- Enfim chegamos. - diz o Angelo guardando o celular assim que o bus para.
Saimos todos os passageiros do bus na mesma paragem, a feira. Desde aquela hora que o Gustavo me disse aquilo ele não voltou a olhar pra mim. O que eu não entendi, achei que estávamos começando a nos dar bem. Mas tudo bem, não vou desistir agora que já descobri pelo menos uma coisa dele. Mas como já falei com ele, agora é a vez do Angelo.
- Então vamos andar em qual primeiro? - pergunto empolgada.
Eu adoro esta feira, é sempre de mais vir aqui. Todo o dinheiro que junto durante o ano é só para gastar aqui. Mas este ano tive que pedir á minha mãe porque eu estava necessitando de um novo telefone então comprei com o meu dinheiro. Este parque tem as melhores montanhas russas que eu já vi na minha vida.
- Você quer ir em qual? - o Angelo diz rindo da minha empolgação.
- Montanha russa. - o Gustavo foi quem respondeu por mim mas mais parece que leu a minha mente - Vamos!
Ele faz algo que me pega completamente de surpresa. Ele segura a minha mão e começa a me puxar pra montanha russa mais radical de toda a feira. Dessa montanha russa eu tenho medo mas eu nem estava olhando pra onde eu estava indo naquela hora. O meu olhar estava fixo na mão dele segurando a minha.
Tenho que admitir que senti um choquinho quando ele tocou na minha mão.
O Angelo vinha logo atrás de nós dois e assim que chegamos na cabine para comprar os bilhetes ele largou a minha mãe e eu "acordei" do transe. Aquilo foi algo completamente normal para ele, ele só me puxou para eu não protestar contra o que ele tinha escolhido. Mas não consigo negar que foi uma sensação muito boa, nunca senti nada igual.
- Eu não gosto de montanhas russas. Fico aqui em baixo esperando vocês. - diz o Angelo sentando em um dos bancos perto da montanha russa.
- Toma. - o Gustavo diz me entregando um bilhete - Vem logo quero o melhor lugar. - diz segurando minha mão de novo e me levando.
Nós entramos, sentamos e colocamos os cintos.
- Não precisava pagar o meu, quanto foi o bilhete? - digo já abrindo a minha mochila.
- Cala a boca quero ouvir a música, essa é a melhor parte.
Eu acabo rindo e pego o MP3 do bolso do casaco dele e olho qual era a música. Lost Boy da Ruth B. É a minha música favorita e até já sei qual a melhor parte que ele falou.
"He sprinkled me in pixie dust and told me to believe
Believe in him and believe in me
Together we will fly away in a cloud of green
To your beautiful destiny
As we soared above the town that never loved me
I realized I finally had a family
Soon enough we reached Neverland
Peacefully my feet hit the sand
And ever since that day"
Digo cantando e olha para mim na hora. Em cheio.
- Você tem uma voz bonita.
- Um elogio vindo de você? Está doente? - digo surpresa.
Ele simplesmente revira os olhos.
- Como sabia que era a parte que eu estava ouvindo?
- Você disse que era a melhor parte, essa é a melhor parte. - digo surpreendendo ele - Essa é a minha música preferida. - digo sorrindo e continua cantando.
- Minha também.
- Sério? - digo na hora parando de cantar.
- Sim porque? Você tem algum problema com isso? - diz se fechando na hora e ficando bravo de um jeito que eu nunca vi.
- Ei calma, não é nada disso. Só que como você disse que você tinha um gosto musical melhor que o meu nunca pensei que a sua música favorita seria a mesma que a minha. - digo tentando acalmá-lo e parece funcionar.
Ele desvia o olha passando a mão pelo cabelo e voltando a colocar o gorro do casaco.
- Desculpa.....
- Tudo bem. - digo tranquila e sorrindo para ele.
- Você tem medo dessa montanha russa não tem?
- Como sabe disso? - digo abismada.
- Você tem cara de quem gosta de montanhas russas mas que morre de medo de todas elas, até das infantis.
Nesse momento o homem da cabine avisa que a montanha russa está quase a partir e para todos comprarem logo o seu biblhete.
- Sim....eu tenho medo. Nunca andei nessa antes, com ninguém. Porque todas as montanhas russas que eu ando eu vou acompanhada.
Ele ri de novo e sinceramente seria capaz de fazer tudo para continua ouvindo ele rindo.
- Você vai nestas montanhas russas com a sua mãe? - pergunta rindo.
- Talvez.... - diz não querendo admitir que era ela quem me obrigava a andar com ela porque ela adora e não tem medo nenhum.
Ele ri ainda mais e eu acabo rindo com ele.
- Oh vá lá ce n'est pas drôle. Não é engraçado. Ela adora montanhas russas, não deixa de andar em uma até as das crianças ela vai. E ela me arrasta junto para eu perder o medo, mas até hoje não funcionou.
- Meu Deus isso é a coisa mais épica que já ouvi. Estou imaginando a sua mãe te arrastando para dentro das montanhas russas.
- Não precisa imaginar, se vier aqui no próximo fim de semana que é quando ela vem você ia ver com os seus próprios olhos.
Ele ri.
- Mas não parece com medo aqui do meu lado. E se eu tentar de jogar daqui de cima?
- Idiota.
- Ué não é você que acha que eu sou um monstro? - pergunta como se aquilo realmente afetasse ele.
- Eu nunca disse que você parecia um monstro. Disse que você é um grosso, um convencido, que se acha o rei da cocada preta. Mas nunca disse que era um monstro.
- Achei que me odiava desde que me conheceu. - diz desviando o olhar.
- Eu nunca odiei ninguém. Porque odiaria você?
- Me diz você.
- Eu só acho que você não precisa dessa armadura perto de mim, eu não vou te atacar ou te destruir. Não sou uma inimiga.
- Armadura?
- Sim. Você é uma coisa em um momento e depois se torna outra coisa completamente diferente. Como agora quando falamos da música. Você estava indo tão bem, se abrindo conversando normalmente comigo sobre algo normal e do nada vestiu uma armadura de proteção. Como se eu tivesse invadido o seu território.
- Eu já pedi desculpa por isso.
- Eu sei. Mas queria muito saber porque faz isso.
- É uma defesa natural, aprendi a usá-la sempre.
- Pode me avisar quando for vesti-la novamente? - ele olha para mim sem entender - Só para eu me preparar.
Ele ri.
- Você é única garota.
Não entendi o que ele quis dizer com aquilo, só sei que ele disse de um jeito tão sincero que aqueceu o meu coração. Isto é uma sensação tão boa, agradável boa de se sentir.
Quando a montanha russa começou a andar o meu medo de montanhas russas foi acionado com um nível muito mais elevado que o normal. Esta montanha russa é muito muito radical, é a única que a minha mãe não me obriga a andar. Meu Deus.
Estava quase chorando de medo quando o carrinho estava se aproximando da descida mais alta, de onde dava para ver todo o parque e nós estavamos nos primeiros lugares do carrinho bem na frente de tudo, quando sinto algo.
Quando olha para a minha mão vejo a mão dele segurando a minha e apertando passando uma sensação tão boa de segurança que o carrinho desceu a toda velocidade e eu nem senti. Estava vidrada nas nossas mãos e só então percebi que ele também estava olhando.
O carrinho da montanha russa continuava andando e fazendo looping's as pessoas gritando feito loucas mas mais parecia que eu estava só flutuando mesmo sentada no carrinho, nada daquilo estava ali. Parecia um universo 2D comigo e ele.
Será que ele está sentindo o mesmo que eu?