— Três, dois, um… Vira!
Todas viramos os copos de uma só vez e tomamos o saquê rápido antes que a garganta queimasse. Eu, como sempre, demorei mais que as outras e comecei a me abanar tentando fazer descer aquele fogo líquido que me acendia por dentro enquanto minhas amigas me encorajam. Ao terminar, bati o copo na mesa com um sorriso e soquei o ar comemorando minha vitória junto aos aplausos das garotas.
— Gente, gente! Espia aqui, prestem atenção! — Tenten disse enquanto batia a unha no copo até que todas se acalmassem. — Como sabem, essa é uma noite de festa, mas também de luto. A Hinata antiga, deprimida e masoquista morreu, e hoje nasce uma nova, forte e gostosa Hyuuga que não se deixa apaixonar fácil por homem nenhum!
— É isso aí! — Sakura gritou.
— Morte ao Naruto e seu cu doce! — Ino grita e brinda seu copo vazio com o de Sakura.
— Que horror, não é para tanto! — Eu digo. — Lembrem-se que estamos na véspera do ano novo, talvez os pedidos se realizem mesmo…
— Você é quem deveria estar xingando o desgraçado com toda a força! Não foi ele que te pegou no Natal e depois do nada disse que não queria um relacionamento sério?
— S-Sim, mas… Ele nunca disse que namoraria comigo antes, então…
— Chega dessa merda! — Tenten começa a nos empurrar para que saiamos do banco acolchoado da boate e fiquemos de pé, um som forte de música eletrônica já chamando nossa atenção. — Esse ritmo está fazendo minha bunda pegar fogo! Vamos apagar ele nessa pista, meninas!
— Vamos! — Todas gritamos de volta e rebolamos juntas em direção à pista.
Estava muito cheio de gente suada e bêbada, mas nada pôde nos atrapalhar. O cheiro forte da bebida e dos vários perfumes era como um estimulante, mesmo eu que sempre era reclusa me deixei envolver naquele caldeirão de pensamentos e sensações e meu corpo não parava de se mover.
As últimas semanas haviam sido de muito choro e arrependimento. Naruto foi o amor da minha vida desde minha adolescência e eu guardei minha virgindade para ele… Fui perdê-la logo agora, aos 26 anos. Foi algo rápido e nada prazeroso, ele estava bêbado e nem olhava na minha cara. No dia seguinte eu o procurei, mas ele parecia evasivo, apenas pediu para eu me afastar. Quem olhasse de fora diria que eu tinha sido trouxa por esperar tanto tempo por um cara assim, mas eu o amava e meu coração não aceitava ouvir a razão. Agora era tarde, meu hímen não voltaria para o lugar e minha dignidade estaria manchada para todos os outros homens com quem eu fosse me relacionar.
Ficar pensando nisso acabou me deixando com dor de cabeça. Avisei para as meninas que iria até o bar pegar outra bebida e me afastei, indo na direção contrária e saindo por uma porta nos fundos da boate, que dava para um beco estreito, porém com um ar fresco e a doce comodidade de poder andar sem esbarrar em alguém.
Fiquei alguns segundos parada recuperando o fôlego até perceber que não estava sozinha ali.
— Ah? Kakashi-sensei?!
Eu não poderia estar mais surpresa.
Kakashi havia sido meu professor até o ensino médio e eu não o via desde então. Fazia muito tempo, mas eu reconheceria seu cabelo esbranquiçado e sua cicatriz em qualquer lugar.
Ele estava encostado na parede pichada fumando um cigarro e sorriu pra mim.
— Hinata, faz muito tempo. Como você está?
— Ótima! Quero dizer, bem… Quero dizer… — Eu não me sentia feliz em mentir para ele, me lembrando do quão bom ele havia sido como tutor.
— É algo relacionado ao Naruto?
— Como sabe?
O homem alto e forte de blazer e calça jeans preta joga o cigarro no chão e pisa, logo após se aproxima de mim ainda sorrindo.
— Eu mantive contato com esse fedelho desde os tempos da escola. Ele se abre comigo e me disse o que aconteceu. Sinto muito, a mente daquele garoto ainda é… de um garoto.
— Ah.. Tudo bem, eu já superei.
— Não parece. — Ele encosta a palma da mão na minha testa, me fazendo corar. — Está queimando de estresse. Precisa extravasar.
— Estou tentando com a dança, mas… Acho que esse lugar apertado e abafado não ajuda muito.
— Quer ir até o meu apartamento? — Ele pergunta e tira a mão de mim. — Lá podemos botar a conversa em dia e beber algo mais leve, além de eu ser um ótimo ouvinte para quem quer desabafar.
Fiquei olhando meu antigo professor sem saber o que responder.
Ele já estava bem velho, devia ter seus cinquenta anos, mas seu corpo atlético e sorriso charmoso - além da pinta estrategicamente colocada perto dos lábios - o faziam parecer ter trinta anos. Seus cabelos eram brancos ao natural e a única coisa que denunciava sua idade eram as poucas marcas do tempo abaixo de seus olhos.
Mas no que eu estava pensando? Ele era um homem, eu não podia confiar nele e ir até sua casa. Se bem que quando eu era mais nova, nós vivíamos saindo para conversar e eu já cheguei até a visitá-lo na antiga casa antes de ele se mudar… Mas ele tinha essa intimidade com todos os alunos…
— Haha, não precisa queimar os miolos com isso, Hinata. — Ele fechou os olhos e coçou a cabeça. — Se não se sentir a vontade não tem problema nenhum, não vou me ofender.
— Não é isso! Eu só… preciso avisar minhas amigas.
Peço para ele esperar um pouco e corro para dentro da boate.
As meninas continuam requebrando no mesmo lugar até que eu chegue e avise a elas que estou de saída.
— Ah, Kakashi-sensei?! — Sakura o reconhece. — Não sabia que ele tinha voltado a morar aqui! Quero vê-lo!
— Sakura, agora não! — Ino segura a rosada e ri nervosamente enquanto faz sinal com a outra mão para que eu saia. — Vai logo Hinata, some daqui e se divirta!
As outras também me empurram e me dizem para que eu me apresse e saio sem entender nada. Pensei que elas iriam tentar me impedir, mas parecem até felizes com meu novo compromisso.
De qualquer forma, saio da boate desejando um feliz ano novo para elas… Achando que o meu seria apenas desabafando sobre minha vida decepcionante.