Nas primeiras vinte e quatro horas, Edgar não pensou muito no ritual, ou no que acontecia no momento em sua vida. Logo pela manhã tomou café sentado no sofá, de short e regata, sentindo-se cada dia mais recuperado de seu cansaço anormal. Ariel ainda questionou o que era aquela coisa pendurada na parede da sala, e ele apenas respondeu que era um presente de Loche, afinal, só precisaria exaltar o nome de Orobas se seu pedido fosse realizado.
Na noite daquele dia recebeu Loche e a atualizou do acontecido, explicou como aconteceu, mas ao explicar, alguns detalhes o escapavam, como se tentasse recordar um sonho assim que acordasse. Loche ouvia tudo com atenção acadêmica, e quando a conversa finalmente acabou, ela juntou seu celular, sua carteira de cigarros e a chave de casa. Quando fez menção de ir embora, Egdar segurou sua mão sorrindo, e a convidou para, sei lá, quem sabe assistir um filme ou só ficar de bobeira no sofá.
Aquilo para Loche era um pouco mais do que imaginava para aquele relacionamento, não se via compartilhando momentos com Edgar, momentos como aquele eram para casais, namorados que apreciavam a companhia um do outro apenas pelo simples motivo de estarem ali, juntos, independente do que estavam fazendo. Loche teve vontade de saltar nos braços daquele cara de short e regata, mas de barba feita e de perfume amadeirado. Teve vontade de abraçá-lo e dizer "claro, com certeza". Mas tudo que fez foi guardar o celular no bolso e a carteira de cigarros, e dizer um simples "fica para a próxima".
Já na rua, chutando pedrinhas com o All-star e um cigarro queimando na boca como um incenso, Loche maldizia Edgar por ser tão, tão... Prepotente ao ponto de convidar ela para, "sei lá, quem sabe assistir um filme". Isso era o que namorados faziam, e não eles. Eles eram companheiros, parceiros ritualísticos se você quisesse um rótulo.
Filho de uma puta. Atirou a guimba de cigarro e a amassou com força, esmagando embaixo dos seus pés como um verme.
...
As 48 horas foram diferentes. Logo pela manhã sentiu fortemente a presença de alguém em seu quarto. Havia uma pressão em sua cabeça e um peso fora do normal em seus ombros, além disso, tinha aquela sensação gozada no meio da testa, acima e entre os olhos, como se alguém colocasse o dedo sem tocá-lo em sua testa. Aquilo o incomodou, e procurou nas sombras olhos amarelos ou coisa do tipo, mas não havia nada, apenas a penumbra matinal e os sons na cozinha de uma Ariel "prendada" fazendo o café da manhã. Ainda chegou a perguntar em voz alta quem estava ali, mas não houve resposta. Era diferente, não era Adrastia, alguma lilim ou súcubos, nem mesmo Orobas. No final, deu de ombros e deixou como estava, não tinha o que fazer ali naquele momento.
No almoço foi agraciado com duas coisas, uma foi um convite de Hermes para um churrasco que faria a noite, "só para amigos mesmo", mas que sabia que ia lotar de gente, como sempre. E a segunda foi um almoço realmente muito bom feito por Ariel, mais uma macarronada, mas de atum acebolado com molho branco. Um pequeno momento de normalidade e de prazer rotineiro em sua vida.
Decidiu pela parte da tarde que iria a festinha de Hermes, mas não convidou ninguém, nem Loche, nem ninguém. Iria sozinho, tranquilo, sem esquentar a cabeça com nada.
- Com nada, claro.
E Adrastia já estava do lado dele. Ariel estava no quarto se preparando para ir trabalhar, e ele estava no seu próprio quarto, as mãos na cintura olhando o nada. Ela apareceu como uma nuvem espessa de piche que logo se solidificou naquela figura esguia e de ombros largos. O rabo balançava para cá e para lá, as mãos na cintura como as dele e os olhos amarelo brilhando na leve penumbra do entardecer.
- Há muitas coisas com que esquentar a cabeça. – Adrastia jogou as mãos para trás do corpo e dançou de um lado para outro sem sair do lugar. – Podemos começar com o fato de você ter ido ao inferno, de eu estar aqui, de você ter feito um ritual satânico, de você estar predestinado ao inferno, de Ariel estar estranha... Notou que ela está um pouco estranha desde, você sabe... – e fez um sinal com a mão, enfiando o indicador em um "o" na outra mão.
Aquilo o incomodou, não as palavras, mas o gesto. Aquele dedo entrando e saindo era excitante, ainda que estivesse fazendo uma careta, mordendo a língua e cruzando os olhos. Edgar não conseguiu evitar de ficar olhando aquele simples gesto e, quando ela percebeu, parou de fazer careta, levou o dedo na boca e o chupou, depois tornou a enfiar em um "o" ainda mais apertado.
- Isso é bobo.
- E você está gostando. – Ela entre abriu a boca e soltou um gemidinho. – Ariel vai levar uns vinte minutinhos para ficar pronta. – Ela se aproximou dele, pegou seu dedo médio, o chupou e o masturbou. – Unh, já que você está lidando com a arte das Trevas, porque não me usar um pouco? Você pode se aliviar comigo, e hoje à noite, não vai gozar rápido se for comer alguém. E você vai. – Ela enfiou o dedo dele na boca novamente e o chupou com força. – Ah se vai. Comigo do lado, eu consigo qual – e lambeu o dedo – quer – e girou sua mão para tocar seus seios – mulher. – Levou sua mão a sua coxa e a subiu até a vagina. Quando os dedos de Edgar tocaram ali ela prendeu a respiração em um suspiro. – Me comande, mestre.
Edgar enfiou o dedo em Adrastia e a sentiu molhada, quente, pronta para satisfazê-lo. Ela segurou o gemido e ruboresceu, o rosto se tornando cândido e o olhar doce é suplicante. Já estava de pau duro muito antes, na hora que ela chupou o próprio dedo, aquilo já foi o suficiente. A vermelhidão no rosto de Adrastia o lembrou de Loche, e de como ela tinha ficado rígida quando foi convidada para assistir um filme. Talvez se ele tivesse a chamado para transar ela teria topado. Edgar trancou a porta do quarto e se despiu, sentado na cama e guiando Adrastia pela mão. A trouxe até que ela sentou em seu colo, e com alguns movimentos, se aninhasse em seu pênis. A penetração foi forçosa e ela gemeu baixinho, tímida, os gemidos vindo e morrendo em sua boca fechada. Depois de algum esforço, seu membro a penetrava com mais facilidade até o ponto de afundar completamente. Adrastia o abraçou com força e deixou escapar um gemido alto, segurou seu cabelo e suas costas e se deixou ali, totalmente recheada.
Edgar não deixou de notar as semelhanças com Loche, mas realmente não se importou, sabia que elas se adaptavam ao desejo que ele tinha no momento, e aquilo na verdade o agradava, e o vai e vem ficava cada vez mais molhado. Adrastia arqueava seu corpo para trás em espasmos orgásticos, suas mãos firmes no ombro de Edgar, apertando e relaxando. Não pareciam estar trepando, fodendo ou mesmo transando, aquilo parecia mais com "fazer amor", e era uma experiência bem diferente para Edgar.
Próximo ao orgasmo, Edgar a abraçou e beijou sua boca com uma ternura que a tempos não sentia. O gozo veio rápido após aquele beijo, e a penetrou completamente, ejaculando no âmago de Adrastia.
Após o orgasmo, ela sorriu e lhe beijou os lábios, sumindo em uma nuvem de poeira negra. Quando ele se deu conta, estava nu, sentado em sua cama, o pênis ainda duro e seu semem escorrendo pelo seu saco, suas pernas e uma longa listra de esperma desenhada no chão. Colocou as duas mãos no rosto e suspirou, não conseguia conter o arrependimento de ter sucumbido tão facilmente assim, e a imagem de Adrastia enfiando o polegar no "o" em um gesto tão bobo ficou se repetindo em sua mente.
...
Se arrumou sem muita vontade, aquele momento com Adrastia tinha vertido seu ânimo para o churrasco, e cá para nós, seria apenas mais do mesmo. Mas seria legal ver Hermes, o Safadão e tentar se reconectar a uma vida normal. Respirou fundo ao se olhar no espelho, estava de barba feita, uma calça preta jeans e uma camisa branca sem estampa. Estava tão entediante quanto poderia estar, mas sabia que ficar em casa seria pior.
Quando chegou notou que nada havia mudado além dele mesmo. As mesmas pessoas, algumas novas, algumas com cortes de cabelo diferente, Hermes estava na churrasqueira, sem camisa, músculos à mostra, short jeans claro e aquele avental cheio de gordura e utensílios no bolso da frente como um canguru. Olhou ao redor procurando o cachorro que sempre saltava nele e lhe recebia, mas ele estava longe apenas o encarando, deitado, cabeça no chão e olhos fixos nele. Edgar ainda chamou ele, arqueou o corpo e bateu as mãos nas cochas, assobiando, mas tudo que ele fez foi se levantar, andar em tornou de si mesmo e deitar novamente, fungando.
Deveria estar amoado, pensou.
Foi até Hermes, acenando para bem menos pessoas do que dá última vez, algumas não o notavam, outras desviavam o olhar ao vê-lo. Era estranho, sentia-se estranho, deslocado. Hermes o recebeu sorrindo e com um vigoroso aperto de mão, dando até uns dois tapinhas em seu rosto.
- Que bom que você veio, meu amigo! Como está se sentindo?
- Cansado. – Deu de ombros e pegou um pedaço de linguiça, assoprando e depois comendo. – O que deu no cachorro?
- Acho que cansou. – Ele olhou além do ombro de Edgar e voltou a cortar um pedaço de picanha no espeto. – Ele estava bem serelepe aí com o pessoal, deitou a pouco tempo, eu acho. Mas e aí, está melhor? Sarou?
- Estou me recuperando. – Pegou um pedaço da carne recém cortada e comeu, continuou de boca cheia. – Valeu por ter me ajudado naquela... Naquilo. Vou ficar te devendo para o resto da vida.
- Me deve nada parceiro. – Hermes acompanhou o rebolado de uma mulher enquanto falava. – Contanto que você não suma, está bom. E Loche? Pensei que ela viria.
- Nem chamei. – Edgar pegou uma cerveja de uma caixa de isopor ao lado da mesa de carne e abriu, olhando as pessoas ao redor.
- Pensei que ela fosse importante para você, digo, fosse sua namorada ou coisa assim. Depois de tudo que aconteceu...
- Não rolou. – Suspirou e deu um gole na cerveja. – Não sei o que somos cara, nem se seremos alguma coisa.
Hermes serviu um prato farto de linguiça e pedaços de picanha para um dos camaradas que passavam, que levou para uma rodinha de garotas mais jovens do que deveriam ser. Nessa pausa, Edgar viu Silvia chegando com suas três amigas, e por um momento, a faixa preta em boquete o lembrou de Aemilia, uma das lilins de Junia Leto. Edgar ficou de costas para elas em um gesto extremamente maduro da parte dele, e sentiu o gosto pesado na garganta e o desconforto na barriga. Se não bastasse, Hermes ainda bateu no braço dele e apontou as quatro com um sorriso no rosto.
- Valeu Hermes. – Disse com um sorriso amarelo e acenou para elas, quando Silvia o viu, ela franziu o cenho e fechou a cara, dando a "Keep cooler" de morango que tomava para uma delas segurar, e foi a passos largos até Edgar. – Valeu mesmo Hermes.
Esperou um tapa, esperou um empurrão, esperou um grito e um dedo na cara, mas Silvia, em todo seu esplendor sensual deu um abraço em Edgar e beijou seu rosto, com aquele sorriso fino, sem muito o que entender dele, se era bom, se era ruim. Mas agora ela estava ali, parada a sua frente, com seus cabelos curtos perfeitamente penteados, um batom vermelho, maquiagem leve e uma camisa preta justíssima da banda The Gathering, e uma calça jeans preta justa e coberta de spikes nos bolsos e costuras.
- Edgar. A quanto tempo. – Sua voz era forte, e estranhou sua presença poderosa. – Soube que estava em coma, é verdade?
O mesmo hálito mentolado. A vontade que deu foi de beijar sua boca, mas se conteve, ainda que parecesse tão natural e simples beijá-la após todo esse tempo.
- Sim, tive uma... na verdade eu nem entendi o que foi, o corpo não conseguia descansar. Aí fadiguei ao ponto que...
- Mas antes você estava bem, não é? Antes, quando você me comeu e no outro dia nada.
Edgar engoliu tão a seco quanto as palavras de Silvia. Mereceu isso com certeza, mas ainda assim o pegou de surpresa. Ele desviou o olhar e passou a mão espalmada na testa.
- Eu não me apaixonei por você Edgar, só achei você um cara legal, e gostoso. – Ela deu de ombros e enfiou as mãos no bolso da calça justa. – Das nossas conversas pensei que gostaria de um lugar que frequento as vezes. Se chama Coles, já ouviu falar?
- Não, na verdade não. – Edgar suspirou, não conseguia olhar Silvia nos olhos e não fazia ideia do porquê. Seus olhos se mantinham em Safadão, que o encarava de volta. – O que é, um bar?
- Tem bebida. – Respondeu com um sorriso fino. – Todo dia tem uma senha diferente para entrar que é enviada para os frequentadores.
- É um culto?
Silvia balançou para frente e pata trás, mordeu o lábio e olhou para as amigas que conversavam entre si. Uma palavra ficou ali presa naqueles lábios fechados em uma mordida, mas ela não iria falar, Edgar sabia disso, e apenas suspirou, relaxando os ombros e finalmente a olhando nos olhos como merecia ser olhada. Seus olhos castanhos estavam com um brilho amarelo hoje, e Edgar não sabia se será coisa de sua cabeça, se era a luz do ambiente ou se, ainda pior, fosse algo sobrenatural.
- Hoje eu vou ficar por aqui, com elas. – Deu de ombros e sorriu, o olhando nos olhos. – Capaz que mais tarde eu tenha um tempo para você, se você tiver tempo para mim, claro.
- Terei. – Sorriu, erguendo a cerveja e depois tomando um gole. – Aceita?
Ela recusou com a mão e se afastou sorrindo apontado para as outras três.
- Se você quiser vem ficar com a gente depois.
Edgar terminou a cerveja acompanhando com os olhos a mulher de corpo escultural. Hermes terminou de cortar um pedaço de picanha gordurosa e devolveu o espeto para a churrasqueira, os olhos observando o amigo e como ele estava. Parecia mais saudável do que quando estava no hospital, isso era certeza, mas ele parecia muito diferente, não parecia exatamente com o Edgar que conhecia. As pessoas mudam, claro, ainda mais depois do que ele passou, mas essa mudança seria para melhor?
Safadão soltou um suspiro, deitado sozinho na sua casinha de concreto.
...
O momento que teve com Silvia foi no mínimo estranho. Depois de tentar brincar com Safadão e tomar um chega para lá do cachorro em forma de rosnando e dois latidos fortes, Edgar foi meio sem graça para Silvia e suas três amigas. A conversa delas era vazia, falavam sobre uma marca de maquiagem que deu alergia em uma delas, e que hospitalizou uma menina em outro estado. Edgar e Silvia trocaram alguns olhares, alguns sorrisos, alguns flertes... Mas parecia que alguma peça estava fora do lugar, algo não estava conectando. Poderiam dizer que acabou a química, mas não era isso. Depois de beberem o suficiente, trocaram um beijo sem sabor, Silvia ainda fez uma graça, pegou no meio das suas pernas e apertou seu pênis quando as meninas falavam sobre lesbianismo, "é disso que eu gosto", mas nem assim Edgar ficou animado o suficiente para insistir em algo.
Foi Silvia quem insistiu, ela beijou seu pescoço e o abraçou, sussurrando em seu ouvido "além de doente ficou broxa?" Aquilo não o incomodou tanto, entendia Silvia, mas nenhum homem se sente bem chamado de brocha.
No final, foi para casa cedo, casado e se sentindo desconectado. Via a vida passando como um programa de televisão, não exatamente da forma que ele queria, e nem mesmo fazendo o que queria, mas deixou ser guiado por esse...
Tédio.
A casa estava silenciosa e podia ouvir o barulho do ventilador no quarto de Ariel. Deitou, e como o sono não vinha, bateu uma punheta desanimada pensando em Silvia e finalmente apagou.
...
Pela manhã foi acordado com uma mensagem de Silvia. Largou o celular de lado, não quis ler nada, se virou e suspirou, mas o sono não voltou e a cama agora parecia mais desconfortável do que costumava ser. Sentou na cama e leu a mensagem.
"Estarei lá hoje às 16h. A senha é caqui fresco."
A imagem de um cavalo sem rédeas passou pela sua mente, galopando freneticamente em um pasto exuberante. Levantou e foi até a sala, o sigilo de Orobas refletia a luz da manhã em pequenos brilhos nas extremidades. Sentou no sofá e sentiu Adrastia sentar ao seu lado.
- Acha que ele vai conseguir?
- Ele? – Apontou para o sigilo. – Acho que vai sim.
- E você realmente quer se livrar de mim? – Ela inclinou a cabeça, mostrando a pele do pescoço, os lábios entre abertos e os olhos amarelos o encarando. – Mesmo depois de ontem, de me amar daquela forma?
- Claro que sim. Só preciso saber como.
- Não existe "como", Edgar. Isso que você está fazendo é em vão. Eu estou unida a você agora.
- Vamos ver. Você não tem...
Ariel saiu da cozinha com duas xícaras de café nas mãos. Ela olhou Edgar e seus olhos percorreram a sala, procurando com quem conversava. Entregou a xícara e sentou ao seu lado, ficando ela de um, Adrastia de outro.
- Bom dia, Ed. Você estava falando com quem?
- Ah, preguiça de digitar. – Tirou o celular do bolso. – Estava mandando mensagens de áudio.
- Era com uma das diabas? Você ainda está vendo elas, não é? – Ariel assoprou a xícara, estava com os cabelos presos, uma camisa preta e justa no corpo e um moleton rosa. – Eu ouvi um pouco da sua conversa com Loche aquele dia, não foi porque eu quis.
Edgar suspirou e tomou um gole do café, estava azedo.
- Conta para ela que você fica conversando agora com demônios com cabeça de cavalo. Porque não conta das nossas trepadas também?
Ele pegou o celular e respondeu a mensagem de Silvia, perguntando se não podiam ir mais cedo. A resposta veio rápida. "Abre as 14h". Ele na verdade só queria um motivo de sair dali.
- Há muito acontecendo comigo no momento, muita coisa ruim que estou tentando lidar. E...
O bip da mensagem o interrompeu, era Loche, dizia que precisava falar com ele urgentemente, havia feito também um ritual e não estava conseguindo lidar com o que estava acontecendo com ela.
- É como se de repente eu precisasse cuidar de todo mundo. – Edgar tomou um gole do café azedo e desabafou. – Você sabe que tudo que eu queria era ter meu emprego bosta, beber minha cerveja e arranjar uma namorada aqui e ali. Agora eu estou literalmente amaldiçoado e o pior é que parece uma praga, parece uma doença que contamina as pessoas ao meu redor.
Edgar respondeu a mensagem com um áudio, dizendo para vir a sua casa. Ela respondeu prontamente que iria.
- O nome disso é miasma. – Adrastia cantarolou ao seu lado, sorrindo. – Miasma. Pode pesquisar.
- Você não faz mal para mim. – Ariel confessou, escondendo a timidez em um gole de café.
- Faço sim.
Miasma.
- Imagine você jogando uma pedra em um lago de águas paradas. As ondas são o miasma, a pedra são seus pensamentos. Aí você joga um montão de energia sexual pervertida em águas paradas. Boom! – Adrastia esticou os braços, uma alegria idiota. – Tudo ao seu redor se move. O mundo é um reflexo de nós mesmos Edgar.
- Eu não sou o centro do universo.
- Todos vocês são. – Adrastia corrigiu. – Só não entenderam ainda.
Edgar levantou e terminou o café. O cenho franzido acuou Ariel que preferiu não dizer nada. Ele foi até a cozinha, largou a caneca e molhou o rosto na pia. Estava farto disso. Orobas ainda tinha 24 horas, mas ele não. Ele não aguentaria mais um minuto daquela bobagem espiritual.
- Ariel! – Sua voz saiu mais pesada do que gostaria. – Tem algum lugar que você pode ir? Me deixar sozinho até... Meio dia?
- Anh... O shopping só abre as dez, e agora são oito e meia e... – Ela coçou a cabeça e sorriu. – Se eu ficar no meu quarto de fone de ouvido e a porta trancada resolve?
Adrastia riu sentada no sofá, as mãos na barriga.
- Não. Mas vai ter que servir. Não importa o que você ouça ou aconteça, não venha no meu quarto, ok? Loche está vindo aqui e...
- Ah saquei! Eu sou boa nisso, em me desligar. – Ariel fez um movimento com as mãos que imitava colocar os fones na cabeça. – Eu ponho meus fones no máximo, ligo o ventilador e pronto. Era assim que eu ficava quando meus pais brigavam por minha causa. Ou por qualquer outra causa. Eu já estou acostumada e... Assim, é estranho porque você não fazia isso com a... Qual o nome dela mesmo? Aquela namoradinha que...
- Eu sei. – Edgar interrompeu, se levantando. – Eu agradeço muito o que você vai fazer por mim.
- Sem problemas, Ed. Mas vocês são tão hardcore assim?
...
Edgar notou no instante que a viu, olheiras pesadas sob os olhos caribenhos, uma palidez nos lábios e o rosto com uma expressão pesada. Ela estava bonita ainda assim, brincos de argola dourada, pequenos, cardigã vermelho sobre uma camisa preta regata, calça jeans também preta. Ele abriu a porta para ela entrar, e depois de olhar ao redor na sala seus olhos pousaram sobre o sigilo de Orobas e um calafrio passou pelo seu corpo. Ela deu um beijo no rosto se Edgar e entrou, tirando o cardigã. Olhou a cozinha e depois voltou, falando em sussurros.
- Ariel está em casa?
- Está. – Respondeu normalmente. – Mas ela está com fones de ouvido, e não vai ouvir a gente.
- Quem garante? – Sussurrou, mas parou. – Ok, que seja. Eu invoquei um, Furfur, e deu certo. – Loche passou a mão nos lábios, parecia escolher as próximas palavras, os olhos no chão. – Ele me ensinou a abrir o terceiro olho, com uma ametista. Mas agora eu não consigo fechar e estou vendo coisas como...
Adrastia verteu do chão como piche atirado ao ar, formando seu corpo sensual e de pés fendidos. Loche gritou e saltou para trás, os olhos arregalados vendo a súcubo que ria e apontava para ela, dando tapas no ombro de Edgar.
- Isso prova bem, não é? Agora ela me vê também. Esta sacramentado então.
- Meu Deus! É ela?
- Essa é Adrastia. – Resmungou.
Loche tentou tocar seu rosto, mas ela agarrou sua mão e a enfiou na boca, chupando seus dedos. Ela puxou a mão de volta e sentiu os dedos molhados de baba.
- Cacete! Uma coisa era a especulação, ver isso assim... – Loche passava o polegar no indicador e no médio sentindo a saliva de Adrastia. – Mas ela não está no ambiente físico, é só uma manifestação.
- "Só uma manifestação" é uma maneira muito pobre de me descrever, Loche Costa Bjorg.
Adrastia rebolou até Loche, a calda balançando para lá e para cá. Ela segurou o rosto da garota com as duas mãos e beijou sua boca, Loche ficou encarando atônita a diaba enfiar a língua em sua boca, e seus olhos escorregaram para Edgar que assistia com um interesse confuso. Seu pau desejava que aquilo fosse real, mas sua mente ainda tentava racionalizar, dizer que era outra diaba no lugar de Loche.
Loche ficou imóvel após o beijo, seu olhar parecia cheio de vida, mas preocupado, com medo. Então ela sorriu e deu outro passo para trás.
- Caramba, isso foi quente. – Loche soltou em um suspiro, finalmente respirando e recuperando o fôlego. – Eu senti... senti tudo. Todos os meus sentidos. Eu a vejo, a ouço, a toco. Até sinto seu perfume doce.
- É bom, não é? – Adrastia se aproximou mais uma vez de Loche e a segurou pela cintura. – Imagine que delícia seria me ter o tempo todo, sempre que quiser, uma escrava para que você possa tocar, beijar... Foder. E Edgar acha isso ruim.
- Eu... Eu sei do que você é capaz, demônio. – Loche sorriu, um sorriso torto e duro. – Sei que a cada vez que me der prazer, consumirá minha força vital.
- É uma troca justa, não é?
- Não. Nada supera a coisa de verdade. Eu consigo isso sem precisar dar nada em troca.
- Tem certeza? – Adrastia ergueu uma sobrancelha, o sorriso fino. – Vocês acham que são muito diferentes, meus termos dos seus? – Ela guiou Loche devagar até próximo de Edgar e continuou. – Quando vocês fodem, vocês trocam energia vital, e isso é completamente aceitável. As vezes, um ganha mais, as vezes, outro ganha menos... Comigo, sim, eu absorvo toda a energia, mas – levantou o dedo e sorriu mostrando os dentes – comigo nunca é entediante. Sempre vai ser – e ela pegou na nuca de Loche, e na de Edgar – exatamente – e beijou a boca de Loche – como você – depois a de Edgar e quando voltou para Loche, ela se tornou incorpórea até sumir junto com sua voz. – Quer.
Os dois ficaram ali, pasmados, Edgar sentia seu pau duro forçado contra a cueca, Loche já se sentia úmida, quente e trêmula. E tudo isso por causa de uma simples brincadeira de Adrastia.
- Eu vim aqui com um plano em mente. – Loche sorriu e ajeitou os óculos. – Ela me fez esquecer do que aconteceu ontem.
- E o que aconteceu? – Edgar se recompôs, ajeitou a camisa e o short e sentou no sofá para que o volume não ficasse tão aparente.
- Eu invoquei um daemon, da Goetia, Furfur. Ele me ensinou algumas coisas, e uma delas foi abrir o terceiro olho. Eu não... Eu vi algumas coisas bem pesadas, e isso bagunça a cabeça de gente. – Ela sentou ao lado de Edgar e pousou a mão em sua coxa. – Mas Adrastia clareou minha mente. Que coisa estranha. Será que é tão ruim assim tê-la com você?
- Eu quase morri, Loche. É esse o motivo.
- É verdade.
Ficaram em silêncio por um tempo, talvez absorvendo a pequena experiência com a súcubo. Edgar já estava acostumado, aquilo não o impactava como antes, mas Loche estava aérea, desligada. Seus olhos pareciam ver algo além, algo apenas em sua mente.
- Você disse que tinha um plano?
- Sim. – Ela tirou os óculos e deixou sobre o sofá. – Eu preciso de sua ajuda para fazer um ritual, envolve sexo.
- Você me ajudou com o meu, acho que eu posso te ajudar com o seu. – Brincou.
- Como se você não fosse gostar, não é?
- Eu gosto. – Edgar pigarreou e desviou o olhar. – Eu gosto de você, é bom ter você por perto.
- Oh, que bonitinho. – Loche sentou em seu colo, de frente para ele. – Você gosta de mim, é? Gosta da menininha estranha, gosta?
Ele sorriu e segurou sua cintura, aproximando mais seus corpos.
- Gosto sim. Aprendi a gostar. Senti sua falta ontem.
Loche deu um tapa no rosto de Edgar e colocou o dedo sobre seus lábios, "shh", então beijou sua boca, fechou os olhos e soltou seu corpo sobre o dele. Tinha gosto de café.
...
O beijo foi esquentando aos poucos, o toque de Loche era quente, os dedos finos em sua nuca traziam arrepios e um tesão que começava a viciar. Silvia era mais bonita, tinha um corpo muito mais voluptuoso que o dela, mas havia ali um toque todo diferente. Edgar enfiou as mãos por baixo da camisa regata e sentiu seus pequenos seios, a mão cheia com facilidade. A garota respondeu deslizando uma das mãos em seu peito e invadindo seu short, agarrando seu pênis e o apertando com força.
Sem saber porque, aquilo o fez pensar em Ariel e como ela estava no seu quarto, mandada ficar quietinha, fones de ouvido, papai e mamãe estão transando na sala.
Loche escorregou do colo dele e puxou seu short, o despindo da cintura abaixo. Se ajoelhou a sua frente e lambeu seu pênis dos testículos a glande e a chupou com força. Edgar pegou nos cabelos de Loche, mas ela deu um tapa em suas mãos e se levantou, tirando primeiro a regata e depois o moletom. Da sua cintura até o coração havia quatro desenhos de runas feitas com uma navalha, cortes recentes, avermelhados e brilhantes, arranhados parecidos com a tatuagem que ela tinha no braço. Edgar estranhou, mas sua mente já estava nublada de excitação, queria fode-la de novo, talvez fosse isso que não o animou na noite passada. Queria Loche ali.
- Você me quer, unh?
Ele se levantou, mas ela o empurrou de volta ao sofá.
- Vem para o quarto. Me dá um minuto, e depois você vem, ok?
Loche se abaixou e pegou suas roupas no chão, devagar, deixando o melhor do seu corpo a mostra para ele. No quarto, ela fechou a cortina e a porta do banheiro, deixando o mais escuro possível, do bolso do moletom pegou um frasco de lubrificante e passou em sua vagina e ânus, e no outro bolso, pegou uma bandana e uma navalha, se amordaçou e deixou a navalha em sua mão fechada. Então ficou de quatro, os braços cruzados apoiando a cabeça.
Edgar entrou no quarto nu, seu pênis que ameaçava amolecer voltou a ficar duro quando viu Loche daquela maneira, totalmente a sua mercê, seu sexo a mostra para ele fazer o que quisesse.
E era o que ele mais queria. Era só o que ele queria.
Ele segurou sua cintura e esfregou o pênis em seu sexo, para cima e para baixo, tocando seu ânus e brincando de penetra-la, forçando sem de fato introduzir. Ela estava gostando, o tesão da expectativa, a navalha em sua mão, pronta para ser usada, Edgar atrás dela brincando com seu sexo. Com a cabeça escondendo suas mãos, ela posicionou a navalha no seu pulso e esperou o momento da penetração. Edgar finalmente enfiou em sua boceta, devagar e por completo, e a cada centímetro percorrido dentro de si, ela cortava seu pulso de um lado a outro, pressionava com vontade a lamina contra sua pele e carne, contendo a dor mordendo a bandana. A quantidade de sangue que verteu a pegou de surpresa, não imaginava que sairia tanto, mas a visão daquilo, a dor e Edgar a fodendo rapidamente a levou ao orgasmo em instantes, e ali ela gritou sem medo, mas ainda na mesma posição, escondida, o sangue descendo escuro se misturando à cor azul do lençol, e Loche sorria, pequenos pingos de sangue em seu rosto.
Ela sentia um êxtase que ia além do que já havia sentido antes, além de qualquer prazer sexual que fosse. Sentir ele a fodendo por trás, enfiando com força e a preenchendo com facilidade, por completo, o sangue escorrendo tranquilamente de seu pulso, tudo isso a levava a alcançar patamares de prazer que duvidava muito ser capaz de replicar. Ela forçou seu corpo de encontro ao dele para que parasse e tirou a mordaça da boca.
- Deita no chão e fecha os olhos.
Ele obedeceu, enfiou mais uma vez fundo, tirou devagar e deitou no chão frio. Loche pegou a lâmina e ficou de cócoras sobre seu pênis, penetrando apenas a glande. Com a mão ensanguentada, segurou a lâmina e com a outra, pegou a mão dele. Em um só movimento, sentou e cortou do centro da palma da mão de Edgar para fora, o sangue brotou rapidamente. Ele gritou de susto e levou a outra mão ao ferimento, mas Loche o impediu, pegou sua mão cortada e a fechou contra seu pulso aberto, o sangue de ambos escorrendo juntos pelos seus braços. Enquanto isso, ela não parava de subir e descer.
Edgar tentou se desvencilhar, mas Loche apenas segurava sua mão fechada contra seu pulso e fodia, extraindo o máximo de prazer que conseguia sentir com aquilo, até que finalmente sentou e parou, largou a mão e soltou os ombros. A tontura havia a alcançado, sentia a cabeça leve e uma gostosa sensação de prazer e alívio por todo o corpo. Quando Edgar foi protestar, Loche colocou a mão ensanguentada sobre sua boca e disse com a voz suave.
- Faz parte do ritual. É só um corte, você não vai... Morrer.
Ela deitou sobre seu corpo e segurou seus cabelos com as duas mãos, beijou sua boca e voltou a foder. Por mais absurdo e irreal que fosse, o gosto de sangue na boca e a respiração afetada de Loche, além da insanidade do momento deixa aquilo extremamente erótico, sentia-se numa excitação que fugia a lógica. As imagens de seus sonhos sádicos em que chicoteava a pequena garota e via seu sangue assaltavam sua mente e o sentimento de sonho realizado era cada vez mais forte.
Com as mãos dela ali Edgar finalmente viu que ela havia cortado o pulso e isso o tirou do torpor sexual que sentia. Ele a segurou firme e se levantou, Loche não apresentou nenhuma resistência, talvez nem conseguisse mais. Edgar a deitou na cama e notou o lençol molhado. Seu coração estava a mil, o frio na barriga consumia sua calma e a transformava rapidamente em pânico, que ele lutava para que não tomasse conta. Além disso, havia uma bizarra vontade de continuar a fode-la, seu corpo totalmente indefeso, molhado, sua respiração afetada e um sorriso como se estivesse alcançado a apoteose.
Nu e de pinto duro, Edgar pegou a camisa regata dela e pressionou contra o pulso cortado. Sua mão doía e sangrava, não conseguia fechá-la direito, mas não importava para ele, aquela garota podia morrer por causa do corte.
- Me fode, Edgar. – Loche riu, o rosto pintado de vermelho. E enquanto ele amarrava a camisa em seu pulso, ela agarrou seu pênis e começou a masturba-lo, mas Edgar tirou sua mão com força, mesmo que seu corpo quisesse aquilo. – Me fode cara, esse corte não vai me matar. Não pegou artéria nenhuma e...
A campainha da casa tocou uma vez.
- Você está esperando alguém? – Loche sussurrou.
- Não. – Respondeu, Loche aproveitou para pegar em seu pênis mais uma vez, e Edgar deu um tapa em sua mão. – Para com isso. Você enlouqueceu?
A campainha tocou mais uma vez.
- Ignora. – Loche sentou na cama e ajustou a camisa no ferimento. – Deve ser algum agente de saúde.
E a voz veio do outro lado da porta.
- Edgar! Sou eu, Monique! Eu sei que você está em casa, precisamos conversar!
A irrealidade da situação em que se encontravam acertou os dois da mesma maneira, e assombrados, só conseguiam ficar parados, nus, ensanguentados, olhando um nos olhos do outro.
...
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