Já estava de noite, deveria ser umas 20hs. Angel foi para o banheiro trocar de roupa enquanto eu falava com Chaz por SMS. Ouvi a porta bater e Rachel surgiu sorrindo. Sorri de volta e ela olhou para os lados, provavelmente procurando Angel e ela saiu do banheiro de coque feito e com um blusão do Jake, de Hora de Aventura.
- Podemos conversar agora?
- Claro mãe, entra ai.
Angel sentou do meu lado e Rachel puxou a cadeira azul de Angel, deixando-a de frente para nós. A mulher se ajeitou e peguei na mão da minha princesa, sentindo a profundidade do assunto só de olhar nos olhos dela.
- Só vou pedir uma coisa, Angel. Quero que seja forte, tudo bem?
A garota olhou para a mãe um pouco apreensiva, porém assentiu e molhou os lábios em seguida.
- Depois de algumas horas que vocês saíram para ir ao baile, a Martha começou a me mandar umas indiretas por telepatia, e decidi ir conversar com ela, para acabarmos com essa história de uma vez por todas e tive uma visão. De vocês dois no campo de futebol, Angel havia desmaiado e encontraram Liam ali. E depois Lilian atacou Justin com a Rajada psiônica e Liam te deu um golpe na cabeça para seqüestrar Angela. Isso aconteceu mesmo? Sejam sinceros.
- Aconteceu. – disse, olhando para ela. – Angel desmaiou e vi Liam ali. Na verdade, esperava encontrar meu amigo, Christian. Ele havia me mandado uma mensagem e que estava precisando de ajuda no campo de futebol e fui acudi-lo. Mas quem estava lá eram Liam e a tia dele. Eu não entendo porque meu amigo fica ajudando o Liam.
- Christian Beadles? – perguntou Rachel.
Assenti e ela fez uma careta.
- Conheço Sandi. Ela é um amor. O menino dela não é de andar em maus caminhos, apesar de ser bem saidinho e sair com muitas meninas. Caitlin também é muito doce. Mas o que ele tem a ver com tudo isso?
- Ele é amigo do Liam, só não sei por que o ajuda tanto o cara.
- Depois descobrimos isso, tudo bem? Temos coisas mais importantes a conversar.
Ambos assentimos e Rachel continuou.
- Filha, você me disse que eles te levaram para a casa do Robert, certo? – Angel assentiu – Tentaram fazer algo com você? Te controlar? Apagar suas memórias?
- Se iriam, eu não deixei. – disse ela, bem humorada. – Ela só me apresentou o Liam, nem chegaram a tentar nada. Ela queria apagar minhas memórias?
- Sim. E te fazer acreditar que o Liam era o seu namorado, e não o Justin. Vocês viveriam juntos até terem um filho, que tinha 90% de chance de nascer sonhador com os poderes dos dois.
- Que plano mais idiota. – disse ela, cruzando os braços e fazendo bico. – Nem pensaram que eu também tenho sentimentos e não sou cruel igual a eles.
- Se que saber, Angel... todo sonhador tem algo de cruel dentro dele. Está no nosso sangue.
Angel franziu a testa, olhando para a mãe, séria.
- Você não é cruel, mãe.
- Mas já fui. E muito. Mas apenas com as pessoas que precisavam sofrer as consequências. Eu sofri muito bullying na faculdade, e aquelas vadias mereciam sofrer por tudo que fizeram comigo.
Rachel respirou fundo, fechando os olhos.
- Desculpem as palavras. Foi algo passageiro, mas eu gostava de humilhá-la, descobrindo todos os segredos obscuros e mais vergonhosos e espalhando para a faculdade toda. E ela nem tinha ideia que era eu.
Ela esboçou um sorriso mau e o desfez em seguida, sacudindo a cabeça e sorrindo sem graça.
- Voltando para o assunto, os sonhadores têm esse ser que se sente prazeroso ao torturar e maltratar as pessoas dentro deles. Você deve saber como é bom torturar alguém que merece umas poucas e boas, não é?
Angel riu e assentiu, sorrindo envergonhada.
- Mas hoje não é tão utilizado como era antigamente. No começo de tudo, a Amy e o Carter usavam a tortura para saquear e roubar, mas mesmo assim era um prazer para eles ver todos morrendo ou sendo torturados. Principalmente quem eles odiavam. Hoje, na nossa modernidade, seria desumano fazer a mesma coisa que eles faziam e as gerações foram deixando esse sentimento escondido, apenas usando quando necessário e olhe lá. Os sonhadores são discretos e sigilosos, são poucos aqueles que os conhecem.
- Então quer dizer que, se eu quiser ser desumana e não sentir remorso, eu posso matar alguém? – Rachel assentiu – Que horror. Por isso a Sra. Stubin te atacou, atacou o Justin e a mim também tão facilmente. Mas eu não conseguia fazer nada contra ela, mãe. Nada. Eu não consigo entender. Ela sentiu prazer em me ver machucada? Em te acertar na cabeça? Isso é muito sem noção.
- Ela foi tomada pelo poder, filha. A Martha estava disposta a fazer de tudo só para não ver seu clã ameaçado do jeito que estava. E queria ser lembrada pela eternidade por ser “aquela que criou um novo clã com poderes inestimáveis” e blá blá blá.
- Que velha doida. – disse, franzindo o cenho e Angel riu de mim, deitando sua cabeça em meu ombro.
- Doida é pouco, querido. Eu nunca esperei algo assim dela, sempre tive um carinho especial por ser minha quase sogra e por tratar minhas filhas bem. Mas comecei a desconfiar dela quando a Angel começou a ter os desmaios. Ela estava estranha demais.
- Já estava com o plano em mente. – disse Angel, suspirando.
- Exato. Ela queria tanto que o plano desse certo que me sequestrou para não impedi-lo. Mas não sabia que seus últimos poderes iriam aflorar logo no dia de seu plano.
- Verdade. Foi tão legal ver a Lilian se enforcando, mãe. Você não tem ideia. Aquela vadia mereceu.
- Era disso que eu estava falando. Você não se sentiu bem em vê-la sofrer? Em ver o Liam batendo a cara na parede até ficar todo machucado?
Angel gargalhou no meu ouvido e mordeu seus lábios, sorrindo.
- Me senti ótima. Além de bom, foi engraçado. – ela riu outra vez.
- O que fez com ele? – perguntei sem entender.
- Depois da hora que terminamos, voltei pra casa e minha mãe já tinha chegado. Depois o Liam acordou enquanto estávamos conversando e fiz umas coisinhas com ele. Antes de ir à sua casa, dei um soco na cara dele e fiz a mesma coisa que na casa dele, torturei-o com seus piores dias passados e com a carga em dobro e depois o cara apagou. Vê-lo tendo espasmos foi tão... – Angel revirou os olhos e molhou os lábios. – divertido.
- Deu um soco na cara dele?
- Dei. E o olho dele ficou roxo.
Comecei a rir, imaginando a cena. Ele apanha de todo mundo, esse idiota.
- E o que mais fez?
- Hm, deixa eu ver... Eu queria convencê-lo de que não precisava obedecer tudo o que a Lilian mandava, e quando estava falando isso para minha mãe ele acordou. Começamos a discutir e acabei dando um tapa na cara dele de raiva e fiz ele ter mais espasmos por cinco minutos. Depois o fiz bater a cara na parede diversas vezes, e confesso que foi muito engraçado.
Comecei a rir imaginando as cenas e olhei para Angel, que tinha um olhar sem graça e ao mesmo tempo sapeca.
- Enfim... Foi bom. Mas não quero fazer isso outra vez. A menos que eu precise. – ela completou, cruzando os braços.
- Isso mesmo filha. Só use o lado mau do seu ser sonhador quando for extremamente necessário.
- Falando em lado mau, eu me lembro de um dia que passei a noite lendo um blog sobre os sonhadores, antes de comprar o livro, para ver como eram os clãs. A mulher que explicava os poderes e citavam alguns sonhadores famosos, falavam apenas do lado mau da coisa. Era por isso? Nós somos conhecidos apenas pelas coisas ruins que fazemos?
- Praticamente.
- Então eu irei mudar isso. Não quero ser conhecida como a malvada. – a voz dela soou marrenta, porém decidida. – Quero ser conhecida por ser quem eu sou, ajudando as pessoas.
Sorri orgulhoso e a abracei, beijando o topo de sua cabeça.
- Como sempre, um anjo. – disse, fazendo nós três rirmos.
- Continue assim e muitos sonhadores irão mesmo se espelhar em você, Angel.
Ela assentiu e se aconchegou no meu peito.
- Justin – disse a mulher, me fazendo olhar para ela -, você sabe como foi parar no hospital?
- Não. Não tenho ideia. Só sei que estava na casa daquela velha doida quando apaguei.
- E eu também não sei como acordei em casa, sendo que estava na casa dela.
- Então ela fez mesmo o que o Charlie pediu. – Rachel franziu a testa e Angel a olhou sem entender.
- Como assim “o Charlie pediu”? Vai me falar que ela fala com os mortos também!
Rachel riu, negando com a cabeça.
- Eu fui levada para um sonho dela enquanto estava apagada. E o Charlie disse bastante coisa para ela, meio que brigando, sabe? Falando para ela parar com essa ficção toda pela extinção do clã dela e ele mencionou que alguém iria “tomar o trono” dela se o clã acabasse com sua morte. E eu tenho certeza que é você, Angel.
- Eu? – ela parecia surpresa – Tomar o trono? Como assim?
- Existe uma hierarquia entre os clãs em relação aos poderes. Os Collins sempre disputaram com os Stubin em relação a isso, mas os Stubin sempre foram os “reis”, por serem os primeiros clãs. E com eles extintos, o clã que seria da “realeza” seriamos nós. E o considerado mais poderoso ou poderosa do clã seria o presidente, ou presidenta.
- Mas eu não sou a mais poderosa.
- Ainda.
Rachel sorriu e as bochechas de Angel coraram no mesmo instante.
- Era nisso que queria que eu fosse forte?
- Nisso também, mas ainda tem outra coisa.
- E você fica me deixando curiosa ao invés de falar!
- Só respondi sua pergunta, mas agora me deixa terminar.
- Tudo bem.
- Ele pediu para que ela consertasse todos os erros que cometeu, se desculpando com você e comigo, e ter que cuidar de nós por ter nos ferido por toda essa loucura dela. E eu sei que isso vai ser bem impactante para você, e terá que pensar muito no assunto quando ela for te pedir perdão.
Ela assentiu sentida e vi uma lágrima cair de seus olhos. Apertei-a contra meu peito e Angel olhou nos meus olhos, sorrindo sem mostrar os dentes.
- Tudo bem mãe, eu prometo que vou pensar.
- Ótimo. Querem comer alguma coisa?
- No momento não, Rachel. Obrigada.
Sorri sem graça e Angel negou com a cabeça, negando também.
- Tudo bem. Se precisarem de mim, podem me chamar.
A mulher saiu do quarto e fechou a porta. Angel me olhou e fechou os olhos, se soltando de meu abraço e andando de um lado para o outro.
- O que foi?
- Estou um pouco pasma, só isso. Ainda não consigo entender o que se passa na cabeça dela. Uma hora, ela quase mata todos nós e em outro momento, nos deixa a salvo em casa, e no seu caso no hospital. E minha mãe também fugiu com facilidade da casa dela. Será que ela deixou minha mãe escapar?
- Não sei. Mas acho que é como sua mãe disse, ela só está atendendo ao pedido do marido falecido.
Angel ergueu as sobrancelhas, parando de andar e me olhando um pouco surpresa.
- Antes de ela me chutar na cara e me deixar desmaiada, eu meio que me rendi a ela se ela deixasse vocês dois em segurança. Você e minha mãe. E ela disse que iria cumprir a promessa. Acho que foi por isso que ela te deixou no hospital e deixou minha mãe fugir, mas fazia parte do plano dela eu ir até o hospital e o Liam estar lá. Foi tudo muito bem bolado, apesar de ela ter tido tão pouco tempo para pensar em tudo isso.
- Verdade. Ela sabia que você iria atrás de mim, e fez o Liam aparecer ali. E ela também sabia que eu iria atrás de você e fez isso acontecer exatamente quando peguei vocês dois. Que velha vagabunda. – disse, socando a cama.
Angel riu de mim e sentou ao meu lado, acariciando meu rosto.
- Esse é um dos lados bons de ter Super inteligência.
- Ela tem esse poder?
- Tem esse e mais 3. Oneirocinese, que é o dos sonhos, Telepatia completa e Manipulação de elementos e matéria.
- Que louco. Também quero ser super inteligente, assim passo de ano direto.
Angela riu de mim e deitou-se em meu colo. Afaguei seu cabelo preso e o soltei, fazendo-a me olhar brava e ri dela.
- Não posso mais brincar com seu cabelo?
- Não!
- Por quê?
- Por que sim, poxa. Ele tá feio.
- Por favor. Seu cabelo é tão macio.
Fiz bico e ela sorriu sem graça, me deitando na cama e ficando sobre mim.
- Se eu falar que não você vai fazer cócegas em mim?
- Então você gosta de quando eu faço cócegas em você?
- Eu perguntei primeiro.
- Não sei. – disse, sorrindo e envolvendo a cintura dela. – Agora responde você.
- Não gosto muito de cócegas. Perguntei para me prevenir.
- Por que não gosta? É tão bom.
- Bom? Ficar sem ar de tanto rir é bom? Você é doente.
- Doente de amores por você, meu anjo.
Ela me olhou sem graça e selou nossos lábios, deitando sobre meu peitoral em seguida. Comecei a brincar com seus cabelos e Angel enlaçou nossas pernas, roçando sua coxa em meu amigo. Cara, que tortura. Ela fez de propósito. Mordi meus lábios e ela pousou uma de suas mãos sobre meu abdômen, desenhando nele com os dedos. Sentia minha pele arrepiar e fechei os olhos, gemendo baixo.
Angela me olhou sem entender e sorriu, rindo em seguida.
- Vai me falar que isso está te deixando excitado? Você é muito sensível, nossa.
- É um dos meus pontos fracos, você quer o que?
Minha princesa riu e mordeu os lábios, apenas deixando sua mão ali.
- Ei, pode continuar. Eu não disse que não estava gostando – disse, fazendo-a me olhar de soslaio e rir.
- Você é muito safado, sem mais.
- Sou mesmo. Ainda mais perto de você, mas eu me controlo.
- Você não disse isso, Justin. – ela começou a rir e cobriu seu rosto com suas mãos.
- Como se você não soubesse disso, não é?
- Verdade, mas... não sabia que era a todo instante.
- E pior que é.
Ela me olhou com a testa franzida e colocou seu indicador no fim do meu tórax e o desceu lentamente, arranhando meu peitoral de leve e parando no elástico da minha cueca à mostra.
- Você não fez isso. – disse, sentindo meus pelos ouriçarem.
- Fiz e posso fazer mais.
Que voz rouca foi aquela? Nossa. Eu já estava morrendo, agora estava dentro da minha cova.
- Não provoca. – sussurrei, vendo-a tamborilar seus dedos em meu abdômen.
- E se eu não te obedecer?
- Terei que tomar providências.
- Que tipo de providências? – agora a voz dela soou inocente, daquela Angel de sempre.
- Essa aqui.
Puxei-a pela cintura e tomei seus lábios vorazmente. Estava com sede do seu gosto, do seu toque. Aquela mão boba dela ficou ali no meu precioso, mas conseguiu piorar a minha situação, levantando a blusa e colocando sua mão dentro dela, fazendo desenhos nele. Que delícia. Gemi em meio ao beijo e ela sorriu maliciosa, mordendo meu lábio inferior e o puxando, sem tirar seus olhos dos meus. Ela pode até ser um anjo de pessoa, mas é muito safada quando quer. E sabe me provocar direitinho.