Preguiça.
É isso que me resume em uma manhã, sem o Bluebonnet como despertador. Sério, ele te faz levantar de qualquer jeito.
E neste momento eu nunca mais quero levantar. Não tenho motivos para isso.
Um Sol batendo pela cortina (que não é minha), manchas reconfortantes no carpete que cheiram a Smirnoff (que obviamente não são minhas, as minhas estão na cozinha), um vazinho rachado no canto (que também não é meu).
E revistas masculinas. Definitivamente, não estou em casa.
Espera. Me viro devagar para trás, e me deparo com um par de olhos atentos e um sorriso sacana.
-Curtindo a estadia, cantora? - Neste momento me dou conta que ele está mexendo no meu cabelo, e me afasto.
-Estaria curtindo mais, se o frigobar já estivesse na minha casa como garantia. - Me sento na cama, mas logo caio de volta quando ele me puxa.
-Sem problemas. Cumpro promessas. - Me puxa mais para si, e encaixa sua mandíbula em meu ombro. Seu nariz estava em meio a meus cabelos.
-Você tem um cheiro ótimo pela manhã. -Ele sorri, e o movimento faz meus poros arrepiarem. - Seus cabelos azuis..Boa escolha.
-E agora é da sua conta com que cor eu pinto o meu cabelo? - Murmuro já irritada.
-Não. É que é a minha cor favorita. - Ele se afasta para olhar meu rosto, e seu sorriso agora é torto. - Pode parecer clichê, um garoto ter a cor favorita azul. - Avalio seu rosto, e vejo uma covinha antes desconhecida, que só aparece nessa expressão.
-Oh, legal. Pena que eu não te perguntei. - Tento me levantar novamente, mas sou puxada.
-Já te disseram que você é uma porrinha muito meiga?
-Não. - bato com o indicador no queixo. - Filha da mãe, alcólatra, transtornada, sádica, doente, cantora, multi uso, todos os derivados possíveis de Maluca.. Não, acho que meiga ainda não.
-Então adicione na lista. - finjo que estou fazendo uma nota mental e me viro um pouco de lado.
-Já te disseram que quando você fica descabelada desse jeito, parece que tem um smurf morto na cabeça?
-Não, e já te disseram que você tem alguma falha na coordenação motora? Com toda essa bebida acumulada no seu carpete, posso fazer um bar pra mendigos.
-Claro, por que não. - Ele ri e finalmente vejo uma brecha para sair.
Salto da cama e corro até a sala para pegar meu casaco e bolsa, ouço ele tropeçar no quarto e correr em direção a sala. Vamos lá frigobar, não decepcione, seja leve.
-Onde pensa que vai? - Ele se encosta no batente da porta de entrada, assim que chego com o Frigobar até ela.
-Indo pra casa, instalar esse lindo frigobar com quem irei me casar? - Digo como se fosse óbvio.
Ele sacode a cabeça negativamente.
-Você ainda tem um contrato. - O olho incrédula.
-O contrato era eu dormir aqui POR ESSA NOITE.
-Ok, então novo contrato. - O olho pelo canto de olho. - Pegue tudo o que precisa na sua casa e traga aqui, e então irá até a faculdade comigo.
-E eu irei fazer isso por...? - Mexo as mãos em sinal que ele continue.
Ele suspira e vai até a parede em que estava o barzinho. Se agacha ali na frente e então não consigo ver nada, até que..
O deuses, quero viver dentro do buraco daquela parede.
-Por que eu deixo você levar umas garrafas do meu estoque secreto. - Suspira, e deixa meus olhos de criança de 5 anos vendo doce, de frente pra aquela maravilha.
-5. -olho decidida pra cima.
-3. - Olha com uma sobrancelha erguida.
-5. - Lhe lanço um olhar mortal.
-4 garrafas, e não se fala mais nisso.
-Foi ótimo fazer negócios com você. - Estendo a mão para ele apertar, mas ele me ignora.
Coloco as garrafas no frigobar, aliviada, por que la dentro só tinha água.
Vou até a minha casa, e sou recebida por um gato-ninja furioso, que tenta afundar suas garras na minha cara como se dissesse "ONDE PASSOU A NOITE, SUA VAGABUNDA?"
-Calma, calma. Estava no nosso amado vizinho. - Ele chia irritado. - E é pra lá que estou voltando agora. - Pego a roupa que irei me trocar, minha bolsa e almoço.
-Se comporte. - Arrumo as coisas que ele precisa, e troco sua comida.
Assim que chego na casa do novato, ele está sentado no sofá do mesmo jeito que o deixei, assistindo Tv.
Inútil.
-Não vai comer? - Ele mal se move. - Ótimo, terei que levar embora mais algumas dúzias de garrafas pra você aprender.
-Nem ouse toca-las. - Ele diz sem desviar o olhar da televisão.
-Okay, então serei forçada a assaltar a sua geladeira atrás de um café da manhã descente, e não só constituído de coelhinhas das suas revistas indecentes. - Aceno despreocupadamente para as revistas ainda jogadas no chão da sala.
-Elas não fazem nada que você já não tenha feito. - Começa a mastigar algo que agora identifico como um pote de sucrilhos ao seu lado. Dou de ombros.
-Elas fazem muita coisa que eu não faço.
-Uhum, tá. Finjo que acredito. - Tomo o pote de sucrilhos da mão dele e como de uma vez. -Ei! Que merda, fala sério.
-Ninguém mandou ser um tapado preguiçoso. - Falo de boca cheia.
Ele estende a mão, e despejo um pouco do farelo de sucrilhos que sobrou, em sua palma aberta.
Ele bate no espaço vazio no sofá, ao seu lado. Ah não.
-Qual será esse seu interesse repentino por mim? - digo cantarolando e com um sorrisinho forçado.
-Cigarros por cinquenta centavos. - Continua sem me dar atenção, assistindo a Tv.
-Ok. Você quem sabe. Aumento pra 1 dólar a unidade. - Ele se volta para mim na hora sorrindo, e se dirigindo até a cozinha.
- Pronto pronto. Estou fazendo alguma coisa, amo você , e amo coisas por 50 centavos. Agora, quer Bacon? - quando ele pega a frigideira e o único amor da minha vida, balanço a cabeça.
Filho da Mãe, sabe que pode me vencer com o poder do bacon.
-Quando eu não quero Bacon? - bato a frigideira na cabeça dele e depois de querer fazer um galo igual, na minha cabeça, o observo fritar o Bacon.
-Sabe, eu ando pensando..- Meu telefone toca e levanto o dedo pedindo um minuto.
-Alô? - pergunto impaciente pra quem está do outro lado da linha.
-Sou eu. - A voz áspera de sempre responde.
-Ah, bom dia Lesly. Como anda a Catherine?
-Você sabe exatamente como ela anda. - Posso sentir seu revirar de olhos pelo telefone. - Mas não é pra isso que te liguei, e você já pode imaginar pra que foi.
-É, já tenho uma noção. - Olho nervosamente pra Matthew e ele gesticula como se perguntasse "Quem é?"
-Pois bem, ela quer você aqui hoje. E sem furar dessa vez. Ela quer dinheiro pro cigarro também.
-Achei que a gorda quantia que eu mando por mês desse conta. - digo acusatoriamente.
-Os remédios estão caros. - Mas que desculpa mais.. - continuando, esteja.aqui.hoje entendeu?
-Tudo bem, tudo bem. - Reviro os olhos e a mato mentalmente. - Tchau Lesly. - Ela desliga na minha cara.
-Quem é Lesly? - Matthew pergunta curioso.
-Por enquanto ainda não te interessa. - Viro a cara. - O que interessa no momento é o Bacon.
[...]
Assim que saio da faculdade, vou checar quanto tenho na carteira, e pelo visto não vou conseguir nem pagar o metro se dar dinheiro pra cigarro a ela.
Detesto o que terei que fazer em seguida, mas será necessário.
Toco a campainha da casa de Matthew e espero.
-Anne? - pergunta surpreso e eu vou logo entrando. - O que veio fazer aqui?
-Preciso de uma carona. - Ele ergue uma sobrancelha e estendo um papel. - Esse é o endereço.
-Tudo bem.. - Ele diz devagar ainda assimilando a idéia. - Virei motorista particular agora?
-Cala a boca e vamos indo. - Saio apressadamente. Quanto antes eu for, mais rápido irei sair da casa daquela maluca.
Assim que entramos no carro, fico absorta em pensamentos. Será que ela faz isso pra me torturar? Por que eu sinto a satisfação dela, toda vez em que me olha abalada na frente daquela sepultura.
-Anne? - Matthew me cutuca - Já chegamos, é bem perto, e dava até pra vir de metrô.
-Tá. - me levanto e ando devagar até chegar a porta da frente.
-Quer que eu te acompanhe? - Matthew pergunta do carro e sinto minhas mãos trêmulas.
-Não. - Sim, sim, sim. Eu preciso de alguém a me ancorar lá dentro, alguém que goste pelo menos um pouco de mim. - Não tenho muita certeza quanto a isto.
-Vamos lá, pare de bobagem. Eu entro com você. - Sai do carro e o tranca.
Assim que ele chega ao meu lado, seguro forte em seu braço e ele retribui o aperto.
Tiro uma chave de dentro da bota, e abro a porta. Assim que a abro, vejo Lesly, como sempre, no corredor tomando um café.
-Annabelle. - Diz secamente. - Sua mãe a está aguardando na sala de estar.
-Ok. - Passo reto e sinto o aroma amargo da xícara.
-Quem é esse? - Pergunta apontando a cabeça para Matthew.
-Meu vizinho. - Continuo andando até a sala e vejo que alguém está sentado na poltrona.
De longe, você pode distinguir que é uma senhora normal, de cabelo loiro esbranquiçado fazendo alguma coisa normal que senhoras fazem.
Porém, ao olhar mais de perto, você pode ver as mãos inquietas, braços excessivamente magros, a fumaça que saia do cigarro entre seus dedos, e os 5 remédios noturnos com um copo de água ao seu lado.
Assim que se vira para nós, tem um sorriso nos lábios, mas quando o olhar cai em mim, sua boca se torna uma linha torta e seu rosto fica amargo.
-Eu tinha esperanças que você houvesse morrido largada por algum beco com uma garrafa. - Ela estrala a língua. - Ah, mas tudo bem. Você provavelmente morrerá mais cedo do que eu. Então eu ficarei com o apartamento, e não com essa droga que você chamava de casa. - Um sorriso maldoso brota de seus lábios enquanto eu continuo impassível.
-Trouxe o seu dinheiro. -Coloco o bolinho em cima da mesa e ela começa a balançar a cabeça em uma sinfonia que ninguém mais houve.
-Ora meu docinho eu só queria que..- Começa com uma voz que se assemelhava a da minha mãe de antigamente, mas então volta com a amargura tanto quanto possível de um pessoa com duas personalidades. - Se juntasse ao meu marido lá no quintal.
-Vamos acabar logo com isso. - Ando apressadamente até o quintal puxando Matthew junto comigo, e Catherine vem logo atrás com seu suporte de soro.
-E quem seria esse rapaz com você, senhorita Stanley? - Ela se recusa a falar meu nome desde o acidente.
-Meu vizinho. - Uso a mesma resposta que usei para Lesly.
-Tenho certeza de que não é só isso. - Fala debochando e abre a porta dos fundos.
Assim que piso na grama do quintal, é como um punhal atravessando meus órgãos vitais. O lugar que guardou toda minha infância, também me reservou um destino tão amargo quanto as feições de minha Mãe. Se é que posso chama-la de mãe.
Paramos de frente para o canto do quintal em que se encontra o cemitério da família.
Um Hamster (Teobaldo era da família ok? Ok.), depois meus avós maternos, e então ele. Meu pai.
-Mãe e Pai. - Catherine diz pensativamente. - Residindo tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe.
-Meus pêsames. - Matthew murmura por educação.
-Ah, não precisa disso. - Ela da uma volta completa ao redor dos dois túmulos. - Já faz muito, muito tempo. - Ela passa pelo amontoado de terra pequeno e o olha com escárnio. - Isto só está aqui, por um pedido de meu marido. Se fosse por mim, essas criaturinhas deveriam ir pro lixo.
Queria que Teobaldo voltasse como um fantasma só pra puxar o pé dessa aí.
-Observe esse túmulo em especial rapaz. - Minha mãe apontou o túmulo de meu Pai para Matthew. - Adivinhe quem o matou.
Continuo em silêncio enquanto ele me olha pesaroso, como se sentisse pena por essa ser minha mãe.
-Um carro. - Digo quebrando o silêncio. - Um carro o matou. - Catherine me olha furiosa e começa com um tique no olho direito.
-Um carro. - Ela testa as palavras. - Por que não. - Diz como se pela primeira vez, pensasse que a culpa não fosse minha. - Não, não é isso. - Olha diretamente pra mim - Se ela não fosse mimada pelo pai, ele ainda estaria aqui.
-Mas que droga! Nem tudo o que acontece de ruim no mundo é culpa minha, sabia? - Digo sacudindo os braços. - Se a merda de um cara dirigiu na contra-mão, entenda, NÃO-FOI-CULPA-MINHA.
-SIM, É SUA CULPA SIM - Começa a berrar e vir pra cima de mim. - SE NÃO FOSSE PRA AQUELE TEATRO COM ELE, ELE AINDA ESTARIA AQUI. - Sua expressão se contorceu, e eu tentei tirar suas mãos de meu braço, que deixavam marcas de unha.
-Ei, Ei! Para! - Matthew ajuda a nos separar e se coloca na minha frente.
-E você? O que quer com essa merdinha? Ter um filho com ela, criar com amor, pra quando crescer te apunhalar pelas costas? - Diz ainda alterada para Matthew e pula em cima dele. - EU AINDA TRAGO ELA AQUI PRA PERCEBER O QUE FEZ! E SE SENTIR CULPADA ATÉ DEPOIS QUE O FIGADO FALIDO E O PULMÃO ESBURACADO A MATEM. - Tenta arranha-lo, e então chamo Lesly, que vem com uma seringa de Sedativo.
Assim que ela apaga, deixo ela na cama com a ajuda de Matthew e saímos arrastados, como se uma pedra tivesse caído sobre meus ombros e tivesse que arrasta-la até o carro.
-Por que você banca essa mulher? - Matthew quebra o silêncio quando estamos quase chegando.
-Por que apesar de tudo, ela continua sendo minha progenitora. - passo a mão por minha pele arranhada. - E um dia foi minha mãe.
Chegamos ao prédio e desço sem ao menos me despedir. Nesses momentos, ter uma boa garrafa em casa será ótimo.
Tomo quase as 4 que Matthew me deu, de uma vez. Então deito no sofá com um cobertor, e penso em como ter alguém ao meu lado pra relaxar seria ótimo.
Dito e feito.
-Alguém precisa de um travesseiro tamanho gigante? - Matthew entra pela porta sorrindo e rodando no dedo, a chave que fica em baixo da planta.
Afinal, quem nunca escondeu uma chave na planta, pro vizinho compartilhador de memórias dolorosas pegar? Pff.