Os três sentaram-se para comer e fazer planos. Decidiram que o melhor era mesmo se prenderem ao plano de Zeck. Seguirem pelas colinas, pela rota dos altares e evitarem o vale e a maldição o máximo que pudessem. Puseram-se a caminho assim que terminaram de comer e beber das águas de uma nascente ali perto. O próximo altar — aquele que Zeck tinha avistado na outra noite — não estava muito longe dali. Mal chegaram diante dele, e uma labareda do fogo que queimava sobre ele voou e atingiu em cheio o livro que estava na mão de Fleim. Mais do que depressa ele o abriu e ainda pode ver as línguas de fogo escrevendo mais algumas linhas. Zeck e Linda se amontoaram atrás dele enquanto ele lia em voz alta. O novo texto contava de como Adama fora dado um outro filho para ser o herdeiro da promessa do Tratado, e de como os descendentes e os rebelados seguiram caminhos separados por muito tempo.
Aquele foi o ponto de partida para uma jornada que se revelou mais longa do que eles a princípio esperavam, o que proporcionou-lhes uma ótima desculpa para se conhecerem melhor. Zeck contou a Linda e Fleim sobre sua família e a vida em Villa e descobriu que os dois tinham sido criados no centro, próximo ao Monte das Brisas e eram ambos filhos únicos. Os pais de Linda eram professores na Escola Materna e sobre o trabalho de seu pai Fleim não sabia muito, mas sabia que era fascinante.
Não demorou muito também para que notassem que, para sua total surpresa, Adama estava muito bem, obrigado. Mesmo nas mãos de Nasaht. Mesmo com a presença da maldição. Era difícil de dizer que o reino se transformara em um pesadelo a céu aberto. Muito pelo contrário!
Rios cristalinos ainda corriam por entre bosques a perder de vista, árvores carregadas de frutos apetitosos cresciam em encostas de montanhas salpicadas com ouro, prata e pedras mais preciosas do que as que temos aqui e animais aos bandos podiam ser vistos pelos campos e no céu. E o que falar das cidades?!
Do alto das colinas, os três podiam ver prédios construídos com os mais nobres materiais que refletiam a luz do nascer e do pôr do sol, com cúpulas circulares e lustrosas. Eram rodeados por parques e jardins bem cultivados, cobertos de flores e arbustos abarrotados de frutos silvestres de cheiro estonteante. Cidades pequenas ou grandes, projetadas pelos mais brilhantes artífices e arquitetos, dignas de Allakelianos! De onde estavam não dava para dizer que aquele era um reino condenado ao exílio.
Era só quando a noite chegava e as colinas se acendiam com o fogo dos altares, ao mesmo tempo que o vale se enchia com os gritos de júbilo e festa, acompanhados do som da música bem executa por recém inventados instrumentos, que era possível pintar um quadro preciso da situação. Pois com o começo de cada novo dia os cantos e festas dentro das cidades aumentavam enquanto o número de altares acesos diminuía. E era só olhar para dentro do tratado-esfera a cada pôr do sol, para sua luz que ia ficando mais e mais fraca, para saber que aquilo não podia ser bom sinal.
Foi por isso que, em uma noite mais escura do que de costume, quando avistaram aquele último altar em cima daquela última colina, eles correram para lá como se disto dependesse sua própria existência.
Em pouco tempo chegaram no que parecia um círculo formado por altos pilares pontiagudos de mármore e marfim com o altar queimando no meio. Dez colunas que apontavam para o céu como dedos gigantes. Elas logo chamaram a atenção de Fleim que nem se preocupou em se aproximar do altar.
-UAU! Isso tem cheiro de enigma para mim. - Ele disse indo examinar o primeiro pilar. - Vejam,tem algo escrito na base: SETH. Não é o nome de um dos herdeiros?
- Acho que sim. - Disse Zeck dirigindo-se para um outro pilar após certificar-se de que não havia nada de diferente no altar. Já havia visto tantos que o animal sobre ele já não o incomodava. Abaixou-se para ler em sua base o nome ADAMA escrito na língua do livro.
Linda foi analisar os outros pilares. !
- Neste diz ENOSH, e neste outro... Meninos, venham até aqui!!
Os dois foram se juntar à garota que estava parada diante de um dos pilares, apontando.
- Este é diferente dos outros. Mais alto e de outro material. - Ela disse.
- E tem um tipo de pedestal na base. - observou Fleim - Zeck você acha que...
Ele nem precisava falar. Zeck já se abaixava diante da coluna e colocava o tratado sobre o pedestal. A esfera se encaixou perfeitamente e no mesmo instante a coluna iluminou-se como um farol lançando feixes de luz para todos os lados. Um deles atingiu em cheio o livro que estava com Fleim.
Outros atingiram oito dos pilares no meio dos quais surgiu uma nova escritura ao mesmo tempo que uma linha de luz ligou aquele a um outro do outro lado do círculo.
-Acho que entendi! - O rosto de Fleim se iluminou. Ele já estava com o livro aberto analisando ao mesmo tempo o novo conteúdo e os pilares. - Estes é a colina dos descendentes. É uma genealogia!!
- Genealogia? - Zeck levantou uma sobrancelha.
- Sim, você sabe. Quando se faz uma linha de pais e filhos retrocedendo até o primeiro ancestral.
- Fleim parou de frente para o pilar onde se lia ADAMA. - E esses números que apareceram por
último são... - ele consultou o livro e sua empolgação esvaiu-se - o número de anos que eles
tinham quando...
- ... deixaram de existir. - Linda disse com a voz arrastada.
- Eres pó e ao pó tornarás. - Zeck recitou baixinho enquanto caminhava em direção ao pilar
iluminado. Deixar de existir era algo difícil de engolir.
-Aqui diz que Adama viveu 930 anos. Seth viveu 912... Que coisa, nenhum deles chegou à plenitude. - Fleim comentou.
- E este Enoch? Por que o pilar deles é diferente dos outros ?
- Aqui diz que Yadashel o levou - Fleim foi até ele apontando uma linha no livro - Ele está vivo!!
Zeck arregalou os olhos.
- Um Adamenho entre nós?! Eu nunca iria imaginar! Ouviu isso Lin... Linda? - o rapaz virou-se a tempo de ver Linda sumindo atrás de uma das colunas. Fleim não notou, tão entretido que estava em sua análise. Zeck decidiu segui-la.
Ela estava parada de braços cruzados olhando para o horizonte onde as primeiras cores da nova manhã já começavam a despontar. Zeck aproximou-se devagar sem dizer nada. Uma porque não sabia se devia e outra porque o que ele viu o deixou sem fala: uma nuvem de fumaça cor de ferrugem que se estendia por todo o vale como uma colcha, cobrindo inclusive metade da colina onde estavam. Algo que ele esperava ter visto desde o princípio, e agora que finalmente estava ali não tornava as coisas mais lógicas.
- Por que Yadashel não fez nada para impedir isso? - Linda murmurou, sem olhar para ele. Zeck surpreendeu-se por ser ela a perguntar aquilo.
- Essa é uma pergunta que eu venho fazendo desde que pisei aqui.
- Os maus se desenvolvendo e prosperando enquanto os bons são punidos por não se submeterem a Nasaht. E para que, se no final tudo o que resta é um pedaço de pedra com um nome escrito? - A moça virou-se e enxugou uma lágrima que escorria. - Que graça tem viver uma vida que você sabe que vai acabar?
Zeck refletiu um pouco naquilo.
- Talvez seja por isso que ela acabe. Talvez não faça sentido viver para sempre em um mundo infestado por essa coisa grotesca. Eu não estou muito certo mas, pensando por este lado, morrer acaba se tornando algo bom.
- Você acredita mesmo nisso? - Linda o olhou admirada.
- Eu preciso acreditar. - Zeck disse e por alguma razão aquilo fez Linda rir. Uma risada gostosa. Ia dizer mais alguma coisa quando Fleim chegou tropeçando em si mesmo.
- O que houve? - Disse Zeck apanhando o livro que ele deixou cair.
- Eu descobri o que é o objeto que nós vimos no livro - Ele disse afoito. Tinha a cara de quem tinha acabado de ver uma assombração.
- E...? - Zeck o lembrou de continuar.
- É de fato um barco que Yadashel pediu para que o bisneto de Enoch construísse para salvar homens e animais da destruição que elevai trazer sobre os rebelados!
- Então foi isso o que eu vi! - Zeck soltou.
- Como assim? - quis saber Linda, e ele decidiu que era hora de contar para os dois o que vira na Biblioteca um dia antes deles irem para Biblion.
- Eu até que entendi a parte de tentar salvar os herdeiros e punir os rebelados, mas por que será que Yadashel decidiu baní-los de Allakelion? - Linda perguntou no fim. Zeck deu de ombros apesar de ter milhões de teorias sobre aquilo se formando em sua cabeça.
- Acho que isso não importa agora. - Fleim disse - O importante é que nós temos que chegar naquela arca ou senão - sua voz adquiriu um tom sombrio. - nós vamos ser banidos também...
Os três estavam tão aterrorizados com a idéia de serem banidos que esqueceram-se por um instante que eles não eram Adamenhos e, por esse motivo, qualquer tipo de juízo ou punição não se aplicava a eles. Bem, a Fleim e a Linda, porque Zeck ainda não havia tirado da cabeça a idéia de que ele sim talvez fosse banido por ter ido à Fronteira Proibida. O que ele mais temia não era isso, contudo, e sim que algo de ruim acontecesse com Linda por estar com ele. Precisava tirá-la dali o mais rápido possível.
-E quando será isso? - Zeck perguntou.
-Acho que a qualquer momento. Venham ver.
O som crescente do que mais parecia um trovão, vindo de trás deles interrompeu qualquer explicação que Fleim estivesse pronto para dar. Quando viraram viram dois mehlaks passarem voando sobre eles, com uma enorme revoada de pássaros atrás. Em seguida, o chão tremeu com as passadas de animais de todos os tipos e tamanhos, vindos não se sabe de onde, que desceram a colina guiados por um outro grupo de mehlaks. Não restou dúvidas de que era para lá que eles tinham que ir também.
Com o capuz cobrindo a cabeça, Fleim deu o livro para Linda guardar na bolsa e Zeck ajeitou o tratado bem preso junto ao corpo. Estavam prontos para descer ao vale dos rebelados pela primeira vez.
Os primeiros minutos após terem atravessado a espessa nuvem ferruginosa fez com que os três repensassem a idéia de que os rebelados eram prósperos sobre a terra, pois o preço por eles pago pela condescendência com a maldição era claro para todos os que tivessem olhos para ver.
Por trás das casas bonitas e jardins adornados com os mais belos exemplares de plantas escondia-se uma impunidade sem tamanho. A maldade havia crescido de tal forma que os rebelados não podiam sequer ser chamados de Adamenhos, apesar de terem formas humanas.
Sua afeição por Nasath era tão grande que eles criaram estátuas adornadas de pedras preciosas em sua homenagem e as colocaram em templos naturais no meio de bosques e florestas dentro dos quais eles comiam, bebiam e realizavam todos os desejos de suas mentes obscurecidas por dias e dias a fio. Alguns dos mais enlouquecidos chegavam a sacrificar animais em altares, beber seu sangue e comer sua carne. Quanto mais os três viam, mais arrependidos ficavam de terem descido da colina.
- Se eu não soubesse que Yadashel está prestes a dar um jeito nisto, eu mesmo iria pedir para ele fazer alguma coisa. - disse Fleim, completamente horrorizado.
- Talvez tenha sido exatamente o que nossos antepassados fizeram. - Comentou Linda sem ter mais de onde tirar lágrimas.
-E nem sinal do barco. - Zeck acrescentou, contrariado. !
Acontece que, apesar de estarem protegidos pela túnica, a maldição naquela parte estava tão concentrada que eles, desorientados, em pouco tempo se perderam do grupo de animais. E não havia sinal de nenhum mehlak para ajudar. Recusando-se a parar, continuaram procurando mas em vão. Já estavam prestes a desistir quando sentiram uma vibração debaixo de seus pés seguida do som de algo vindo em sua direção.
- São os animais! -Linda vibrou esperançosa.
Logo os donos do barulho apareceram todos de uma vez no campo de visão deles. Centenas e centenas de animais.
- Tem algo errado. É melhor nós sairmos daqui! - Fleim advertiu e os três se puseram a correr antes que os animais os alcançassem. Era boa coisa que eles tivessem crescido em Vernom e que os animais de Adama não fossem tão velozes, pois assim tiveram tempo de sair do bosque e encontrar uma pedra alta, de onde puderam ver as assustadas criaturas passarem se atropelando. Inesperadamente, um leão tão belo quanto aqueles que eles viram no paraíso saltou sobre a pedra onde eles estavam, resmungou alguma coisa e com olhos tristes e cheios de medo foi embora.
- O que ele disse? - Zeck gritou sobre o barulho ensurdecedor.
- Ele queria saber o que ele tinha feito para merecer isto! - Fleim gritou de volta, confuso.
- Merecer o q...
Uma gigantesca bola de fogo brilhante como o sol rasgou o céu, deixando um grande rastro de fumaça negra fazendo todos levantarem os olhos em descrença.
- Tarde demais! - Zeck gemeu e os três saltaram da pedra e começaram a correr com os animais sem sequer pensar.
Em um abrir e fechar de olhos, nuvens pesadas como aquelas na fronteira proibida cobriram o sol. Trovões estremeciam a terra enquanto relâmpagos poderosos chicoteavam a em todas as direções.
- Fleim, o que está escrito no livro sobre tudo isto?S! - Linda perguntou durante a corrida,
quase sem fôlego.
- É a criação em reverso - Fleim falava com dificuldade - um retorno ao Caos!!
- Precisamos encontrar um lugar alto! - Zeck disse entendendo imediatamente o que o outro quis
Uma nova bola de fogo caiu em algum lugar mais próximo levantando um grande cogumelo de fumaça e detritos e fazendo tudo chacoalhar convulsivamente. O terremoto foi tão intenso que a superfície da terra começou a rachar-se com um violento estrondo. Explosões podiam ser ouvidas em todos os lados, tão potentes que cobriam as vozes desesperadas e os gemidos aterrorizados dos animais, e dos homens sobre eles.
Até que, sem aviso, uma chuva torrencial, como milhares de cataratas caiu sobre o vale. Alguns animais, consumidos pelo cansaço acabavam atolando-se nas poças formadas nas frestas da terra. Aves tentavam desesperadamente manter seu vôo, desviando de raios mortais ou de detritos que começaram a cair e se enterrar com força no solo. E no meio a isto tudo, os três jovens tentavam alcançar as colinas. Fleim e Linda lideravam a corrida, com Zeck na retaguarda lutando contra o inexplicável peso de sua roupa encharcada e tendo que desviar de uma enorme pedra que se enterrou pela metade bem na frente dele. Quando já estavam subindo a Colina dos Descendentes, ouviram o barulho ameaçador das muitas águas do rio que haviam rompido seus limites e começavam a invadir todo o vale formando uma piscina de proporções imensuráveis.
- Só mais um pouco! - Fleim gritou, tentando encorajar os amigos para que continuassem. Ele tinha uma forte sensação de que entre os pilares eles estariam seguros. Ledo engano pois quando já estavam próximos ao círculo, um forte jato d'água explodiu do meio dele destruindo os pilares como se fossem feitos de gesso.
Um pedaço de mármore voou e atingiu Zeck no peito, arremesando-o a alguns metros de altura e ele se viu caindo em câmera lenta dentro do recém formado mar. Naqueles pouco mais de dois segundos ele não ouviu Linda e Fleim gritando seu nome, nem o rugir dos elementos em fúria. Ele ouviu sua mãe e Helie cantando um dueto, a risada gostosa de Daiv e a voz de Yadashel.
Um sentimento de vazio o invadiu por inteiro e ele lembrou-se do olhar desolado do leão.
Estendeu o braço diante de si como que tentando segurar uma mão invisível.
- EU NAO QUERO SER BANIDO! - clamou com a alma e imediatamente o medalhão que prendia sua túnica se acendeu com um brilho dourado ao mesmo tempo que grandes asas de águia brotavam de suas costas. Seu corpo deu um rodopio veloz e foi projetado para cima como que usando a superfície raivosa da água como trampolim. Ele não se deu conta do que havia acontecido de pronto, tão preocupado que estava em encontrar Linda e Fleim.
Ficou voando em círculos onde ele julgava ser o local da colina apenas um minuto atrás para ver se os via na água até que ouviu alguém gritar de algum lugar atrás dele. Pularia de alegria se pudesse pois ao virar-se avistou Fleim com suas asas de libélula e Linda com suas asas de borboleta monarca lutando contra o vento para chegar até onde ele estava.
- O que aconteceu?! - Ele perguntou quando eles se aproximaram.
- Eu não sei. - Foi Linda quem respondeu. - De repente tínhamos asas!
- Yadashel... - Zeck sussurrou e seu coração encheu-se de gratidão.
- E lá está o barco pessoal! - Fleim apontou para longe, para um ponto no meio daquele oceano sem praias, que subia e descia pelas gigantescas ondas que mais se assemelhavam a montanhas. Uma coluna de fogo pairava sobre ela na certa para que não fosse destruída pelos elementos.
Zeck não queria nem imaginar a situação de seus tripulantes mas reconhecia que só Yadashel podia guiá-los em segurança por tudo aquilo.
Enquanto voavam em direção à coluna, Zeck ficou imaginando como Adama ficaria depois daquilo tudo. Porque, ao baní-la para longe de Allakelion era como se Yadashel a estivesse recriando em algum outro lugar do Mundo Maior. Será que Fleim e Linda estavam pensando a mesma coisa?!
- NÃAAAAAAAAAAAAAAAAO! - Um urro de puro ódio ecoou por todos os lados e o peito de Zeck ardeu violentamente como se estivesse rasgando. Ele sentiu várias coisas: que perdia os sentidos, as forças, altitude... e dois pares de mãos, desta vez bem visíveis que o agarraram por ambos os braços.
- Não ligue, cara. Ele só está com raiva porque nós somos livres para sair daqui e ele não. - Fleim debochou ao seu lado, enquanto lá embaixo Nasaht espumava e praguejava, fazendo sinais de afronta para o alto. Balançando as duas grossas correntes que de seus braços pendiam, presas a colunas invisíveis.
- INJUSTOOOOOOOO! INJUSTOOOOOOOOOOO!
Linda e Fleim carregaram Zeck o resto do caminho e velozmente penetraram na coluna de fogo, deixando Nasaht, o barco e a antiga Adama para trás. De repente se viram envoltos em escuridão total por tempo o suficiente para refletirem em tudo o que tinham vivido e no que quer que viesse depois daquilo. Muitas perguntas; ainda sem resposta.