Na madrugada daquela noite, inquieto com a ordem dos acontecimentos, Wiliam deixou May dormindo na cama e
desceu as escadas para beber água. Surpreendentemente, no instante em que cruzou o corredor que daria na cozinha, ouviu sons de cochichos de Poncho vindos do canto próximo aos armários da despensa. "É muito arriscado você voltar, seja
quando for." Poncho alertou, nervoso. Wiliam desacelerou os passos, curioso. "Lógico que não." O outro interlocutor era Sebastian, que gesticulava, tentando convencê-lo.
"De acordo com Iam, será rápido. Eu só preciso dar um tempo sumido até que me esqueçam e me desvinculem de tudo." Wiliam franziu o cenho confuso com o tema discutido. Não era certo ouvir conversas particulares escusamente, no
entanto o assunto lhe interessou. Ouviu mais algumas frases sussurradas e abriu a boca desconfiado.
Agora que sabia que Poncho era cúmplice no caso Angelique, em que mais estaria metido? Perguntou-se atordoado. Será
que seu irmão foi corrompido? Wiliam fechou os olhos e encostou o topo da cabeça no portal, debatendo-se se os
confrontaria ou não com o assunto.
Mas e se Poncho fosse mesmo cúmplice de Sebastian, o que poderia fazer? Até seu pai deu abrigo a um fugitivo!
Portanto, quem era ele para fazer julgamentos ou intrometer-se em assuntos que não era da sua incumbência? Iria complicar mais a sua vida fazendo caso de algo que não tinha nada a ver com ele?
Obviamente não.
Poderia muito bem agir egoistamente e denunciar Sebastian como fugitivo à Justiça. Assim, Peter não teria que ir
embora, e sua mulher poderia ficar em paz com o garoto. Por outro lado, Wiliam sabia que magoaria Angelique, magoaria Barbara, magoaria principalmente May com essa perfídia. As duas famílias estavam tão intrinsecamente ligadas que qualquer novo ato seu de traição atingiria todos. Portanto o correto era nada mais que fechar os olhos para Justiça.
Resolvido a ignorá-los, Wiliam deixou o esconderijo fazendo barulho para que os dois advertissem sua presença e
dirigiu-se ao purificador de água.
"E ae?" Cumprimentou-os indiferente, apertou o botão do filtro de água gelada e olhou de canto para os dois, que
surpreendidos olharam um ao outro. "Oi... Estava, er, me despedindo de Sebastian." Poncho deu uma evasiva claramente embaraçado.
Embora o flagra sugerisse obscuras intenções, não permitir-se-ia ser pressionado por Wiliam, pensou Poncho,
principalmente porque precisava usar a verdade de acordo com as conveniências e necessidades da causa em que trabalhava. "Tô subindo." Evadiu-se rumo às escadas, deixando Sebastian na cozinha.
Sebastian permaneceu onde estava com os braços cruzados no peito, observando, impávido, Wiliam, que encheu mais
um copo com água tranquilamente e sentou-se sobre o balcão de mármore, em silêncio. Ambos se encararam inexpressivos, sem ódio, sem hostilidade. Wiliam foi quem quebrou o silêncio. "Desculpe-me, Sebastian." Disse impulsivamente, sabendo que não teria outra oportunidade como esta. E pensava, agora, que às vezes uma palavra dita, uma pequena satisfação, consertava mágoas profundas. É óbvio que julgava ainda ter motivos para manter-se desconfiado e em reserva, mas entendia que seus motivos eram infundados e totalmente egoístas,
pois se baseavam em acontecimentos presentes, referente à May e Peter, por isso sentia que o pedido de desculpas pelo passado de mal-entendidos era obrigatório. "Por toda a perseguição." Explicou. "E... por não ter estado ao seu lado." Pediu sinceramente, olhando contrito para o copo que apertava na mão. "E... obrigado por ter salvado minha irmã." Adicionou com um suspiro satisfeito consigo.
Sebastian franziu o cenho impressionado com sua atitude e sentou-se de guarda baixa à mesa, observando curiosamente o cunhado que tinha iniciado a noite bem hostil e que agora o surpreendia. Para ele, Wiliam ainda era o mesmo garoto de anos atrás, quando era um menino desconfiado e arredio. O garoto que Sebastian tinha se importado e tomado por amigo. Lamentava muito pelo que os anos fez com eles ao obrigá-los a traçar caminhos diferentes.
Por que, diabos, Helena teve que se interpor entre ele e Angelique? Por que Angelique optou pelo caminho mais fácil, que era a fuga de problemas? Por que um desastre tão grande aconteceu entre eles para separá-los por tantos anos?
Sebastian não acreditava que a perseguição do amigo iria se aferrar por densos anos. Não pensou que a teimosia iria terminar em um casamento forçado com sua irmã. Mas surpreendentemente aconteceu, apaixonaram-se, e hoje os dois estavam aqui, para começar a partir daqui uma nova etapa em suas vidas.
E no íntimo, Sebastian condenou-se por não poder confiar em Wiliam, mesmo agora. Se não fosse pela segurança dele
e sigilo da operação, não o deixaria sofrer a incerteza. Porque poderia dizer do que fugia, ou em que estava metido.
Não pensou que um dia voltaria a desejar ser próximo a Wiliam, mas desejava. E, contudo, o admirava, com todos os
defeitos. Admirava sua persistência. Admirava mesmo sua teimosia. Principalmente o admirava pela humildade de admitir seu erro e pedir desculpas.
Queria poder reconquistar sua amizade. A ruína dessa amizade foi uma chaga que lhe doeu por anos, além de todo o
sofrimento da ausência. É óbvio que se sentiu traído quando Wiliam negou-se a confiar nele, mas agora que Angelique lhe
contou o porquê de Wiliam ter atribuído a culpa a ele, tinha mais era que perdoar o cunhado por todas as tolices e
perseguições. Mais que isso, o motivo para Sebastian querer vingar-se do chefão costas-largas do tráfico na Califórnia avultou.
Iria fazê-lo ficar impotente, sem saída. Não haveria negociações, subornos, compras de sentenças. Seria seu fim, e ponto.
Por outro lado, Sebastian tinha outra opção: continuar colocando Wiliam a borda, sem de fato revelar-lhe. "Esquece isso, Wiliam." Disse por fim, depois de um longo silêncio. "Você também errou, Sebastian." Wiliam acusou sem preâmbulos. "Seu erro foi grotesco com alguém que sempre foi
leal a você. Alguém que nunca te questionou ou julgou. Que teve como objetivos primários encaixar-se, ser aceita, cuidar e proteger... Era elementar que ela estivesse a par da maternidade de Angelique." Expôs com neutralidade
"Mas ela sabia que eu trabalhava em algo grande no México. Ela sabia que eu tinha meu coração lá." Defendeu-se culpado. "Eu só não revelei abertamente porque pensei que quanto menos pessoas envolvidas melhor." Wiliam compreendeu e aceitou sua posição. E agora que estava mais tranquilo após ouvir de May que ela não lhe deixaria, debatia-se mentalmente entre pedir, talvez implorar que Sebastian repensasse levar Angelique. Ou pelo menos conscientizá-lo que deixar Peter era uma aconselhável e correta opção. "Deixe o garoto, Sebastian... Por May. Eu garanto que os dois ficarão bem cuidados. Podemos ficar aqui na casa o meu pai, se for o caso. Barbara ficará conosco. Eu me responsabilizo por eles." Enfatizou implorativamente.
Sebastian balançou a cabeça, negando. "É uma questão de segurança, Will. Deixar meu filho fará com que quem quiser se vingar de mim num caso remoto, toque nele. Inclusive May não estará segura." Wiliam fechou o punho, impotente. Sebastian disse-se que se Wiliam não amasse verdadeiramente May, era essa sua chance de livrar-se dela e mandá-la acompanhá-lo em sua viagem de exílio, afinal agora além de saber a verdade sobre Angelique, supunha que o maior envolvimento de Sebastian com drogas foi para o financiamento de meios de estudos.
Sem mais palavras, despediram-se e cada um foi para o seu quarto. ...
No dia seguinte, Sebastian se foi. Poncho e Anny voaram para Nevada, e May estabeleceu uma rotina firmada em
racionalidade, empenhada com obstinada intrepidez a levar adiante a tarefa de aproximação entre mãe e filho. Ela enumerou as rotinas recorrentes, e Angelique passou a acompanhá-la nas atividades pré-estabelecidas desde as idas de Peter à escola, a passeios e missas. Angelique também passou a acompanhar Peter na execução de tarefas escolares, atividades extras como
desenhos e prática de flauta, tentando ao máximo ser atenciosa e prestativa. E Peter, que era absolutamente esperto e
sensitivo, percebeu rapidamente a mudança brusca na rotina e aproximação forçada.
Certa tarde, Peter pintava um quadro pequeno no jardim com Angelique em seu encalço. May estava a metros dele,
dando-lhes espaço, deitada num
cheslong com as mãos do marido deslizando nos seus braços enquanto ela observava atenta Peter pintar. "Mamã..." Peter chamou May. Wiliam prendeu-a pela cintura à sua frente e abraçou-a, impedindo-a de ir. "Não vai, não vai." Brincou em seu ouvido. "Você é minha." Sibilou divertido. "Deixa eu ir." Pediu manhosa. Ele riu, deu-lhe um tapinha no bumbum e liberou-a para ir. "Vá, mas volte rápido para seu maridão." Ela sorriu e caminhou pressurosa até Peter. "Fala, bebê." Inclinou-se em frente a ele. Wiliam rolou os olhos para o relacionamento claustrofóbico dos dois.
Bastava Peter chamar, espirrar, resmungar para que May estivesse cercando-o. "Eu quero você aqui para ajudar Peter." Peter pediu manhoso e olhou de canto para Angelique, ao tempo que se afastou
sutilmente dela. Ela estava sufocando-o com suas atenções. "Você emprestou seu perfume para Angie?" Apontou para Angelique. "Ela está com seu cheiro." Pareceu uma acusação mal-humorada, antes de voltar a mover o pincel sobre a tela num desenho de avião azul. "Não, filho. Quer dizer, não Peter." Olhou embaraçada para Angelique. "A Angie usa este perfume desde quando ela era
adolescente. Eu que achei nas coisas do seu pai e comecei a usar igual." Explicou docemente e sentou no chão, ao lado dele
na grama. "Ah." Afastou-se mais de Angelique numa velada atitude de rejeição e colou-se a perna de May. O ato inocente não
passou despercebido. "Peter, você lembra que a May falou ontem que era para você chamar a Angie de mamãe?" Lembrou casualmente. "Sim." Continuou pintando. "Lembra que eu te expliquei que a sua sementinha foi colocada na barriga dela, e por isso ela é sua mãe?" Peter olhou uns segundos para Angelique, sisudo, depois inclinou até o ouvido de May e cochichou. "Ela não é você." Segredou conspirador. "Peter quer só May de mamãe." May abraçou-o com o coração aflito, olhou para Angelique culpada e afastou-se do abraço.
"Mas nós duas podemos ser sua mãe." Deu a opção. "Você poderá dizer para todos os seus amiguinhos que tem duas
mães." Tentou manobrá-lo. "Peter pode chamar ela de mãe só amanhã?" Interrogou e pôs as mãozinhas no rosto de May, adulador. "Hmmm, deixa eu ver..." Ela olhou para cima, fingindo pensar. "Pode." Balançou a cabeça, assentindo com um sorriso. "E depois de amanhã?" Olhou de canto para Angelique, que abaixou o olhar.
May suspirou impotente. "Peter..." Ela estava a ponto de gritar por clemência, controlou os próprios ânimos e passou
a mão no cabelo louro do menino, com olhar desamparado. E foi Angelique a responder a pergunta. "Pode, Peter. Pode me chamar de mãe só quando você quiser." Sugeriu compreensiva, tentando ser amigável.
Aquela foi só uma das oposições de Peter que requeria de May cautela para habilidosamente contornar. ...
No decorrer dos dias, Wiliam observava-a zeloso como uma sentinela, captando e lendo a dignidade de seu sofrimento silencioso. Para compensá-la por sua dor pela inevitável separação, era um marido atencioso, dedicado e apaixonado. Com seu amor, fazia o coração adolescente suportar as intempéries, encontrar segurança. Sua atenção, calor e
devastadora presença eram um acalento. Ela afundava-se aos momentos ao lado dele como se necessitasse dessa troca
espiritual para seguir adiante. E podia sentir o quanto ele a queria quando a abraçava forte durante toda a noite, como um polvo protetor. Podia sentir o quando ele a amava quando cuidava dela, quando lhe massageava os ombros tensos.
Hoje sabia o quanto esteve errada ao duvidar um dia do seu amor. Estava tão feliz com essa parte da vida que tinha
vontade de abrir os braços e girar com as mãos erguidas para o céu.
A atração entre os dois era palpável. Podia-se lê nos olhares, nos toques e gestos diários. Custava muito camuflar os
sentimentos perto de outros e esperar o momento certo para estar juntos da forma que ansiavam.
"Só minha." Declarou possessivo, engatinhou na cama e baixou o short curto que ela usava, passando-o pelos quadris juntamente com sua calcinha. O corpo adolescente esticou e aqueceu ao seu olhar ardente. "Aqui dentro você é só minha, sua mente, seus pensamentos, seu corpo." Disse enquanto beijava-a na cintura, com ela se contorcendo de cócegas e prazer. Os dois tinham um consentimento tácito, uma estratégia matrimonial de que dentro do quarto esqueceriam tudo. E era o certo.
Ali os dois eram nada além de recém-casados apaixonados em lua-de-mel.
Ela sorriu acolhedora, deitada na cama de solteiro, e abriu os braços para envolvê-lo quando ele desfez de sua mini-
blusa, embevecido com a imagem sexy, porém infantil da menina que lhe sorria. Ele queria aliviar a carga de responsabilidade de seus ombros, sabendo que o amor físico era o passaporte, uma forma de unidade e alívio.
A boca dele baixou sobre a dela, encaixando de várias formas, sugando a língua cálida, esperando com o beijo
absorver seus anseios, aflições e dúvidas, numa troca mútua de conforto.
Faminta, ela estendeu a mão e desfez dos cadarços de sua calça de moletom, querendo absorver cada sensação do
corpo maravilhoso, cada músculo, cada pulsar de coração. Passavam o dia juntos com tantos toques furtivos e carícias
roubadas que quando subiam para o quarto ambos estavam prontos para unir-se. Ainda assim tremeu quando sem muitas preliminares ele entrou nela com uma investida forte, esticando a molhada malha sensível, depois ele cobriu o pescoço feminino com beijos sôfregos, ao tempo que se movia dentro dela. "Às vezes acho tão injusto..." Ele disse ofegante em seu pescoço. "É tão injusto ser tão afetado por você." Moveu-se
vagarosamente, com os quadris de May preso em suas mãos, todo o seu peso sobre ela enquanto degustava as sensações do pulsar em seu corpo. Ali não era a mãe e tia de Peter, era somente sua jovem, linda, ousada e quente mulher. "É tão injusto te amar com todas as células do meu corpo." "Por quê?" Gemeu e rodeou-o com as pernas, mantendo-o preso, enquanto seduziam-se, beijavam-se e moviam-se
com um amor que exigia ser saciado.
"Porque às vezes tenho medo de ser o único envolvido assim. Você é tão nova, sem experiências..." Confessou com a
boca aberta em seu ombro. "Dói só de pensar em ficar sem você. Só de pensar que um dia posso acordar e você não fazer mais parte da minha cama. E pensar isso me deixa desesperado para tomar tudo de você. Por isso a cada intervalo nosso, a cada segundo eu estou em volta de você, na sua órbita, te beijando, vigiando seu sono, te amando." Ele ergueu sua perna e ajeitou a eficácia da posição. "Você é uma extensão de mim." "Eu te amo." Sussurrou apaixonadamente, fechou os olhos e apenas sentiu o olhar intenso cravado nela. "Você é uma febre em mim que nunca passa, uma fome contínua." Declarou quando as ondas extasiantes se
anunciavam por sua coluna. Mas ele queria tardar, queria imprimir-se nela, como se um mau presságio o espreitasse. O medo lhe fazia absorver mais, e mais, e mais. "Amo você. Você é minha alma. Não posso sair de casa sem me perguntar se você ficará bem. Não posso deixá-la no quintal sem perder o medo de que você caia no lago. É desesperador isso." Ela abriu os olhos e observou-lhe a expressão de tormento, ao mesmo tempo de prazer. Ela puxou-o para si, beijou-
lhe apaixonadamente na boca, de um jeito tenro e promíscuo, fazendo-o sacudir firme e impacientemente, acelerando assim o clímax de ambos. Ela esforçou-se para adaptar ao ritmo e quando o prazer os percorria em ondas, ela sussurrou em sua boca. "Eu nunca vou deixar você, você entende isso? Não vou deixá-lo." Declarou com veemência, entre soluços, enquanto
ele estremecia nas ondas finais o corpo grande e pesado em cima dela. ...
Os dias se seguiram assim. Ele a dividia de dia com Peter e acercava-se dela nas mínimas oportunidades, reclamando-a
sempre que via uma brecha, sempre exigente e intenso. "Crianças recém-casadas." Ouviram certa vez Carlos justificar constrangido para Barbara quando os flagraram aos
amassos nos balcões da cozinha.
Portavam-se como dois adolescentes apaixonados agarrando-se no jardim, na sala de visitas, na beira do lago, na
praia em frente à mansão. Ela voltou a abusar de sua feminilidade com as roupas que ele a conheceu, posando charmosa pela casa em suas sainhas curtinhas e shorts. "Hei, florzinha, assim você mata o titio." Disse em seu pescoço ao surpreendê-la pintando na estufa de shortinho e
bustiê, com os contornos do corpo realçados, o que causava nele um efeito devastador. Ela sorriu, mudou o corpo e enlaçou seu pescoço. "Está calor." Justificou com um sorriso que não tinha nada de inocente, a não ser provocador. "Vamos nos refrescar na minha banheira." Convidou-a malicioso. "Podíamos aproveitar que Peter está na escola." Arqueou as sobrancelhas três vezes sugestivamente, depois olhou de um lado ao outro, conspirador. Ela riu. "Acho que você não cresceu." Comentou e deu selinhos em seu queixo. "Me trata como sua namoradinha adolescente." "É ruim isso?" Ele questionou brincalhão, ela descansou o rosto em seu peito, aspirando seu cheiro de homem suado
e sal marinho após ele ter corrido de sunga pela praia e dado um mergulho. "Não. Às vezes até esqueço que casamos. E, wow, continua sendo estranho. De qualquer maneira eu adoro essa sua cercania." Sussurrou embevecida. "Eu sei." Ele riu, abraçou-a, e um silêncio confortável os envolveu enquanto se afagavam. "Não vejo a hora de
terminar a reforma do nosso ap." Comentou acariciando-a na nuca, observando sobre o ombro dela o desenho que ela pintava. Era um coração humano nas mãos de um garoto louro, os traços bem delineados impossível de confundir. Peter.
Um ciúme nocivo rastejou em seus sentidos. Fechou os olhos, concentrando-se para que o sentimento não se cevasse como uma perniciosa peste em seu coração.
Você é homem, ele uma criança, recriminou-se pela insegurança. Mas que homem não se sentiria abalado com a ameaça que o espreitava ante a falta de evolução no relacionamento de Peter e Angelique? "Por quê? Enjoou do seu quarto de solteiro?" Sorriu preguiçosa, alheia a confusão em seu interior.
"Não. Quero poder ter um cantinho só nosso. Algo parecido conosco." Sugeriu carinhosamente e deslizou os dedos
por sua coluna. "Você não vai mesmo me deixar vê-lo antes de terminar a reforma?" Questionou e acariciou sua nuca com a mão limpa da tinta. "Não. É uma surpresa. Vai demorar ainda uns dias para concluir." Ela beijou docemente seu peito, silenciosa. "Não quero que os dias passem rápido. Quanto mais rápido passar, mais rápido Peter se vai." Lembrou, e automaticamente mudou o tom para melancolia.
Ele preferiu o silêncio. Quanto mais afundavam no tema, mais inseguro ele ficava.
Nos fins de semana, May continuou fazendo costumeiros trabalhos voluntários na pastoral. E a primeira discussão do casal veio num domingo pela manhã quando May avisou apressada que estava atrasada para buscar Daniel na zona sul de Los
Ângeles, antes de ir para as ruas de Beverly Hills com o grupo da pastoral. "Por que aquele menino vai com você?" Wiliam questionou irritado logo que May entrou no seu Lótus e baixou o
vidro. Ele ficou ao lado de fora. "Por que está ameaçando chover e não tem como ele ir de moto." Explicou apaziguadora. "Mas você é casada agora. Não tem que dar carona para homens no seu carro." Elucidou sério. "Wiliam..." Ela respirou fundo e levantou a mão para tocar o rosto do marido que estava inclinado sobre a janela. "Ele
não é homem. É um menino e também é meu amigo." "Mas já foi seu namorado." Retrucou aborrecido. "Ai, namorado, namorado." Rolou os olhos. "Aquilo era coisa de criança. Agora eu sou sua mulher. Você tem que
confiar em mim." Pediu com um sorriso persuasivo. "No mais, se você está tão preocupado, devia ir comigo." Sugeriu
carinhosamente e acariciou seu queixo e pescoço. "Vamos?" Propôs.
"Não, flor." Fechou os olhos para sentir a carícia. "Não tenho o que fazer lá." Inclinou o corpo acrobaticamente para
beijá-la dentro do carro. "Faça aquele menino manter as mãos bem longe de você." Deu selinhos, lutando para não agir
primitivamente, tirá-la do carro e arrastá-la de volta para casa. "Nada de abraço de amigo, nada daquele bombado ficar
tirando casquinha da minha mulher." Pediu alternando mordidinhas com instruções sérias. "Fala que seu marido é muito bravo e matador e que é para ele ficar bem longe do que é meu." Disse sério. Ela soltou uma gargalhada. "Hei, tio, eu te amo." Segurou seu queixo na mão, presunçosa com sua possessão. "Sou sua esposa, esqueceu? Só sua. Acho que esse anel no meu dedo declara isso." Apontou para o anel para distraí-lo.
Ele aceitou sua manobra com um suspiro vencido e deu-lhe um último beijo, a seguir assistiu-a impotente sair.
Entretanto, não a queria longe de sua vista. Queria guardá-la de toda criminalidade que acompanhava as ruas da Califórnia— argumentou uma desculpa—, foi à garagem, montou, como toda semana, em sua bike e desceu as ruas de Malibu rumo a Beverly Hills.
Mais tarde, ela sentiu sua presença espreitando à distância e ignorou-o. "Por que seu marido não vem com você, já que ele não desgruda?" Daniel arreliou com um cutucão brincalhão. Ela deu de ombros, fingindo não ver Wiliam e dirigiu-se com uma garrafinha de água a mais um viciado que tinha a cabeça
encostada no muro de um beco. "Ele não quer se misturar por ser policial, por ser da DEA, sei lá." Justificou resignada. "Só fica me rodeando por
excesso de zelo." Sorriu de canto em direção ao marido e balançou a cabeça. Não o censurava. Ele só estava sendo protetor.
Além disso, essa sua veia policial deixá-lo-ia para sempre suspicaz.
Certa manhã, quando o um mês estipulado por Sebastian chegava ao limite, a fim de tentar por outro ângulo a
aproximação entre Peter e Angelique, May pediu que Angelique o buscasse na escola sozinha, o que obviamente não foi muito aceito pelo garoto. Quando Peter chegou em casa, sentou-se à mesa, olhou magoado para May e questionou, sério. "Por que May não foi buscar Peter?"
May tentou agir o mais natural possível enquanto pensava numa resposta leve e convincente. Entendia que em meio
às bruscas e repentinas mudanças, o menino se sentisse confuso e negasse os cuidados de Angelique. E um sexto sentido seu rebelde sentia-se encantando com a lealdade inconsciente de Peter. Entretanto ele ainda não era dela de verdade. Ele tinha uma mãe. E essa mãe estava ansiosa pelo seu amor e pelo tempo que perdeu dele.
Pensando assim, May separou os legumes que Peter comeria por cores e entregou para Angelique dar na boca do
menino. Abdicar daquele mimo que Peter tanto adorava também era um exercício de autoflagelação. "Por que May vai ter que voltar a estudar qualquer hora e vai dividir as tarefas com sua nova mamãe." Explicou atenciosa, contendo a aflição por baixo da capa de certeza.
Peter olhou de canto para Angelique, aceitou a porção de beterraba que ela lhe serviu e não questionou mais. Porém,
comeu menos, May logo percebeu. À tarde, ele não quis jogar, pintar ou tocar flauta. Pediu para ver TV sozinho na sala. Mas o que surpreendeu mais foi que na hora de dormir ele trancou o quarto para que ninguém fosse ler para ele, inclusive May, e quando ela apareceu na porta, encontrou um bilhetinho no chão, passado por baixo da porta. "O que faz aqui, florzinha?" Wiliam perguntou quando a viu sentada no chão da sacada no segundo andar em posição
de ioga com a brisa vindo do mar em frente a casa balançando seus cabelos. "Estou buscando equilíbrio e força interior." Sussurrou com a voz rouca, os olhos fechados e a cabeça erguida,
concentrada. "Ah..." Wiliam sentou-se atrás dela, deixando-a entre suas pernas. "Fui ao quarto de Peter e a porta está trancada." Afastou o cabelo do ombro e depositou beijos doces ali. "Ele não quis companhia hoje. Achei este bilhete na porta." Ela pegou ao lado da perna uma folha de caderno de desenho cheia de corações e entregou na mão de Wiliam.
Para mamã.
Para mamã.
Peter sabe lê. Mas Peter gosta de vê May leno, fazeno careta, sorrino. Peter adora quando May pega o transformes e finje que o Optimos Praime tá contando istoria. Peter acha a mamã dele a mais bonita e legal do mundo. E Peter não quer outra mamã. Peter ama May.
May descupa Peter por não querê outra mamã? Sim □ Não □
Wiliam fechou os olhos e passou os braços em volta de sua cintura, sentindo-se egoísta e beligerante ao pensar que
podia competir com o amor de Peter. Sentiu vergonha de si quando viu o medo de perdê-la alargar-se no seu coração. E um violento espasmo de ansiedade vibrou em seu estômago. "Eu concordo com ele." Comentou comovido. "E o entendo completamente. Eu também te acho a mamãe mais linda
do mundo. Também adoro o seu sorriso." Beijou-a no pescoço. "Meu lado mais primitivo e egoísta queria você só para mim." Levantou e estendeu a mão para que ela levantasse. Ela levantou e o acompanhou confusa. "Mas como eu tenho vinte e seis e Peter seis, acho que ele precisa de você um pouco mais do que eu. Por isso aconselho você a dormir com ele." Parou em frente a um quadro no corredor e removeu-o.
May juntou as sobrancelhas sem entender. "Mas como? Ele trancou a porta!" "Aqui no cofre tem a chave." Ele digitou uma senha e tirou um molho de chaves. A seguir devolveu o quadro ao lugar.
Ela sorriu enternecida por seu ato, abraçou sua cintura e caminharam pelo corredor rumo aos quartos. "Ainda assim, como eu não abro mão totalmente de você..." Ele continuou com um sorriso conspirador. "...Vou levar
meu colchão para o quarto dele e nós dois iremos dormir lá, pode ser?" Sugeriu e deu um beijo em sua testa. "Lógico. Obrigada." Apoiou o rosto em seu peito, feliz pela compreensão. Passaram no quarto deles, escovaram os dentes, vestiram pijama e levaram o colchão para o quarto de Peter.
Peter via TV quando os dois entraram sem bater. Ele arregalou bem os olhos surpreso e sentou. May entregou o
bilhetinho respondido na mão dele. "Nós viemos dormir com você." Ela avisou com um sorriso doce, enquanto Wiliam colocava seu colchão no chão.
Peter sorriu surpreso e sentou-se no colo dela, abraçando-a contente.
"Levantem aí para eu tirar esse colchão." Wiliam pediu. A seguir pegou o colchão de Peter e posicionou ao lado do dele no chão. "Vamos brincar de acampamento." Explicou animado, vendo os olhos de Peter brilhar. Depois tirou alguns lençóis das gavetas, prendeu-os nas portas dos armários e fez uma espécie de cabana. May o observava com um sorriso orgulhoso. "Vamos dividir May essa noite, garotão. Ela vai dormir entre nós dois." Ergueu o punho no ar e bateu no punho de Peter. "Que tal chamarmos a mamãe Angie para dormir conosco na nossa cabana?" May sugeriu. E viu instantaneamente o sorriso sumir do rosto de Peter. "Podemos chamar só depois de amanhã?" Peter propôs quase que implorando.
Wiliam encarou May e fez um gesto com a cabeça assentindo, pedindo com o olhar que ela concordasse e desse mais tempo ao garoto. Só May não via que a atitude que tinha como objetivo premente desenvolver afeição, obviamente teve
efeito contrário. Peter passou a inconscientemente repeli-la. "Sim." May concordou, mesmo sabendo que tinha pouco tempo para tentar.
Os três deitaram no colchão com May no centro abraçada pelos dois e, depois de uma leitura de uma estória, adormeceram.
No meio da madrugada, Wiliam acordou, beijou a nuca de May que estava encaixada nele igual colher e notou que
ela estava acordada, abraçada a Peter como uma mãe canguru, com ele agarrado com braços e pernas a sua cintura enquanto ela acariciava seu cabelo. O primeiro sentimento que teve foi preocupação por ela estar acordada. Depois se sentiu um intruso, e o sentimento degradante de ciúme e medo alargou-se em seu peito porque sabia o que a incomodava e tirava seu sono. Movido por insegurança, mudou-a para ficar de frente a ele,
desgrudando Peter dela, e sem outra arma eficaz, segurou seu queixo e beijou-a, com um turbilhão de pensamentos o oprimindo. A competição era injusta, pensou. O insofismável amor por Peter estava arraigado, numa espécie de cordão umbilical invisível. Tudo de mais importante para ela era o garoto, o qual foi o único motivo dela ter se casado.
"May, se eu pudesse, iria para onde você fosse, aonde te fizesse feliz." Começou com a garganta embargada pela
proposição mental. "Mas como eu não posso sair do país antes que responda a todos os processos, eu..." Esperou para ter certeza. Conceder isso depois de vislumbrar a felicidade que poderiam ter era dolorido e exigia dele um altruísmo que não tinha nem queria ter. Mas tinha que ser sensato. A situação exigia que fosse adulto. "Acho que não deve deixar Angelique e Sebastian separar Peter de você." Disse por fim. "Não posso." Murmurou baixinho. "Peter deve ficar com a mãe. Eu não sou a mãe dele." "Para ele você é. Não é justo que ele sofra essa quebra de vínculo, quando ele te ama e considera como a mãe dele. E
eu sei que a única coisa que te prende aqui é o casamento. E se Sebastian tivesse voltado uma semana antes sua escolha estaria feita. Então..." Afastou-a e segurou-a pelos ombros, de modo que ela lesse a sinceridade nos seus olhos na penumbra do quarto iluminado pelo abajur. "Pense melhor, May. Não deixe ninguém separá-los." Aconselhou, sem verbalizar claramente que ela tinha escolhas, embora internamente sofresse em conjecturar que não fizesse parte dessas. Sabia que não era justo
obrigá-la a ficar ao seu lado. "Vocês precisam um do outro." Disse incisivamente.
Por instantes longos, ambos encararam-se silenciosos. Ela ergueu a mão até o seu rosto e acariciou seu queixo. "Só me abraça, por favor." Pediu e deitou com a cabeça em seu peito, sem dizer sim ou não. Ele abraçou-a forte, até que cobertos por silêncio adormeceram.
Na manhã seguinte, May repetiu a rotina do anterior, preparou o desjejum do filho e arrumou o sanduíche e suco em sua lancheira, sempre cheia de sorrisos e toques afetivos no garoto, ainda que fosse com mais cautela na exposição de
carinhos para não ofender Angelique com sua afinidade com o menino.
As incertezas rondavam seu coração, depois do conselho de Wiliam. Mas ela continuaria tentando.
"Tenha um bom dia!" Inclinou-se e beijou-o na bochecha, quando se despedia dele para que Angelique o levasse na
escola. Ele abraçou-a forte no pescoço, relutante em ir, deu um olhar triste e entrou no carro dirigido por Angelique.
Wiliam aguardava May logo atrás, esperaram até que Angelique deixou a garagem e puxou-a para um abraço, dando-lhe um tapinha brincalhão no bumbum redondo. "Eu expliquei para o Peter que hoje você não ia porque vamos encomendar no médico um irmãozinho para ele." Ele
explicou e cheirou seu cabelo. "Não posso inventar uma desculpa todos os dias." Redarguiu com um sorriso desanimado. "Quanto ao bebê, pensei
que iríamos esperar." Fechou os olhos para receber beijos no pescoço. "Vamos. Mas quanto mais cedo começarmos o tratamento, melhor." "Eu posso não engravidar, você sabe." Ela lembrou e pôs a mão em volta de seu pescoço, sonhadora com o futuro que
se prometia, cheio de crianças lourinhas e ruivas correndo pelo quintal do vovô... Porém, não teria Peter. Suspirou desiludida. "Sim. A médica disse que tem essa possibilidade. Mas temos que começar, de alguma maneira." Apertou-a mais e
mordeu o lóbulo de sua orelha. "Podemos começar a fabricar agora." Piscou malicioso. "Aliás, já que você não cumpriu suas obrigações matrimoniais essa noite, podíamos voltar aos nossos aposentos para minha senhora me servir." Brincou fingindo seriedade. May gargalhou gostosamente, feliz com sua agradável companhia. Era bom saber que ela o tinha por ela. Tinham um ao outro. Que pela primeira vez na vida era cuidada e adorada por alguém.
Com um sorriso, ele pegou-a no colo e subiram as escadas rumo ao quarto para aproveitar a ensolarada manhã.
Mais tarde, em frente à escola de Peter, uma série de pais esperava os filhos junto ao portão. Era o segundo dia que
Angelique o buscava sozinha, e ela aguardava-o sob a sombra de uma árvore, ansiosa por contato e aceitação. Para ela, tudo era novo e difícil. Acordar anos mais velha e descobrir tudo que perdeu era angustiante. Ainda mais agora que se lembrou do que aconteceu na noite da overdose.
Não podia abrir mão de Peter, repetiu para si. Um bebê que amou intensamente quando descobriu estar grávida.
Também não podia abrir mão de Sebastian, o amor de sua vida e objeto de desejo de sua excêntrica mãe.
Fechou os olhos atingida pela lembrança e novamente as cenas angustiantes daquela noite no laboratório de sua mãe
no quintal de casa se repetiram em sua mente.....
"Angelique, não me enche. Estou bem ocupada agora. Pega logo o que Marcos mandou e saia daqui." Helena disse logo que Angelique entrou no laboratório.
Angelique suspirou, determinada. Iria confrontar sua mãe hoje. Ela teria que se colocar no seu lugar e entender
que Sebastian só aguentava os flertes descarados e avanços indesejados por falta de escolha e discrição, quando
precisava manter o emprego de ajudante de laboratório e concluir a faculdade paga pelos Levy. "Eu vou casar com Sebastian." Angelique disse e sentou-se numa banqueta, fingindo uma tranquilidade que não
tinha. "Quê?" Helena prestou-lhe finalmente alguma atenção ao desviar os olhos da pipeta que tinha nas mãos.
Angelique ergueu o queixo. As crises depressivas e shows de sua mãe não iriam lhe afetar dessa vez. "Vou falar hoje para ele e para o papai que tenho suspeita de estar grávida e que quero casar." Explicou com uma nota de triunfo na voz. "Eu não acredito!" A mãe tirou os óculos de proteção e desligou o condensador. "Como ousa engravidar em pleno século vinte e um!" "Aconteceu." Angelique deu de ombros, despreocupada, o que incendiou a fúria na mãe. "Você vai tirar!" A mulher ditou transtornada e bateu a mão na mesa de inox, fora de si. "Por quê?" Angelique desafiou. "Está preocupada em ter uma filha de dezenove anos grávida ou medo de perder o objeto de seus delírios?" Sem que previsse, Angelique recebeu uma bofetada no rosto. "Olha o jeito que fala comigo, fedelha!" Helena vociferou.
"Você não devia ter feito isso!" Angelique gritou e deu dois passos atrás rumo à saída do laboratório. "Você não
é uma mãe!" Sentiu a garganta queimar e lágrimas de revolta molharam suas bochechas. Estava cansada de ter
que se resignar em ver sua mãe aproveitar-se do trabalho para ter poder sobre Sebastian. Estava cansada de ter
insegurança e ciúme da beleza madura dela. "Eu vou falar para o meu pai que é você e o Marcos quem facilita droga para mim!" Ameaçou alto e deu as costas para sair do laboratório. "Vou falar que vocês dois me pediram para viciar riquinhos aqui de Malibu.Vou falar que sou um aviãozinho que troca outros viciados por mais drogas. E que foi tudo uma proposta sua e de Marcos." "Você não vai falar!" Helena gritou, sabendo que Carlos a mataria, se soubesse. Olhou frenética para um
armário, tirou alguns pacotinhos e misturou a seguir uma série de substâncias num béquer,adicionando parte do conteúdo do pacote que tinha entregado anteriormente para Angelique. "Vou sim!" Angelique teimou, sem fazer caso do que a química preparava tão apressada. A seguir, viu a mãe pegar uma seringa num armário e abri-la apressadamente. "E vou falar para o Wiliam também." Angelique continuou. "Uma vez eu disse a ele que era Sebastian que facilitava cocaína, só para proteger sua imagem. Mas agora vou falar a verdade sobre Marcos e você." Expôs com um sorriso diabólico. "Vou dizer que você queria me manter alienada enquanto tramava tomar meu namorado de mim... Mas não vai conseguir. Sebastian é meu!" Desafiou depois andou decidida pelo jardim que levaria a casa. Mal deu alguns passos, Angelique sentiu os longos cabelos louros serem puxados fortemente, fazendo-a dobrar-se para trás. Virou-se e deparou-se com a mãe com olhos vermelhos de fúria. "Sua ingrata, você vai manter a boca fechada!" Disse entre dentes e ergueu a seringa longa na mão, apontando para o pescoço de Angelique.
A jovem abriu os olhos com terror ao sentir a ameaça próxima ao seu pescoço. "Mãe..." Choramingou com terror. "Não faz isso. Vamos esquecer o que eu falei. Eu estava brincando. Prometo que não falo."
Helena, também viciada em estimulantes e antidepressivos, estava fora de si, segurando ainda com força Angelique pelo cabelo. Angelique tinha os olhos arregalados quase em pânico, em dúvida com o tipo de substância que
havia na seringa.
Num movimento desesperado, contorceu-se e caiu no chão, rolando, trazendo junto sua mãe. Sem ver muito
bem o que acontecia, rolou na grama e quando menos esperou caíram as duas dentro do lago. Debateram-se
cegamente por salvar-se e afundaram-se agarradas para o fundo escuro do espelho d'água, porque Helena não
sabia nadar e colocou todo seu peso sobre Angelique na tentativa de salvar-se. Depois do que pareceu muito tempo
numa luta por sobrevivência, Angelique conseguiu libertar-se, nadou para a borda e deitou na beira do lago, enquanto
tossia e ofegava. Ao sair do choque de deparar-se duas vezes com a morte, olhou para o lago iluminado pela lua,
observou bolhas de ar subindo na água e deitou novamente, sem forças. "Mãe..." Chamou com a garganta inflamada pela tosse. As bolhas pararam de subir.
O vento frio fustigou o corpo de Angelique, trazendo arrepios. Um choro baixo e convulsivo ardeu em sua
garganta. Com medo e culpa, olhou para a seringa caída na beira do lago, segurou-a nas mãos e se levantou
sentindo-se desprezível. Ela não poderia viver carregando aquela culpa... Não poderia... Preferia morrer.... Angelique foi arrastada de volta à realidade quando percebeu que o movimento de pais diminuía em frente à escola. Ela viu um casal sair de mãos dadas com o filho, depois outra mãe com uma criança e estranhou que Peter se demorasse tanto.
Nas últimas três semanas ele era sempre um dos primeiros a sair saltitante e sorridente para os braços de May.
Desconfiou quando não restou mais nenhum aluno, aproximou-se mais do portão e chamou a monitora, uma senhora de avental azul com a logomarca da escola. "Olá, o Peter Rulli não saiu ainda?" Perguntou preocupada.
A monitora franziu o cenho. "O Peter saiu faz tempo." Respondeu atenciosa.
Confusa, Angelique tateou a bolsa em busca do celular e procurou imediatamente o telefone de Wiliam.
Após o almoço, Wiliam saiu para resolver questões referentes ao seu processo, depois iria a DEA, confirmar onde
seria escalado no dia seguinte quando voltasse de férias. Sozinha em casa, May vestiu um short jeans e top e resolveu
aproveitar o sol tranquilo caminhando pela praia em frente à mansão. Surpreendeu-se com o fato de Angelique não ter voltado para o almoço com Peter, mas atribuiu o atraso ao fato de que talvez Angelique tivesse resolvido sair a passeio com Peter.
Completavam o fim de três semanas que May recrutou-se a impor Angelique na vida de Peter. E lamentavelmente tudo estava estagnado, por Angelique ser tímida, hesitante e reservada. Portanto, se Angelique conseguiu convencê-lo a passear, já era uma evolução.
Fechou os olhos e sentiu o sol morno e vento no rosto, pensativa quanto ao que Wiliam lhe disse. Estava dividida. O
amor entre eles se firmava sólido e forte. E também amava Peter. Todavia, não tinha escolhas. Não podia interpor-se entre o menino e seus pais, dificultando assim sua aceitação e convivência. E por eliminação o correto era ficar com Wiliam.
Ainda desfiando a assertiva, caminhou até a cozinha, pôs o avental e começou a preparar os ingredientes para fazer
seus bolinhos com a sensação de perda apertando o coração. Tinha que ver o lado bom de tudo, afinal. Ter Peter em sua vida foi uma força que a fez crescer e seguir adiante. Ele ensinou-a a viver. Ensinou-a a amar.
Por outro lado, quem sabe no último instante um milagre acontecesse, como por exemplo, Angelique desistir de levar
Peter. Suspirou esperançosa e ligou a batedeira. "May..." Wiliam chamou-a ao encontrá-la enchendo as forminhas de massa sobre a mesa. Ela terminou de encher a última forminha e virou o rosto. "Olá." Sorriu contente ao encontrá-lo. "O que foi?" Franziu o cenho ao notá-lo tenso. Atrás dele Angelique se materializou, chorosa. "May..." Hesitou e caminhou até ela. "O P- Peter sumiu." Balbuciou hesitantemente, temerosa com sua reação.
Instantaneamente May deixou a espátula cair ao chão, em choque. "Peter...?" Repetiu inconsciente. "O que aconteceu?" Olhou para Angelique como se estivesse assistido de fora a cena.
"Ele não apareceu na saída da escola." Angelique explicou nervosa. "Eu não o vi... Não sei se ele passou por mim direto,
ou se alguém o abordou antes que eu o visse." "Mas ele não vai com ninguém..." May argumentou letárgica, sentindo o pânico a percorrer vagarosamente. Wiliam
aproximou-se e pôs o braço em volta dela para sustentá-la. "Ele não pode ter ido com ninguém. Eu sempre falei isso para ele." Repetiu quase no piloto automático, balançando a cabeça. O medo indefinido e ameaçador crescia no seu estômago. "Ele tem que estar lá na escola." Ao ouvir a comoção na cozinha, Barbara, que conversava com uma funcionária, entrou e pegou a última frase. "O que aconteceu?" "Peter sumiu." Wiliam respondeu direto. "Não estava na escola quando Angelique foi buscá-lo." "Já informaram as autoridades?" Barbara perguntou rapidamente. "Tentamos. Mas só considerarão desaparecimento quando completar 24 horas." Wiliam respondeu. "Ligaram para o seu pai?" Barbara questionou, como se fosse a coisa mais imprescindível a fazer. "Ele pode levantar um jeito de busca." "Eu tentei ligar, mas ele está numa audiência. Não atende o celular." Houve um silêncio sepulcral na cozinha. May sentia o medo acariciar sua espinha e conjecturou mentais razões para
Peter ter sumido. Sequestro? Vingança? Um meio de fazer Sebastian se entregar? Seu corpo tremeu ao pensar nisso e um
soluço mudo brotou em sua garganta. Wiliam lhe apertou contra o corpo num abraço. "Por quê...?" May questionou mais para si, com ar ausente, os joelhos fracos de tensão. "Eu vou entrar em contato com alguns colegas para procurarmos nas ruas." Wiliam avisou. "Ele pode ter ido com
algum amiguinho. Pode ter ido brincar em algum parque." Expôs, tentando tranquilizá-la. "Ele não faria isso." May disse distraída. Wiliam pegou o celular e discou um número.
"Vou chamar o Eugenio, Martin e pedir que façam uma ronda extra-oficial nas ruas." Esclareceu enquanto completava a
ligação. "Vamos procurar nas intermediações da escola. Alguém deve tê-lo visto. Com que roupa ele estava?" Adquiriu aquela postura que ela tinha presenciado uma vez, num tom autoritário de quem tomava conta de uma situação. "Calça azul e camisa do uniforme branca e vermelha." Respondeu apática.
Do outro lado da linha, Eugenio atendeu, e Wiliam passou as instruções com postura decidida. "Pegue viaturas descaracterizadas, chame algumas pessoas de confiança e faça a varredura das intermediações." Ditou, e ao fim completou. "Obrigado, amigo." Encerrou com um suspiro, estendeu a mão e cingiu a cintura de May. Ela precisava de todo estoque de autoconfiança que ele tivesse. "Vamos dar uma volta por aí." Chamou-a, ajudou-a a tirar o avental e dirigiram-se ao carro.
Durante o trajeto, Wiliam ligou para Poncho e pediu que ele contatasse seus amigos para apoiar as buscas
informalmente, enquanto isso, subiam e desciam ruas de Beverly Hills observando parques, quadras de esportes,
bombonieres, sorveterias. "Por favor, aparece, Peter." May sussurrou uma prece baixinha, com a cabeça encostada no vidro. Se Peter tivesse
sido sequestrado, poderia estar com fome e logo começaria a chorar, pensou, sentindo-se débil e enjoada de pavor.
Wiliam olhou de canto para ela, suspirou e ergueu o olhar para o retrovisor, onde viu Angelique, chorosa. "Eu perdi... Sou irresponsável. Não consigo ser uma mãe para ele." Angelique murmurou. "Foi minha culpa. Eu não
prestei atenção." Disse com o queixo tremente, um som estrangulado de um sofrimento culpado. "Não sei por que eu voltei." Instantaneamente May ergueu as costas no banco e olhou para trás. "Como você pode pensar isso?!" Repreendeu frágil em forças, mas ao mesmo tempo destemida. "Você quer bem a Peter, não quer?" Segurou na mão da cunhada, prestando um apoio que ela mesma necessitava.
Angelique assentiu, balançando a cabeça fervorosamente. "Sim, eu sempre quis. Eu sempre sonhei com um bebê nosso." Disse com segurança. "E essa é a segunda chance que eu precisava!"
"Então você terá." May anunciou determinada. "Eu me arrependo, May." Angelique continuou, disposta a quebrar aquela barreira invisível entre as duas. "Arrependo-me muito por ter sido uma adolescente impulsiva, insegura, fraca. Que ao invés de lidar com meus medos enfrentando-os, como você o faz, afogava em um vício." Balançou a cabeça, contrita. "E eu sei que não devia fazer isso com você, pedir que você me dê o Peter, que entregue o amor dele para mim... Mas eu o quero tanto. Eu quero tudo. Eu quero Sebastian, quero
viver, quero meu filho. Perdoe-me, por favor, por ser egoísta." Suplicou envergonhada.
May respirou fundo, buscou forças, tentando lidar com aquela sensação dolorida de incerteza, mas ainda assim
disposta a ver tudo com fé e determinação, apertou a mão magra de Angelique e fechou dentro da sua. "Vai dar tudo certo, Angelique. Nós vamos encontrar Peter e ele vai amar você, eu prometo." Sorriu confiante. Wiliam
estendeu a mão e acariciou orgulhoso seu rosto, vendo nela a combinação de tudo que amou e que o conquistou. Sabedoria
inocente, leveza, amor e coragem. A vida tinha sido tão injusta com ela em sua infância que ela inconscientemente se dedicou a amar com um otimismo enérgico e ilimitado. Agora ela abria mão do filho, mesmo com toda a dor que sentia.
Ele queria enchê-la de bebês. Isso era o que ela precisava. Passava das cinco da tarde quando o celular de Wiliam tocou novamente. Era Eugenio passando informações de que
mais cedo uma pessoa viu uma criança na rua com aquela discrição. Após desligar, Wiliam parou o carro em frente a uma praça. "Alguém o viu aqui no horário do almoço." Informou e olhou em volta. "Pelo jeito, ele estava sozinho." "Sozinho?" May repetiu ansiosa. "Então pode ser que ele não tenha sido sequest..." Tampou a boca, interrompendo-se de expor abertamente seus medos. "É uma esperança." Wiliam tranquilizou-a ao perceber a direção dos seus pensamentos, segurou em sua mão e
passaram a perguntar no parque se alguém viu a criança da foto que May mostrava no celular.
Depois de um tempo infindável sem pistas ou notícias, May começou novamente a entrar em pânico, com uma nova
ideia do que podia ter acontecido. "Será que ele fugiu da escola?" Juntou as sobrancelhas intrigada, olhando sem ver Wiliam. Ele não respondeu. Tinha
cogitado essa hipótese, mas não queria desfiar possibilidades com May, o que provavelmente a deixaria mais nervosa. Como ele não respondesse, ela questionou novamente. "Mas por que Peter faria isso?" "Não sei, meu amor." Passou os braços por suas costas e abraçou-a para abrandá-la, dando-se conta de que a situação estava fora do seu alcance e a eles não restava sequer alternativa além de esperar. Sentia-se impotente. "Vamos encontrá-lo e descobrir." Sussurrou e beijou-a na testa, rezando internamente que fosse rápido, antes que o dique de emoções nela desabasse. "Vamos esperar Eugenio aqui, depois vou levar vocês para casa e continuaremos procurando." Instruiu. May assentiu
no automático, esgotada mental e física, e imergiu num estupor decadente de emoções.
Ela abriu a porta do carro e sentou-se no banco com meia perna do lado de fora, de olhos fechados voltados para o céu. Wiliam afastou-se dela e, a fim de conversar um pouco com a irmã, sentou-se no meio fio ao lado de Angelique, discutindo então o tema que vez ou outra debatiam nos últimos dias. "...Você nunca cuidou nem de si mesma, Angie." Sussurrou entre dentes, após ouvir o argumento da irmã. "O certo é
deixar Peter com May." Tentou novamente. Em sua cabeça, ela continuava a adolescente mimada. Que o manipulava para conseguir o que queria. Que abusava do seu amor de irmão para acobertá-la. "Eu preciso dessa chance, Wiliam." Pediu e segurou seu braço suplicante. "Você sempre esteve do meu lado em tudo.
Eu preciso de você agora." "Eu não posso ficar do seu lado quando isso magoa May! Só eu sei o que ela está passando para ceder Peter. E embora ela mesma julgue que não tem o direito de se impor, ela tem sim." Defendeu veementemente. "Ela foi a única mãe
que ele sempre teve." Acrescentou. Angelique abaixou o olhar.
May ouvia vagamente o que Wiliam dizia e depois de concatenar as premissas em seu cérebro entorpecido, resolveu
impor o que pensava em defesa de Angelique. "Amor nunca é demais, Wiliam." Argumentou com suavidade, pensando em tantas crianças, como ela foi, que o que mais queria era ter alguém que as amasse. "Só precisamos encontrá-lo, então..." Fungou audivelmente, saindo do estupor e imediatamente entrando em desespero. Wiliam levantou-se em alerta ao perceber ela desabar e aproximou-se dela no carro. "...Podemos lhe dar todo o amor que temos." Soluçou, Wiliam notou seu choro represado e abraçou-a. Ela agarrou-se a
camisa dele, olhando-o com súplica, absoluto terror e angustia. "Prometa-me que vai trazê-lo de volta." Pediu, e um novo soluço saiu alto de em sua garganta ao romper o último dique de controle. "Eu quero ele de volta... Quero meu filho." E
chorou um pranto sofrido, tremido, impotente, que rasgava sua alma, enquanto seu corpo tremia e soluços estrangulados lhe atravessavam.
No início daquela tarde, numa rua ruidosa, aonde carros iam e viam, uma criança loura caminhava pela calçada, com a mochila nas costas, repetindo para si que sabia, sabia sim, o caminho de casa e que deixaria sua mamã orgulhosa em saber que ele já era um homenzinho. Que ele não precisava da mulher que lhe diziam que era sua mãe para ir para casa.
No parque próximo ao local onde ele caminhava, um jardineiro notou a criança com aparência de rico, deu de ombros
e continuou molhando as plantas. Duas horas depois, um casal de namorados o viu sentar-se no chão e perceberam que ele chorava. A moça inclinou-se na frente dele e tentou se comunicar. O garoto aceitou um chocolate oferecido, pois estava faminto. E logo o casal percebeu que o menino não iria responder a nenhuma pergunta. Respondeu só o mínimo, por gestos e mover de cabeça. Já passava das três da tarde e o casal suspeitou que ele estivesse perdido. Pressionaram o menino louro, ele
escreveu algo no papel e entregou para o casal de namorados.
No segundo piso da Corte Suprema de Los Ângeles, o Juiz Federal Levy presidia um julgamento de duplo homicídio,
sessão que durou toda a manhã, com recesso de uma hora para o almoço e que novamente se iniciou, sem horário de
término. Um casal o aguardou do lado de fora de sua sala por duas horas, desistiram da espera, deixaram uma criança sob a guarda da secretária e se foram.
Ao sair da sessão exausto, o juiz suspirou, pendurou a toga no cabideiro e jogou a pasta sobre a mesa, antes de tirar o
telefone no bolso e examinar o registro de chamadas do celular. Tinha cerca de vinte ligações de Wiliam, outras de Barbara e
Poncho. Girou sobre seus pés ao ouvir um ronco baixo e arregalou os olhos ao deparar-se com uma familiar criança loura deitada no sofá de sua sala. "Mas o quê...?" Aproximou-se do sofá no instante em que fazia a ligação para Wiliam, ao tempo que sua secretária
entrava na sala com um copo de água na mão. "Ah, Excelência..." Disse constrangida ao observar o olhar confuso do juiz, no instante que ele examinava o garoto e
tentava acordá-lo, ainda com o telefone no ouvido. "Um casal trouxe essa criança aqui dizendo que o menino conhecia o
senhor." Explicou sem jeito. "Sim, é meu neto!" Explicou com uma torcida de lábio. Wiliam atendeu do outro lado da linha e falou no mesmo
instante que o pai. "O Peter sumiu." "O que o Peter está fazendo aqui?" Um minuto de silêncio se fez, o juiz ouviu um suspiro audível do outro lado da linha, e Peter abriu os olhos sonolentos.
Logo que viu o avô, sentou-se e jogou os braços em volta do seu pescoço. "O Peter está aí?" Wiliam questionou entre fôlego, e ouviu-se o alívio e surpresa em sua voz. Ao lado dele May e
Angelique abraçaram-se e choraram, aliviadas. "Sim." Carlos respondeu perdido e acariciou o cabelo do garoto. "Foi o senhor que o buscou na escola?" Wiliam perguntou com cautela.
"Não." Carlos respondeu e observou o quanto o menino estava amuado, triste. "Vou descobrir isso agora, enquanto
o levo para casa." Peter imediatamente incorporou e balançou a cabeça freneticamente, com os olhos arregalados, implorando que não fossem embora. "Aliás..." O juiz pensou melhor. "Eu estou morrendo de fome. Vou passar no McDonald's perto de casa para fazer um lanche." "Ok." Wiliam respondeu, compreendendo a delicada sugestão.
Carlos pegou na mão de Peter como se nada tivesse acontecido, deixaram a Corte e encaminharam-se para a
lanchonete. Durante o trajeto, Peter mantinha os olhos fixos na rua, em silêncio. "Quem te levou para conhecer o trabalho do vovô?" Carlos perguntou cautelosamente assim que fez o pedido. Peter
fez uns gestos com os dedos, sinalizando um homem e uma mulher. "Peter não quer falar com o vovô?" Carlos questionou.
O menino balançou a cabeça negativamente. O juiz insistiu. "Aconteceu alguma coisa na escola? Algum amiguinho te irritou? A professora...?" Peter sacudiu a cabeça de novo. Então deu um suspiro e deixou cair os ombros, para em seguida fazer gestos e
mímicas. 'É May'.
Desenhou uma florzinha no ar. 'Ela não coração Peter'. Apontou para si. 'Vai mandar Peter embora com a outra mãe. Ela não quer Peter. E Peter queria mostrar que não vai dar trabalho para ela, se ela deixar ele ficar, por isso ele queria ir para casa sozinho. Mas Peter falhou. Peter não é homem grande. Peter ficou com medo de nunca mais ver May. Peter chorou'.
Lágrimas copiosas desceram dos grandes olhos azuis do garoto.
Wiliam, May e Angelique entraram apressados na lanchonete que o juiz indicou e chegaram a tempo de presenciar a conversa gesticulada ansiosamente com o avô. Grande parte do que o garoto gesticulou o avô não entendeu, mas May tinha parado à distância quando percebeu que ele falava dela e conseguiu compreender tudo que o garoto queria dizer. Carlos os viu e incitou a conversa com Peter. "Mas por que você acha isso?"
Peter gesticulou novamente. 'Eu ouvi ontem à noite eles conversarem. E hoje o tio Will me disse que ela e o tio
Will querem outro bebê. Iam hoje ver a doutora dos bebês. '
No mesmo instante May soltou o ar e olhou culpada para Wiliam. "Peter..." Ela chamou e ajoelhou-se ao lado de sua cadeira. Ele encolheu-se ao vê-la, preocupado em tê-la magoado. "Como você pode achar isso? May ama você." Disse fervorosa, segurando em suas pequenas mãozinhas. Peter abaixou os olhos, envergonhado. "E a May nunca vai deixar você, Peter." Wiliam afirmou sério, agachado em frente ao garoto. "Nunca." Enfatizou.
Peter passou uns segundos calado, olhando de um ao outro. E lembrou que Wiliam sempre foi sincero com ele,
sempre o tratou de igual para igual. Então podia confiar nele. "Vocês desculpam Peter por ter ido da escola?" Ele perguntou inseguro. "Peter teve medo." Disse baixinho.
May esqueceu-se onde estava, pegou a criança no colo e abraçou-o ardorosamente, sussurrando palavras de conforto em seu ouvido, dizendo que o amava, que nunca iria deixá-lo. Lágrimas de gratidão e alívio jorraram em seus olhos, enquanto repetia que também teve medo de perdê-lo. Peter afastou-se um pouco do abraço e limpou com as duas mãozinhas as lágrimas em seus olhos. "Não chora, mamã. Peter não queria fazer May chorar.
" Pediu ansioso. May tocou a palma em seu rostinho aliviada por tudo ter terminado bem e voltou a abraçá-lo com o corpo tremendo, repetindo palavras tranquilizadoras.
Os três expectadores assistiram a cena de amor entre os dois com o ar preso. Era um momento tão íntimo, tão único.
Uma exibição de ligação que não deixava dúvida. Era inquestionável o amor materno. Wiliam desviou o olhar, lhes dando intimidade, ao tempo em que seu coração martelava no peito. O desfecho daquele imprevisto estava claro. E a dedução tocou e machucou o profundo do seu coração, deixando uma nuvem glacial de desolação o engolfar.
...
O amanhecer lançava seus primeiros raios no céu quando Wiliam acordou no dia seguinte. Olhou para o lado e May
dormia tranquilamente, com a cabeça em seu peito. Peter dormia atrás dela, no colchão, abraçado ao travesseiro. Wiliam
afastou-se, guardou o livro que May lera animadamente para eles antes de dormir, tirou os lençóis que construíam a pequena
cabana que dormiram e foi ao banheiro. Ao sair de lá, encontrou Peter na porta. "Tio, você promete que não deixa ninguém levar Peter da May?" Pediu baixo, com olhos implorativos, numa
credulidade infantil que comoveu Wiliam. "Eu prometo." Respondeu, sentindo um golpe na alma.
Depois de lanchar e preparar Peter para ir à escola, somente Wiliam e May foram deixar o garoto na escola, depois
Wiliam trouxe May de volta a casa e seguiu rumo a agência da DEA no Centro de Los Ângeles para cumprir expediente, como Marcos prometera no casamento. Mas Wiliam negou-se a assumir chefia, por precaução. O seu processo se arrastava, e nesta altura a imprensa já o tinha esquecido, portanto não a provocaria assumindo chefia. Preferia o anonimato burocrático cumprindo só meio expediente.
No relacionamento conjugal, passava por momentos aflitivos. Uma nuvem densa pousou sobre eles. Ambos tinham
diversas palavras a dizer, mas ele não sentia forças para verbalizar o medo que comprimia seu coração. Não com tantos
problemas sobre os ombros dela. E a falta de conversa sobre o assunto distanciava os dois. Todavia, essa deficiência era
preenchida pelos carinhos, atenção e amor um pelo outro. Necessitavam-se como se antevissem que o futuro lhes reservava uma vida sem muita emoção.
No decorrer dos dias, May voltou a agir naturalmente com Peter, sem atenuar ou mascarar seus sentimentos e exposição de carinhos. Não mais forçou Peter a aceitar Angelique, ficando claro que desistiu de impor um ao outro. Também
ficou claro o motivo... E embora o assunto não tivesse sido abordado, ficava ressonando como um eco entre os dois. "Wiliam..." May finalmente resolveu abordar o tema quando completavam os dois meses desde que Sebastian se foi.
"Eu vou." Informou hesitante ao caminharem um fim de tarde na praia em frente à mansão. Wiliam deu um suspiro audível, pôs-se de frente a ela, passou os braços em volta de seus ombros e a abraçou fortemente. Doía. Mas ele sabia que não era algo que pudesse mudar. Ela já foi pressionada demais durante a vida. E essa era uma decisão que só ela poderia tomar. "Eu sei. Eu senti." Pôs a rosto sob seu cabelo para ocultar a mágoa de não ter sido o escolhido. "E nós dois?" Ele
questionou inseguro. "Eu não posso pedir que você me espere..." Ela avisou objetiva.
Os dois viviam uma inesquecível lua-de-mel, com carinho, amor. Entretanto, May não se achava no direito de pedir
mais do que ele já dava. "Somos casados." Ele lembrou. "Eu sei. Mas Sebastian é fugitivo. Como poderemos manter contato?" Sussurrou descrente e encostou a testa em seu
queixo. "Podemos disfarçar, de modo que dificulte a associação de ligação entre nós." "Isso pode te prejudicar com a Justiça... Ter ligações, ou acobertar um fugitivo." Ela que nunca ficava doente, sentia-se
fisicamente doente, o corpo doía junto ao coração. "Nada importa. Eu crio um fake para nós dois, então conversaremos por meio de lan house, assim nossas conversas
não levará a polícia ou os perseguidores de Sebastian até vocês. Podemos usar códigos, evitar falar nomes de cidades ou
pessoas. O importante é que mantenhamos contato. Eu comprarei uma passagem para Europa e direi aos meus conhecidos que você foi estudar fora." Ele propôs tentando passar segurança, mas o frio que vinha da brisa do mar não tinha nada a ver com os calafrios de tensão que o atravessavam. "Eu me sinto egoísta. Eu quero tudo. Quero você, quero Peter. E está doendo. Eu queria que Sebastian o deixasse
comigo e fosse viver a sua vida. Mas os dias passaram e nada aconteceu. Que direito tenho eu de pedir que você me espere?" Fungou, e ele passou os braços em sua volta, apertando-a. "Não posso te pedir, porque não sei se algum dia serei capaz de me separar de Peter..."
"Enquanto você levar o meu nome, eu serei seu. No mais..." Pôs a mão no bolso. "Quero que você use dinheiro dessa
conta." Entregou-lhe um cartão magnético, como se estivesse se preparado para aquela conversa há tempos. "Eu vou depositar mensalmente dinheiro nela. Usei uns contatos para abrir essa conta fria." Segurou seu rosto nas mãos quando ela fez menção de negar. "Sim. Eu vou sustentar você. Sou seu marido. E enquanto isso, eu quero que você dê um jeito de estudar, divertir-se, curtir seu filho. Se quando eu pagar a minha dívida com a Justiça você ainda me amar, eu irei para perto de você." Prometeu e beijou-a na testa, ocultando por trás da fachada de tranquilidade, um medo inflamado e corrosivo.
Apesar da dor, o fato dela começar a olhá-lo com gratidão, como se ele fosse a pessoa mais sensata e compreensiva
do mundo, decente e altruísta trouxe uma sensação de que estava fazendo o correto. Droga, ele não era essa pessoa altruísta e generosa. Não queria ser. O adolescente dentro dele se rebelava contra sua decisão. E quando mais tarde ele a viu com Peter aos carinhos enquanto o colocava para dormir, a criança nele rebelou-se mais ainda, sentindo-se traído. Queria esmurrar as paredes em negação.
Não teve nada de carinho, senão desespero exigente no ato de amor daquela noite. Mal a recebeu na cama, reclamou seu corpo, respirando sofridamente, enquanto a mordiscava nos ombros, pescoço. As roupas sumiram num segundo. Ela ergueu-se para acolhê-lo, recebeu-o, e gemeu baixinho quando a língua ávida percorreu sua orelha, ao tempo que as mãos lhe
mediam avidamente os seios, como para registrar.
As sensações aumentaram quando ele retirou-se totalmente e arremeteu, indo profundamente dentro dela. "Promete
que não vai deixar de me amar." Ele pediu com um rosnado e mordiscou-lhe a bochecha. Ela esticou-se na cama, acariciou seu cabelo e abraçou-o, querendo consolá-lo, acolhê-lo com seu corpo e neutralizar toda dor.
"Nunca vou deixar de te amar." Ela prometeu, trêmula e apertou os músculos em volta dele, as pernas em volta de
seu quadril. Ele moveu-se até o limite insuportável da excitação, com uma paixão desenfreada, um amor intenso que lhe fazia arder os olhos em lágrimas. Foi assim, até que com a pele escorregadia de suor, ele deixou a liberação atravessá-lo, e em violentos espasmos sentiu que os sentidos se perdiam. Gritou contra o cabelo dela num glorioso êxtase. Ela esgotou-se na cama e permaneceram assim, suados, grudados, com os braços dela em volta dos ombros dele protetoramente por quase toda a noite.
E nas noites seguintes, enquanto a amava incansavelmente, as malditas lágrimas o perseguiam, mas ele não a permitia ver. Manteve-se firme, por ela. Não queria magoá-la com sua fraqueza. Talvez esse fosse o preço cobrado retardatariamente por tê-la obrigado a casar com apenas dezessete anos, quando ela era alguém com lacunas da vida a resolver. E ela tinha direito de viver sua vida, de alçar voo, resolver-se, decidir. Para segurança dos três, a viagem deu-se de modo cauteloso. Elas foram instruídas a seguir de carro alugado até o
México e de lá tomaram um destino desconhecido que um contato de Sebastian providenciou com uso de documentos frios. A despedida acontecida às quatro da manhã foi a parte mais dolorida. May abraçou-o, pensando que deixava naquele quarto os
melhores dias de sua vida. Provavelmente nunca mais acordaria em seus braços depois de uma noite de amor intensa, nunca mais encontraria seus olhos dourados possessivos e sensuais pela manhã numa intimidade quente e acolhedora.
Eles se beijaram demoradamente, com uma fome um do outro que sabiam nunca iria amainar. E ele quase teve um
súbito e imaturo impulso de implorá-la para ficar. No entanto, manteve a imagem do controle e impassibilidade. Ainda que o
coração ardesse a dor de estar perdendo algo que amava de forma desesperada.
Ao entrar no carro, ela dobrou-se sobre si e chorou tão copiosamente que foi difícil respirar, num sofrimento agudo,
aterrorizador. Peter abraçou-a. Angelique pediu desculpas segurando sua mão. E seguiram seu destino. 🥺😭