CLINCH | ChanBaek

By _lasther

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O nome sempre repetido pelos torcedores era o mesmo, Park Chanyeol, o melhor lutador de boxe da atualidade. E... More

Ninguém.
Fazendo acordos.
A toda velocidade.
Na ponta dos pés.
Leve tudo que for seu.
Todos os nós.
Flamejantes á ouro.
Semelhante a papel.
Dividindo-se.
Lembre-se de não revidar.
Sobrou um pouco de mim em você.
Derrame os pedaços de seu coração.
Prendendo a respiração.
Faísque seu melhor olhar.
As palavras que nos sufoquem.
O quão preparado para o mundo você está?
De olhos fechados a vida desacelera.
Lute! Só assim provará da vitória.
Alguém.
MiniExtra + LIVRO FÍSICO.
Sobre a nova versão de Clinch e EXTRA INÉDITO.

Como esquecer o passado em 3 passos.

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By _lasther

Em toda minha vida, nunca me senti tão frágil como se fosse quebrar, passando horas e horas chorando. Chanyeol teve que me suportar, é claro. A única coisa que ele conseguiu fazer com seu jeito desengonçado e quieto, foi tentar me acalmar me dando água e mais tarde, preparando-me um chá bem quente.

O boxeador me entregou a caneca com o chá e sentou-se em uma cadeira em direção a cama, esta no qual eu estava praticamente deitado.

— Pronto, parou de chorar? — Fitou meus olhos inchados e avermelhados, enquanto eu ainda tentava conter os soluços.

Concordei com a cabeça.

— Não é como se o mundo fosse acabar, Baekhyun. Ele só... ele é um porra, entende?

Ri e Chanyeol se sentiu satisfeito em me ver achar graça.

— O que foi? Por que riu?

— Nada, você falando palavrão é engraçado.

— O cacete que é!

Ri de novo e ele sorriu ao encontrar meu ponto fraco.

— Baek? — Suspirou fundo e eu continuei o encarando enquanto tomava alguns goles de chá. — Vocês já tiveram algo? Digo... algum tipo de relacionamento?

Abaixei o olhar, ficando sério.

— Me responda. — persistiu — Eu ouvi quando você disse que gostava dele. Sehun não te olhou com raiva nos olhos igual meus adversários me olham quando estou lutando, aquele olhar foi diferente. Ele parecia...

— Eu sei. — o interrompi — Ele não admite que já gostou de mim.

Chanyeol forçou um riso de deboche.

— Gostou? Não estou falando de passado, estou me referindo ao presente. Ele ainda gosta de você, é óbvio.

O fitei novamente, cerrando os olhos.

— Ele me soca praticamente todo dia, fazer isso é gostar de alguém? Todos dizem que o amor machuca, mas eles não queriam dizer no sentido literal da palavra.

Chanyeol não respondeu, ficou em silêncio, sabendo que eu estava certo. Levantou-se e voltou minutos depois com uma toalha molhada e quente em mãos, e antes de encostar o pano em minha testa, protestei.

— Isso é pra fazer sua dor de cabeça passar. — Explicou.

— Mas eu não estou com minha cabeça doendo.

— Não agora. — disse, colocando a toalha em minha testa e eu acabei deitando para que o pano não acabasse caindo.

— Eu vou ligar para o seu pai, é melhor que durma aqui hoje.

Arregalei os olhos e quando ameacei me levantar para fugir, Chanyeol segurou meus braços sobre a cama, me fuzilando com o olhar.

— Prefere ser baleado com mil e uma perguntas por ele, depois?

Fiquei pensativo e ele encarou isso como algo positivo.

— Mas essa cama é desconfortável — reclamei e Chanyeol sorriu sínico.

— Acha mesmo que eu deixarei você dormir na única cama que possuo? O ringue seria uma ótima opção, o que acha?

Entreabri a boca, pronto para protestar.

— Brincadeirinha! — Riu e saiu enquanto discava alguns números em seu celular.

A canseira por fim, acabou me vencendo e quando menos esperava já tinha me entregado a sonolência, mesmo que aquele colchão não fosse um dos melhores. E o que eu sonhei não fora exatamente algo que minha mente criou, mas sim, com uma mistura absurda de lembranças que eu desejava apagar. Uma lembrança com gosto de primeiro beijo.

Eu tinha apenas cinco anos quando o conheci. Ele era um menino tímido, calado e só sorria quando sua mãe o perguntava se queria comida. Os cabelos pretos eram rasos, seus lábios eram onde eu sempre fiz questão de reparar.

Crescemos juntos, aprendemos alguns segredos do mundo, dividindo um livro de contos no meio da noite. Mas ele disse em uma tarde, enquanto tinha a cabeça apoiada em minha barriga, que temia descobrir o que era, quem de fato era.

Naquele tempo, eu não entendia muita coisa e sempre achei que sua curiosidade simbolizava as coisas comuns da vida, como a dúvida de qual profissão escolher ou um gosto musical que ele insistia em dizer ser alternativo. Porém, Sehun nunca ficou confuso com essas pequenas coisas e eu só fui descobrir do que se referia quando no meu aniversário de quatorze anos, ele me beijou assim que o relógio deu meia-noite. Foi ali, no meu quarto, que entendi que sua maturidade era mais clara que a minha e que o derrotou na curiosidade. No começo, eu dizia a mim mesmo que o fato de Sehun ter me pedido para que aquele fosse nosso segredo, fosse apenas uma brincadeira de adolescentes descobrindo o próprio corpo, mas não foi bem assim quando meus pais se separaram e tudo mudou. Especificamente falando, eu tive que me mudar para a Alemanha ás ordens do meu pai.

No início, eu relutei contra, tudo porque não queria ficar longe de Sehun. E quando contei para ele o ocorrido, Sehun apenas concordou com a escolha de meu pai e num ato de coragem, no qual eu não experimentava desde então, eu olhei em seus olhos e perguntei se ele queria fugir e morar comigo em algum lugar da Coreia. Seu "sim" seria o suficiente para eu largar tudo, rasgar minha passagem e abandonar minha família para ficar ao lado dele, onde até então eu encontrava minha paz. Eu me considerava capaz, mas Sehun mentiu para mim.

Combinamos de nos encontrar para colocar a fuga em ação numa tarde de domingo, porém, o que me deparei foi com meu pai de malas prontas, a minha espera. Eu não tive tempo de me despedir da minha mãe e nem de gritar com Sehun por ter me incitado falsas esperanças de ser alguém melhor. Eu continuei sendo eu mesmo, o garoto que foi obrigado a crescer na Alemanha, torcendo para acabar não perdendo meu rastro asiático com tantas influências de diferentes países naquele colégio internacional. Torci para que Sehun não estivesse sofrendo como eu estava, pois doía demais.

Eu só fui descobrir que ele estava bem quando minha professora de filosofia apresentou um aluno novo para a sala. Oh Sehun estudaria na mesma sala que a minha.

A expressão de seriedade e as mãos dentro do bolso fora o suficiente para conseguir rápida admiração de todas as garotas do colégio e formar um grupo mais parecido com uma gangue, do que com um ciclo de amizades que o perseguia durante o intervalo.

Eu não olhei em seus olhos desde então, seus punhos estavam sempre em meu rosto e eu não sabia exatamente o motivo para sair roxo de suas provocações.

Que Sehun tinha se transformado no mais valentão do colégio era óbvio, mas já a fama de mulherengo foi realmente uma surpresa para mim.

Sehun se tornou uma mentira ambulante, sem qualquer resíduo de felicidade que eu presenciava em nossa infância quando eu implicava dizendo-o que suas bochechas eram adoráveis. Ele se tornou vazio enquanto eu me tornei alguém lotado de memórias.

Algo gelado tocou minha bochecha e só quando abri os olhos com dificuldade que observei Chanyeol agachado, ao lado da cama, encostando uma lata em minha pele enquanto ria de minha reação incomodada.

— Para com isso! — Bati a mão no meu rosto e ela relou em algo molhado. — Mas... o que é isso?

— Café gelado. Diretamente do mercado, sem riscos de morte se caso eu tentasse fazer seu café da manhã. — Sorriu e antes que eu o respondesse, o lutador colocou inúmeros pacotes de salgadinho ao lado do meu travesseiro. — Pra acompanhar o café.

Ri da quantia exagerada.

— Pra que tudo isso? Eu tenho cara de quem come mais de cinco pacotes de salgadinho?

Ele torceu o lábio, chateado.

— Eu não sei do que adolescentes da sua idade gostam, então resolvi trazer todos os sabores que tinham lá.

Sorri de lado e apertei meu rosto no travesseiro, me espreguiçando. Com pouco esforço me levantei e ouvi Chanyeol rir, ainda me fitando.

— Que tipo de furacão passou pelo seu cabelo enquanto dormia?

O fitei confuso e só entendi a piadinha quando me olhei no espelho e vi meus fios negros apontando para todos os lados. Corri até o banheiro para tentar me ajeitar, amaldiçoando Chanyeol ao ouvi-lo rir sem parar.

Minutos depois, o boxeador apareceu na porta do banheiro.

— Vamos correr hoje, se prepare.

O fitei enquanto enxugava as mãos.

— Achou mesmo que iria ficar apenas se matando sozinho no heavy bag? — Sorriu largo. — Você ainda tem muito que sofrer.

Engoli seco e o boxeador se aproximou de mim para dividir o espelho comigo. Abriu um pequeno pote e retirou seu piercing de lá, colocando-o sobre os lábios sem se importar com minha presença que o assistia.

— Nunca quis fazer um? — Questionou-me quando terminou de colocá-lo.

— Um o que?

— Um piercing. — Apontou para o acessório metálico. — Você vive olhando pro meu, ou isso é inveja ou vontade reprimida de experimentar como é... — pausou para sorrir — beijar alguém com um.

Eu ainda estava o admirando quando suas palavras atingiram-me. Imitei uma risada tosca e ele se virou para mim, me fitando cheio de si.

— Qual a graça? Você não fala coreano? Se quiser, posso falar em alemão.

Fiquei sério e me retirei do banheiro. O boxeador me acompanhou, repetindo o assunto.

— Responda, Baek!

— Ta' bom. — pausei e quando me virei, irritado, deparei com o lutador apenas alguns centímetros próximo de mim — Eu já quis colocar um, mas essas coisas não combinam com alguém como eu, entende?

— Por que não?

— Eu sou muito sem graça.

Chanyeol sorriu.

— Eu também era sem graça antes das tatuagens e dos furos. Olhe pra mim agora, sou muito gostoso.

Continuei sério e ele se sentiu atingido.

— Você é muito chato, sabia disso? — Me encarou, batendo a mão de leve contra meu peito. — Ás vezes dá vontade de riscar com canetinha essa sua pele... bonitinha, só pra te tirar da mesmice.

— Bonitinha? — Ri das palavras do boxeador. — Desde quando o lutador mais famoso da Alemanha tem "bonitinha" em seu vocabulário?

— Mais famoso e não se esquece do lindo também. Agora se me der licença — Me empurrou de leve para o lado. —, eu preciso trocar essa roupa de dono de casa para o de corrida com o aprendiz sem graça.

Fiquei sorrindo e enquanto Chanyeol se trocava no banheiro, me acomodei na cama conforme comia todos os sabores de salgadinhos misturados em um recipiente.

O boxeador saiu minutos depois vestido com uma calça de algodão e uma regata mais larga que as roupas que costumava usar. Depois de muita insistência, conseguiu me convencer a correr pelas ruas abandonadas daquele bairro, em plena cinco horas da manhã.

— Chanyeol... eu... não.... aguento... mais. — Comentei, praticamente sem ar enquanto corríamos no meio da rua.

O boxeador não parecia estar abalado com a corrida, agia normalmente.

— Não faz nem dez minutos que começamos a correr, não seja dramático.

Tentei buscar respirar com calma, mas era um pouco complicado quando o sedentarismo era maior que os exercícios necessários para ser um boxeador em forma.

— Sinto como... se fosse... morrer.

Ele sorriu largo, virou o corpo na direção contrária da minha e me fitou, correndo de costas.

— Vê isso? Um ótimo atleta consegue ficar horas e horas correndo nessa posição.

— Mentiroso!

Ele levantou uma sobrancelha.

— Lembra-se da última vez que duvidou de algo, o que acabou acontecendo, certo?

Desviei o olhar e suspirei alto. Não era uma boa ideia provocá-lo, não mesmo.

— O que você vê nele? Digo... o Sehun não parece dono de muitas qualidades.

Continuei em silêncio, tentando acompanhá-lo na corrida sem acabar desistindo e me jogar no chão ali mesmo, pronto para grunhir de dor nas minhas pernas.

— Não diga isso como se eu ainda gostasse dele.

O boxeador deu um sorrisinho alto, mostrando não acreditar em minhas palavras.

— Eu não preciso dizer nada, a noite de ontem disse tudo, você não parava de chorar.

Continuei sem olhá-lo, sabendo que o lutador fitava-me com uma curiosidade estampada no rosto.

— Lágrimas não significam amor, Chanyeol.

— É claro que não, mas onde existe mágoa ainda existem sentimentos.

Bufei e pisquei rapidamente, impaciente que ele estivesse tentando entrar na zona de emoções no qual eu sempre tentava trancar com cadeado.

— Se esse for o caso, eu irei conseguir acabar com esses sentimentos.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, mas logo voltou a me importunar:

— Como?

— Eu não sei, Chanyeol. — Pausei os passos e o fitei, irritado. — Eu não sei, ta' bem?

Chanyeol parou de correr e respirou fundo, me encarando.

— Eu sei como.

— Já sei o que vai dizer, que eu preciso lutar, fechar a mão em punho e dar uns belos de uns socos na cara dele.

— Isso também. — Sorriu. — Mas existem outros métodos.

— Quais?

— Se você correr por uma hora, eu te conto o primeiro passo dos três que eu aprendi.

Fiz uma expressão preguiçosa e me agachei, apoiando-me em meus joelhos.

— O caramba que eu corro por uma hora, quer que eu tenha um ataque cardíaco?

— Precisa ter forças nas pernas para golpes como a joelhada.

— Eu consigo.

Chanyeol riu soprado de minha presunção antecipada.

— Você por acaso conseguiu se esquecer do Sehun? Está na cara que não. É exatamente disso que eu estou falando, Baekhyun. Precisa colocar na prática o que aprendeu com a dor. Esqueça palavras, o mundo já está cheio delas, precisa agir.

Fitei seus pés.

— E você que se esqueceu tanto das palavras, que magoa o Kris a cada minuto que está com ele sem admitir o que sente?

Chanyeol com certeza não esperava por uma resposta como aquela, ainda mais em voz alta. Eu soube pelo seu silêncio que havia tocado em uma ferida que não tinha se cicatrizado totalmente, uma zona de perigo raramente visitada.

— Kris sabe que eu não sinto o mesmo que ele. Está cansado de ser chutado por mim, mas continua vindo na minha porta me implorar por carinho. Eu sei, sou um filho da puta por estar fazendo isso com ele, se é isso que quer ouvir. — Sua voz estava alterada. — Então leve isso como um conselho. Quer se tornar como ele? Eu sou apenas a foto do jornal semanal, não passo de um cara bom em boxe e ruim em sentimentos. É isso que quer que eu diga?

Não me levantei, não conseguiria me segurar se caso levantasse e tentasse encará-lo.

— Eu vou voltar, não quero continuar falando nesse assunto.

E antes que Chanyeol se afastasse completamente, me deixando sozinho no meio da rua, gritei para suas costas:

— Mas foi você quem começou com isso.

Ele não se virou nem respondeu. Talvez por todo aquele tempo estivesse tentando segurar as consequências do que havia dito. Dito para mim, para Kris e para o mundo.

A raiva me tomou de tal forma que quando percebi já estava correndo pelas ruas, em busca do primeiro passo. Voltei horas depois até o salão, sentindo dores pelo meu corpo inteiro e com a respiração desregulada.

Tudo estava uma total desordem, não apenas meus pensamentos, mas também Chanyeol que se encontrava num canto qualquer do lugar, rodeado com garrafas de bebida alcoólica.

Sorri antes de entrar e quando tentei dar outro passo, meu corpo falhou e fui diretamente ao chão, caindo por conta da fadiga.

O lutador correu ao meu encontro e só tive tempo de fazê-lo uma única pergunta, antes de apagar completamente.

— O primeiro passo, qual é? — questionei.

E tudo se tornou escuridão.

Abri os olhos e senti meu corpo dentro da banheira, apenas minha cabeça de fora enquanto eu percebia que minha nudez estava aparente. Vi-me envolto da água morna e o único pensamento que me acertou foi o suficiente para apertar meu corpo sobre a banheira e buscar a solução mais rápida para todos os meus problemas.

Não prenderia a respiração, deixaria meus últimos suspiros saírem livres, além do mais, o que eu estaria perdendo fazendo aquilo? O boxe? Meu pai? A Coreia? Tudo me pinicava, tirava meus sentidos e mexia com toda minha mente, por que eu não teria o direito de fazer o mesmo? Perder a cabeça não parecia ser uma opção tão improvável assim.

Seria simples, rápido e indolor. Dane-se cartas de despedida, ninguém te certifica quando você nasce pelo que precisa passar nessa terra e ainda assim, continuamos persistindo. Não precisaria de objetos cortantes ou uma mira boa, eu apenas mergulharia no silêncio e no desespero. Mas bem, quem não se desespera em algum momento da vida?

— Nada disso. — A voz ordenou assim que percebeu minha cabeça ameaçando submergir na banheira.

Arregalei os olhos, percebendo que conhecia aquela voz grave de algum lugar.

— Eu não te carreguei da porta até aqui, quase quebrando minha costela, pra você se matar assim.

Continuei sem reação.

— Sim, eu tirei suas roupas. — completou e eu entreabri a boca, espantado.

— Você o que? — questionei ao lutador, levantando-me de supetão e o encarando.

Chanyeol estava recostado na parede, me assistindo de longe com sua reação séria.

— Sabia que você é muito atraente com os cabelos molhados, Baekhyun?

Pisquei rápido. Eu não estava ouvindo aquilo, não podia estar, ou...

— Está bêbado, Chanyeol?

— Talvez um pouco, mas continuo bom de visão. — Sorriu largo e cambaleou em minha direção.

Conforme se aproximava, me encolhi para que ele não acabasse vendo coisas mais do que eu gostaria.

— Não olhe. — O adverti e o boxeador se agachou, sentando-se ao lado da banheira.

— Você correu mesmo por mais de uma hora?

Sorri ao vê-lo fechar os olhos com dificuldade e olhar para o outro lado, como se estivesse vendo dois de mim em sua frente.

— Eu acho que sim. — Admiti.

— Eu não tinha falado sério, você é burro ou o que?

— Qual é o passo um? Você prometeu.

Chanyeol bufou, virou-se em minha direção e cruzou as pernas, me fitando.

— Passo número um: o mande ir se foder.

Acabei rindo, do que ele estava falando? Não era como se fazendo isso, eu conseguisse vomitar os sentimentos de meu peito.

— Pode parecer bobagem, mas se tentar fazer isso, vai ver que sairá um alívio de você.

— E o segundo passo?

Chanyeol se mostrou pensativo. Eu estava louco ou ele estava inventando aqueles conselhos na hora? Idiota!

— Beba, acho que não preciso nem explicar o motivo. A bebida sempre resolve tudo.

Sorri.

— Não resolve não, quantos de mim está vendo agora?

— Dois. Ah, não, espera! — Se mostrou agitado. — Aquilo é o armário.

Gargalhei de sua confusão mental.

— É que ele é baixinho igual você.

Meu sorriso se desmanchou e eu comecei a jogar água no rosto de Chanyeol que ria de minha atitude irritada.

Sem perceber, já estávamos a longos minutos no banheiro, conversando sobre coisas sem importância, mas que nos lábios de Chanyeol pareciam como filosofias baratas daqueles bêbados que encontramos no meio da rua, gritando absurdos.

Ele era caótico quando sóbrio, mas hilário quando bêbado.

Contentei-me em vestir umas das roupas que Chanyeol possuía e praticamente o enchi de socos quando o peguei rindo das mangas maiores que meus braços e da calça esbarrando pelo chão.

— Eu não tenho culpa se você não tem o hábito de crescer muito.

Voltei até a cama onde Chanyeol estava deitado, puxei o travesseiro que estava abaixo dele e comecei a golpeá-lo.

— Ta' vendo esse golpe? Eu o chamo de chuva-de-travesseiradas-em-idiotas — O bati na barriga e ele continuou rindo. —, se insistir em fazer piadinhas sem graça de novo, eu o usarei apenas com você.

O boxeador girou o corpo para o lado e me puxou, fazendo-me ficar abaixo dele, com meu corpo totalmente entregue a si.

— Uau! — resmunguei assim que me dei conta de que de pé, eu passei para alguém deitado sobre a cama — Como você fez isso? Eu nem senti.

Chanyeol sorriu satisfeito.

— Eu chamo esse golpe de nunca-ouse-bater-em-Chanyeol-o-grande.

Cerrei os olhos, discordando mentalmente.

— Convencido idiota. — Sorri simplista.

Dei-me conta de que os segundos martelavam no relógio pendurado no alto do salão, assim que o olhar de Chanyeol desceu para meus lábios, enquanto este engoliu seco.

— Ei?

Chanyeol pareceu tomar um susto, acordando de algum tipo de hipnose.

— O que... o que foi? Eu fiz algo?

Dei um meio sorriso.

— Qual é o terceiro passo?

— Terceiro passo do que? — Senti sua respiração em meio ás palavras me atingirem, provando o nível de sua proximidade.

— O terceiro passo de como esquecer Sehun. — Pisquei calmo.

— Ah! Como esquecer o Sehun. — Repetiu.

— Isso, como esquecê-lo.

Chanyeol ficou em silêncio.

— Você não sabe. — Julguei sem me importar com a expressão séria do boxeador.

— Passo três: a forma mais rápida... — Pausou, engolindo seco. — de se esquecer alguém é se apaixonando de novo.

Meu sorriso escorregou ao ouvi-lo dizer tais palavras. Se apaixonar não parecia com uma alternativa em minha mente, sempre idealizei Sehun como o centro de tudo, sem olhar para outras direções, perdendo-me naquele caminho lotado de pedras e placas advertindo para que eu parasse enquanto ainda havia volta. Mas quando Chanyeol se aproximou de meus lábios e fechou os olhos lentamente, eu idealizei outros caminhos, outras lágrimas, outros arrependimentos, outras lembranças, outra forma de amar e não ser amado, de se magoar e repetir tudo de novo. De tentar outra vez, quebrar a cara e rir de mim mesmo por ser tão persistente.

Eu pensei que daria tempo o suficiente de empurrá-lo para longe e dizer que não queria aquilo, mas quando seus lábios tocaram os meus, eu tive que confessar que acabei me entregando ao selar suave que depositou em minha boca. Pensei também, que Chanyeol acabaria se aproveitando daquele momento para aprofundar os toques, mas acabou não passando de um selar delicado, pois seu corpo caiu para o meu lado me fazendo perceber que Chanyeol era mais fraco para bebida do que eu imaginava.

Fitei sua expressão serena dormindo e fiquei irritado com o fato dele ter mexido com minhas reações e se entregado a bebida tão facilmente.

— Você me paga. — O empurrei pelo ombro e ele puxou meu braço, abraçando contra seu peito, resmungando palavras que misturavam sua boa fluência em alemão e seu próprio idioma.

Ri soprado e deitei ao seu lado, o admirando. Os fios avermelhados ficavam atraentes até mesmo mesclados ao suor e seu lápis preto continuava borrado como todos os dias, sem atrapalhar a bela aparência que possuía. Um pouco abaixo de seu pescoço, na entrada de sua camiseta, detectei a tatuagem de uma flor de lótus, me deixando curioso em admirar o resto dos desenhos espalhados por aquele corpo. Mas, infelizmente, por conta do clima sempre seco daquela cidade e de seu gosto por moletons ou jaquetas de couro, eu não tinha muita oportunidade de prestar atenção em cada detalhe.

Ele dormiu durante horas e eu acabei fazendo o mesmo. Voltar para casa parecia ser a última coisa que eu escolheria fazer naquele instante. Tudo naquele lugar passou a se tornar mais interessante do que meu quarto sem graça. Inclusive Chanyeol.

Quando acordei, percebi que já era noite e ao meu lado, havia vazio no lugar onde momentos antes, Chanyeol dormia profundamente. Quando levantei metade do meu corpo, ficando sentado na cama, avistei o lutador recostado sobre as cordas do ringue, me fitando de longe. Ele estava sério, o mesmo sóbrio chato de sempre.

— Acordou?

— É o que parece, certo? — Chanyeol não achou graça e eu continuei. — Por que está me olhando assim? Parece até que eu cometi um crime.

— Por que me beijou?

Engoli seco, piscando, sem jeito.

— Quem me beijou foi você.

Chanyeol bufou, passou os dedos sobre o cabelo, tentando colocar os fios vermelhos para trás, mas os rebeldes acabaram voltando em sua visão.

— Aquilo foi um erro. Um erro, ouviu? — Me apontou com o dedo indicador e eu não ousei dizê-lo nada, afinal, assim como todos que Chanyeol havia dito que estavam cansados de palavras, eu estava começando a crer que eu também acabaria sendo mais um deles no final.

— Um erro. — Repeti, como se quisesse dizer aquilo ao meu próprio coração.

Por que tão rápido? Tão fácil? Tão entregue?

Chanyeol resmungou algo para si mesmo. Eu não estava entendendo. Eu nunca entendia nada.

— Dez anos, entende? — disse, me encarando — Não é um ano, dois ou três, são dez anos. Eu sou seu treinador de boxe, não o seu amigo, nem seu namorado. Relações com menores de idade nesse país é crime. Eu...

— Eu entendi, Chanyeol. — Cortei suas palavras desesperadas. — Vamos fazer de conta que não aconteceu nada, está bem? Você estava bêbado e eu carente, não teria como isso ser de livre espontânea vontade. — Imitei o meu melhor sorriso e ele continuou sério, talvez encarando as palavras que acabou recebendo de um modo não tão satisfatório.

— Sim, claro! — Sorriu, sem graça. — Foi exatamente por causa disso. Eu... eu vou tomar um banho.

Concordei com a cabeça e assisti Chanyeol puxar o moletom para cima, retirando o pano do corpo para logo depois, retirar a camiseta, deixando o abdômen transparecer, dando-me a oportunidade de visualizar detalhadamente o dragão chinês com garras de fora nas cores dourado e preto, no qual o boxeador possuía tatuado em seu peitoral.

Em suas costas, o que mais me chamou atenção foi o desenho que ia de sua nuca até o final da cintura, contendo uma carpa vermelha envolvida por outra carpa negra, preenchida com detalhes em branco e realçando as escamas de ambos os peixes que nadavam pelo azul, imitando ondas.

— Suas carpas são legais. — Admiti em voz alta e Chanyeol me olhou. — Tem algum significado?

— Todas minhas tatuagens têm significado. Essas carpas são o que eu sou.

— Escamoso e fedido?

Chanyeol riu.

— Não, garoto! — Virou-se para que eu pudesse julgá-las. — A cultura japonesa acredita que as carpas atravessavam toda a China para conseguir pôr os seus ovos. Elas superavam tudo e se conseguissem sobreviver, se transformariam num poderoso dragão. Ela simboliza a força em lutar e alcançar seus objetivos. — Apontou com o dedo indicador e bateu contra a carpa vermelha desenhada em sua pele. — Essa vermelha significa amor, coragem e energia para superar os problemas, ela é considerada a mais forte de todas, capaz de superar até mesmo as correntezas mais perigosas.

Entreabri a boca.

— E a preta?

— Triunfo sobre mudanças difíceis, esforço e dedicação. É o que precisamos ter todos os dias, certo? — Se virou novamente para mim, sorrindo de leve.

— Foi por isso que tatuou o dragão chinês no peitoral?

O boxeador balançou a cabeça em positivo e caminhou até o ringue se recostando sobre as cordas e deu um sorriso sacana.

— É claro, eu sou a sabedoria e a força de vontade em pessoa.

Ri da idolatria que o boxeador tinha por isso mesmo e que aparentemente estava de volta.

— Eu sou um gênio, eu sei.

— E muito humilde, também. — Rebati.

Ele desmanchou o sorriso, foi em direção ao banheiro e espichou a língua para mim no caminho.

Fiquei um bom tempo encostado na parede com as pernas esticadas sobre metade da cama, assistindo aqueles programas que mesmo sendo irritantes, eram minhas únicas alternativas naquele momento.

Era bem melhor estar no silêncio daquele lugar do que na mansão Byun que mesmo obtendo qualquer coisa que uma pessoa adoraria ter, não possuía as brigas bobinhas com Chanyeol que fazia com que meu tempo passasse mais rápido.

Odiava ter que confessar aquilo, mas eu gostava de estar na presença do lutador. Ele não era tão chato quanto eu imaginava, seu passatempo em ironizar tudo a sua volta servia como escapatória, discordava com as regras do mundo e só as seguia quando estava nas lutas com seus adversários. Nos outros momentos de sua vida, ele era apenas um rapaz apaixonado por filmes de luta, corrida de motoqueiros e comida chinesa. E isso não era exatamente um problema, pois estava começando a entender muito bem seu conselho sobre se apaixonar novamente. E não, não era de boxe que eu estava me referindo.

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