Cada pensamento é independente do meu corpo
(Vivimi – Laura Pausini)
Nick deveria estar me esperando para uma sessão de cinema acompanhado de uma vasilha cheia de pipoca. Levei menos de cinco minutos para chegar ao seu apartamento. Bati na porta e fiquei esperando ele vir abrir a porta. Olhei rapidamente para o corredor, estava totalmente silencioso. Todos deveriam estar em aula. Bati na porta novamente quando não ouvi passos.
— Nick, se você não abrir a porta, vou embora em dois minutos, começando a contar de agora.
Dois segundo depois a porta se abriu me dando a visão de um peito nu. Só que não era Nick. Reconheci logo pela ausência da tatuagem. Seu cabelo estava molhado e Kadu carregava uma toalha branca em volta do pescoço. Usava uma bermuda na cor caqui, que deixa amostra uma parte de sua cueca boxe preta. Tive que me lembrar de respirar antes de voltar minha visão para seu rosto.
— Se soubesse que não iria demorar, teria esperado você para me acompanhar no banho.
— Vai sonhando. Pois só nos seus sonhos vai tomar banho comigo.
— Nunca se sabe.
— Nick está em casa? Ele marcou comigo...
— Uma sessão de cinema, eu sei. Ele deu uma saída, não deve demorar. Pediu-me para fazer sala pra você enquanto isso. Entra.
Pensei na possibilidade de voltar para casa e mandar uma mensagem avisando que estaria esperando por ele.
— Entra garota, não vou te atacar ou te morder. A não ser que você queira – Kadu abriu passagem para que eu passasse.
Minha vontade foi de lhe dar um soco. Para falar a verdade, sempre sinto essa vontade quando ele está por perto. É automático. Olhei rapidamente para ter certeza que estávamos sozinhos. Nenhuma visão da Babi.
— Onde está sua sombra?
— O quê?
Revirei os olhos.
— Babi, sua namorada, onde está?
— Pelo horário deve estar saindo de alguma reunião com seu grupo de estudo.
— Não dou cinco minutos para ela aparecer aqui.
— Babi é um pouco exagerada.
— Um pouco? – falei enquanto me sentava no sofá.
— Já que está à vontade, vou terminar de me secar.
— Estou super à vontade. Obrigada.
Quando Kadu voltou para seu quarto, peguei meu celular e mandei uma mensagem para Nick.
Eu: kd vc?
Não ouve resposta. Dois minutos depois, Kadu voltou para a sala. Colocou alguns livros em cima da mesa de centro e se encaminhou para a cozinha.
— Nem sinal do meu irmão? – perguntou enquanto pegava uma caixa de suco na geladeira.
— Não. Acho melhor ir para casa. Você pode avisar que estou esperando ele lá?
— Para que a pressa? Ele já deve estar voltando. Qual o lance entre vocês?
— Lance? Que lance?
Kadu colocou o suco em um copo e voltou para a sala.
— Vocês andam juntos o tempo todo, ou pelo menos o tempo todo que vejo. Quando se conheceram? Foi na minha festa?
— Interessado?
— Nick é meu irmão, me preocupo com quem ele se envolve – disse ao sentar no sofá do meu lado.
— Não estou envolvida com seu irmão. Somos amigos.
— Foi isso que ele falou daquela aspirante a repórter. Duas semanas depois estavam dormindo juntos.
— Dormindo juntos? – me assustei com a minha própria pergunta.
— Claro. O que duas pessoas fazem quando estão juntos? Transam.
Não cheguei a imaginar que meus amigos tinham chegado nessa fase. Pelo menos nenhum dos dois tinha mencionado isso. Kadu continuava a me olhar com curiosidade.
— Aí, me desculpe, não sabia que eles não tinham lhe contado.
— A vida íntima dos meus amigos são só deles, não preciso que compartilhem comigo.
— Você parece incomodada com isso. Está gostando do meu irmão ou então é por que... Céus! Você é virgem?
Juro, que se um buraco se abrisse agora no chão, eu me jogaria. Como havíamos chegado nessa parte da conversa? Estávamos falando de Nick e Belinda, e de repente, eu virei o assunto? A onde ele queria chegar com isso?
— Eu não estou incomodada com nada, e não sou virgem, não que isso seja da sua conta.
— Bom... – Kadu colocou o copo em cima da mesa e se aproximou mais de mim —... Nesse caso não teremos nenhum problema.
Kadu ficou tão próximo que consegui sentir seu hálito de menta. Meu coração começou a bater disparado como se fosse saltar pela boca. Meus olhos estavam congelados nos dele, enquanto ele olhava para minha boca. Senti o calor de sua mão posta em cima da minha coxa. E isso era o suficiente para eu me levantar e sair correndo, mas as minhas pernas se negavam a se mexer. Seus olhos encontraram os meus por um breve momento antes de sentir sua boca na minha.
Foi exatamente como eu pensava que seria seu beijo, quente e faminto, sem nenhuma delicadeza. Sem o romantismo toda da cena.
Sua mão saiu da minha coxa e fixou atrás da minha nuca. Ele queria mais. Eu queria mais. E por mais que eu quisesse sair, o desejo não permitiu. Kadu me puxou para mais perto dele, me forçando a encostar-se a seu peito nu. Em um movimento que ele fez, acabou derrubando o copo no chão, me tirando do transe.
— O que você pensa que está fazendo? – falei saltando do sofá.
— Te beijando. Exatamente como você queria.
— O quê? – eu estava tão desorientada que não estava conseguindo entender a sua frase.
— Você queria esse beijo desde o momento que pôs os olhos em mim, naquela festa.
— Não seja idiota...
— Vai negar que não se sente atraída por mim? Vai negar que sua mente não passeia quando me vê?
— Eu vou embora antes que...
Caminhei até a porta, mas antes que eu a abrisse, uma mão forte envolveu a minha. Meu Deus, isso não estava acontecendo. Kadu me virou e me prendeu entre a porta e seu corpo. Eu respirava tão rápido que estava com medo de sofrer um infarto. E onde estava Nick para me salvar do seu irmão maníaco?
— Você se sente atraída por mim, assim, como eu me sinto por você.
— Você está... Maluco... – eu não estava conseguindo encontrar uma palavra coerente para falar.
— Mas pelo menos eu admito as minhas emoções.
Antes que pudesse falar alguma coisa em minha defesa, sua boca alcançou a minha. E por mais que eu negasse, eu desejava esse beijo. Eu era tão contraditória.
Com o resto da minha dignidade, eu o empurrei.
— Se fizer isso novamente, vou te mandar para o hospital.
Kadu soltou uma gargalhada.
— Fez aula de alta defesa? – disse se afastando um pouco para me analisar.
— Experimenta. Posso quebrar suas pernas. Eu quero ver como vai dar em cima de alguma garota estando todo engessado.
— Bom, isso acho que quero pagar para ver.
Quando ele fez o movimento para se aproximar, a porta se abriu, me empurrando em direção à Kadu. Nick olhou surpreso para mim e depois para seu irmão.
— O que está acontecendo aqui? Nanda, o que você está fazendo aqui?
Eu nunca fiquei tão feliz e em pânico ao mesmo tempo, vendo os olhos curiosos de Nick em minha direção.
— Você me convidou para assistir um filme depois que saísse do meu teste.
— Convidei? Mas eu passei a tarde fora. Passei aqui para trocar de roupa e fui treinar. Estou voltando agora.
— Você me enviou mensagens depois que voltamos do almoço.
— Não, Nanda. Eu não mandei mensagem nenhuma. Esqueci meu celular em...
Então os olhos de Nick se voltaram para Kadu. Ele parecia estar furioso, enquanto Kadu mantinha um sorriso cínico nos lábios.
— O que foi? Não olhe pra mim assim. Foi só uma brincadeira. Eu fui até seu quarto pegar uma toalha, já que as minhas estão todas sujas, e vi seu celular jogado em cima da cama...
— E se sentiu no direito de mexer nele?
— Eu não mexi. Estava piscando, pensei que talvez fosse mensagem do nosso pai. Fiquei preocupado... Sem querer vi suas mensagens trocadas com a Nanda...
— E resolveu bisbilhotar?
— Eu só estava preocupado com tipo de envolvimento que você estava com ela.
— Isso não lhe dá o direito de invadir minha privacidade. Nanda é minha amiga.
— Agora tenho certeza.
— Como assim, tem certeza?
Oh meu Deus, ele iria falar do nosso beijo. Eu precisava fazer alguma coisa.
— Oi, eu estou aqui, na verdade, estou indo embora.
Quando fiz menção de sair, Nick fechou a porta, impedindo minha passagem.
— Do que meu irmão está falando Nanda?
— Eu... Não... Faço ideia.
Olhei em seus olhos procurando uma brecha que ele acreditava em mim. Nick tirou os olhos de mim e foi para cima do seu irmão com tudo.
— Você vai me dizer agora o que você fez com ela – disse Nick empurrando com força seu irmão.
— Ele não fez nada Nick, sério. Só estávamos conversando quando você chegou – tentei evitar o pior.
— Vai negar a verdade agora para meu irmão protetor Nanda? – perguntou Kadu não parecendo estar com medo de Nick.
Por acaso Kadu estava querendo uma passagem direta para o hospital? Nick empurrou Kadu novamente que acabou caindo sobre o sofá.
— Nick, para. Ele não fez nada comigo, sério.
— Acho melhor você falar logo Kadu – a voz de Nick era pura raiva.
— Eu beijei sua amiga – disse Kadu se levantando.
— O quê?
Nick olhou para seu irmão, depois voltou seu olhar para onde eu estava.
— É verdade o que ele falou Nanda?
— Eu... Não é o que...
Nick me deu as costas e foi pra cima de Kadu novamente.
— Eu vou deixar sua cara pior do que da última vez, seu idiota.
Na dúvida do que fazer se iria embora, ou se tentava separar os dois, acabei optando pela segunda opção. Mesmo que isso resultasse em um braço ou o meu nariz quebrado. Corri e fiquei entre os dois, meu coração batendo tão forte que acho que eles podiam ouvir.
— Parem vocês dois agora! São irmãos e adultos. Podem resolver isso civilizadamente.
— Ele acaba de falar que te beijou, e você quer que eu deixe isso pra lá?
Eu postei a mão no peito de Nick, tentando afastá-lo de Kadu.
— Foi só um beijo idiota.
— Um beijo idiota que você repetiu – provocou Kadu.
— Cala a boca Kadu – gritei enquanto tentava impedir que Nick quebrasse seu irmão – é melhor sair daqui, Kadu.
— É ele quem está nervosinho. Não vou a lugar nenhum.
— O que está acontecendo aqui?
Era só o que me faltava. A sombra aparecer no momento errado. Agora tudo iria piorar.
— Chegou em ótimo momento Babi. Kadu acaba de me contar que...
— Nick, pelo amor de Deus, dá para você se acalmar?
Sem saber mais o que fazer, agarrei Nick e o beijei. No primeiro momento, ele pareceu ter ficado em estado de choque. Depois me puxou para mais perto. E diferente do beijo de Kadu, Nick foi mais carinhoso, um beijo mais doce, mais apaixonado.
— Era isso que você estava escondendo Kadu? O seu irmão está pegando a favelada?
— Cala a boca Babi. Você não deveria estar em uma de suas reuniões chatas?
— Por que está gritando comigo?
Kadu saiu pisando fundo para seu quarto, sendo acompanhado por Babi. Só quando os dois sumiram, é que me afastei de Nick.
Ficamos alí parados não sei por quanto tempo, sem saber o que falar.
— Por que você fez isso? – perguntou Nick quebrando o silêncio.
— Eu não sei... Fiquei com medo que você falasse para a sombra sobre o beijo... Medo que a situação só piorasse...
— Ficou com medo que ela descobrisse que você beijou o namorado dela?
— Eu não beijei o Kadu – rebati – ele me beijou.
— Não importa quem beijou quem.
— Fala baixo Nick. Você quer que Babi ouça?
— Porque protegê-lo Nanda? Já está mais do que na hora do meu irmão tomar um choque de realidade. É hora de encarar seus problemas. Mas você não me respondeu... Por que me beijou?
— Eu não sabia o que fazer para você se calar... Você estava a ponto de matar seu irmão...
— Queria saber qual dos dois beija melhor?
Nick marchou para seu quarto, batendo a porta com tanta força que pensei que tinha quebrado. Por que ele estava chateado comigo?
Eu só tentei evitar uma briga maior.
O que fazer agora? Ir embora e esperar Nick se acalmar ou enfrentar ele agora e esclarecer tudo. Na verdade, eu não tinha que esclarecer nada. Kadu tinha me beijado e ponto. Eu não tinha correspondido ao seu beijo. Mentira, eu tinha sim. Duas vezes. Mas Nick não precisava saber. E não iria saber.
Segui para o quarto dele. Pensei em bater, mas talvez ele me mandasse embora. Resolvi entrar direto.
Encontrei Nick apoiado na janela, sem camisa, olhando para algum lugar do campus. Fechei a porta atrás de mim e lentamente me aproximei ele.
— Nick, por que está zangado comigo? A única pessoa que deveria estar zangada aqui sou eu, por que fui enganada.
— Enganada? Você respondeu as mensagens – falou ainda sem olhar pra mim.
— Respondi por que achei que era você.
— Você não percebeu que não era eu?
— Me desculpe se minha bola de cristal não está funcionando direito, para ver que você estava em algum lugar enquanto seu irmão brincava de troca de personalidade – agora foi minha vez de ficar zangada.
Nick virou-se para mim, mas continuou encostado na janela.
— E por que não foi embora quando viu que eu não estava? – disse cruzando os braços sobre seu peito.
— Por que ele me falou você voltaria logo, e havia pedido para que ele me fizesse companhia até que voltasse.
— Eu nunca pediria isso pra ele. Meu irmão é um idiota.
— E eu não sei? – me aproximei mais um pouco dele – ainda está zangado?
— Vem cá.
Eu me aproximei, e quando ficamos pertos o suficiente, ele me puxou para um abraço. Pousei minha cabeça em seu peito e relaxei. Enquanto eu sentia seu peito subir e descer, o abracei também.
— Isso quer dizer um sim?
— Sim. Isso quer dizer um sim – senti um movimento. Ele estava rindo.
— Ufa, ainda bem. Não sabia muito bem o que fazer para mudar o seu humor. Você fica bem assustador quando está com raiva.
— Imagina quando me ver jogando. Pareço um leão.
Rimos juntos. Continuamos em silêncio por mais alguns segundos.
— Meu irmão tentou mais alguma coisa além do beijo?
— Como tentar arrancar minha roupa alí mesmo no sofá?
Nick agarrou meus ombros e me encarou.
— Ele tentou isso?
— Nick, estou brincando. Se ele tivesse tentado, estaria até agora agonizando no chão.
Eu ri e ele pareceu soltar o ar que estava preso.
— Gostei do seu quarto — falei me afastando dele por algum motivo.
Sentei na sua cama, que por sinal, era de casal e muito macia. Peguei uma foto dele com uma garota morena linda. Pelos traços, deveria ser Eduarda. Ela realmente era como ele havia descrevido.
— É a Eduarda?
Nick sentou ao meu lado e pegou a foto da minha mão e ficou olhando por alguns segundos. Seu sorriso havia desaparecido.
— É sim. Essa foto foi tirada um mês antes do seu acidente. Estávamos de férias em Nova York.
Achei melhor não continuar nesse assunto.
— Bem, eu vou indo. Vai dar um pulo lá em casa mais tarde?
— Acho que não. Estou meio cansado. Os treinos estão acabando comigo.
— Tudo bem, então. Te vejo amanhã.
Quando eu estava me aproximando da porta, olhei para Nick.
— Nick, posso te pedir um favor?
v Até dois.
— Não comenta com ninguém sobre o nosso beijo.
— Não quer espantar os seus futuros pretendentes? – esboçou um sorriso.
— Não é isso. Belinda ainda gosta de você. Não quero que ela pense que está rolando alguma coisa entre nós. Na verdade, ela está com a ideia fixa que eu sou o seu novo alvo do semestre. E se ela souber do beijo, vai surtar. Eu não quero que nossa amizade fique balançada.
— E você concorda com ela?
— Sobre?
— Você ser meu novo alvo.
— Ela está viajando, e morrendo de ciúmes. Acho que você deveria dar uma nova chance para vocês, e esquecer a tal da Andréia.
— Já te falei que não tenho nada com essa garota.
— Então é outra?
— Céus...
— Só acho que essa outra não vale a pena. Belinda é uma garota maravilhosa. Boa noite Nick.
— Boa noite Nanda.
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