MADRID, 2016.
Marco já estava se sentindo em casa. A sensação de finalmente ser um jogador do time madrilenho era inexplicável. Ele se lembrava de como ficou cético quando seu agente lhe disse que o presidente do time merengue havia ido conversar com ele. Também se lembrava de como ficou em choque e nervoso quando descobriu que, sim, era tudo verdade. Porque lá estava Florentino Pérez em pessoa, bem na frente dele falando sobre um acordo.
O espanhol era extremamente grato tanto ao Mallorca quanto ao Espanyol pelos anos que ele passou em ambos os times, pelas oportunidades que lhe foram dadas e pelas boas memórias, mas ele não podia negar a grande felicidade por ver seu sonho se realizar. O sonho que também era de sua mãe, Maria, e que ela sempre acreditou que o filho realizaria.
E lá estava ele, vivendo o maior sonho de sua vida. Ele só queria que ela estivesse ali com ele para ver o quão longe ele já havia chegado. De qualquer forma, o homem esperava estivesse conseguindo deixar sua mãe orgulhosa, onde quer que ela estivesse agora.
Marco tomou alguns goles de água, saciando a sede que estava sentindo. Ele esfregou o rosto com a toalha de rosto para se livrar das gotas de suor causadas pelo pós treino e depois se sentou, a fim de controlar a própria respiração até que voltasse ao normal. A ponta de cansaço estava começando a crescer, mas a satisfação de estar indo além dos limites impostos por ele mesmo era uma recompensa doce.
— O que é que você faz por aqui ainda, garoto? — a voz ecoou pelo espaço quase vazio da academia imediatamente chamando a atenção de Asensio, que virou a cabeça para o lado e viu que se tratava de Sergio Ramos.
— Bom, pensei que seria bom treinar um pouco mais — Marco deu de ombros — aproveitar melhor as minhas férias, sabe? — Ele não era o único do time que preferia trocar o sol e a praia pelas instalações de Valdebebas. O espanhol queria dar o melhor que pudesse no começo da temporada.
— É, sei. Eu também achei melhor vir treinar um pouco hoje... Bom, mas não vai se sobrecarregar, cara. Você já é um baita jogador, é por isso que você está no time em primeiro lugar, não esquece.
As palavras de Ramos deram um pouco mais de confiança e segurança ao meio-campista. Era sempre bom ouvir conselhos de um jogador em quem ele se inspirava.
— Obrigado, capitão. Isso significa muito.
— Sem problemas, mas acho bom você ouvir meu conselho. Você não vai querer se tornar um pé na bunda chato que nem o Antonio, não é? — o zagueiro arqueou a sobrancelha, tirando sarro do amigo, Toni Kroos. — O Vázquez convidou você para o aniversário dele hoje a noite?
— É, ele convidou uma semana atrás e ele vinha constantemente me lembrando disso desde então... — os dois riram com a fala do mais novo. O companheiro de time deles lhes havia dito que era proibido eles não comparecerem.
— Beleza, vou indo então. Vejo você lá, chaval. Se cuida.
Ramos deu um tapinha no ombro de Marco e em seguida caminhou rumo a saída da academia, deixando o meio-campista sozinho com seus pensamentos. Ele não havia dito ao colega de time que havia outro motivo para que ele estivesse ali treinando, em pleno sábado, em um tentativa de ocupar sua mente. Um motivo que provavelmente não deveria ter relevância suficiente para fazer com que ele precisasse tirar isso da cabeça, um motivo que não deveria estar interferindo no seu foco.
A garota que conhecera dois dias atrás quando estava deixando o centro de treinamento merengue. Ele não sabia o nome dela, mas seu rosto permaneceu memorizado na mente dele desde então. Marco sabia que era ridículo insinuar alguma coisa tão rapidamente, especialmente quando ele havia trocado apenas poucas palavras com ela, mas o que ele podia fazer quando ele havia, sem sombra de dúvidas, sentido alguma coisa naquela breve interação?
Algo havia acontecido ali, mas o jogador não sabia explicar exatamente o quê. E além de se perguntar quem era aquela garota, ele também estava se perguntando se ela tinha sentido o mesmo que ele.
[...]
Marco nunca fez o tipo festeiro. Nem mesmo após se tornar maior de idade aquilo mudara, pois que o garoto preferia focar inteiramente em sua carreira. Talvez essa fosse a razão pela qual ele tinha uma certa dificuldade em fazer amigos fora dos gramados. Contudo, Marco era sortudo o suficiente em ter dois melhores amigos — além do seu irmão, Igor — que estavam ao lado dele desde a infância. O espanhol pensou que seria difícil se encaixar no time madrilenho fora dos campos, criar um vínculo com seus companheiros, principalmente quando muitos deles eram mais velhos que ele. No fim, Asensio não podia se sentir mais aliviado por ter se equivocado.
Ele percebeu que aquele time também era uma família, e ele já estava se tornando parte da mesma.
Marco estava sentado ao lado de Nacho Fernández e Daniel Carvajal, dois de seus colegas de time. Boa parte dos merengues estava ali para celebrar o aniversário de Lucas Vázquez, o camisa 18 da equipe.
— Bom, eu acho que Guerra Civil é sim o melhor filme desse ano. — Carvajal deu de ombros.
— Não faz sentido você dizer isso sendo que o ano ainda nem acabou... — Nacho rebateu em seguida.
— Não importa, cara. Eu não acho que qualquer outro filme vai ser um adversário forte o bastante! — O jogador insistiu.
Os dois continuaram com aquela 'discussão' por mais um tempo, enquanto Asensio apenas observava a cena com um sorriso divertido.
— Marco, você tem que dar seu palpite aqui, cara! Isso faz sentido? — Nacho deu um tapinha no ombro do meio-campista.
— Nem pensar, me deixem fora disso. — Ele balançou a cabeça e deu um gole na soda italiana de laranja que estava em seu copo.
O jogador tirou seu foco daquela conversa depois de alguns segundos, voltando seu olhar para a movimentação na área externa da casa. Nesse mesmo instante, seus olhos captaram a imagem de uma mulher, parada um pouco distante dele enquanto conversava com outras duas mulheres — as quais ele não conseguia reconhecer daquela distância. Mas ela? Ele quase não tinha dúvida de que poderia ser exatamente quem ele imaginava, mesmo que ela não estivesse tão próxima assim.
Então, como se lesse seus pensamentos, a mulher virou-se em sua direção e cumprimentou alguém que ele imediatamente reconheceu como Marcelo, mais um de seus companheiros de equipe. Agora o espanhol podia ver com clareza, não havendo mais dúvidas de que era realmente ela. A garota que ele havia conhecido alguns dias antes e que não saiu de sua mente desde então.
Marco não precisava se olhar no espelho para ter certeza de que a surpresa e a confusão estavam estampadas em seu rosto.
Por que ela estava ali? E como ela conhecia aquelas pessoas?
Ele não teve nem um segundo sequer para decidir o que fazer, pois num instante os dois já se encontravam há poucos passos de distância dele. Agora, a garota aparentava ter finalmente percebido sua presença, e a nítida expressão de surpresa em seu rosto deixava evidente que ela também não estava esperando encontrá-lo ali.
— E aí, gente?! Essa aqui é a Chiara, vocês se lembram dela, né? — Marcelo apresentou a mulher.
Chiara. Então aquele era o nome dela. Mas afinal, quem era ela?
— É claro que eu lembro! Tudo bem com você? — Carvajal foi o primeiro deles a cumprimentá-la, os dois trocaram um aperto de mão amigável e a garota sorriu fraco em resposta.
— Tudo ótimo. É bom rever vocês pessoal! — Chiara cumprimentou Nacho em seguida.
Seus olhos então se voltaram para o rosto de Marco, que já estava a olhando. Na verdade, ele estava com seu olhar preso nela desde o primeiro momento em que captou seu rosto entre as pessoas. Chiara abriu a boca como se estivesse prestes a dizer alguma coisa, mas acabou desistindo de fazê-lo no meio do caminho.
Para a sorte deles, Marcelo tomou a frente mais uma vez e interrompeu o momento quase estranho.
— Marquito, acho que você não tava lá no dia que ela fez uma visita no treino. Bom, de qualquer maneira... Chiara, esse cara aqui é a nova promessa do time, Marco Asensio — o brasileiro apontou para o meio-campista — Ele é meio tímido, mas eu tenho certeza que é só questão de tempo até ele começar a te contar as piadas sem graça dele.
Eles explodiram em gargalhadas com a fala de Marcelo, enquanto o jogador apenas deu uma risada envergonhada e balançou a cabeça.
— E meu caro Marquito, essa moça aqui se chama Chiara e é a nossa mais nova torcedora e amiga — o lateral explicou enquanto apontava para a garota — ela também é a irmã do Benzema.
Aquela última frase pegou o espanhol de surpresa e mais uma vez ele não conseguiu esconder sua expressão. A brasileira não lhe deu chance de reação, no instante seguinte ela estendeu a mão em sua direção e sorriu amigavelmente:
— É um prazer te conhecer de novo, Marco.
Ele limpou a garganta e apertou a mão dela com gentileza, tentando ignorar a reação que o simples contato causou em seu corpo. Outra vez.
— De novo? Quando foi que vocês se conheceram? — Carvajal franziu o cenho.
— Ah, foi no mesmo dia que eu fui assistir o treino, eu meio que esbarrei nele quando estava prestes a entrar — Chiara riu baixinho ao lembrar do dia. Aquele bendito momento vinha borbulhando em sua mente desde então.
Mal sabia ela que a mesma coisa estava acontecendo com Asensio.
— Ótimo! Assim eu não vou precisar fazer vocês dois virarem amigos — Marcelo deu uma piscadela — Certo, vamos deixar os jovens conversando sobre coisas de jovens, né? — O brasileiro olhou na direção de Carvajal e Hernández, que prontamente entenderam o recado e se despediram deles antes de saírem na direção oposta.
Os dois riram baixo com a falta de sutileza por parte dos três, que ainda olhavam na direção deles mesmo de longe.
O jogador puxou uma cadeira para a brasileira sentar e em seguida sentou-se ao lado dela.
— Então, você ficou assustado? — Chiara perguntou, encarando ele com curiosidade. — Por causa do meu irmão...
— Assustado nem tanto, mas sem dúvidas fiquei surpreso — o espanhol deu uma risada, sendo acompanhado pela garota. — E você?
— Noventa por cento surpresa, dez por cento assustada — respondeu sincera.
— Felizmente a gente não esbarrou um no outro dessa vez — Marco disse em um tom brincalhão.
— É, tenho que concordar que essa é uma forma bem mais tranquila de conhecer melhor alguém — ela admitiu mais rápido do que queria.
Era aquilo que estavam fazendo? Se conhecendo melhor? O questionamento surgiu em sua mente.
Houve um breve instante de silêncio após a frase da mulher, mas o jogador foi mais rápido em acabar com o mesmo
— É, definitivamente é uma forma melhor.
Chiara mordeu o lábio tentando controlar o sorriso discreto que ameaçava crescer. Marco não admitiria assim tão rápido, mas naquele momento ele teve a confirmação do que temia já saber — definitivamente sentia alguma coisa por Chiara.
E aquilo poderia significar que ele estava bem encrencado.
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