Honra de um Príncipe

By maknaelinepjct

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No décimo nono aniversário do príncipe, o rei fez uma grande festa, convidado dos mais nobres até os mais pob... More

Jardim de gardênias

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Na enorme mesa central estavam sendo colocados os pratos de prata refinada. Os cálices e talheres, igualmente de prata, sendo colocados de maneira organizada e perfeccionista, modéstia parte. Como decoração para tanta formalidade, eram usadas flores vermelhas e ramos de lavanda, dando um cheiro agradável no ar. Um enorme banquete estava para ser servido, e não lembrava-se de um evento tão gigantesco ao ponto de abusar do estoque real.

Era gratificante ver tantas pessoas reunidas por uma única causa: o aniversário de dezenove anos do príncipe. Ele jamais imaginou que uma data pudesse reunir tantas pessoas, principalmente, sendo ele o centro das atenções. Park Jimin não sabia como se sentir, tamanha a atenção que estava recebendo aquela noite. Perdeu a conta de quantos apertos de mão deu, quantas reverências prestou, quantos presentes recebeu de bom grado e quantos sorrisos distribuiu. Não reclamaria de tamanho afeto por si, seria idiotice; todavia, não negaria que sentia-se estranho em meio a tanto público.

— O que atrapalha teu sorriso, meu filho? — Perguntou o rei, com sua barba longa já respingada de cerveja. O homem velho soluçou, a bebida visivelmente afetando suas ações.

— Não é nada, meu pai. — Respondeu, mirando seu olhar para o velho com suas bochechas coradas, barba coberta de sebo e cabelo despenteado. Quando o rei adquiriu tal aparência? Não sabia dizer. Não é como se um deles se importasse realmente como estavam sendo vistos. — Só estava a divagar.

— Não gosto dos teus devaneios. Eles são longos e raramente trazem bons resultados, estou correto? — As íris castanhas reviraram quase que imediatamente, e, graças à bebida, seu ato malcriado não foi notado pelo rei. — Fiz-te um festejo, meu filho. Ao invés de ficar com a traseira por aqui, por que não te divertes? Mal consigo distinguir-te de um ancião detestável.

— Fala justa. — riu, erguendo-se do trono majestoso onde estava alocado. Não importa quanto tempo passe, sempre seria uma renovação estar nele sabendo que era de seu direito. — E tu sabes quem é o matusalém aqui, meu pai.

— Não abuse da minha paciência, seu fedelho. — Soluçou, apontando para o filho de maneira torta e incerta.

Jimin riu da indecência de seu pai.

Não só seu pai, mas Jimin podia ver perfeitamente por todo salão que o álcool já estava modificando a todos. Isso pois, as damas que antes rodavam suas saias com maestria, agora estavam cambaleando de maneira engraçada sobre seus próprios pés; e os cavalheiros, como acompanhantes tinham suas vestes lambuzadas de líquidos e riam de sua própria fraqueza às bebidas. Ninguém havia posto um limite, e todos estavam abusando de tal liberdade.

O príncipe — aquele que dentre todos os presentes, tinha mais motivos para ter suas roupas formais sujas — apenas ria agora do cozinheiro que conseguiu um par de última hora, rodopiando pelo salão. Em suas mãos, o pano encardido de cozinha servia de apoio para seus braços e ele o abraçou ternamente, como se estivesse delineando a cintura mais fina da moça presente no baile. Todos riam da falta de lucidez e o príncipe se rendeu a uma gargalhada sutil quando o dito deixou o pano de lado e dançou sozinho. Daria qualquer coisa para que seu pai estivesse sóbrio e pudesse deleitar consigo a loucura de seus próprios convidados bêbados, mas, infelizmente, seu velho havia se juntado a eles há dois copos atrás.

Ao som dos violinos, uma melodia agitada fazia seu sangue borbulhar, logo seu corpo sacudia de um lado para outro, acompanhando o ritmo estranho que nem mesmo ele conhecia. Por um momento ele quis se render ao álcool e dançar como todos estavam fazendo, esquecendo-se de como era desengonçado e sem prática para tais movimentos. Em meio aos seus devaneios, um cheiro forte de vinho puro ficou mais próximo, e dando uma olhadela, observou com atenção a garrafa quase vazia nas mãos da moça.

— Achei que o aniversariante fosse mais agitado. — Ela falava embolado, tropeçando nas próprias sílabas. — Não pude deixar de notar que tu estás só, alteza.

— Eu aproveito de minha própria companhia no momento, senhorita. — Incerto de que ela havia o escutado, prosseguiu: — É uma noite calma para tanto agito.

— Oras, do que falas? És teu aniversário, faça proveito! Hoje, até que os raios solares invadam as cortinas do palácio, festejaremos como desocupados, alteza. — A fala grogue da garota o fez rir, pois ela parecia tão entusiasmada com a música e o festejo que sequer percebeu que cambaleou para frente ao se mover do lugar. Frente ao Park, ele estendeu-lhe a mão. — De que adianta todo esse povo agitado se o único a quem merece tal festejo sequer move-se para cantar? Amanhã é outro dia, outra noite; aproveite este, alteza. Venha dançar.

Reparou em sua mão estendida, o quanto ela estava trêmula. Não era ingênuo a esse ponto, para si eram mais do que claras a intenção da moça com aquelas palavras motivacionais e seu vinho caro. Deu um sorriso educado, pensando na melhor forma de dizer as seguintes palavras, sabendo bem que não teria de usar o seu melhor tom.

— Continuarei em meu canto, senhorita. É de meu maior agrado ver os cidadãos deste jeito: felizes, sem preocupações para o próximo nascer do sol, alimentados com tudo que lhes é de direito. Não é necessário um festejo exacerbado de minha parte; eu estou feliz e demonstro isso do jeito que posso. Bailar pelo salão não é a minha forma de bons cumprimentos, madame. — Sorriu, mesmo sabendo que, provavelmente, a moça sequer havia entendido a segunda palavra de sua frase. Ele, no entanto, segurou sua mão delicada, percebendo o quanto sua temperatura corporal estava elevada, e então deixou um singelo beijo no dorso pálido. A moça, por sua vez, sentiu suas bochechas formigarem, numa reação que a constrangeu mais ainda. — Aproveite o vinho, minha senhora.

Mesmo durante a noite, o bafo quente dentro do salão lhe incomodava, ao ponto de segurar sua gola e a puxar para buscar ar, fazendo seus cabelos grudarem e as suas palmas suarem. Estava mais calor do que esperava, todavia, aparentemente, era o único que realmente se importava com algum tipo de quentura ali.

Quando enfim se viu longe do olhar da moça charmosa, ele andou até o fim do salão, onde as portas guardavam o famoso jardim real. Longe do salão, do festejo e do cheiro de cachaça pura, conseguiu respirar, pela primeira vez, sem sentir calor em suas vestes. O clima devidamente mais gélido da noite pouco movimentada lhe deixou menos tonto. Jimin não estava acostumado com ambientes superlotados como vivenciou na noite atual; mesmo que, todos ali estivessem por sua razão, principalmente. Não era ingrato e valorizou os esforços de seu pai para montar tudo que lhe foi proposto, e estava feliz. Apenas o sentimento de estranheza por sua parte, o acontecimento de seu aniversário lhe deixando zonzo.

Além do mais, ele não ficaria se culpando: já que o ambiente deixou de ser agradável devido o calor insuportável, a música que tocava desgovernada e até mesmo as atitudes bêbadas de seu pai, não lhe cairia mal espairecer.

Sempre seria de seu agrado passar pelo arco de gardênias que davam início a entrada do jardim. O ornamento de flores estrategicamente posicionado era lindo de se ver — principalmente quando lembrava-se que eles foram postos ali porque Jimin disse uma vez que suas flores favoritas eram gardênias.

Passando pelo arco, era possível ver um longo caminho coberto de flores e plantas perfeitamente cultivadas. Jimin amava tanto aquela parte do castelo. Era um lugar especial e somente ele sabia o motivo disso. Neste caminho tinham pequenos tijolos formando uma passagem, dando livre acesso para caminhar sem esmagar nenhuma grama sequer. Pequenos lampiões iluminavam o caminho, além da luz noturna. Os empregados cuidavam do jardim com tanto esmero devido às ordens do príncipe, sempre exigindo que as flores estivessem podadas, regadas e com vida — muitas vezes, ele mesmo se encarregava desse papel.

Sentiu suas bochechas se alargarem num sorriso quando ele enxergou o grande salgueiro que dava ao final da pequena passagem. Admirava a enorme árvore por ser tão forte, radiante e bela; sempre de pé independente das chuvas e sóis. Suas folhas grossas balançavam num vaivém lento pelo vento reconfortante.

— Eu pedi para eles colocarem cactos na decoração. Eles fizeram isso? Não, jamais! — Seu corpo deu um solavanco pelo o susto da voz repentina em seu momento distraído olhando para o salgueiro. Mas logo revirou as orbes e riu baixinho, reconhecendo a sonoridade extravagante de sempre. — Esses nobres são muito tontos. Cactos são belos.

— Cactos, Tae? — Riu, virando-se de costas para o garoto que soava indignado.

Taehyung colhia margaridas e pedrinhas brancas. Ele estava agachado, com seus cabelos desgrenhados — demonstrando que ele já estava andando pra lá e pra cá já fazia um bom tempo —, suas vestes sujas de terra seca, e seus dedos úmidos com o sereno noturno. Em suas mãos sujas, haviam pequenos raminhos de margaridas e algumas pedrinhas empoeiradas. Ele encarou o príncipe, com uma carranca no rosto.

— O que tanto observa? Vais me dizer que concorda com eles?! — Soltou um muxoxo, levantando-se do chão. Bateu em suas roupas, retirando parte da terra. — Que bobo, alteza.

Jimin sorriu. O amigo andou ao seu lado e sentou-se num pequeno montinho de tijolos de um trabalho inacabado, com seus pertences no colo, concentrando-se neles. Aproximou-se da figura estressada, rindo baixinho por tais atitudes e resmungos.

— Alteza? Faz tempo que não escuto isso da tua boca. — Debochou, mas sequer foi notado pelo garoto, o qual se focava unicamente nas margaridas e pedrinhas. — Pegaste do jardim?

— Hoje tu te tornas mais velho, acredito eu que meu respeito deva ser dado, alteza. — Taehyung fez uma pose idiota com os braços, fazendo Jimin arquear uma sobrancelha. — Sim, mas estas já estavam fora das raízes. Acredito que alguém pisou sem intenção, pobres margaridas... — Choramingou, com um beiço. Mas logo, levantou a cabeça e sorriu para o príncipe. — Mas delas sairá algo bonito, tu verás!

Antes que o Park pudesse argumentar sobre, novamente o viu correndo pelo jardim. Agora, ele concentrava-se em apalpar pequenos galhos das árvores, tentando sempre pegar os mais caídos ou que já estivessem soltos.

Assim como Jimin, Taehyung tinha um grande apreço por aquele jardim. Era um lugar especial.

— A grande festa não é aqui, alteza. — Pronunciou-se. Taehyung mexeu nos seus cabelos negros, pouco se importando se a sujeira iria pingar ainda mais neles. — Por quê? Por que não está lá? — Ele apontou para o castelo atrás de ambos.

Jimin, pensativo, analisou a própria situação e questionou-se o motivo de não estar no salão agora. Dançando, bebendo, aproveitando o que lhe é de direito. Observou o grande castelo, vendo que a música estava tão alta que podia ser escutada dali. Ele gostava da calmaria. Gostava de como clima no jardim era diferente do clima que provinha do salão. Lá, todos rodavam suas saias, seus sapatos batiam no chão pela dança animada e a risadaria corria solta.

E, quando menos percebeu, Jimin estava ajudando a catar pequenos galhos com Taehyung.

— Prefiro o cheiro de sereno noturno e ervas naturais do que o cheiro de vinho. — Disse, sentindo o olhar atento do Kim sobre si. — Prefiro olhar o salgueiro majestoso do que olhar uma saia rodada. Prefiro sentir a luz noturna do que a luz de velas artificiais. E, embora eu goste muito de música, nesse momento, o barulho dos grilos é tão bonito, assim como o canto das cigarras.

Não obteve respostas, porém, fez pouco caso disso. No momento, o silêncio confortável que lhe era proporcionado era tão bom. Encarou o amigo, que lhe encarava com aqueles grandes olhos brilhantes, fazendo Jimin sorrir com suas bochechas vermelhas.

— Fui convidado para uma dança... — Comentou, sem real motivo, com seu sorriso crescendo. — Ela estava bêbada. Mas não foi por isso que recusei.

Ouviu passos se afastando de si, demonstrando que Taehyung havia conseguido o que queria. Mesmo que ele não se pronunciasse sobre seus devaneios, Jimin sabia que estava sendo ouvido. Viu ele sentar novamente no montinho de tijolos, dividindo o olhar entre Jimin e seus pertences. Isso demonstrava que ele estava sim curioso sobre as frases do príncipe, o que lhe arrancou mais um sorriso.

— Sabe... É uma atitude muito nobre do meu pai fazer tanto por um aniversariante, mas... — Ele suspirou, caminhando lentamente até o montinho de tijolos. Sentou-se de pernas cruzadas frente ao garoto, que lhe encarava atentamente. — Mas tem coisas que me alegram mais do que uma festa. Entende, Tae?

Ele fazia um pequeno artesanato desconhecido por Jimin com as margaridas, pedrinhas e o graveto. Percebeu que ele procurava por um específico; um maleável. E, novamente, sem nenhuma resposta, Jimin sabia que ele entendia.

O céu estava estrelado; ele via agora. Sem nenhuma nuvem cobrindo o brilho das estrelas e até mesmo da lua. Com seu olhar voltado para o céu, ele sentiu algo sendo colocado em seu couro cabeludo, de maneira que encaixasse em sua cabeça. As mãos gélidas tocaram seu rosto por alguns segundos, causando um choque térmico em sua epiderme.

— Tu fizeste meu presente assim, em cima da hora? — Perguntou, zombeteiro, encarando o garoto que fez uma carranca depois da fala.

— Oras, fiquei ocupado! Era para te pegar desprevenido, mas tu decidiu fugir de tua própria festa. — Jimin riu, vendo o garoto revirar as orbes. — Doido!

Encarou os cabelos amendoados de Taehyung. Eles estavam sujos de terra, assim como quase todo ele. Se viu sorrindo. Tocou a tiara que fora posta em seu couro cabeludo, alisando o artesanato bem feito pelo garoto. Sentindo todo o carinho e devoção que ele colocou naquilo, mesmo que fosse algo que ele fez rapidamente e aparentemente tão simples.

Taehyung não se importava com seu cabelo bagunçado. Não se importava com suas mãos e vestes sujas. Não se importava de ser informal com alguém da realeza, mesmo sendo um empregado. Não se importava com o fato de que Jimin fugiu de sua festa de aniversário para ficar num jardim pouco iluminado — mesmo que ele dissesse ao contrário. Não se importava com palavras chiques, vestes chiques ou até mesmo títulos. Taehyung era só Taehyung. Era um mar de simplicidade em sua vida agitada.

Ele era tão belo. Taehyung era como seu jardim de gardênias.

— Dança comigo, Tae. — Pediu, vendo os olhos castanhos do garoto se esbugalharem a medida em que ele o ficou agitado.

Taehyung engoliu o seco, encarando o príncipe com dúvidas. O pedido repentino o pegou de surpresa. Viu o príncipe se levantar, com seu rosto sujo de terra devido os dedos dele próprio, batendo em sua calça para tirar o excesso de poeira. Taehyung encarou suas próprias mãos, que estavam trêmulas.

— Danças com empregados, alteza? — perguntou, encarando o príncipe que tinha a mão estendida para si.

— Seria uma honra dançar contigo, Kim Taehyung. — Disse, olhando profundamente para o dito cujo.

Taehyung levantou-se também, batendo em suas vestes mais sujas que a do príncipe. O encarou, vendo o olhar devoto sobre si, capaz de lhe fazer corar. Agarrou a mão aveludada do Park, tão diferente da sua; grande e calejada. Comparou os tamanhos e sorriu. Encarou Jimin, e seu brilho no olhar era igual ao de sempre, porém, talvez, só agora notado. Ele fechou os olhos.

Eu sempre dancei contigo, alteza.

Sem formalidades, plateia, chiqueza ou até mesmo algo de valor material. Eram apenas Jimin e Taehyung; sem príncipe ou empregado. Sem títulos. As vestes nobres de Jimin importavam tanto quanto as surradas de Taehyung. Não havia ouro para se gabar ali, ou jóias preciosas. Não era uma dança muito bem coreografada com uma melodia alta e que todos pudessem ouvir. Nunca foi.

Eram apenas eles dois, dançando em um jardim pouco iluminado enquanto os grilos serviam de melodia para seus passos.



escrita por utagguk

betada por Park_Dih7

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