seu coração.
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Quando eu era mais pequeno, minha mãe costumava dizer que eu me parecia com um anjo. Um anjo de olhos brilhantes e sorriso sereno, daqueles que trazem paz só por estar perto. Mas, com o passar dos anos, tudo mudou. Depois de testemunhar minha mãe sofrer pelas mãos cruéis do meu pai, todas as coisas importantes da minha vida começaram a desaparecer. Como se fossem levadas pelo vento frio de uma tempestade sem fim.
E então, não demorou muito para que as vozes ao meu redor mudassem também. Aquela aparência angelical que antes encantava passou a ser vista como uma máscara — uma fachada para enganar os outros. Diziam que por dentro eu era podre, tão corrupto quanto o próprio Diabo.
Sua irmã.
Raphael era o mais temido dos guerreiros, não apenas pela força que empunhava na espada, mas pelo poder que exercia como soberano. Depois da morte da sua mãe, a Imperatriz, o Império desmoronou junto com ela. No dia seguinte ao seu funeral, ele foi acusado de ter matado sua própria mãe — uma mentira terrível e cruel. O sangue imortal corria em suas veias; ele tentou se explicar, mas ninguém quis ouvir. Aos olhos dos outros, ele era o culpado.
Mas ele também era o único filho homem legítimo do antigo Imperador — seu pai. Ninguém poderia mudar o destino traçado para Raphael.
Governar o submundo: o lugar onde habitam todos os seres místicos.
A verdade era que sua mãe havia morrido em uma guerra terrível entre nações místicas. Seu reino poderia abrigar todas as espécies conhecidas — exceto uma. Uma espécie tão antiga quanto o próprio reino de Raphael.
A guerra que ceifou a vida da mãe de Raphael não foi uma batalha comum — foi um conflito ancestral, marcado por sangue, magia e traições. As nações místicas, antes em frágil equilíbrio, romperam seus pactos sagrados e se lançaram numa luta desesperada pelo poder e pela supremacia.
O reino de Raphael, conhecido por sua diversidade de espécies místicas convivendo em relativa harmonia, tornou-se o epicentro dessa tempestade. Cada criatura, cada clã tinha seus próprios interesses e suas próprias dores. Dragões alados cruzavam os céus em círculos ameaçadores; elfos sombrios espreitavam nas florestas densas; os gigantes das montanhas desciam para as planícies destruídas pela guerra.
No meio desse caos, sua mãe — a Imperatriz — ergueu-se como um farol de esperança. Ela lutava não apenas para proteger seu povo, mas para preservar aquele delicado equilíbrio que mantinha o mundo unido. Mas a guerra tinha um preço alto demais.
Em uma noite sombria, enquanto as chamas consumiam vilarejos inteiros e o céu estava tingido de vermelho pelo fogo das batalhas, a Imperatriz foi traída por aqueles em quem confiava. Um grupo de traidores infiltrou-se no castelo sob o manto da escuridão, e em meio ao silêncio cortante da madrugada, tiraram sua vida.
Seu pai não queria que ninguém soubesse a verdade amarga: que a Imperatriz, sua esposa e rainha, havia sido assassinada por traidores dentro do próprio reino. Ele temia que essa revelação enfraquecesse ainda mais o império já abalado pela guerra e pudesse desencadear uma rebelião ainda maior entre as facções rivais.
Por isso, em um ato desesperado de proteção ao trono — ou talvez de medo e desespero — ele preferiu esconder a verdade de todos. E, para isso, tomou a decisão cruel e impiedosa de acusar seu próprio filho, Raphael, da morte da mãe.
Foi um golpe devastador para o jovem príncipe. De herdeiro amado, ele se tornou um fugitivo marcado pela traição. Seu próprio pai o via como inimigo, como bode expiatório para esconder os segredos sombrios do reino.
Essa acusação falsa não só afastou Raphael da corte, mas também o mergulhou em uma luta solitária pela sobrevivência e pela verdade. Ele sabia que precisava provar sua inocência, mas também desconfiava das verdadeiras intenções por trás daquela mentira cruel.
Enquanto isso, seu pai mantinha o povo na ignorância, tentando segurar as rédeas de um império prestes a desmoronar sob o peso das mentiras e das traições internas.
A notícia da morte da Imperatriz espalhou-se como um incêndio incontrolável. O Império desmoronou junto com ela. O medo tomou conta dos corações dos súditos; as alianças foram quebradas e o caos reinou absoluto, nada adiantando para as ideias cruéis do antigo Imperador, o reino caiu em desgraça mesmo assim, ou ainda pior, transformando seu príncipe herdeiro em um assassino.
Raphael, ainda jovem na época, viu seu mundo desabar diante dos olhos. A dor da perda misturava-se à raiva e ao desespero. Ele sabia que precisava ser forte — não apenas por ele, mas pelo futuro do reino que agora estava à beira do abismo.
A partir do momento em que seu próprio pai o acusou, Raphael sentiu o chão se abrir sob seus pés. As pessoas que antes o olhavam com admiração passaram a encará-lo com desconfiança e medo. Amigos de infância se afastaram, sussurrando pelas sombras, enquanto aliados desapareceram, temendo ser associados a ele.
Cada passo fora do castelo era um risco. Guardas que antes o protegiam agora o perseguiam como inimigo. O príncipe passou a viver na clandestinidade, escondendo-se em florestas sombrias e vilarejos esquecidos, onde ninguém sabia quem ele era — ou pelo menos assim esperava.
Mas o maior desafio não estava nas ameaças externas; era a dor da traição dentro de sua própria família. Raphael não conseguia entender como seu pai poderia preferir acusá-lo do que enfrentar a verdade sobre os traidores que destruíram sua mãe.
As noites eram longas e solitárias, marcadas por dúvidas e lembranças dolorosas. Ele se perguntava se algum dia conseguiria limpar seu nome, se haveria justiça para sua mãe e para ele mesmo.
Mesmo assim, no fundo do seu coração, uma chama de esperança resistia. Ele sabia que precisava ser forte — não só para sobreviver, mas para um dia retornar e restaurar a honra da família e do reino despedaçado.
Raphael sabia que não poderia enfrentar sozinho a injustiça que o afastou do trono. Precisava encontrar aqueles que acreditassem na sua inocência e compartilhassem seu desejo de restaurar o império.
No início, foi difícil. Muitos temiam se envolver, receosos das consequências de desafiar o poder estabelecido. Mas aos poucos, Raphael encontrou pessoas fiéis — guerreiros exilados, magos renegados e líderes de pequenas comunidades místicas que também haviam sofrido com a guerra e a traição.
Entre esses novos aliados estava Liora, uma guerreira destemida com um passado misterioso, e Eldrin, um mago sábio que conhecia segredos antigos do reino, e Jordan, seu único amigo que fora leal até o final. Juntos, eles formaram um grupo unido pela justiça e pela esperança.
Com essa força renovada, Raphael começou a planejar seu retorno. Usando estratégias inteligentes e a confiança conquistada entre seus aliados, ele conseguiu infiltrar-se novamente no coração do império.
A luta pelo trono foi intensa. Batalhas se sucederam, traições foram reveladas e alianças mudaram rapidamente. Mas a determinação de Raphael era inabalável.
No momento decisivo, ele confrontou seu pai — não apenas para limpar seu nome, mas para expor os traidores que haviam destruído a família real. A verdade veio à tona diante do povo, abalando as estruturas do império.
Reconhecido como o verdadeiro herdeiro e líder justo, Raphael foi restaurado ao trono. Sua volta marcou o início de uma nova era para o reino: uma era de reconstrução, paz e justiça.
Mas ele sabia que o caminho à frente ainda seria desafiador. A sombra do pai de Raphael pairava sobre tudo isso — sua morte pouco tempo depois só aumentou o vazio da dificuldade. Mas com seus verdadeiros aliados ao lado, estava pronto para enfrentar qualquer tempestade que surgisse — por sua família, pelo império e pelo futuro que todos mereciam.
Em meio a esse cenário cruel, apenas uma certeza permanecia: Raphael teria que assumir seu destino e governar um submundo onde os seres místicos lutavam para sobreviver.
🌟 🌟
Oii tudo bem? Espero que sim. Gostaram do primeiro capítulo? Desculpe pelo capítulo demorado e sem muitas narrativas...
Eu ainda não terminei todos os episódios e nem revisei alguns. Mais logo, logo vai ter o capítulo 2.
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Bjs😘 e fui✌🌈