Ana POV
-Entra.
Abri a porta para que Mike passasse. Passei o dia inteiro tentando me concentrar e escolher as músicas que cantaria no restaurante. Mas aquela maldita conversa não saia da minha cabeça, e tudo o que eu queria era acabar logo com aquilo.
-Quer alguma coisa?
-Não, estou bem. Obrigado.
Maicon parecia nervoso. Caminhou até a sala, sem olhar no meu rosto, com as mãos nos bolsos da calça. Parecia que não tinha dormido por uma semana, e que assim como eu, não parara de pensar naquela conversa. Me sentia incomodada pelo modo engessado como estávamos nos tratando, mas não tinha nada que eu pudesse fazer.
Sim, eu sabia que provavelmente aquilo significava um término, mas não podia dizer que estava arrasada com aquela situação. Sempre fui muito romântica, porém não era cega: aquele relacionamento andava de mal a pior. Mike sempre fora meu amigo, antes mesmo de começarmos a namorar, então esperava que uma amizade sólida e sincera entre nós se mantivesse depois que decretássemos o fim. Queria que ele estivesse por perto, e me apoiasse como sempre fez. Eu estaria para ele se quisesse minha amizade, e faria o possível para vê-lo feliz. Nosso namoro não daria mais certo, mas ainda podíamos seguir juntos.
-Ana, eu...eu não sei como começar isso...-ele disse assim que me sentei ao seu lado no sofá. Evitava olhar em meus olhos.
-Que tal se nós formos sinceros, como sempre fomos?- Mike olhava para o chão, e isso já estava me irritando. Tudo bem que aquela situação era incômoda, mas nós dois sabíamos muito bem aonde aquilo terminaria. O melhor a se fazer era terminar nosso relacionamento de forma madura e sensata, e conservar uma sólida amizade.
-Ok. Acho que é melhor dizer de uma vez. -ele suspirou, e esfregou os olhos. Se ajeitou no sofá, provavelmente escolhendo as melhores palavras, toda essa tensão me deixando maluca- Eu estou com a Michelle.
Pisquei algumas vezes, sem acreditar no que tinha escutado. Eu me lembrava daquela mulher: tinha olhos castanhos escuros e cabelos loiros, pele clara, alta e parecia pensar que era dona do mundo, pelo jeito como conversava com as pessoas. Mike havia me apresentado Michelle certa vez, numa festa em que fomos juntos. Percebi que a mulher estava se insinuando para ele, mas não me importei. Meu namorado nunca havia me dado motivos para desconfiar de suas ações.
Até agora.
-Há quanto tempo?- minhas palavras saíram em um sussurro, mas eu sabia que ele tinha escutado. Minha mente estava em um turbilhão, com toda certeza eu não esperava por isso. Se tinha uma coisa que eu prezava em um relacionamento, era a fidelidade. Até aquele momento eu estava triste por saber que nosso relacionamento estava perto do fim, mas agora, podia sentir o sangue ferver em minhas veias de ódio.
-Três meses.
Me levantei de uma só vez, tendo certeza de que se continuasse sentada ao seu lado, teria metido um soco na cara dele.
-TRÊS MESES, MIKE? VOCÊ TÁ ME TRAINDO TEM TRÊS MESES?- comecei a gritar tomada pela raiva. Mike apenas arregalou os olhos, visivelmente impactado com a minha reação. Nunca havíamos gritado um com o outro, apesar de nossas brigas. Tínhamos um namoro estável e tranquilo. Ele ia me visitar na minha cidade sempre que podia, e quando dava, eu também passava uns tempos na sua casa. Uma traição nunca tinha passado pela minha cabeça, afinal de contas, já namorávamos a dois anos, e eu confiava plenamente nele.
Eu andava de um lado para o outro da sala, tentando compreender o que estava acontecendo. Parte de mim queria expulsá-lo logo da minha casa e nunca mais voltar a vê-lo. A outra parte, me fazia questionar se eu tinha o direito de estar tão irritada, afinal de contas, até minutos atrás, eu estava disposta a terminar com ele. Esses dois lados estavam me deixando cada vez mais confusa. O que estava desmoronando nos meus pés era a única coisa que havia restado daquela relação: nossas lembranças. Tudo que havíamos vivenciado e construído juntos, me parecia uma tremenda mentira agora. Todo o tempo que passamos juntos, os sonhos que compartilhamos, os beijos, os sorrisos..., pareciam não significar nada , tinham virado pó. Talvez eu estivesse sendo dramática demais, mas eu sempre acreditei no amor. E agora, ele estava sendo destruído também.
Depois de uns segundos, Mike se levantou, mas não chegou muito perto de mim. Melhor, eu ainda queria socá-lo.
-Eu não sabia como te contar Aninha...
Seu tom de voz era calmo, como se eu fosse uma louca que estava tendo um ataque, e isso só serviu para me deixar ainda mais puta. Aparentemente, ele queria que eu entendesse tudo aquilo de uma só vez, engolisse tudo e fingisse que nada tinha acontecido. Mas eu simplesmente não podia fazer isso. Ele me prendeu em um namoro em que nem ele mesmo acreditava, e deixou que eu criasse expectativas sobre nosso futuro juntos.
-VAI SE FUDER, MIKE!- cuspi essas palavras com nojo. Na minha cabeça, um filme passava:quantas vezes ele não devia ter me traído? E todos os 'eu te amo' que ele havia me dito? Eu era muito estúpida mesmo, por ter acreditado e mantido por tanto tempo um relacionamento como aquele.- É por isso que tu não queria que eu me mudasse, não é? Isso estragou tudo pra você,não foi?
Olhei bem no fundo dos seus olhos, e mesmo com o seu silêncio, fui capaz de entender. Eu tinha me mudado fazia um mês. Ele não planejava terminar comigo para ficar com essa Michelle, mas foi obrigado a fazê-lo quando saí da minha cidade. Manteve aquela farsa por todo esse tempo, sem se importar minimamente com o que eu estaria sentindo. Não me apoiou na minha maior decisão:viver de música. Não esteve ao meu lado no primeiro show, nem me ajudou na mudança. Na verdade, desde que eu havia me mudado, era sempre eu quem o procurava, ligando, mandando mensagens ou indo até sua casa, onde raramente conseguia encontrá-lo. Me sentia tão burra por não ter percebido antes, e meu ódio só fazia crescer.
-Eu me apaixonei, Ana Clara.
-Ah, é? E não pensou nem por um segundo em como EU ficaria nessa história?-apontei o dedo para o meu peito. As lágrimas queimavam os meus olhos, mas eu não chorei. Tinha sido traída por quem eu mais confiava.-Aposto que vocês adoraram, não é? Me fazer de trouxa. Foi ótimo, não foi?
-Para com isso Aninha. Eu sempre te amei, mas isso mudou. Eu ainda quero ser seu amigo.
-Pro inferno com a sua amizade! Eu não quero nada que venha de você. NADA. Se você me amasse tanto quanto diz, nunca teria sequer pensado em me trair.
-Eu não devia ter vindo aqui, Ana Clara! Você tá muito nervosa.
-E como você esperava que eu estivesse, Maicon? Pulando de felicidade? VOCÊ ME TRAIU!
-E vai me dizer que você nunca me traiu? Ah, conta outra, Ana Clara. Morando longe como tu morava.-seus olhos se tornaram ferozes, e eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Ele estava me acusando de tê-lo traído, só para diminuir sua própria culpa.
-Escuta aqui- apontei meu dedo para ele, incapaz de segurar a fúria que se instalava em mim-Nunca mais diga uma coisa dessas sobre mim! Eu não te traí, nem nunca te trairia. Eu sempre fui fiel a você, mesmo com a distância, mas pelo visto, você mal me conhecia.
Mike travou o maxilar, trocando o peso de uma perna para a outra. Eu me sentia exausta, tudo aquilo tinha acabado comigo. Lutava com lágrimas que insistiam em cair, e meu corpo pesava. Só de olhar para a cara de Maicon, tinha vontade de esmurrá-lo. Ele continuou me encarando, avaliando se o que eu disse era verdade.
- Eu duvido muito.-aquilo foi a gota d'água. Eu não suportaria ouvir mais nenhuma palavra que saísse da boca daquele homem.
-Sai da minha casa. AGORA!- apontei furiosa para a porta, cansada de toda aquela situação. Meu ex namorado não disse nada e caminhou até a saída. -Só mais uma coisa Maicon.-disse, quando ele já estava no corredor.- Nunca mais volte a me procurar.
Bati a porta com força, não só para descontar a minha raiva, mas para impedir que uma avalanche de sentimentos recaísse sobre mim. Era melhor lidar com a fúria do que com a tristeza. Mas eu sabia que isso não ia durar, então eu precisava de alguma coisa pra poder esquecer:eu precisava de bebida.
Corri até meu quarto, o sangue no meu corpo ainda queimando e os pensamentos a mil. Troquei de roupa, planejando ficar bêbada o suficiente para não lembrar de Maicon. Peguei minhas chaves e pedi um Uber. Mesmo estando esgotada, eu precisava daquilo. Precisava romper com o que havia restado daquele relacionamento tóxico, pra poder me refazer e seguir em frente. Eu me sentia burra e estúpida, e uma fenda havia sido aberta no meu peito. Não conseguia relacionar aquela traição com o meu namoro, mesmo sabendo que era verdade. Mesmo que estivéssemos terminando, eu ainda nutria carinho e afeto por Mike, mas agora percebia que ele não me amava, e isso acabava comigo. Não é fácil simplesmente deixar de gostar e de querer bem alguém, ainda mais quando se passa tanto tempo junto com essa pessoa. Eu precisaria de tempo para curar aquela ruptura no meu coração.
Desci até a rua correndo, um vento frio bateu contra meu corpo. Entrei no carro, imaginado se iria para uma festa ou para um bar. Talvez eu pudesse tentar me divertir, e deixar aquilo tudo no passado. Eu podia sofrer outro dia, agora precisava afogar tudo aquilo na bebida. Mas antes, precisava encontrar uma companhia.
E eu já sabia muito bem quem procurar.