COMO PROMETIDO, AQUI ESTOU COM O CAPÍTULO 15.
Já agradecendo por todo apoio que tenho recebido.
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C A M I L A
Não havia conseguido dormir uma noite completa. Embora meu corpo já estivesse relaxado, minha mente ainda era habitada por pensamentos contínuos da madruada passada. Mesmo confirmando meu álibi e estando liberada, eu ainda responderia por lesão corporal, sem contar na indenização que seria paga ao tal Alexander. Felizmente o processo ainda estava aberto, e quando fosse provado que o mesmo também cometeu um delito grave, pagaria da mesma forma por seus atos. Quem cuidaria de tudo seria o próprio advogado da Issartel Records durante um longo período até confirmarem o que de fato aconteceu. Eu estava livre, fisicamente, mas por dentro me sentia presa e gasta como se tudo fosse apenas o início de um inferno.
Eu teria que lutar. Tinha que lutar.
As frechas de luz começaram a invadir o quarto de Lauren, por conta de sua cortina mal fechada. Ela havia apagado após uma breve conversa que tivemos. Estar ao seu lado era confortável pra mim. Confortável de uma maneira que fazia meu coração pulsar rapidamente quando seus olhos verdes se penetravam nos meus e fazia tudo em minha volta parecer uma atmosfera proteção. A forma como ela sempre entrava na minha frente em momentos vulneráveis para mim, como segurava em minha mão quando me cercavam ou até mesmo nas vezes em que me colocou pro canto mais seguro da calçada.
Lauren é linda.
Tanto por fora quanto por dentro. Sua presença me faz bem, sua conversa calma sobre tudo que não envolva os palcos e minha carreira me elevam ao ponto de paz que eu preciso. A maneira como aceita minha presença sem nada em troca... Ela é alguém tranquila que transforma todo meu mundo agitado em um mar de rosas brancas.
Me levantei com cuidado, pulado o seu corpo e em seguida o empurrando gentilmente para o meio da cama. Ela não se moveu e continuou dormindo profundamente. Continuava bela até com os cabelos espalhados e cara afundada no travesseiro. Fechei as cortinas, deixando o quarto mais escuro e saí do quarto na ponta dos pés para não acordá-la.
Com minha higiene matinal devidamente feita, desci as escadas já sentindo o cheiro de café invadir minhas narinas. Meus pais ficariam até a hora do almoço, por tanto eu queria ter um tempo à vontade com eles. Cheguei à cozinha sentindo o cheiro de panquecas doces e amanteigadas de minha mãe. O café da manhã tradicional e bem presente na maioria de nosso dejejuns. Minha mãe estava em frente ao fogão com Felipa, minha cozinheira.
— Precisa ser em fogo o mais baixo possível se quiser que elas cozinhem por dentro e fiquem bem douradinhas.
— Felipa, não deixe ela te assustar. — beijei o rosto das duas e me sentei no balcão pegando uma banana.
— Karla Camila! — minha mãe se virou pra mim com a mão na cintura. — Desça daí.
Franzi as sobrancelhas em protesto. Aquilo era uma ordem?
— Mãe, eu tô na minha casa. — cruzei os braços mas logo o desfiz quando ela veio em minha direção.
— Desça. Daí. — okay, a fala milimetricamente pausada e a espátula de ferro na mão sem dúvidas não seria apenas um aviso.
Prêmios, carreira, discos de ouro e diamante, fãs... na terra de Sinu Cabello nada disso importava. Sua ordem era clara e a mulher gostava de ser obedecida no primeiro aviso. Ser maior de idade e morar longe do seu teto para ela não significa muita coisa. Ela manda, eu obedeço e será assim até o último dia de sua vida.
— Eu já entendi. — murmurei erguendo as mãos em rendição, indo para a mesa da cozinha onde estavam meu pai e Sofia.
— A mamãe está certa, Kaki. — minha irmã disse enquanto comia o meu cereal de frutas. — Sua bunda estava ocupando a metade da bancada.
A fala da menor causou uma série de risos dentro da cozinha. Garotinha petulante.
— Minha bunda não é tão grande assim! — protestei me virando para verificar. — Bom, eu acho.
— Discordo, filha. — meu pai fechou o jornal e começou a se servir de café. — Quando você precisava levar algumas palmadas, sua mãe e eu tínhamos que revezar para seu bumbum não nos dar uma surra.
Neguei com a cabeça enquanto continuava ouvindo as gargalhadas atrás de mim. Sempre que vinham para cá era isso, risada atrás de risada.
— Eu prefiro nem continuar esse assunto.
Minha mãe e Felipa colocaram à mesa. O que deveria ser um simples café da manhã virou um banquete regado à salada de frutas, sucos frescos, café forte, bolo de baunilha com geleia de frutas vermelhas e um rodízio de panquecas. Sem contar no sagrado bacon do senhor Alejandro Cabello. Sentar com meus pais e ter um agradável café da manhã me lembravam das épocas mais tranquilas que sempre viam em minha mente quando a estrada me cansava muito.
Era bom voltar a me sentir uma adolescente. Mesmo que isso durasse pouco me fazendo voltar para as obrigações instantes depois.
— Bom dia... — a voz de Lauren ecoou na cozinha e logo pude vê-la ao meu lado. — É bom vê-los novamente.
— Bom dia, querida. Eu já ia perguntar a Camila se você não iria tomar café.
— Acordei um tanto atrasada, peço desculpas. — ela sorriu com sutileza. — A madrugada foi longa então acho que isso acabou me derrubando.
— Você estava dormindo tão profundamente que até fiquei com pena de te acordar. — mamãe, papai e Sofia dirigiram seus olhares curiosos para mim.
Eu falei demais, não é?
— Vocês dormiram juntas? — Sofia, a petulante, perguntou.
— Sofia?! — minha mãe a repreendeu. — Não seja indelicada pois esse assunto não lhe diz respeito. — seu olha voltou pra mim novamente. — Mas a mim sim, vocês dormiram juntas?
— Oh, n-não. — eu gaguejei, já sentindo o suor descer em minha testa. — Lauren e eu não dorm-
— É que eu pedi para ela me acordar caso eu não estivesse em pé na hora correta. Não é, Camila? — felizmente a morena sabia mentir bem melhor do que eu.
— Sim! Exatamente! Foi exatamente o que você disse. Eu fui aos eu quarto e fiquei com dó de te acordar. — eu balancei a cabeça exageradamente. — Coma com a gente, Lo. — mudei o foco do assunto antes que o mesmo piorasse.
— Não, que isso! Prefiro não incomodá-los. — sorriu. — Faz tempo que você não vê seus pais, então melhor tomar café da manhã com eles.
— Nada disso, senhorita Jauregui. — meu pai levantou e apontou para a cadeira vazia ao meu lado. — Eu faço questão que você se sente e coma conosco. Será bom conhecer melhor a pessoa que mais passa tempo com minha filha agora. Por favor... — ele voltou a indicar a cadeira ao meu lado.
Dei duas batidinhas no estofado de couro da cadeira. Lauren estava com uma cara pensativa e completamente sem jeito, mas mesmo assim se sentou. Na realidade, ela não tinha muita escolha.
Ela usava uma calça preta bem formal e uma blusa social de mangas cumpridas na cor grafite. Seu cabelo estava levemente úmido, preso em seu impecável rabo de cavalo. Mesmo numa distância respeitosa, eu podia sentir seu cheiro caramelado invadir minhas narinas, me fazendo desejar estar sozinha com ela naquela cozinha.
Francamente a maioria dos meus pensamentos atuais era designado ao desejo de estar sozinha com Lauren.
— Eu me lembro dessas panquecas. — a morena disse e se virou para mim. — Você cozinhou de novo?
— Não. — lhe respondi, servindo seu prato. — Na verdade foi minha mãe, ela adaptou essa receita. Eu fiz uma vez para Lauren e ela simplesmente amou. Fico feliz que ainda se lembre delas.
— Como eu poderia me esquecer? — Lauren se servia enquanto conversava. — Senhora Cabello, devo dizer que nunca comi panquecas tão deliciosas e Deus me livre minha mãe me ouvir dizer isso.
— A sua mãe não sabe cozinhar, minha filha? — minha mãe perguntou.
— Ela é chefe de cozinha, na realidade. A mulher cozinha maravilhosamente bem, porém não dá pra ser perfeita em tudo. E suas panquecas são mágicas.
— Sinuhe realmente tem dedos mágicos para a cozinha. Felizmente herdados por minhas filhas. Não tenho muita coisa de boa para deixar de herança a elas.
— Oh tem sim! — ergui o dedo. — Suas piadas são horríveis, papa. E seu senso de humor é tão péssimo que a gente acaba rindo assim mesmo.
— Sou obrigada a concordar. — minha mãe falou.
— Lauren, papai e Kaki já fizeram uma competição de quem contava a pior piada.
— E quem ganhou? — a morena parecia interessada no assunto.
Oh não.
— Deu empate, minha filha. — minha mãe soltou num falso suspiro triste. — E o pior que eles continuaram com o espírito esportivo por quase duas semanas. Não aceitaram o resultado.
— E quem sofreu? — Sofia perguntou. — Mamãe e eu. Eram piadas o dia inteiro, Lauren. O dia inteiro.
— Não é possível que sejam tão ruins assim. — Lauren falou enquanto tomava uma boa xícara de café.
— Quer que eu conte uma? — perguntei animada.
— Camila, não! — Sofi e mamãe falaram juntas.
— Credo, era só uma piada. — franzi as sobrancelhas em protesto. — Parece até que eu pedi pra soltar uma bomba em algum país.
— Al-Qaeda consegue ser menos pior que suas piadas, Kaki. Talvez entre uma bomba e seus trocadilhos sem graça, mamãe escolhesse a bomba. — mirei um pedaço de panqueca, tacando na garotinha petulante que só não iniciou uma guerra porque minha mãe deu um basta.
Eles estavam gostando dela, assim como ela deles. Principalmente Lauren e Sofia que pareciam ser amigas de longa data e estavam passando boa parte do café conversando. A morena contava um pouco sobre sua vida, de uma forma simpática mas sempre com seu jeito reservado de ser. Ouvia mais do que falava e praticamente "me deixou" para dar uma atenção maior a minha família — o que claramente não era algo ruim, só para deixar explícito. Eu gostava do fato que ela não tivesse interesse apenas em mim, e respeitava meus pais e minha irmã como me respeitava também.
— Bom dia, pessoas!
— Bom dia, família Cabello.
Ally e Dinah surgiram na cozinha, saudando a todos.
— Meninas, quanto tempo não as vejo. — minha mãe sorriu. Ela amava "suas meninas".
— É verdade, tia Sinu. Mas em nossa defesa, o trabalho tá exigindo muito da gente, não é baixinha? — Dinah cutucou Ally que assentiu.
— Quando se faz o que se gosta o trabalho nunca é um trabalho, se esqueceram? — meu pai falou e apontou para as cadeiras ao seu lado para que elas se sentassem.
— Isso é totalmente verdade, senhor Cabello. No entanto parece que quanto mais eu durmo mais eu me canso e isso é estranho, pois sempre fui bem disposta.
— É exatamente assim depois dos filhos. — Lauren falou. — Bom, é o que minha mãe diz... — deu de ombros.
— Sua mãe está certíssima. — minha mãe balançava a cabeça devagar. — Só eu sei como eu ficava exausta com essas duas.
— No caso da Ally é apenas o peso da idade chegando. Vinte e nove anos, logo os trinta bate na porta e é só ladeira abaixo.
— Não seja exagerada. — a pequena revirou os olhos.
— Eu já acabei. — me levantei e olhei para as duas loiras a minha frente. — Na realidade, perdi a fome, então... podem continuar sem mim.
Saí da cozinha ouvindo alguns murmúrios que nem fiz questão de entender sobre o que eram. Eu só queria deitar no meu quarto, descansar e claro — me manter o mais longe possível das duas.
L A U R E N
— Ok, eu não entendi nada. — Ally foi a primeira a falar assim que Camila saiu da cozinha.
— Algo me diz que ela está estressada. — Dinah ergueu os ombros. — Ela está bem depois do ocorrido?
— Sim, na medida do possível. — a senhora Cabello respondeu. — Foi um susto, porém com grandes consequências, eu diria.
— Melhor ela ficar sozinha por enquanto. — eu disse. — Bom, pra ela pensar, colocar a cabeça no lugar... fará bem a ela.
— Own, que amor. — Dinah falou de uma forma debochada. Ergui a sobrancelha para ela, indicando os senhores Cabello na mesa e ela retraiu sua pose.
— Lauren, pode me passar o leite? — Ally perguntou e eu prontamente passei a jarra para a pequena.
— Forte, com açúcar na medida e sem leite. — Dinah falou imitando a voz de Ally. — Desde quando você põe leite no seu café?
— Desde quando eu quero?! — a pequena ergueu os ombros em dúvida fazendo Sofia rir. — Você se mete em tudo, Jane.
— Você se mete em tudo, Jane.
A loira começou a bagunçar o cabelo da pequena, fazendo todos presentes na mesa rirem com a brincadeira. Dinah era literalmente uma criança do primário num corpo adulto. Ela não pararia até que alguém desse um basta ou se a própria Ally.
— DINAH? — eu me arrependi pelo grito histérico, mas algo melhor tinha me chamado a atenção. Puxei a mão da loira e analisei a delicada aliança de ouro branco com uma pequena pedra exposta. — Isso é uma aliança?
— Bom... — ela ponderou a resposta, confirmando ainda mais a pergunta.
— Norminah is real. — Sofia falou com a boca cheia.
— Norminah? — foi a vez de Ally estranhar.
— É como os fãs da Normani chamam nossa relação, o engraçado é que foi bem antes dela me pedir em namoro.
Normani e Dinah... namorando! Quem diria que isso fosse acontecer tão rápido?
— Minha amiga shippa muito vocês. Ela escreveu uma fanfic e tem quase quinhentas mil visualizações.
Que palavreado era aquele?
— Sofia, me desculpe mas o que é shippar, fanfic? — perguntei. — Aqui temos quase trinta, estamos por fora dessa nova moda.
— Bom, shippar é basicamente curtir um casal, seja real ou fictício. Fanfic são histórias que fãs criam em cima disso.
— Tá me dizendo que tão fazendo historinhas minhas e de Normani? — a loira parecia um tanto irritada. — Só acredito lendo.
Sofia deslizou os dedos na tela do celular, abrindo um aplicativo e mostrando o que parecia ser inúmeros livros virtuais. Passou o celular para Dinah que lia tudo com uma cara bem surpresa.
Até eu estava surpresa.
— Normani não vende drogas! E eu não sou policial, como assim? E por que eu me apaixonaria por uma mulher que eu mesma coloquei na cadeia?
— Calma, é ficção. Fan, fã. Fic, ficção. — a menor explicou e tudo pareceu ter sentido. — Só não entra no capítulo 29.
— Não acredito! — a loira falou um tempo depois. A probabilidade dela ter de fato ido para o capítulo 29 era grande. — Meu. Deus... — ela se levantou repentinamente e deu o celular para a mais nova. — Eu preciso fazer uma ligação.
— Espera! — Ally exclamou. — O que você leu?
— Tudo. Vou pedir pra Normani mandar fazer uma limpa no quarto dela. Colocaram câmeras lá.
∙∙∙
— Pediu que me chamassem senhora Issartel?
Entrei na sala de músicas de Camila, onde Keana já estava me aguardando. Após o almoço, Ally me avisou que Keana tinha algum tipo de urgência em falar comigo e me esperaria às cinco da tarde. Eu estava um tanto apreensiva, pois não tinha ideia do que ela queria.
— Sim, Lauren. Por favor, sente-se. — apontou para a cadeira à sua frente. — Sabe se Camila está?
— Não. — informei. — Faz uns quarenta minutos que ela saiu para levar os pais em casa.
— Certo... — ela parecia um tanto pensativa.
Esperei pacientemente até que ela ajeitasse alguns papeis na mesa branca. A sala de música de Camila era ampla, branca e bege como o resto da decoração da casa, havia um piano branco no centro com um lustre de pedras por cima. Alguns violões na parede, fotos da latina, prêmios e capa de revista famosas onde estampavam seu rosto. O som externo não chegava até aqui. Creio que por esse bloqueio, seria mais agradável estar aqui com a latina e não ouvindo a respiração de Keana.
Essa mulher é assustadora.
—Bom, primeiramente eu quero lhe parabenizar pela sua ação na noite passada. Você fez o que tinha que ser feito e receberá um bônus por proteger a integridade física da senhorita Cabello. — a mulher me passou um pequeno papel que parecia ser um cheque.
Oito mil dólares.
Por cumprir minha função.
Oito fodidos mil dólares.
— Uau! — foi a única coisa que consegui dizer.
— O cheque é simbólico. O valor já foi depositado em sua conta e pode ser usado como bem quiser, sem nenhum tipo de restrição. Parabéns, Lauren.
— Não há motivos para me agradecer, senhora Issartel. — sorri mesmo assim. — Só cumpri o meu dever e farei novamente se isso ameaçar o bem estar de Camila.
Eu com certeza faria...
— Imagino que sim, Lauren. Mas agora vamos ao que interessa. — ela mexeu novamente em alguns papéis até pegar dois em suas mãos e lê-lo. — Taylor Jauregui e Lucas Harper. Você os conhece?
— Bom, sim. É minha irmã e seu namorado. — estranhei. — Aconteceu alguma coisa?
— Não, longe disso. — ela cruzou as mãos e voltou sua atenção para mim. — Todo ano a Issartel abre um pequeno estágio remunerado para jovens que estão cursando o último ano no colegial. Sabemos que um emprego facilita muito a entrada nas universidades ainda mais com o prestígio de uma gravadora como a I.R. Eu recebi esses dois currículos e gostei bastante do que li. Sua irmã tem boas notas assim como o namorado, então foram selecionados e são fortes candidatos a entrarem para equipe. — sorri com a notícia. — Eu só vim confirmar com você se a conhecia ou se era apenas uma coincidência do destino terem o mesmo sobrenome.
— Taylor é minha irmã mais nova. Tem quase dezoito e sinceramente, é a melhor jovem que poderia ocupar o lugar nesse estágio. Sempre foi muito aplicada nos estudos e é uma menina de ouro.
— Confesso que não sou tão a favor de parentesco entre a equipe. Isso geralmente resulta mais estresse do que produtividade, mas darei um forte voto de confiança a eles, Lauren. — ela pegou uma caneta e deu um pequeno rabisco na parte superior. — Espero que tragam bons resultados e muita produção.
— Garanto que a senhora não irá se decepcionar.
Saí da sala de Keana com um vitorioso sorriso no rosto. Estava orgulhosa da minha pequena por seu mérito e dedicação para conseguir as coisas. Trabalhar aqui seria ótimo para ea. Issartel Records seria um mundo de portas abertas e oportunidades e eu esperava de coração que ela aproveitasse esse um mês com sabedoria e dedicação. A única coisa que eu não faria seria avisá-la. Conheço minha irmã e com certeza ela acharia que eu dei um pequeno empurrão para que isso acontecesse e mesmo eu não tendo feito, ainda preferia que ela sentisse orgulho de si mesma como eu sentia dela. Tay era um tanto insegura e fazê-la pensar algo errado só alimentaria isso.
De volta ao meu quarto, aproveitei a noite tranquila para falar com Catherine. Achei que com o passar do tempo, toda a saudade iria se manter estável, porém parecia piorar. A noite era o momento em que eu mais sentia sua falta. Ela sempre dormiu comigo e não ter seu pequeno corpo junto ao meu, nem sentir o cheiro doce de seus cabelos era quase uma tortura para mim.
— E você vai passar o fim de semana com seu pai? — perguntei a ela.
— Não. — ela franziu as sobrancelhas marcantes. Ficava linda até por chamada de vídeo. — Não quero ver aquele bobo.
— O que aconteceu, meu amor? — me deitei melhor na cama e pude vê-la abaixar a cabeça com um bico enorme no rosto. — Pode me contar...
— Eu queria uma boneca nova e ele não me deu. — ouvi sua reclamação num fio de voz.
Então era isso.
— Filha... — respirei fundo. — Ele ao menos disse o motivo?
— Disse que tenho muitos brinquedos e que não brinco nem com a metade.
Isso era uma verdade irrefutável, mas como explicar para uma criança de quatro anos?
— Seu pai não está tão errado assim, meu amor. — tentei explicar. — Você não pode se tornar tão consumista, é apenas pro seu bem.
— A boneca faz xixi e cocô de verdade mamãe.
Ri com o "de verdade". Aquela batalha seria difícil de vencer, até que tive uma ideia melhor.
— Trocar fraldas não é tão divertido assim, minha pequena.
— Mas eu queria tanto... — a pequena carinha pedinte era demais para mim. Como resistir?
— Eu te dou a boneca, então filha. — pude ver seu sorriso abrir e os olhos tinham um brilho inconfundível de felicidade. — Mas espere, não fique tão animada. Não estou fazendo isso para contrariar seu pai nem para te mimar. Isso vai ter um preço alto.
— Mas você vai mesmo me dar? — acho que ela só prestou atenção nessa parte.
— Sim. — balancei a cabeça. — Com a condição que você pegue todo os brinquedos que não use mais e doe para crianças que não tem. É justo, não?
Ela ficou pensativa por alguns instantes, mas logo concordou com a ideia.
— É justo, mamãe...
— Essa é minha garota. — pisquei para ela, transbordando em felicidade. Seria uma lição valiosa para sua vida, além de desocupar um bom espaço no meu quarto. — Estou orgulhosa de você, baby girl.
Um som alto e constante interrompeu nossa ligação, fazendo as luzes do quarto piscarem rápido demais. Levantei da cama com o susto, sabendo exatamente do que se tratava.
O alarme de segurança. Algo não estava como deveria estar.
O som era insuportável, propositalmente projetado para despertar a casa inteira em caso de algo que ameaçasse a segurança e o bem estar de todos.
— Mamãe? — ouvi a voz de Catherine do outro lado da linha.
— Filha, vá descansar. — eu pedi. — A mamãe precisa resolver uma coisa agora, tudo bem? Eu te amo muito.
Ela se despediu e pude desligar o telefone.
O maldito som não parava e a fonte que o desligaria estava no hall central, atrás da escada. Vesti meu casado, indo em direção ao local antes que aquele som histérico me deixasse louca. Quando pus o pé na sala, o som cessou e ouvi a voz de Camila, Dinah e Ally na área externa da casa.
— Onde você estava, Camila? — Ally perguntava e parecia impaciente. — Seu joelho está sangrando.
— Não é nada. — ela respondeu ríspida. — E isso não é da sua conta.
— Não fale assim com a Ally. — Dinah interveio. — Você evitou a gente o dia inteiro e não vai falar como bem entende agora.
— Oh você realmente quer ditar alguma coisa aqui, Dinah? — eu já havia visto Camila assim, inúmeras vezes.
Ela estava visivelmente alterada.
— O que aconteceu? Por que o alarme disparou? — perguntei, fazendo as mulheres notarem minha presença.
— Camila disparou o alarme. — Ally me informou. — Sabe-se lá por que diabos resolveu pular o muro e dirigiu bêbada até aqui. Não está com um pingo de juízo desde que acordou.
— Juízo. — a latina de encostou na parede da casa enquanto tentava se equilibrar.
Ela usava uma calça jeans branca que ia até a metade da sua panturrilha. O joelho esquerdo estava exposto e sangrando um pouco, mas nada que preocupasse tanto. As coisas poderiam ter sido bem piores já que a mesma chegou dirigindo nesse estado.
— Camila, por favor. — me aproximei dela segurando em sua cintura. — Vamos para o seu quarto, tomar um banho e descansar.
— Estou bem, me solte. — ela falou de forma seca, atraindo olhares das duas mulheres para nós.
Me afastei dela como a mesma ordenou. A noite seria longa.
— Eu saí e bebi. — deu de ombros. — Ainda tem no carro, se vocês quiserem, mas a chave está comigo. — ela balançou a chave entre os dedos, rindo de uma forma assustadora.
— Keana não irá gostar nada se te ver assim, felizmente ela já foi embora pro seu bem. — Dinah falou enquanto Camila não parecia dar a mínima.
— Keana, Keana, Keana... quem liga para o que aquela filha da puta diz? Talvez você, Dinah Jane, que sempre foi uma cachorrinha na mão da senhora Issartel. Nem ficando com a Normani você cansa de beijar o chão por onde Keana Marie Issartel passa.
Aquilo não era Camila.
Não era nem a sombra da Camila que eu conhecia, da que estava tomando café da manhã com os país do lado.
Aquilo era uma ramificação mal feita e de muito mau gosto de Camila Cabello.
— Retire essa merda que você falou. Agora. — a loira parecia não estar gostando nada da situação quando deu um passo, ficando cara a cara com a latina.
— Gente, calma! — Ally pediu entrando no meio das duas. — Dinah, ela está bêbada, não adianta discutir com ela agora. — a pequena dizia para a mulher que faltava soltar fumaça pelo nariz.
— Ally Brooke, Dinah sabe se defender sozinha. Não se meta onde não foi chamada, se você gastasse metade dessa energia que usa para tomar conta da vida alheia, certamente não viveria um relacionamento falido e infeliz.
Que merda...
— O que você disse? — Ally estava claramente ofendida. — Não fale besteiras, Camila.
— Besteiras? Creio que não. São fatos. — sorriu como se vencesse uma guerra. — Dinah é uma tremenda babona por uma mulher que não dá a mínima para ela e você uma sem graça que não sei como ainda está noiva, já que cuida mais da minha vida do que cuida do seu relacionamento com Troy. Só estão ao meu lado quando convém a vocês e por isso, as quero fora. Não só da minha casa, mas da minha vida. Eu definitivamente não preciso de vocês.
— Tem certeza disso, Cabello? Você não aguenta um dia sozinha jogada aos lobos da Issartel. Tem certeza? — ela e Dinah agora estavam cara a cara e eu tinha medo do que podia acontecer.
— Você tá ficando surda, Jane? Eu disse fora.
Ally estava mais pálida que o costume. Não parecia nada bem, por tanto me aproximei dela antes que a mesma despencasse no chão.
— Ally, o que aconteceu? Você está bem? — ela apenas afirmou com a cabeça de olhos fechados.
— Lauren, me ajuda a pegar minhas coisas? — sua voz era fraca. Eu apenas assenti e segurei em sua mão para entramos em casa.
Camila estava num estado insuportável.
Nem conversa, nem um banho de água gelada acalmaria a fera e sinceramente, eu não estava sendo paga para aturar crises de bêbadas e assistir ofensas gratuitas por nada. Não mesmo.
— Pretende sair com Ally da mesma forma que fez comigo e com Lucy, Lauren?
Eu parei de caminhar no mesmo instante que ela pronunciou tais palavras.
Idiotice atrás de idiotice, mas o que realmente me deixou curiosa era o fato dela saber de Lucy e eu.
Fazia tantos anos... até eu tinha me esquecido disso.
— O que você falou?
Caminhei com o peito acelerado até estar novamente próxima a latina. Não sei o que tinha acontecido para ela ligar o modo babaca, mas ela me explicaria o motivo de estar agindo daquela forma atirando ofensas para todos os lados.
Naquele exato momento ela me explicaria.
— Estou esperando, Camila. Repita a merda que você falou.
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