UM PONTO DE PARTIDA

By jayroslynn

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Tragédia e perda deixaram Heloyse à deriva, presa em um vazio onde a dor é sua única companhia. Em busca de u... More

Prólogo
Capítulo Um - Mais um adeus
Capítulo Dois - Lembranças
Capítulo Três - Pedaços
Capítulo Quatro - Havia um monstro no meu quarto
Capítulo Cinco - Nossas dores
Capítulo Seis - Uma tempestade dentro de mim
Capítulo Sete - Uma decisão
Aviso
Aviso
Capítulo Oito - Uma direção
Capítulo Nove - Genética maldita
Capítulo Dez - Bem-vindos a Clearwater
Capítulo Onze - Novos dias
Capítulo Doze - O simpático Johnson
Capítulo Treze - O rio
Capítulo Quatorze - Olhos verdes
Aviso
Capítulo Quinze - Fazenda O'Connor
Capítulo Dezesseis - Fazenda White
Capítulo Dezessete - Eu sou um cara mau
Capítulo Dezoito - Mais um Lewis
Olá!
Capítulo Dezenove - Até quando?
Capítulo Vinte - Maldita mulher
Capítulo Vinte Um - O número dezenove
Capítulo Vinte e Dois - Não existe nós
Capítulo Vinte e Três - Eu não sou seu filho
Capítulo Vinte e Quatro - Vazio
Capítulo Vinte e Cinco - Não era amor
Capítulo Vinte e Seis - Um novo começo
Aviso
Capítulo Vinte e Sete - Odeio querer você
Capítulo Vinte e Oito - Além da estrada
Capítulo Vinte e Nove - Se eu fosse você, eu também não me amaria
Capítulo Trinta - Minha fraqueza
Capítulo Trinta e Um - Decepção
Capítulo Trinta e Dois - Quando mergulhamos
Capítulo Trinta e Três - Paredes quebradas
Oi, "pessoar"!
Capítulo Trinta e Quatro - Como um grão de poeira
Capítulo Trinta e Cinco - Um café especial
Capítulo Trinta e Seis - Wallace O'Connor
Capítulo Trinta e Sete - É só o que posso oferecer
Capítulo Trinta e Oito - Eu não estava apaixonado
Capítulo Trinta e Nove - As piores semanas
Capítulo Quarenta - Um tempo só nosso
Capítulo Quarenta e Dois - Inflamáveis
Capítulo Quarenta e Três - Raio de sol
Rankings ❤️
Capítulo Quarenta e Quatro - Me ajude a recordar
Capítulo Quarenta e Cinco - Não seja teimoso, Thom
Capítulo Quarenta e Seis - Um ponto de partida
Capítulo Quarenta e Sete - Outro adeus
Capítulo Quarenta e Oito - Você estará lá para dizer o quanto você sente
Reta Final e Porque Gosto de escrever
Capítulo Quarenta e Nove - Não tanto quanto eu
Capítulo Cinquenta - O inesperado
Capítulo Cinquenta e Um - Um adeus para quem não conheci
Capítulo Cinquenta e Dois - "Você causa dor"
Capítulo Cinquenta e três - A última vez
Capítulo Cinquenta e Quatro - Foi a melhor coisa que eu fiz
Aviso
Aviso
Capítulo Cinquenta e Cinco - A despedida silenciosa
Capítulo Cinquenta e Seis - Cômodos vazios
Capítulo Cinquenta e Sete - Pássaro ferido
Capítulo Cinquenta e Oito- Estudo de um céu nublado
Capítulo Cinquenta e Nove- Às vezes, o amor não é suficiente
Capítulo Sessenta - A cor em volta do sol
Capítulo Sessenta e Um- Continue andando
Capítulo Sessenta e Dois - Uma surpresa
Capítulo Sessenta e Três - Não sou como eles
Capitulo Sessenta e Dois - Uma sombra ao entardecer
Capítulo Sessenta e Três - Eu deveria...
Capítulo Sessenta e Quatro - Ainda existe fogo
Capítulo Sessenta e Cinco- Um pequeno mal entendido
Aviso
Aviso
Capítulo Sessenta e Seis - Uma incrível mudança
Capítulo Sessenta e Sete - Não há nuvens acima de nós
Epílogo
Preciso dizer:

Capítulo Quarenta e Um - Pessoas tristes gostam da chuva

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By jayroslynn

Heloyse

— Chegamos! — disse Will, chamando minha atenção para o lugar
Ele desceu da caminhonete e abriu um grande portão. Do lado esquerdo, um enorme morro seguia a frente, fazendo uma curva.
Depois que a caminhonete já havia passado a porteira, Will desceu e a fechou. Contornamos a curva, por uma estrada de pedras. Do lado direito, uma descida repleta de lavandas que variavam do roxo ao lilás. E mais a diante, eu pude ver o grande rio que embelezava a paisagem. Ao final da estrada, paramos em frente a um chalé tão aconchegante quanto aqueles que vemos em filmes.
Will ficou parado olhando para a casa por um tempo, depois olhou para mim.
— Isso é lindo, Will.
— Que bom que gostou. Espere para ver o resto.
Ele desceu, deu a volta e abriu a porta da caminhonete pra mim. Tiramos nossas coisas e levamos para dentro do chalé.
O chalé tinha móveis de madeira escura. Tudo muito limpo. Era óbvio que alguém havia ido tirar o pó, horas antes.
Enquanto Will levava a caminhonete para o fundo, eu fui observar os outros cômodos. O primeiro espaço era a sala de estar. Um sofá em "L", caramelo ficava mais a frente. Uma poltrona ficava próxima a uma lareira revestida de pedras. As paredes laterais próximas à lareira eram metade de vidro, coberta por enormes cortinas brancas rendadas, a outra metade, era de madeira como todo o chalé.
Em cima da lareira, um violão de madeira castanha estava posicionado em vertical. No meio da sala, uma mesa de centro escura e um tapete. Esta parte era separada de outra sala, por uma escada que levava aos quartos.
Já esta outra sala, tinha um sofá de couro preto, com várias almofadas e ficava em frente a uma estante, com TV e livros. Alguns quadros na parede, tapetes com cores terrosas assim como a decoração. Um banheiro social, mais a frente, uma mesa de jantar com um lindo jarro de lírios. Eram tão bem feitos que cheguei a pensar que realmente fossem de verdade.
Eu segui por uma porta de vidro onde ficava a cozinha. Os armários eram também de madeira. A geladeira de duas portas, o fogão espelhado e a TV, eram os únicos objetos que quebravam o ar rústico daquele lugar.
Eu subi as escadas e no final, me deparei com uma pequena sala de TV e janelões com cortinas. Um janelão era de frente para a entrada principal e o outro para o fundo. Nas laterais da sala, havia portas. Com certeza eram os quartos.
Eu abri a porta que ficava do lado esquerdo. O quarto era muito arrumado. Os forros de cama eram brancos assim como as cortinas. Também tinha um pequeno banheiro com toalhas de tom bordô. A janela ficava na lateral do chalé. De lá dava para ver onde começava a grande descida até o portão.
Depois, eu fui até o outro quarto. Esse era muito mais lindo. A roupa de cama era tão branca que dava dó deitar-se sobre ela. No final da cama, tinha um sofá de cor preta com três almofadas, também escuras. Um tapete branco tão macio quanto algodão. O banheiro era pequeno, porém, maior do que o do outro quarto. Havia uma banheira e cheirava tão bem.
Abri a porta francesa e fiquei sem palavras com o que vi. A vista dava direto para o rio. Eu podia ver mais a frente, flores iguais as da entrada. Ao longe, montanhas pareciam pinturas.
O deque tinha uma mesa no centro com duas cadeiras. Eram de madeiras também, com um lindo vaso de cordas trançadas e flores brancas, que como o lírio, não eram de verdade.
Mais à frente, um sofá em "l", com detalhes de corda traçada e almofadas estampadas.
Tudo era tão lindo, mas, nada se comparava com aquela vista.
Eu me distraí por um tempo olhando-a, que nem percebi que ele estava atrás de mim.
— Eu costumava vir aqui com meu avô.
Eu tive um leve susto, de qualquer forma não olhei para trás. Continuei olhando a paisagem.
— É lindo. Você devia adorar vir aqui.
— Sim, eu gostava. Depois que ele morreu, eu não coloquei mais os pés aqui.
— Quem vem arrumar? — eu perguntei, me virando para ele.
— Tenho funcionários aqui. A propriedade é grande e ainda faz parte da minha fazenda. Eles moram a alguns minutos de distância. É uma família de seis pessoas. Hoje de manhã eu liguei pedindo que limpassem o chalé.
—Fizeram um bom trabalho.
— Fizeram. Já olhou todo o chalé?
— Sim, eu olhei.
— Você quer comer?
Eu assenti. Ele sorriu e depois olhou para o lado, evitando meu olhar.
— Will, eu realmente gostei de ter vindo, mas, não significa que depois do que aconteceu hoje, eu vou aceitar o que me propôs...
— Podemos não falar sobre isso? Pelo menos enquanto estivermos aqui?
— Tudo bem, mas, uma hora, precisaremos.
— Eu sei.
— Ótimo.
— Ótimo — ele repetiu. — O que quer fazer?
— Na verdade, eu queria nadar um pouco, só que eu não trouxe roupa de banho. Como você não me disse para onde iriamos, eu trouxe roupas comuns.
— Você pode nadar de sutiã e...
— Nem pense nisso. Eu coloco um short.
— Tudo bem. Eu só queria ajudar.
Ele deu um sorriso malicioso e ao mesmo tempo tão lindo que senti o impulso de beijá-lo.
Minhas mãos foram ao seu rosto, enquanto as dele, deram sinal de vida em minhas costas. O beijo foi se intensificando e depois de uns segundos, eu senti minhas costas se encostarem à porta de vidro.
O sangue pulsava freneticamente em nossas veias. Meu coração estava tão acelerado como se eu estivesse correndo por horas. Eu gemi quando seus lábios beijaram meu pescoço e suas mãos invadiram dentro da minha blusa, acariciando minha barriga.
— Pare, Will! — eu o empurrei.
— O que houve?
— Nada. Eu só acho que deveríamos passar o dia, aproveitando o lugar. Você não acha?
— Não — ele disse rindo.
Eu ri e o empurrei de novo, me livrando dele. Will pegou em minha mão e juntos, entramos para o quarto
— Suas coisas estão aqui. Se quiser trocar de roupa, fique à vontade. Eu irei lá embaixo preparar algo para comer.
— Ok!
Ele assentiu e desceu as escadas.

***

Eu estava em meu short jeans, um top e sem chinelos. Fiz um rabo de cavalo e desci.
— Que cheiro bom, Will. O que é?
— Eva preparou chili com carne, bifes, purê de batatas, batatas com queijo, panquecas e torta de maçã
— Isso parece bom.
— É sim! Eu disse a ela que compraríamos nossa comida, o problema é que ela é teimosa.
— Ela é amável.
— Sim. Isso também.
Comemos em silêncio. Já nem me surpreendia. O silêncio era algo normal para alguém que vivia em torno dos seus segredos.
Tempo depois, estávamos no rio.
— Você não vai entrar na água? — ele perguntou
— Eu não sei. Parece estar gelada.
— Você devia aproveitar, já que não há uma placa proibindo você a nadar.
— Ha-há, idiota! Agora eu não entro mesmo.
— Tudo bem, senhorita. Você que pediu!
Will saiu da água e correu em minha direção. Eu corria e dava risada. Eu sabia que ele iria me alcançar, era questão de tempo.
— Me solta, Will!
O pedido foi inútil. Will me pegou no colo e me jogou na água.
— Seu idiota, imbecil! — eu gritei quando senti a água gelada na minha pele. — Você tem problemas? Eu vou matar você...
De repente, toda minha raiva passou. Eu olhei para ele e vi algo que eu queria poder guardar na minha cabeça o resto da vida: Will estava dando gargalhada.
Aquele rosto cansado deu lugar a um rosto jovem e alegre. O som da sua gargalhada era algo tão gostoso de ouvir, que tive que parar para escutá-la. Will corou um pouco e depois, ficou olhando para o lado sem jeito.
Meu Deus! Ele parecia um garoto de quinze anos.
Eu não podia quebrar aquele momento. Então, de onde eu estava, eu iniciei uma guerra de água.
Jogávamos água um no outro, outra hora, eu corria para que ele não me pegasse. Entre risadas e gritos, surgiam beijos. E entre toda a beleza daquele lugar, havia Will. Ele era tão bonito sorrindo que tudo a sua volta se tornava simples e sem vida. Mesmo aquela paisagem.
— Ok, você venceu, Will!
— Você ainda não falou!
— Então me solta! — eu disse rindo e cansada ao mesmo tempo enquanto ele fazia cocegas em mim.
— Não até você falar.
— Tudo bem! Eu prometo nunca mais jogar água em você.
— E o que mais?
— Nunca vou jogar água em você, oh bonitão dos bonitões.
— Isso me pareceu falso.
— Não, não é! Não mesmo!
Ele me soltou ainda rindo. Eu fiquei tentando recuperar o folego.
Assim que Will deu as costas, eu pulei em cima dele.  Eu nunca havia dado tanta risada na minha vida. Minha barriga doía como se eu tivesse levado um soco. E sim, aquilo era bom.
Ficamos parados olhando um para o outro enquanto recuperávamos o controle de nossas respirações. Então, o ar foi modificando. Já não se ouvia risadas, nem o som da água. Só havia nós. Ele se aproximou e acariciou meu rosto. Eu senti toda minha pele se arrepiar.
Minha mente dizia "é só por hoje".
Eu tinha medo de se repetir tudo novamente. Medo de que, quando voltássemos, ele já não quisesse mais estar comigo.
Mas eu não pensaria sobre isso. Eu estaria disposta a ter mais alguns momentos com ele.
— Estar com você é tão bom, Heloyse. É como se eu me recordasse de como é ser feliz.
Minha nossa... Isso doeu no meu coração.
Eu o abracei tão forte que nem liguei se estava machucando-o.
— Eu sinto muito, Will.
— Pelo quê?
— Por tudo o que aconteceu com você. Eu não sei o que o fez tão triste, mas, se eu pudesse, eu tiraria toda essa dor de você.
Ele me tirou do abraço para olhar em meu rosto.
— E se eu pudesse, também tiraria de você a dor que você carrega, raio de sol. Eu queria ser suficiente pra você.
— Mas você é! Você é, Will. É mais do que suficiente. É um homem maravilhoso. E mesmo quando eu dizia para mim mesma que você não era bom, eu no fundo, sabia que você era... Will, eu te...
— Não! — ele se afastou um pouco.
Passou as mãos nos cabelos molhados e deu as costas.
— Preciso tomar alguma coisa.
Então, Will se afastou de mim.
A água parecia muito mais gelada do que quando entrei. Eu o vi indo para o chalé sem ao menos olhar pra trás. Saí da água e me enrolei na toalha, lutando contra a vontade de chorar.

***

Will não estava na parte de baixo do chalé. Eu subi a escada rapidamente e fui até o quarto onde estavam minhas coisas, mas, ele também não estava. Então, vi a porta do outro quarto, fechada. Eu me aproximei e girei a maçaneta que estava trancada.
Will não queria me ver.
Eu tomei um banho, troquei de roupa e desci. O dia parecia que ia ser como o dia anterior. Muito sol e chuva à noite. Acabei acertando.
Acordei com a música de um comercial que passava na TV. Eu havia dormido no sofá.
Pela pequena parede de vidro, pude ver que já era noite e os pingos de chuva, não eram tão fortes.
Olhei para o lado e o vi. Will estava parado na escuridão do chalé.
Eu me levantei e acendi a luz.
Seus pés estavam descalços e ele vestia apenas uma bermuda. Senti seu cheiro limpo e vi que ele tinha tomado banho e os cabelos estavam molhados.
— Você está aí — eu disse sorrindo.
Ele continuou calado.
Ficamos parados até que me movi e me sentei no sofá.
Segundos depois, ele fez o mesmo.
O som da chuva aumentou e a casa se tornou fria.
Will se levantou e foi até a lareira. Eu desliguei a televisão e fui para a sala onde a lareira ficava.
— Eu gosto do som da chuva — foi o que ele disse enquanto acendia a lareira.
— Eu também.
Ele me olhou rapidamente e voltou ao que estava fazendo.
— Minha mãe dizia que pessoas tristes gostam da chuva. Assim elas não precisariam chorar sozinhas — comentou.
— Ela estava certa — eu disse.
Eu esperei que ele falasse algo mais, porém, não disse uma palavra se quer. E assim, ficamos por longos minutos.
— O que adianta estarmos em um lugar tão lindo como esse, se nosso estado de espírito é tão triste, Will? É o mesmo que ver um arco-íris e só enxergar cinza.
Ele não disse nada. Então me levantei e resolvi deixá-lo sozinho. A sua voz me parou.
— Eu já desejei nunca ter nascido... Ou ao menos não estar vivo.
Eu me virei e ele estava sentado no tapete, de frente com a lareira. O rosto brilhava com a luz da chama. Me aproximei e sentei um pouco longe dele.
— Eu sei como é isso, acredite.
— Você fala isso pelo otário que a deixou?
— Não. Não doeu tanto ter perdido quem eu achava que amava. Doeu saber que eu nunca fui o amor dele. Só que isso, um dia a gente supera. Mas, o fato de meu irmão e meus pais terem morrido, acabou comigo. Isso, eu não superei. Eu me senti tão solitária que por muitas vezes, perguntei a Deus porque eu nasci se eu teria que ficar sozinha. Então, tinha o Michael. Ele me ajudava a superar. E depois do que aconteceu, eu me vi sozinha novamente e a vontade de viver foi indo embora. Eu olhava para os lados, para a minha casa e não havia ninguém nela. Ninguém que eu poderia ligar e dizer "eu te amo".
— Mas, quando seus pais eram vivos, você era feliz. Isso importa, não é?
— Sim! Eu fui feliz. Infelizmente, todo mundo que eu amo, em algum momento vai embora. Eu acho que estou começando a me acostumar com isso.
— Comigo também é assim. Todos se vão. E eu poderia dizer que você tem a mim, mas, eu seria uma dessas pessoas que vão embora, em algum momento.
"Não seja cruel comigo Will", pensei.
Ele me olhou e percebeu a tristeza que suas palavras me causaram.
— Eu não quis dizer que... É só que, eu sou daquele tipo de pessoas que os outros não suportam por muito tempo. Sou terrivelmente mal-humorado, complicado, estranho... — ele disse sorrindo.
— Isso não é motivo para se afastarem de você.
— Eu sou estranho, Heloyse, de muitas maneiras. Uma hora ou outra eu vou acabar fazendo merda. Eu não quero isso. Sempre estrago tudo. Eu não aguentaria fazer isso com você. Eu sou como meu avô e meu pai. É como uma maldição.
— Eu não sei o que eles fizeram, só sei que você não é uma pessoa ruim, Will. Só é triste.
— Talvez eu não seja nem feliz, nem triste — ele finalizou com um sorriso sem graça.
O cabelo iluminado pela chama o tornava tão bonito e por incrível que pareça, até seu rosto triste era belo.
Eu queria consolá-lo. Como, se eu era outra alma quebrada? O que eu podia dizer a ele? Éramos duas pessoas no poço, lutando para chegar à superfície.
— Quando meu pai me batia, eu me perguntava por que apesar de tudo, eu o amava. Eu amava meu pai, Lisy, mesmo quando ele me batia. Mesmo quando minha boca sangrava e meus dentes doíam. E eu sempre repetia que o odiava, mesmo sabendo que não era verdade. Com o tempo, eu deixei de amá-lo. Eu passei a vê-lo com outros olhos. E quando minha mãe morreu, eu queria que tivesse sido ele e não ela. E quando ele morreu, doeu tanto, mesmo que minutos antes, eu tenha tentado matá-lo. E todas aquelas palavras, ainda estão na minha cabeça. "Genética maldita", "infeliz", "miserável", "malditos Lewis", "sua culpa", "você causa dor", "você também machuca", "coitada das mulheres... Você nasceu para machucá-las"... Estão todas aqui — ele apontou para sua cabeça —, na minha maldita mente. E eu odeio a palavra "pai". Por isso nunca chamei Calvin ou Wallace dessa forma. E naquele dia que você estava na fazenda e eu disse ao Calvin que eu não era o seu filho, eu o machuquei. Eu sempre machuco alguém. Penso que talvez, se eu não tomar cuidado, eu posso ser como meu pai. E quando me lembro daquele maldito, as minhas mãos tremem e ficam molhadas de suor — ele mostrou a palmas de suas mãos. — Parece que eu vou morrer a qualquer hora, porque o peso nas minhas costas está tão grande, que não sei se vou aguentar.
Ele dobrou as pernas e abaixou o rosto.
E, naquele momento, eu fui apresentada à tristeza de William O'Connor, enquanto uma tempestade desabava lá fora.

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