KILLER - 2 LIVRO

By a_cavalaamigavel

20.4K 2.3K 800

Continuação de Captivity. More

1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

16

546 73 18
By a_cavalaamigavel

Camila

Assim que entro no bar, sou engolida pela escuridão. O espaço é iluminado apenas por velas espalhadas ao acaso por todo o ambiente: nas mesas, ao longo das paredes e acima da lareira de pedra no meio do estabelecimento. O bar está tão cheio que a maioria das pessoas se esbarra ao ir e vir, e não há um só lugar vazio até onde minha vista alcança. Passo por uma mesa cheia de pessoas conversando animadamente e abro caminho devagar em meio à multidão. Estou bem-vestida demais para este lugar, apesar da pouquíssima roupa. Devo ser uma das únicas garotas mais arrumadas e tentando andar de salto alto, no escuro, por um lugar onde claramente jamais estive. Pareço uma turista que está na cidade para um fim de semana de diversão. Exatamente o que eu queria aparentar. André Costa adora festas. E adora garotas. Mas, ao que tudo indica, ele investe nas que são novas na cidade, e que parecem idiotas.

Vou direto para o balcão e peço uma cerveja Dos Equis, mostrando para o barman jovem e bonito meu documento falso e sorrindo com olhos brilhantes.

O barman olha para mim e para a minha identidade.

— Acho que você já tem idade. — Ele sorri para mim e me devolve a carteira. Eu a guardo na minha bolsinha preta.

— Há quanto tempo está em Nova Orleans? — pergunta ele, tirando a tampa da minha cerveja e deixando a garrafa na minha frente. Ele é sexy, tem cabelo preto curto, arrepiado na frente, e olhos azul-escuros que me fitam de sua carinha redonda de bebê.

Fico vermelha e baixo a cabeça, tomando um gole rápido.

— É tão óbvio assim? — pergunto, fechando os olhos por um momento.

O sorriso dele se alarga, e noto que seu olhar desce do meu rosto para os meus seios. Mas ele não olha demais.

É bastante óbvio para nós dois que sou apenas uma turista, por isso ele nem se dá ao trabalho de responder à minha pergunta.

Estendo uma nota de dez para pagar a bebida, mas ele dispensa o gesto.

— Esta é por minha conta. Aproveite a viagem.

— Obrigada.

Pego a garrafa do balcão no momento em que duas garotas, provavelmente já na quinta cerveja, abrem caminho pelo salão aos empurrões e quase me derrubam. Mal consigo segurar a cerveja, que derrama enquanto tento equilibrá-la.

— Cuidado, porra — digo, mas nenhuma das duas bêbadas me ouve na barulheira do local.

Quando dou as costas para elas e o balcão, começo a examinar o bar, bebericando a cerveja e movendo o quadril bem devagar enquanto ando, como se só estivesse curtindo a música e não procurando alguém. Passo pela lareira de pedra e vou para os fundos, onde o espaço se divide. Há outro balcão à minha direita, com mais algumas mesas e nenhuma porta. O lado esquerdo parece levar a uma espécie de pátio. Vou para a esquerda, mas vejo André Costa sentado a uma mesa em um canto escuro da área sem saída, acompanhado por garotas e mais dois homens, todos bebendo e conversando.

As duas garotas que estão com eles são deslumbrantes, muito mais bonitas do que eu. De início, fico preocupada quanto à minha capacidade de chamar a atenção dele, mas então lembro o que Izel, a irmã maligna de Javier Ruiz, me ensinou muito tempo atrás:

— Você não tem jeito. Uma puta americana sem salvação — disse Izel naquele dia, forçando um pente pelo meu cabelo embaraçado só para me ouvir gemer de dor. —Não sei por que Javier mantém você aqui. Você parece uma virgenzinha idiota, só que é uma piranha.

Ela puxou o pente com mais força, curvando tanto meu pescoço para trás que gritei de dor. Mas eu não disse nada. Tinha medo dela, naquela época, medo do que faria comigo se eu respondesse. Já bastavam as maldades que ela fazia só por me detestar, quando estávamos a sós e eu não tinha a proteção de Javier.

— Você precisa estar bonita perto do meu irmão. Precisa fazer os homens sonharem em tocar você. Precisa chamar a atenção deles mais do que qualquer outra garota. — Ela puxou meu cabelo de novo. Mordi o lábio, lágrimas escorrendo pelo rosto. — Não sei por que estou ajudando você. Deveria deixar você se ferrar, para Javier se livrar de você. Dar você de comer para os cachorros.

— Por que você me odeia tanto? — perguntei, enfim.

Senti uma dor ofuscante na lateral do rosto e ouvi o plástico grosso e frio do pente batendo na minha bochecha.

— Cala a boca! Puta idiota! Eu odeio você porque eu posso! Agora me escute. Quando você entrar lá hoje à noite com meu irmão, é melhor fazer tudo o que eu ensinei. Sofri seis meses para ensinar você a seduzir um homem! Seis meses da minha vida desperdiçados, caralho. É melhor fazer certo. Se você fizer merda e o Javier me castigar, eu corto a sua garganta enquanto estiver dormindo e boto a culpa em uma das garotas. Comprendes?!

Assenti, nervosa.

— Agora, o que é mais importante das coisas que eu falei? — Ela sacudiu meus ombros por trás. — Responde!

— Contato visual — respondi.

— E qual é o jeito certo?

— Olhar de relance — respondi mais depressa. — Tímida, e não desesperada.

— Sí. Precisa fazer com que os homens achem que você é carne fresca, que ainda não passou na mão de mais de cem. Precisa parecer tímida e inexperiente, não uma piranha tarimbada querendo se divertir. Só as velhas fazem isso. E por quanto tempo você dá atenção para ele?

— Dois segundos.

Izel me virou para que eu a encarasse, segurando meus ombros com firmeza, suas unhas vermelhas compridas afundando na minha pele.

— Sí, Camila. Dois segundos e você desvia o olhar. Quanto mais você olhar, mais desesperada parece. Faça o homem ir até você.

Por mais que eu odiasse Izel, preciso admitir que aprendi muito com ela. Naquela época, contudo, eu estava aprendendo a seduzir ricaços só para fazer com que eles me desejassem. Javier jamais me venderia ou deixaria que outro homem me tocasse. Eu era o troféu dele, a garota que representava todas as garotas vendidas por Javier. Eu era aquela que os homens viam primeiro, a mais bonita e mais enigmática. Era a garota-propaganda, usada para exibir o negócio de Javier. E funcionava. Os homens não podiam me ter, mas, depois de passar dez minutos em uma sala comigo enquanto eu aplicava todas as lições de Izel, eles queriam a coisa mais próxima daquilo. E comprar alguma garota da mesma "ninhada" na qual fui "criada" era, na cabeça deles, o único jeito de conseguir.

Mas esta noite, com André Costa, só metade das lições de Izel serão postas em prática. Ele não está aqui procurando uma garota submissa para levar para casa e pôr na coleira. André é apenas um jovem criminoso cheio de tesão, por isso a parte das lições que vou aplicar hoje só vai até o contato visual.

Acomodo minha bolsa debaixo do braço e encosto na parede, à vista de André. 

Deixo que cinco minutos se passem, tomando minha cerveja e fingindo curtir a música, que sai de um piano, antes de fazer contato visual. Sei que ele já me olhou pelo menos duas vezes durante esses cinco minutos. Senti seus olhos em mim. Mas a garota de cabelo preto sentada à esquerda dele conseguiu manter a maior parte de suas atenções.

Um. Abro um sorriso suave para ele. Dois. Desvio o olhar e tomo mais um gole de cerveja. E espero.

Alguns minutos depois, André Costa está à minha frente, se apresentando.

— Meu nome é André. E você... — ele olha para os lados — está sozinha, presumo?

Fico vermelha como uma boba e tomo mais um gole.

— Estou — digo, abaixando a cerveja e segurando o pulso com a outra mão. — Estou sozinha, sim.

— E a sozinha não tem nome?

Reviro os olhos para a tentativa dele de fazer graça, mas não deixo que o sorriso falso suma do meu rosto.

— Sim — respondo, quase dando uma risadinha e encolhendo os ombros até as bochechas. — Meu nome é Karla.

André sorri e me olha de lado. Ele estende a mão.

— Bem, você deveria se juntar a nós, Karla. Tem muito espaço à minha mesa.

Meus olhos, nervosos, se voltam para o bar.

— E-eu não sei — digo, fingindo estar relutante. — Não conheço você.

— Claro que não — concorda André, me puxando pela mão mesmo assim. —Mas eu sou legal. Juro. Venha. Você está em Nova Orleans. Precisa se divertir enquanto está aqui. Ninguém vai incomodar você.

André me puxa com delicadeza para o lado dele e eu sigo sem protestar até a mesa, onde sou cumprimentada pelos dois caras e só uma das garotas. A outra, a do cabelo preto, emburrada, não parece tão receptiva.

— Abra um espaço aí, cara — diz André para o homem louro, à direita. — Deixe a moça se sentar.

O cara se levanta e puxa a cadeira para mim. André gesticula com um enorme sorriso no rosto de menino bronzeado, e eu me sento. Ele me acompanha.

— Pegue bebidas para a gente — ordena André para o cara louro, mas olha para mim e pergunta: — O que você vai tomar? Mais uma Dos Equis?

— Claro, obrigada.

O cara louro desaparece na multidão.

— Ah, obrigada por me perguntar — diz a garota de cabelo preto, com desdém. 

André ri.

— Meu anjo, você nem terminou a que está tomando. Faça o favor de sossegar, porra. Tudo na paz. — Ele estende a mão e dá uns tapinhas no joelho dela, e até eu acho aquilo arrogante.

Sorrio discretamente para ela, mostrando que o homem é meu. Na mesma hora, vejo seu olhar territorialista se transformar em uma completa fúria. Ela me fuzila com os olhos do outro lado da mesa, enquanto sua amiga bêbada continua a acariciar a tatuagem no pulso do outro cara sentado ao lado dela. Essa aí nem se importa com a minha presença. O cara no qual está interessada parece ligado somente nela.

— De onde você é? — pergunta André.

Sorrio e enrolo as pontas do cabelo no dedo.

— Sou do Texas. Estou aqui de férias.

A garota de cabelo preto ri com desprezo e diz:

— Isso explica o sotaque caipira.

Eu nem havia notado que estava falando com sotaque, mas, agora que ela comentou isso, não sei se devo ficar orgulhosa por desempenhar o papel tão bem ou assustada por ter feito isso com tanta facilidade, sem nem perceber.

Dou outro sorrisinho para ela.

— E você deve ser da periferia, para ser tão barraqueira.

— Calma, meninas — diz André, erguendo as mãos, como se estivesse apartando um confronto físico iminente.

O cara louro volta com quatro cervejas entre os dedos. Ele as coloca diante de nós.

— Bom, você está em boas mãos esta noite — comenta André, tomando um gole de cerveja e deixando a garrafa na mesa. — Posso levar você para conhecer a cidade mais tarde, se quiser.

A garota de cabelo preto bufa. Estreitando os olhos, ela encara André.

— Espera aí, eu achei que a gente ia...

— Sossega, porra — interrompe André, balançando a cabeça. — Eu falei para todo mundo ir, Ashley, não só eu e ela. — Ele olha para mim e diz: — Você não se importa, né?

Não sei ao certo o que ele está perguntando, mas estou me lixando; quanto antes eu me livrar dessa garota, melhor.

— Não, tudo bem. Vou adorar a companhia de vocês.

Ashley se levanta de supetão, empurrando a cadeira contra a parede e pegando a bolsa na mesa.

— A gente precisa ir para casa — avisa ela para a amiga de cabelo claro. — Vamos.

Bem, isso foi fácil demais. Uma parte de mim queria continuar nossa guerrinha particular. Eu estava me divertindo muito.

A garota de cabelo claro cambaleia um pouco ao se levantar da cadeira e pega Ashley pelo braço.

— Não quero ir para casa ainda — reclama ela, segurando a mão do cara tatuado. — Vamos ficar mais um pouquinho.

— Não, eu vou embora — insiste Ashley, arrastando a amiga.

— Ah, para, gata! — intervém André, levantando e estendendo as mãos com as palmas para cima. — Não faz isso.

— Vá se ferrar, Tartaruga! — resmunga ela, lançando um olhar furioso na minha direção. — Estou de saco cheio das suas palhaçadas. Você faz isso toda vez que vem aqui. Apague meu telefone.

André fica boquiaberto, mas não parece muito magoado e se esforça ao máximo para não sorrir. Ele passa a mão pelo cabelo cacheado e escuro. Noto uma tatuagem na parte de baixo do braço dele, perto da axila.

Ashley e a amiga se afastam da mesa, discutindo, e me deixam sozinha com André e seus colegas. De repente, me sinto exposta por ser a única mulher à mesa.

— Espero que isso não tenha sido culpa minha — digo, tímida.

André revira os olhos e se reclina na cadeira, esticando as pernas sob a mesa.

— Não. Ela é assim mesmo. Ainda bem que não é minha namorada. — Ele levanta a mão e gira o dedo indicador perto da cabeça. — Se é que você me entende.

Rio e tomo mais um gole de cerveja.

— É, ela parece mesmo um pouco doidinha. — Na verdade, acho que ele é um babaca. Ashley podia ser uma vaca, mas algo me diz que ela tem todo o direito de agir assim. Está claro que os dois se conhecem há um tempo e que ele a humilha de alguma forma toda vez que se encontram. A única culpa que ela tem é a de tolerar as merdas que André faz.

— Então você está aqui de férias — afirma André, apoiando os cotovelos na mesa. — Com quem você veio?

Sorrio com timidez e apoio as mãos na bolsa no meu colo.

— É sério — insiste ele, chegando mais perto. — Ainda estou tentando entender por que você está sozinha na balada.

Finjo tentar esconder o rubor do meu rosto.

— Bom, eu vim com a minha amiga Dahlia. Mas ela estava se sentindo mal e não quis sair. Ficou no hotel.

— Ah. — Ele assente. — Onde você está hospedada?

— No Sheraton. Lá na rua Canal — respondo.

Ele tem que achar que sou ingênua, e revelar informações pessoais tão facilmente deve ajudá-lo a formar essa opinião sobre mim.

— É longe para vir a pé. Vir andando lá da rua Canal.

— Não, nem é tão longe. Mas confesso que trapaceei. Andei um pedaço do caminho e depois peguei uma carona em um daqueles trecos que parecem triciclos.

André joga a cabeça um pouco para trás e ri.

— Trecos que parecem triciclos. Que linda. — Ele aponta para mim e olha para o cara com a tatuagem no pulso. — Ela é linda.

O cara me cumprimenta com um aceno discreto e volta a olhar para o celular, passando os dedos na tela.

— Esse é David — diz André, apresentando o cara da tatuagem. — Ele tem um relacionamento doentio com a tecnologia. Acho que até esse celular transa mais do que ele.

Abafo uma risadinha.

— Cala a boca, Tartaruga — fala David, com tranquilidade, sem levantar a cabeça.

André sorri para mim.

Ele aponta para o cara louro que trouxe as cervejas.

— Esse é Joseph. Ainda não o conheço o suficiente para sacanear. Mas me dê um ou dois dias e eu vou ter alguma ideia.

— Que nome é esse? Tartaruga? — pergunto, dando risada.

André parece desanimar um pouco.

— É só um apelido. O meu querido pai me deu quando eu tinha 6 anos.

— Ah...

Ele sorri.

— Não se preocupe. Ele ainda está vivo e bem. Só é um babaca.

David, o cara da tatuagem, ergue os olhos do celular por um instante. Tenho uma sensação estranha, como se ele não achasse correto André chamar o próprio pai de babaca.

André o ignora.

Não perca tempo demais tagarelando com ele, penso comigo mesma, sabendo que Shawn está me esperando lá fora, não muito longe. Ele está ouvindo tudo o que nós falamos (por cima da música e do vozerio, espero), mas não consigo ouvi-lo resmungando sobre o tempo que estou perdendo. Apenas tenho certeza de que é isso que ele está fazendo.

— Ei, hum, você quer sair para dar uma volta? — pergunto. 

É arriscado demonstrar que já confio o suficiente nele para sairmos juntos em tão pouco tempo. Mas preciso fazer a situação progredir, e não há como saber quanto tempo vamos ficar aqui, curtindo e bebendo, até André se sentir confiante o bastante para achar que irei embora com ele.

Ele parece um pouco surpreso, mas logo aceita minha repentina mudança de personalidade. Levantando da mesa, ele ajeita a camiseta regata preta por cima do jeans.

— Com certeza — diz ele, pegando a cerveja com uma das mãos e estendendo a outra para mim. — Vamos.

Ele encosta o gargalo nos lábios e toma o resto em um gole só, deixando a garrafa vazia na mesa. Enquanto André se despede dos outros dois caras, sinto de repente sua mão livre descer pelas minhas costas. E, antes de chegarmos à porta lateral que dá para o pátio, percebo quão depressa a personalidade dele também mudou. Do nada, ele passou de cavalheiro respeitável a babaca de mão-boba, convencido de que vai se dar bem esta noite e de que eu sou a garota que vai abrir as pernas para ele.

— Cacete, você é muito gostosa — diz ele, e me encolho toda por dentro. — Tem certeza de que o seu namorado não veio? Não estou a fim de levar porrada hoje.

Olho para ele ao meu lado, andando tão perto de mim que seu quadril está pressionando o meu, e ligo meu modo sedução, deixando um sorriso sugestivo aflorar nos cantos dos lábios.

— Sem namorado. Juro.

Ele tira a mão das minhas costas e me puxa para perto, e sinto os dedos dele agarrando minha cintura.

— Ei — digo, afastando suas mãos com cuidado. — Vamos com calma. Não sou uma dessas.

Ele não leva minha recusa a sério e me puxa para mais perto, mas eu também não estava falando muito sério.

— Tudo bem, tudo bem — concorda ele, com ar resignado e sorriso ainda intacto. — Eu vou me comportar.

Começamos a andar na direção oposta de onde Shawn estacionou o carro. Paro na calçada, olhando para os dois lados e fingindo refletir sobre qual direção tomar.

— Vem, eu mostro a cidade para você — sugere André, tentando me puxar com ele.

— Vamos para lá — digo, apontando na direção da escola. — Eu ainda não conheço aquela rua.

— A gente dá a volta. — Ele me segura com firmeza pela cintura de novo. Odeio ser tocada assim por ele. Assim ou de qualquer outro jeito. — Tem mais coisas legais para lá.

Engulo em seco e então cedo. Receio que, se eu continuar a empurrá-lo na direção que quero, ele possa começar a desconfiar.

Abrindo meu sorriso mais doce e tímido, vou com ele na direção oposta. 

Caminhamos pela calçada de pedra e cruzamos com muitos turistas indo para todas as direções. Ouço o barulho de cascos trotando na rua em frente, e, quando viramos a esquina, uma carruagem puxada por mulas passa bem devagar. Olho para o nome da rua que estamos cruzando e digo em voz alta:

— A rua Bourbon tem de tudo mesmo. — Paro em frente a um prédio. — Maison Bourbon. Eu nunca ouvi um grupo de jazz de verdade. Vamos dar uma conferida.

André pega minha mão e me puxa de leve pela calçada, passando pelo prédio.

— Sinto muito, mas jazz não é a minha praia — comenta ele.

Nem a minha, na verdade, mas queria que Shawn soubesse onde estou.

Minutos mais tarde, depois de virar em duas ruas mais escuras, o número de pedestres começa a diminuir. Continuo dizendo em voz alta o nome das ruas ou o nome de algum prédio, fazendo comentários ocasionais sobre onde estamos e pedindo explicações a André, exagerando no papel de turista sem noção. Não sei aonde ele está me levando, mas sei bem quais são suas intenções.

— Aonde a gente está indo?

— Não falta muito. — Ele aponta para a frente. — Tem outro bar indo por ali. Preciso falar rapidinho com uns amigos meus por lá.

Bom, não temos tempo para isso...

Mesmo se ele estiver dizendo a verdade, preciso assumir o controle da situação agora, enquanto estamos a sós e antes de voltarmos a um ambiente lotado, onde vai ser mais difícil atraí-lo para onde eu quero.

Eu me viro na calçada e paro diante de André, com um sorriso largo nos lábios e timidez no olhar.

— Espere aí — digo, segurando o pulso dele. Olho para o lado com ar envergonhado. — Por que a gente não... — Olho para o beco atrás dele, deixando que a nova ideia se desenrole na minha cabeça. Eu me aproximo dele, passando os dedos por seu cinto, que está mais baixo que o normal em sua cintura. — Por que a gente não vai para lá por uns minutos? — Sorrio de maneira sugestiva, enfiando os dedos indicador e médio por dentro do cinto.

André arregala os olhos e abre um sorriso, surpreso com a minha avidez. Mas então o sorriso se transforma em um esgar de tesão. Ele põe as mãos em meu quadril e se inclina para meu pescoço, inalando meu cheiro, com um rugido grave ecoando do peito.

— O que você tem em mente? — pergunta ele, beijando o ponto logo abaixo do lóbulo da minha orelha.

Dou um passo para o lado, tentando fazer parecer que quero que ele me siga, mas o que quero mesmo é afastar sua boca do meu corpo. Sorrio de volta para ele e digo:

— Você vai ver.

Então aceno para ele me seguir até o beco. Ando um pedaço do caminho na escuridão, passando por uma pequena fileira de latas de lixo, e paro logo depois. André está ao meu lado um segundo depois, com a mão direita apoiada na parede de pedra acima da minha cabeça.

Não perco tempo e começo a abrir o cinto dele, mexendo na fivela prateada com dedos desajeitados.

Caralho. Tomara que Shawn tenha me ouvido pelo microfone, dando pistas da minha localização.

— Porra, gata — comenta André, olhando para mim com um sorriso excitado. — Você está a fim de trepar bem aqui no beco? Não esperava por isso, mas, pô, não vou reclamar.

Eu me afasto da parede de pedra e o empurro de costas contra ela.

— Ok, ok — diz ele, rindo baixinho. — Você é quem manda. Faz o que quiser comigo.

Eu me aproximo dele, reduzindo os 15 centímetros de espaço entre nós.

— Pode deixar — sussurro, e então acerto uma joelhada bem no meio das pernas dele.

André geme e se curva. Enfio os dedos no cabelo dele e puxo para cima, forçando-o a se endireitar. Meu joelho atinge seu rosto três vezes antes que ele caia para trás contra a parede, desorientado e com o nariz sangrando.

— Sua filha da puta! — xinga André, cuspindo as palavras.

Meu punho vai na direção do rosto dele, atingindo-o com tanta força que sua cabeça é lançada para trás e bate na parede, fazendo-o desmaiar.

Seu corpo cai desacordado na calçada, derrubando uma lata de lixo que está ao lado. O barulho reverbera pelo beco estreito, ecoando nas paredes dos prédios dos dois lados.

— Shawn! — sibilo para o microfone entre os seios. — Espero que esteja me ouvindo. O André está apagado, mas não sei por quanto tempo. Venha depressa! — Dou detalhes da minha localização pelo microfone.

Passam-se três minutos que parecem trinta até o carro de Shawn parar na entrada do beco, cantando os pneus na rua. Ele sai, deixa a porta aberta e corre na nossa direção com um passo raivoso e acelerado que me causa um calafrio no estômago.

— Está tudo sob controle — digo, e olho para André a meus pés.

André já está começando a se mexer quando Shawn o puxa pelos antebraços e o põe de pé.

— Era para você levá-lo até o estacionamento — diz com rispidez.

André começa a resistir enquanto Shawn o arrasta para o carro.

— Falei que estava tudo sob controle. Como você vê, não fui eu que fui parar no chão.

— O que está acontecendo, porra? — grita André, tentando se desvencilhar de Shawn.

Shawn o joga no banco de trás, de bruços. Então apoia o joelho nas costas de André enquanto prende as mãos dele nas costas com uma tira dentada de plástico.

— Entre — ordena.

Obedeço, correndo para o lado do passageiro e fechando a porta.

— Quem é você, caralho?! O que está acontecendo? Responde!

A voz de André soa estridente atrás de mim, preenchendo o pequeno espaço do carro.

Shawn se vira no banco do motorista, se inclina para trás e dá um soco tão forte em André que o nocauteia.

— Obrigada — digo, enquanto Shawn se senta e engata o carro. — Eu já estava ficando surda.

— Não bati nele por causa dos gritos — retruca, sem olhar para mim. Eu o observo manobrando com cuidado o carro pelas ruas estreitas cheias de veículos estacionados dos dois lados.— Bati porque ele tocou em você — explica ele.

Eu me viro para a janela, escondendo o sorriso.

Continue Reading

You'll Also Like

375K 23.4K 51
🌾 Nos Braços do Bruto 🌾 Estela tem 20 anos, é doce, trabalhadora e vive com sua avó costureira em uma das terras do fazendeiro mais temido e desej...
15.7K 1.8K 30
2° Temporada de " A Professora " Se você não leu a 1° Temporada aconselho ler primeiro ela, ao invés dessa. Marília, quando seu filho tinha ainda 4 m...
55.7K 5.3K 37
Na vida descobrimos que nem todo conto de fada se inicia com o famoso "Era uma vez" e nem termina com o "Viveram felizes para sempre", descobrimos qu...
52.8K 3.7K 47
Priscila Caliari, feitora de várias mortes, até então a polícia não sabia de quem era a culpa, uma sequência de assassinatos que não tiveram provas o...
Wattpad App - Unlock exclusive features